Capítulo 65
O mundo ao meu redor mantinha o volume baixo há dias, como se eu estivesse submerso em água gelada.
Meus pés se moviam inconscientemente, mas eu não sentia o toque das solas contra a calçada. Minha mente era um disco riscado: o necrotério, o corpo de Oscar ao lado do meu filho e alternava com minha queda no elevador, o olhar de Zhang e terminava com a lembrança da cicatriz no abdômen de Oscar.
Eu não me recordava da última vez em que a comida no meu prato não pareceu um amontoado de areia cinzenta, ou de quando o sono não foi interrompido por sobressaltos antes mesmo de eu conseguir apagar. Eu apenas existia.
— Dom! Dom, olha para mim!
O toque de duas mãos apertando minhas bochechas forçou meu queixo para cima, quebrando o transe. O rosto de Eugênio surgiu, desfocado. Pisquei, tentando assimilar as estrelas escondidas atrás de nuvens grossas e o contorno de uma porta de madeira à nossa frente.
Aonde eu tinha ido? Como havíamos chegado ali?
Subitamente, a imagem de um parapeito de janela sobrepôs-se àquela porta. Vi Oscar ali, segurando-se indeciso, Luciana parou entre nós, os braços estendidos. Tudo aconteceu por minha causa. O ar fugiu. Minhas costelas pareceram encolher, esmagando os pulmões até que restasse apenas um espaço minúsculo para a respiração curta e ruidosa.
— Dominic? Você não parece bem! — A voz de Estêvão veio da esquerda, mas eu não conseguia virar o pescoço. Minha visão estreitou-se, as bordas escurecendo lentamente. — Eugênio, faz alguma coisa!
— Onde… onde estamos? — As palavras saíram arranhadas, entrecortadas por arfadas que não traziam oxigênio. O ar parecia se recusar a ficar dentro de mim; o pouco que havia saía à força.
— Na frente da casa de Zhang, você não lembra? A mãe do Oscar nos convidou! Acabamos de sair do carro, Dom! — Eugênio inclinou-se, pressionando os dedos contra a minha pele. — Você está ardendo em febre!
Um bolo se formou na minha barriga, uma massa ácida que subia e descia. Eu não lembrava do caminho, do carro ou da conversa. Eu era um passageiro dentro do meu próprio corpo há tanto tempo que a realidade agora parecia agressiva.
— Não lembro — admiti, minha coluna curvando-se como uma mola enferrujada.
— Dom? Eugênio, ele está tendo uma crise! — O grito de Estêvão perfurou meus tímpanos como agulhas.
Um gosto amargo e quente inundou minha boca. Eu não conseguia ficar ereto; a culpa acumulada curvava minhas costas e, insistentemente, mantinha-me naquela mesma posição. Se ele realmente voltou, por que eu estava ali? Para manchar o recomeço dele com a minha presença? Enfiei os dedos trêmulos na gola da camisa, puxando o tecido que parecia uma corrente de ferro. O algodão, encharcado de suor frio, grudava na minha pele.
Tentei pedir para irmos embora, mas minha garganta estava fechada.
— Dominic, o que você tem? Estêvão, chame um médico!
Virei o rosto no exato momento em que o azedume venceu. Um líquido amarelado e bilioso tingiu o chão, queimando minha garganta.
— O que é isso? Ele está passando mal! — Uma voz feminina exclamou quando a porta se abriu.
Vultos e silhuetas surgiram na porta da casa, mas para mim eram apenas borrões dançando em um nevoeiro. Outro espasmo sacudiu meu corpo e o líquido voltou a subir, sufocante. Minha testa latejava; gotas de suor escorregaram para dentro dos meus olhos, ardendo como brasas.
Eu queria gritar que precisava de distância, que minha presença ali era um erro total, mas eu estava quase mudo, preso em uma cúpula de vidro — um vidro feito da minha própria agonia.
— Olha para mim, por favor! — Uma silhueta masculina se curvou sobre mim, o cheiro familiar misturando-se ao odor azedo do meu vômito.
— Eu… — Senti meus pulmões murcharem, como se estivessem se desfazendo em cinzas. Agarrei a manga de alguém com força desesperada, as unhas cravando no tecido. — Sou o culpado… pelo sofrimento dele… as coisas ruins… tudo o que fiz para ele…
Não conseguia parar o redemoinho de imagens de Oscar sofrendo por minha causa, cada uma delas ferindo os restos da minha consciência. Eu era o vilão da vida dele. A constatação final foi como um golpe de misericórdia: eu não deveria estar ali.
Tudo girou, as silhuetas se fundiram em um breu total e o som das vozes foi sugado por um abismo escuro que crescia rapidamente. Ele era incalculável, e eu fui engolido para dentro dele, perdendo o contato com a realidade até que a escuridão me consumisse completamente.
Capítulo 65
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...