Capítulo 66
Parei no corredor, a meio caminho da sala, quando o som de lençóis sendo remexidos se sobrepôs à calmaria. Encostei o ombro na parede, fundindo-me às sombras para observar o quarto de Zhang sem ser notado.
Dominic estava despertando. A luz da manhã entrava no ambiente em fatias douradas, revelando a palidez do rosto dele enquanto ele baixava o olhar para o próprio corpo. Ele estudava as calças de moletom cinza que terminavam um pouco acima dos seus tornozelos, provavelmente tentando processar como fora parar ali. Imaginei Eugênio, no meio da madrugada, manuseando aquele corpo exausto e mole para trocar suas roupas suadas e sujas de vômito.
A camiseta azul, que costumava sobrar no meu tronco, agora esticava-se nos ombros dele. Ver Dominic vestindo minhas roupas causou um incômodo em mim, uma sensação que me apertava a cada respiração audível que ele dava. Minha mãe finalmente havia cedido ao cansaço e ido dormir no quarto dela; Zhang já havia partido para a universidade. O que restava era a quietude, ainda impregnada pelas palavras que ele vomitara junto com a bile na noite anterior: “Sou o culpado… pelo sofrimento dele…as coisas ruins… tudo o que fiz para ele…”
Aquelas frases não paravam de se repetir na minha mente. Ele falava de mim? De qual sofrimento? Nesta linha do tempo, nossas vidas mal haviam se cruzado. Observei-o sentar-se lentamente, como se seus ossos doessem.
Ele levou a mão à testa, onde o suor ainda brilhava, e percorreu o quarto com olhos confusos. Vi o momento exato em que ele reconheceu o cheiro de sabão de coco das minhas roupas e percebeu que não estava em casa: seus ombros subiram bruscamente e o ar pareceu travar em sua garganta.
Eu deveria expulsá-lo ou acolhê-lo, mas meus pés pareciam colados ao chão. A vulnerabilidade dele não era a de um estranho; era a postura exata do meu ex-marido. Ninguém carrega uma culpa tão profunda por alguém que acabou de conhecer. Dominic baixou o rosto, escondendo-o entre as mãos, e soltou um suspiro trêmulo que ressoou pelo quarto. Ele carregava segredos que pareciam demais para aquele corpo debilitado.
Eu continuei ali, imóvel, uma sombra no corredor, esperando que ele dissesse mais alguma coisa, qualquer pista que confirmasse o que eu mais temia: que eu não era o único que tinha voltado do inferno.
Um momento depois, saí das sombras.
Dominic deu um sobressalto, as mãos agarrando o lençol com tanta força que as unhas enroscaram no tecido e as palmas coraram. Ele me olhou de baixo para cima, o rosto perdendo a pouca cor que restava. Encostei-me no batente, cruzando os braços, e estudei o vinco de dúvida em sua testa.
— Você demorou a acordar — minha voz saiu solene, preenchendo cada canto do quarto.
— Onde estão o Eugênio e Estêvão? — A voz dele era apenas um fiapo de som, rouca e gasta.
— Saíram cedo. Eugênio e Estêvão foram buscar roupas para você. O médico achou melhor não movê-lo daqui por enquanto. — Dei um passo para dentro, sentindo o ar mudar. — Minha mãe passou a noite trocando compressas na sua testa. Ela só descansou agora.
Dominic baixou os olhos, incapaz de sustentar o meu olhar. Ele pareceu encolher dentro da minha camiseta azul.
— Eu… eu sinto muito — ele murmurou para os próprios joelhos. — Não era para eu ter vindo.
Não respondi de imediato. Caminhei para dentro do quarto e girei a chave na porta. O ruído metálico ressoou alto. O vento balançou as cortinas de Zhang, revelando o dia claro lá fora, enquanto eu pegava a cadeira da escrivaninha e a posicionava de frente para ele. Enfiei as mãos nos bolsos largos da calça. Sentei-me, mantendo a coluna ereta.
— O médico disse que foi estresse. Mas seus irmãos não entendem o motivo. A família vai bem, faculdade em ordem, riquíssimo e popular. Então, o quê? O que faz um homem desmoronar desse jeito?
Dominic parecia congelado, como alguém pego no flagra.
— Você fala muito quando está delirando, Dominic. Coisas que não pertencem a quem mal me conhece. Os outros não entenderam nada, o médico justificou dizendo que era tudo um delírio. — Notei o calafrio que percorreu sua espinha quando inclinei o rosto. — “Sou o culpado pelo sofrimento dele”. Você não estava falando desta vida, não é?
O ar parecia ser jogado para fora do quarto. Dominic travou, os olhos marejados subindo lentamente até encontrarem os meus. Ele parecia ser encorajado pelo meu silêncio, como se os protagonistas daquela dor não fossem o “nós” de agora, mas alguém completamente diferente, perdido em algum lugar do tempo.
— Você também lembra — ele sussurrou. — Oscar…
Meus dedos, escondidos nos bolsos, fecharam-se com tanta força que as unhas cravaram na palma. Ele não veria meus nós dos dedos ficando roxos, nem notaria a turbulência que subia pelo meu coração, porque meu rosto mantinha uma neutralidade impecável.
— Lembro de cada minuto — eu disse, e minha cicatriz no abdômen pareceu esquentar, um calor fantasmagórico sob a camisa. — Lembro do apartamento gelado, das brigas que ecoavam nas paredes e do modo como seus olhos me barravam, como se eu fosse um fardo que você não sabia onde depositar. Dos dias solitários, da sua distância, do seu ciúme absurdo. Você não lembrou de mim nem no meu aniversário.
Dominic desmoronou. Ele afundou o rosto nas palmas das mãos, os ombros sacudindo em soluços mudos que pareciam rasgar o que restava de sua postura.
— Eu estraguei tudo — a voz dele saiu abafada entre os dedos. — Quando acordei aqui, a única coisa que eu buscava era saber se você estava bem nessa segunda chance. Mas eu falhei. Não consegui manter a distância. Sou um egoísta, Oscar.
A franqueza dele me atingiu. Ele estava admitindo que lembrava de tudo, de todo mal que me causou. Franzi a testa, tentando processar a confissão, mas ele me interrompeu apressadamente, as palavras atropelando-se:
— Eu morri dois anos depois de você, Oscar. Eu não estava vivendo, só existindo. Sem você, tudo ficou insuportável. O dinheiro era inútil, as companhias supérfluas. Até o dia em que Zhang me procurou.
O peito dele subiu e desceu numa lufada de ar profunda, como se estivesse saltando de um penhasco. Quando se virou para me encarar, havia algo em seus olhos, uma intensidade que me deixou momentaneamente atordoado e um esboço de um sorriso triste apareceu nos seus lábios.
— O vídeo que você deixou… eu assisti. Zhang me entregou. Pouco depois, quando ela saía, o fosso do elevador estava aberto para manutenção. Ela não viu. Eu a puxei antes que o vácuo a levasse. — Os lábios dele tremeram e o sorriso triste desapareceu.
Ali, eu entendi os olhares que ele lançou para Zhang na primeira vez que o vi e naquela noite, no carro. O carinho que ele sentia por ela, não estava nascendo, já estava fincado, já tinha raízes e crescido.
O afeto que tanto desejei que houvesse entre eles, aconteceu de um jeito que nunca imaginei, tarde demais, de uma maneira que eu não poderia desfrutar e sentir prazer.
O olhar de Dominic tornou-se um fio grosso, pegajoso, que parecia perfurar minha pele em busca do meu coração.
— O nosso filho, Oscar… eu o vi. Ainda sinto o peso dele nos meus braços, tão pequeno, tão frágil.
O tom de Dominic mudou, tingido por uma nostalgia que me fez estremecer.
— Ele foi a segunda melhor coisa que me aconteceu. A primeira foi conhecer você.
Senti uma onda súbita de calor arder nos meus olhos. Pisquei rapidamente, lutando contra a umidade, e respirei aliviado ao notar que ele ainda estava perdido em suas próprias memórias.
O terror de um fim trágico e desesperado ainda vibrava em mim, e ouvir aquilo era como revirar uma ferida aberta. Dominic continuou, a voz agora estranhamente calma, quase etérea.
— Ver os dois naquele necrotério… quase me levou à loucura. Nosso bebê não tinha culpa de nada… era tão lindo. Se eu tivesse cuidado de vocês, se tivesse mantido a Helena longe…
— Já chega. — Minha interrupção foi gentil, mas firme. Eu não suportaria mais um detalhe. — Chega. Eu conheço o resto da história. Não preciso vivê-la outra vez.
Dominic ergueu o rosto, confuso com a interrupção abrupta. Lentamente, relaxei meus punhos cerrados, sentindo o sangue voltar a circular nos dedos.
— Você não pode carregar toda essa culpa sozinho. Eu também errei. Eu também fiz minhas escolhas naquela vida. — Suspirei, desviando o olhar, tentando manter meu tom sereno, o mais familiar possível, mas não tive coragem de sustentar o olhar dele.
Ele pareceu congelar. O silêncio se arrastou até que ele encontrasse a própria voz, trêmula e quebradiça:
— Mas eu fui um monstro. Eu não te amei como deveria! Só fiz alguma coisa quando já era tarde demais, só procurei vocês quando não tinha mais onde encontrar…
Antes que ele terminasse, Dominic saltou da cama e atirou-se de joelhos aos meus pés. Meu corpo cambaleou quando ele circulou minha cintura com um abraço tão intenso que chegava a doer. Fechei os olhos por instinto, sentindo meu cérebro travar diante do contato repentino.
— Me perdoa, Oscar… Oscar, me perdoa! — Ele enterrou o rosto no meu abdômen, a voz sufocada pelo tecido da minha camisa enquanto chamava meu nome repetidamente. — Eu te tratei tão mal… eu nunca tive a chance de dizer o quanto sentia muito. De suplicar por perdão. De me redimir cuidando de vocês… te dando o divórcio que você me pediu.
Senti um calor úmido penetrar as fibras finas da roupa de verão, atingindo minha pele. Dominic estava chorando novamente. O homem sempre gélido, a figura destemida que eu amara contra todas as probabilidades, agora soluçava incontrolavelmente sobre mim. Paralisei, as mãos pairando no ar sem saber se deviam afastá-lo ou acolhê-lo. Observei o topo de sua cabeça por um longo tempo, até que, desajeitadamente, meus dedos tocaram seus cabelos.
A raiva que eu alimentava desde o meu retorno começou a evaporar, substituída por uma piedade profunda. Ver Dominic ali, desfeito pela própria consciência, me fez entender que a vingança não traria dignidade ao meu novo começo.
Empurrei-o gentilmente pelos ombros. Ele me olhou com os olhos vermelhos e a expressão vazia, como se esperasse um castigo.
— Dominic — chamei baixinho —, eu te perdoo.
Ele estancou. O ar pareceu ficar mais leve, como se tudo o que eu sentia naquele momento tivesse se dissipado. Dominic parecia alheio a isso, de tão surpreso que ficou ao ouvir minhas palavras.
— Você… o quê?
— Eu te perdoo. Não apenas por você, mas por mim. Eu mudei de rumo, mudei a faculdade e mudei o destino desta cicatriz. Não quero você assombrando o meu futuro. Siga seu caminho. Vá embora e viva o seu recomeço também. — Dei um sorriso sereno, sentindo o gosto das palavras nos lábios. — Eu ainda vou levar um tempo para me consertar aqui dentro. — Apontei para o peito, sentindo a impotência da mágoa que ainda restava.
Novas lágrimas inundaram os olhos dele. Ele abriu a boca para falar, mas eu balancei a cabeça.
— Eu preciso ir. Alguém pode entrar e entender tudo errado. Cuide-se, Dominic. Quanto ao futuro… o tempo dirá.
Eu não tinha certeza, mas a claridade no quarto parecia mais brilhante. Antes que eu pudesse me afastar, as mãos de Dominic deslizaram para baixo da minha camisa. O toque foi sutil, mas firme, os dedos percorrendo a pele da minha barriga até pararem sobre a cicatriz.
— Eu a vi há alguns dias, acidentalmente. Eugênio esqueceu o celular, eu estava por perto e vim buscar. Pensávamos que a casa estava vazia, e lá estava você, no quarto, se despindo — ele sussurrou, a voz falhando.
Ele estava muito irritado consigo mesmo. Dom parecia tão mortificado quando disse ter feito aquilo, que eu não consegui apontar o dedo na sua cara e acusá-lo. Enquanto eu pensava nisso, nele parado na fresta da porta me observando escondido, ele continuou:
— Essa marca é como o ponto final da história do nosso filho. — Ele encostou a testa nas minhas pernas, as mãos massageando o rastro da cicatriz com uma delicadeza sofrida. — No passado, passei horas imaginando como seria segurá-lo. Que nome você daria. Com qual de nós ele se pareceria. Só imaginando…
As lágrimas voltaram a traçar caminhos no rosto pálido dele.
— Cale-se — pedi, sentindo a dor latejar. — Não me torture. Eu carreguei aquele menino por meses e o que restou foi o frio, o nada. A perda dele me marcou muito além da pele, Dominic.
Ele permaneceu ali, calado, as mãos ainda unidas à minha cicatriz, como se tentasse curar, através do toque, um passado que nenhum dos dois poderia esquecer.
— Maldita Helena! — O nome dela saiu como um veneno entre os dentes dele. Dominic se inclinou, as mãos buscando minha pele em um abraço desesperado, o rosto úmido em suor e lágrimas. — Ela me manipulou e eu fui idiota. Perder vocês dois… é o meu pior castigo.
Cada palavra dele vibrava com um ódio que parecia consumir o pouco de ânimo que lhe restava.
— Você também é culpado — retruquei, a voz firme apesar do tremor nos meus lábios. — O seu ciúme agiu como um ácido. Destruiu tudo o que tínhamos.
— Eu sei, Oscar. Eu sei. — Ele desviou o rosto por um segundo, mas logo seus olhos voltaram a me caçar, cheios de remorso. — Você não imagina o quanto essa consciência me corrói.
Ficamos ali, suspensos naquele olhar. Eu lutava para manter a máscara de indiferença, sentindo meu peito ser espremido por uma mão invisível, enquanto Dominic parecia se desfazer diante de mim.
Ele precisava daquela sangria emocional, mas eu sentia que, se continuasse mergulhado naqueles olhos por mais um segundo, seria puxado de volta para o abismo com ele. Desviei o olhar para a porta trancada, forçando meus pensamentos a mudarem de trilho.
— Dom… me diga onde posso encontrar Luciana. — Voltei a encará-lo, tentando imprimir um tom prático à conversa. — Eu planejava ir atrás dela, mas agora que sei que você lembra do passado, poupe-me o tempo. Onde ela está?
Dominic piscou, um “oh” suave escapando de seus lábios enquanto sua postura relaxava minimamente.
— Ela… — Ele hesitou, um brilho temeroso cruzando seu rosto. — Ela está na minha casa.
O ar parou na minha garganta. Senti meus olhos se arregalarem.
— Onde?
— Antes de meu pai viajar, pedi para que fosse atrás dela. Ele não retrucou quando eu disse que desejava uma companhia feminina. Eu a contratei. Agora ela trabalha para mim, no meu apartamento na Europa.
— Você só pode estar brincando! — A exclamação saiu antes que eu pudesse contê-la. Procurei qualquer sinal de ironia no rosto dele, mas Dominic mantinha uma seriedade completa.
— Não estou, Oscar. Ela é uma boa pessoa e tentou salvar você e nosso filho… eu nunca esquecerei isso. Eu a queria por perto. Meu pai convenceu-a a aceitar o cargo de acompanhante e a mandou para o exterior há poucos dias.
— Você a levou para longe de mim — sibilei, a indignação subindo como uma febre.
Ele balançou a cabeça, sustentando o meu olhar.
— Não. Você pode vê-la. Ela voltará nas férias para cuidar da casa dela e visitar algum conhecido; foram as condições dela. Você terá suas chances de se aproximar.
— Eu não tenho o seu dinheiro para fazer jogadas rápidas, Dominic. Mas não pense que vou desistir de tê-la por perto um dia.
— Eu entendo — ele disse, e uma tensão nova, fria e metálica, brotou entre nós. — Mas também não vou deixá-la ir. Eu só a quero por perto, Oscar. Não me olhe assim, não, não faça essa expressão… não quero que guarde mais esse rancor.
— Não estou com rancor — menti, retirando as mãos dele da minha cintura com movimentos lentos e deliberados. Afastei-me, criando um espaço seguro entre nossos corpos. — É melhor eu ir antes que alguém apareça e tire conclusões erradas. Mas… vou dizer em voz alta, pela primeira e última vez, o nome daquela criaturinha linda: era Kylian. Eu nem tive a chance de chamá-lo assim. Não sei qual nome você havia dado quando o registrou, mas obrigado. Obrigado por registrá-lo e demonstrar amor por ele.
Dominic recuou, a cabeça baixa, o vigor da discussão esvaindo-se de seus ombros. Caminhei até a porta e girei a chave, sentindo tudo o que vivemos sendo encerrado. Antes que eu cruzasse a porta, ele me olhou uma última vez. A agonia e o pânico haviam dado lugar a uma paz melancólica — o olhar de quem, finalmente, aceitava que o passado era um livro lido, que devia ser fechado; não revisitado.
— Obrigado, Oscar — ele disse. O sorriso era mínimo, uma linha tênue e honesta no rosto pálido. — Por tudo.
— Tenha uma boa viagem, Dominic — respondi, sem me virar totalmente. — Não estarei aqui quando você partir. Vou passar o dia fora. Mas… diga aos seus irmãos que deixei algumas marmitas para eles na cozinha. Com tudo o que aconteceu ontem, ninguém teve ânimo para jantar, e ver a carinha sofrida deles me deu pena. Cuide deles, eles te amam. Vê se não deixa nada roubar a alegria de Estêvão; eu nunca o tinha visto daquele jeito na cafeteria. Mude o futuro de Eugênio. Seus irmãos são irritantes, como você, mas desejo que continuem assim: felizes.
Fechei a porta e, no corredor vazio, respirei o ar leve da minha amada casa. Dominic seguiria para o aeroporto ao meio-dia, cruzando fronteiras com seus irmãos, finalmente deixando para trás tudo o que fomos. Eu estaria em algum lugar sob o sol, satisfeito de ter posto um ponto final em toda aquela situação.
…Quatro horas depois, os três irmãos partiram.
Capítulo 66
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...