Capítulo 68
Apoiei o rosto na mão, observando Zhang e sentindo a vibração do grave reverberar pela mesa. Meus olhos a seguiam; ela deslizava pela pista com uma leveza invejável, cercada por vultos dançantes. A alegria dela não precisava de palavras, estava na curva dos ombros e no ritmo exato dos pés que atraía olhares. As luzes varriam a multidão, transformando o suor e o movimento em um borrão de cores vivas.
Zhang rompeu o grupo de dança e caminhou até a mesa, o rosto brilhando de suor e euforia, seu corpo ainda vibrando no ritmo da música.
— Vem, Oscar! — Ela segurou meus pulsos, tentando me puxar para cima. — Não gaste sua noite servindo de mobília! Me deu um trabalho absurdo te tirar de casa, agora me compense!
— Estou bem aqui, Zhang. Só observando.
— Mas para tudo tem uma primeira vez! — Ela sentou-se na cadeira ao lado, inclinando o corpo para perto de mim. — Você sempre foi esse bicho do mato, quieto e quase recluso. Quebre esse hábito ao menos uma noite.
— Não sou recluso, Zhang. Só perdi o costume de frequentar baladas.
Eu me sentia satisfeito apenas em observar; apesar do estranhamento de estar de volta a um ambiente que não frequentava mais, não estava cansado, nem entediado. Pelo contrário, minha mente estava afiada.
Tinha passado o dia entre livros da faculdade e preparando minhas marmitas, além da conversa produtiva com Pedro sobre o sucesso delas no restaurante dele. Eu sabia exatamente onde queria chegar e, aos poucos, estava conseguindo.
Zhang desviou a atenção quando o celular em cima da mesa vibrou. Ela o pegou com rapidez, os olhos correndo pela tela enquanto, com a outra mão, tateava em busca do copo. Meus olhos baixaram para o copo à minha frente.
O líquido amarelado estava morno, e os últimos cubos de gelo já haviam se rendido, virando apenas água. Eu não tinha tocado na bebida, mas Zhang, sem desviar o olhar da mensagem, virou o líquido de uma vez só. Observei a cena, notando como ela lidava bem com o álcool, uma faceta que eu quase tinha esquecido.
— Veja, Oscar! — Ela girou o celular, praticamente esfregando a tela no meu rosto. — Minha nossa, você está vendo isso? É um escândalo!
Peguei o aparelho das mãos dela. As manchetes nas redes sociais brilhavam com uma agressividade digital.
— Como isso aconteceu? O Eugênio sabe? — Perguntei, a voz saindo plana, sem a surpresa que ela esperava.
— Ninguém sabe, não se sabe como essas fotos vazaram! Ele disse que o pai deles está possesso, gritando que é calúnia.
— É o que se faz quando a verdade dói — devolvi o celular para ela. — Queriam abafar o acesso de fúria do Dominic na festa, mas os sites de fofoca não perdoam. “Filho de magnata, estrangulador de mulheres”. Dário deve estar espumando de raiva por terem manchado a imagem perfeita do filho.
Zhang começou a digitar freneticamente, as sobrancelhas unidas em preocupação por Eugênio. Se ele a tivesse matado, com certeza Luciana pediria demissão.
— Pena que ele não quebrou o pescoço dela — sussurrei para mim mesmo. O som alto da música serviu para abafar o meu pensamento.
Zhang travou os dedos, levantando o olhar para mim, captando apenas o movimento dos meus lábios.
— Não te entendi. Sabe, Oscar… você não parece mais tão emocionado. Quando falávamos do Dominic antes, você tinha um brilho. Parece que aquela chama apagou. Agora, parece que seus olhos ficaram frios.
— Só estou crescendo, Zhang. Não sou mais o garoto que tinha o coração acelerado por causa de um crush. Meu coração é dono de si agora… Mas vem cá, você não deveria ir para casa? Por causa do momento difícil do seu boy?
— Não zombe de mim, Oscar. Não faça essa expressão, diminua esse sorriso. Você sabe melhor que todos que não sou mulher de deixar de viver e curtir por causa de macho. O período do romantismo acabou há décadas. Nós mulheres merecemos, depois de suportar o patriarcalismo.
— Tem razão. Mas ele está passando por um momento difícil, Zhang.
— Sim, está. Mas com essa distância, só posso apoiá-lo com palavras. Além do mais, Eugênio anda com pouco tempo para mensagens. Quando tudo se acalmar, falo com ele. Você vem dançar ou não?
— Não.
Ela me estudou por um longo tempo, mas a troca da música para o seu ritmo favorito a fez vibrar novamente.
Ela guardou o celular na bolsa com um movimento decidido e tentou me puxar uma última vez. Neguei com um sorriso inflexível. Ela me chamou de chato e voltou para a pista, perdendo-se entre desconhecidos.
Fechei os olhos por um instante, apenas sentindo a música, até que o tilintar de um copo de uísque sendo colocado à minha frente interrompeu o meu momento.
— Você não parece estar na mesma festa que o resto do pessoal — disse uma voz doce, sedutora.
Abri os olhos e vi uma mão morena, masculina, relaxada sobre a mesa. O estranho sentou-se no lugar de Zhang sem esperar meu convite. Ele era alto, de cabelos propositalmente bagunçados que lhe davam um charme e um sorriso que transbordava confiança. Sob sua camisa, os músculos eram evidentes.
— Posso? — Ele perguntou, embora já estivesse sentado.
— Você já sentou — constatei, sustentando o olhar dele sem piscar. Minha falta de timidez pareceu pegá-lo de surpresa.
— Sou Artur. E você?
— Oscar.
— Me acompanha, Oscar? — Ele levou o próprio copo aos lábios, bebendo dois goles generosos sem desviar os olhos dos meus. Era um jogo de sedução clássico, mas eu já tinha visto jogadores melhores.
— Já bebi o suficiente por hoje — dispus, empurrando o copo de volta.
Artur soltou uma risada baixa, uma expressão que misturava desejo e desafio. O cara devia ser um sultão; com traços de ascendência africana, parecia ter herdado todos os artifícios da realeza. Principalmente nos olhos dourados, aqueles que te atraem para dentro deles, e nos lábios carnudos, que parecem te devorar em uma única mordida.
Ele inclinou-se para frente, a mão deslizando pela mesa até entrelaçar os dedos nos meus. Ele esperava um recuo, uma hesitação juvenil. Talvez porque eu parecesse jovem demais diante dele. Em vez disso, eu apertei a mão dele com firmeza, dominando o toque. Artur arqueou uma sobrancelha, surpreso com a minha autoridade.
Eu não era um homem virgem de toques; passei anos casado. Apenas tinha perdido o hábito de caçar, mas o instinto ainda estava lá. Olhei para os dedos dele e depois para os seus olhos dourados. Talvez fosse a hora de reclamar o meu corpo de volta, de apagar o rastro de Dominic com uma pele nova.
— Um caso de uma noite? — Artur sugeriu, a voz baixando um tom, o sorriso ficando mais cafajeste.
— Talvez.
Levantei-me primeiro, e ele me seguiu. Acenei para Zhang, que me olhou com o queixo caído enquanto eu guiava Artur para longe da multidão.
Fomos para um corredor mais reservado, iluminado apenas por lâmpadas de emergência fracas e distantes do barulho.
Assim que o escuro nos envolveu, não esperei. Encurralei Artur contra a parede. Ele arregalou os olhos, pego pelo meu avanço súbito, mas logo sorriu, entregando-se.
Entrelaçamos as línguas com uma sede que eu não sentia há séculos. O sabor dele era de uísque e nicotina, um contraste forte com o que eu estava acostumado.
Minhas mãos exploraram o corpo dele, sentindo a firmeza dos seus músculos sob a camisa. Artur tentou assumir o controle, prendendo minha cintura para nos colar, mas eu mantive a dominância, minhas mãos subindo para agarrar os fios de cabelo da sua nuca com força, ditando o ritmo do beijo.
Seus lábios abertos, molhados, eram um gloss de sensualidade; suguei cada canto, chupei sua língua morna e úmida. O prazer dele veio no gemido baixo, no seu hálito quente e curto, um tanto surpreso com a selvageria que eu escondia sob a aparência tranquila.
Mordi o lábio dele com força, sentindo a resistência da carne, desci os beijos pelo seu pescoço, sentindo seus pelos se arrepiarem contra a minha pele quente. E a temperatura ia subindo. Artur estava entregue, a respiração pesada soprando no meu ouvido enquanto ele tentava desesperadamente se pressionar contra mim.
Ele deu pequenos beijos pelo meu queixo, pescoço e clavícula. Ele agarrou minha cintura brutalmente, colando mais nossos corpos. Artur estava totalmente dominado; eu soube disso no momento em que seu corpo se dissolveu contra o meu. O calor dele me envolveu, a respiração arquejante… e então, os dedos dele deslizaram por baixo da minha camiseta.
Ele se afastou, seu prazer incompleto e agachou-se. Suas mãos desceram junto, buscando minha cintura nua e seus dedos invadiram minha pele. Sua boca entreaberta, sua língua rosa à mostra.
No momento em que a ponta dos dedos dele tocou a textura irregular da minha cicatriz no abdômen, o mundo parou.
Eu o afastei com um empurrão brusco. O encanto quebrou como vidro. Artur cambaleou para trás, arregalando os olhos.
— O que foi? É pela cicatriz? Eu não me importo — ele disse, tentando suavizar a voz, aproximando-se com a língua pronta para percorrer minha pele. — É charmosa.
— Já deu — desci o tecido da camiseta, rompendo o contato visual. — O clima acabou.
— O quê? Mas estávamos chegando na melhor parte! — Artur levantou-se, ajustando a camisa com irritação. — É o lugar? Vamos para o meu carro… Não? Que tal um hotel? Eu te levo.
— Não estou mais no clima, Artur. Vá procurar outro.
Ele ainda reclamou algo sobre eu ser confuso, mas eu já estava caminhando para longe. Parei em um canto vazio do corredor, onde a quietude era quase total. Respirei fundo, sentindo o ar frio entrar nos pulmões.
Eu poderia ter ido até o fim. Tinha o controle, tinha o desejo físico, mas meu corpo não reagiu como eu esperava. Não era timidez, era uma trava. A lembrança de como Dominic tocava aquela cicatriz, com familiaridade, tinha esfriado o sangue nas minhas veias.
Mas eu não me senti derrotado. Senti que estava apenas em transição. Eu ia superar isso. Cada célula do meu corpo sabia que, em breve, a lembrança dele seria apenas um rastro de fumaça, e eu estaria pronto para quem eu quisesse, sob as minhas próprias regras.
Voltei para a mesa com as costas eretas e a mente mais tranquila; não valia a pena pensar naquilo agora. Aquele vínculo tinha se reduzido a um mero nada, não valia a pena. Encontrei o olhar de Zhang. Ela estava sentada, me esperando com uma expressão que misturava choque e curiosidade.
— Que foi aquilo, Oscar? Você saindo com um cara gostoso daqueles!
— Não rolou nada, Zhang. O clima morreu antes de começar. Ele não era o que eu queria.
— Sério? — Ela apoiou o rosto nas mãos. — Estou tentando assimilar. É a primeira vez que te vejo assim… no comando, sem estar esperando o crush aparecer.
— O comando sempre foi meu, Zhang. Eu só tinha esquecido disso.
— Eu sempre quis te ver assim! Eu poderia arrancar meus cabelos de emoção por você. Eu temia que, com seu jeito tímido, acabasse se envolvendo em um relacionamento desigual. Que com o tempo…
O celular dela vibrou novamente, antes que ela pudesse continuar derramando sua empolgação sobre mim. Enquanto a observava, o meu próprio aparelho anunciou uma mensagem de Pedro. Um pedido para ir encontrá-lo amanhã. Digitei um “estarei lá” sem pensar duas vezes. O trabalho, a faculdade, minha família… era isso que importava.
— Vamos embora — chamei, levantando-me com uma energia que a música alta não conseguia mais abafar. — Preciso descansar. Amanhã o dia é longo e eu tenho muito o que construir para nós.
Caminhei para a saída com uma Zhang animada ao meu lado, sem olhar para trás. Eu sabia o que queria, e ia lutar para conseguir.
Capítulo 68
Fonts
Text size
Background
A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...