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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 67

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A chave girou na fechadura com um clique que ressoou pela sala vazia.

— Ué, por que está tudo escuro? — A voz de Estêvão ecoou pelo hall, mas para mim era apenas um ruído distante.

Entramos no apartamento. Meu nariz se enrugou, intrigado; o ar cheirava a perfume de grife misturado a um cheiro familiar. Meus braços pendiam ao lado do corpo; eram pesados como a mochila, mas nada comparado ao meu humor. Enquanto Estêvão tateava a parede em busca do interruptor, desabei no sofá.

Fechei os olhos e, no escuro da retina, o rosto de Oscar apareceu pintado em cores vivas; eu era, sem dúvida, o mais apaixonado entre nós dois. Talvez essa separação acalmasse o que sinto. Sim, de agora em diante, pensarei o mínimo possível nele. O tempo, esse benfeitor e curador das feridas, há de apaziguar o que resta aqui dentro.

Ao meu lado, Eugênio era um vulto absorto em pensamentos, certamente contando os meses no calendário mental até as férias com Zhang.

A luz explodiu, ferindo meus olhos.

— BEM-VINDOS DE VOLTA!

O grito foi como uma bofetada. Estêvão ia sentar, mas travou no meio do caminho, as costas curvadas em um ângulo estranho, os olhos arregalados para a fita colorida e a pequena multidão que brotara do nada. Eugênio estudou a cena, os olhos fixos e esbugalhados como os de um alien. Recuperado, Estêvão mergulhou nos abraços, mas meu corpo permaneceu rígido, um pedaço de madeira sob as roupas grossas.

— Meus filhos!

Meu pai surgiu do centro do grupo. Seus braços me envolveram, mas meu corpo permaneceu tenso. Retribuí o gesto de forma automática, sentindo o perfume caro enquanto minha mente tentava processar o cenário. Ricardo, nosso mordomo, aproximou-se para pegar nossas mochilas, mas eu segurei seu pulso com firmeza.

— Esquece isso, Ricardo. Aproveite — murmurei, balançando a cabeça para afastar o cansaço.

Ricardo as deixou e soltei seu pulso. Meu pai se afastou quando viu Estêvão deixar um grupo de convidados e se aproximar, vindo a passos largos, de braços abertos.

— O senhor ainda vai para a Ásia? — Estêvão riu, passando o braço pelo ombro do nosso pai.

— Não. Decidi passar uma temporada com vocês — ele respondeu, sorrindo.

Um frio súbito passou por mim. Aquela frase… ele só deveria dizê-la daqui a dois anos. No futuro, essa estadia foi o estopim de brigas sérias que culminariam no nosso distanciamento completo antes do acidente de carro. Olhei para ele e vi, por um segundo, a imagem do metal retorcido e do sangue no asfalto. É provável que o nosso acidente o tenha feito antecipar essa decisão.

— Está pensando no quê? — Eugênio estendeu um copo de cristal. O líquido dourado balançou lá dentro.

Recuei como se ele me oferecesse algo tóxico. O cheiro do álcool atingiu meu nariz e, instantaneamente, a memória me jogou de volta: eu, cambaleando para casa; Oscar no parapeito da janela, o asco nos olhos dele enquanto eu o atormentava com palavras bêbadas.

— Eu não bebo mais — disse, a frase saindo quase agressiva.

— Sério? — Eugênio arqueou uma sobrancelha. — Desde quando?

— Desde agora.

Ele ia responder, mas nosso pai falou antes e mais alto.

— Agora que estão de volta, me expliquem o motivo daquela viagem supérflua. Viajaram para quê? Para sofrerem um acidente? Ricardo e eu tomamos um susto enorme.

— Não foi supérflua, pai. Olhem bem para o anel na mão direita de Eugênio — Estêvão falou, apontando.

Nosso pai entendeu a situação e chamou Ricardo no mesmo instante para avaliar o anel de ouro.

— Isso é… — Ricardo pegou a mão de Eugênio, examinando a peça.

— Isso mesmo. Estou namorando! Com uma garota incrível!

Ricardo trocou um olhar com nosso pai, que perguntou mais sobre a tal moça.

— A Zhang, a garota que jantou conosco antes do senhor viajar, pai. Ricardo, quando a conhecer, vai gostar dela.

— Você fala como um apaixonado, filho. Ela é incrível mesmo? Ou é sua paixão falando? Educada ela era, notei isso durante o jantar, mas estava tão cansado naquela noite que mal notei suas qualidades.

— Pai, não julgue mal meu comportamento. Mesmo apaixonado, ainda estou lúcido; meu senso de julgamento está intacto. — Eugênio colocou a taça na mesa de centro quando Ricardo soltou sua mão.

— Deixe-o, Dário. De todos eles, Eugênio sempre foi o mais racional. Mesmo apaixonado, como ele diz, sua mente parece clara. Ainda que estivesse sendo irracional, seria natural para a sua idade. Quanto à minha opinião sobre a garota, eu mesmo vou decidir quando nos encontrarmos. Mas é curioso: quem insistiu em viajar não foi Dominic? Pelo que me lembro.

Troquei um olhar cúmplice com meus irmãos. Eles sabiam que eu só queria ver Oscar, e, mais ainda, sabiam dos meus sentimentos fracassados.

— Foi! — Estêvão começou. — Mas porque ele sabia das intenções de Eugênio.

— Isso mesmo, Estêvão — Eugênio disse. — Lembre-se, Ricardo, como fui contra a viagem no início. Tudo porque meu irmão já tinha esses planos. Ele é distante, mas sabia dos meus sentimentos.

— E também não suportávamos mais ter Eugênio suspirando pelos cantos. Ele não dizia, mas, como irmãos, sabíamos do seu estado de espírito — Estêvão se calou quando notou o olhar sério de Eugênio.

— Você fala demais, Estêvão. Veja, Eugênio não gostou de ser exposto assim — disse, me introduzindo casualmente no jogo de mentiras deles.

Estêvão sorriu, Eugênio balançou a cabeça e suas reações convenceram nossos dois juízes.

Quando outro assunto foi introduzido — as faltas na faculdade, matérias atrasadas e reclamações da gestão do campus —, caminhei até a mesa lateral e virei uma garrafa de água, sentindo o líquido gelado hidratar minha garganta seca.

— Você não gosta dessas festas? — Uma voz suave, mas firme, surgiu ao meu lado.

Luciana. Ela mantinha um meio sorriso, as mãos cruzadas à frente do corpo. Olhei para aquela senhora e senti um calor nostálgico.

— Não mais, Luciana. Estão cuidando bem de você aqui? Te tratando bem?

— Sim. Mas ainda não entendo… por que eu? — Ela gesticulou para si mesma, para suas roupas simples. — Uma senhora sem estudos, como acompanhante de um jovem rico? É estranho.

Segurei a mão dela, sentindo a pele áspera de quem já viveu de verdade e trabalhou arduamente.

— Porque faculdade nenhuma ensina o que você tem na alma, Luciana. Eu preciso de gente honesta por perto.

Ela me encarou sem entender.

— Não diga coisas estranhas, garoto.

— Desculpe. Meu pai deve ter contado sobre o momento difícil pelo qual estou passando. Ter alguém ao meu lado vai ser muito bom. Preciso de companhia, de alguém adulto, sério e maduro. Como você. Vi ótimas referências no currículo que você estava distribuindo. Gostei de suas qualidades listadas lá.

— Essa explicação foi mais plausível. — Ela pareceu se satisfazer. — Veja, seu irmão está vindo.

Olhei; Eugênio se aproximou, observando Luciana curiosamente.

— Meu pai contou sobre Luciana. Que ela vai trabalhar aqui em casa, como nossa dama de companhia. Fui pego de surpresa.

— Esqueci de avisar, desculpe — eu disse, voltando minha atenção para a mulher ao meu lado. — Luciana, este é o Eugênio, meu irmão mais novo. Aquele cara lá, rindo e de cabelos claros, é o caçula, Estêvão. — Apontei para ele com um toque de humor.

— Ricardo já fez as apresentações. Ele me mostrou fotos de vocês e falou um pouco sobre suas personalidades. Mas vê-los pessoalmente é muito bom. Eugênio é um jovem muito bonito. Seus óculos parecem fazer parte de você — Eugênio ficou envergonhado com o elogio. — O deixam mais elegante. Dominic se parece muito com você. Mas Estêvão…

— O que tem eu? — Estêvão se aproximou ao ouvir seu nome.

— Você parece estrangeiro. Seus cabelos claros e seus traços são diferentes dos de seus irmãos mais velhos. Não que você não seja bonito, como um jovem modelo.

— Estrangeiro? É a primeira vez que ouço isso. Fico agradecido pelo elogio.

— Não é, não… Luciana, esse pirralho é o mais folgado de todos — disse, bagunçando os cabelos dele.

— É um prazer conhecer os três pessoalmente. Sinto que vamos nos dar muito bem; vocês não parecem ser os moleques mimados que eu temia encontrar.

— …Quanta honestidade — Eugênio comentou baixo, admirado.

Ela sorriu e Eugênio retribuiu. Estêvão demonstrou o mesmo sentimento e, logo depois, me puxou para o centro de um grupo no meio da sala.

Rostos superficiais passavam por mim, sorrisos ensaiados de amizades mantidas por status. Eu distribuía apertos de mão cordiais, mas, por dentro, o tédio era uma náusea crescente. Até que o som de saltos altos estalou contra o piso de porcelanato atrás de mim.

— Bem-vindo de volta, Dom!

A voz era fina, melíflua. Era Helena. Seus lábios vermelhos brilhavam sob a luz do lustre. Ana parou ao lado dela, um reflexo idêntico de falsidade.

Minha visão nublou. O som da música tornou-se um zumbido insuportável de abelhas. As palavras do dublê ecoaram no meu ouvido, nítidas como se ele estivesse ali: “Helena me contratou… o seu marido nunca esteve naquela cama”.

O ódio pulsou na ponta dos meus dedos antes mesmo que eu pudesse raciocinar. Dei um passo largo. Os sorrisos delas congelaram.

Minhas mãos saltaram para o pescoço de Helena.

Meus dedos cravaram na carne macia, as unhas afundando impiedosas. Ouvi o baque surdo dela sendo empurrada contra a parede. Os olhos de Helena saltaram, a dúvida dando lugar ao pânico enquanto ela tentava, inutilmente, afastar meus braços com suas mãos pequenas.

— SOLTE-A, DOMINIC! — O grito do meu pai foi um estrondo, mas eu estava surdo.

A pele sob meus dedos começou a arroxear. Eu queria sentir o estalo do osso, queria esmagar a mentira que destruíra minha vida. Braços tentaram me puxar — Estêvão, Eugênio, Ricardo —, mas eu era pura fúria, colado à garganta dela. Ana gritava e batia nos meus ombros, sua voz nojenta implorando para que eu parasse.

— Dominic… — A voz de Luciana se sobressaiu, tomada pelo espanto.

Olhei para o lado. Os olhos de Luciana eram os mesmos de quando ela tentara proteger Oscar de mim no futuro. Aquele olhar me paralisou. Meus dedos perderam a força. Meus braços caíram.

Helena desabou no chão, tossindo de forma ruidosa, buscando o ar em espasmos. Ela se arrastou para trás, colando-se na parede, os olhos fixos em mim como se eu fosse um demônio que acabara de sair do inferno.

Ana correu para amparar a irmã. Ninguém dizia nada. Todos os convidados me encaravam com um horror compartilhado. Para eles, não havia traição, não havia dublê, não havia passado. Havia apenas um jovem louco que atacara uma convidada sem motivo.

Passei as mãos trêmulas pelo cabelo, sentindo o suor frio escorrer pelas costas.

— Desculpem — falei, a voz saindo oca, sem vida. Olhei para Luciana, suplicando baixinho: — Desculpe.

Ninguém se moveu. O medo tomou conta do ambiente. Eu era o vilão da minha própria festa de boas-vindas.

— Vá para o quarto, Dominic! Agora! — Meu pai trovejou, a face vermelha de vergonha e fúria.

Olhei para Helena no chão. Eu queria terminar o serviço, mas o preço seria alto demais. Respirei fundo, forçando meus pulmões a estabilizarem.

— Eu só quero me desculpar… Helena, sinto muito. — Minha voz saiu harmonizada, um disfarce perfeito de arrependimento que escondia o desejo de morte.

Ela não se mexeu. Virei as costas e subi os degraus de madeira. O som dos meus passos era o único ruído na sala. Antes de sumir completamente, ouvi meu pai começar o discurso de desculpas: “Ele está instável… crise recente… momento difícil…”.

Fechei a porta do quarto e encostei a cabeça na madeira fria. Helena era a vítima. Eu era o monstro.

Passei horas no meu quarto, pensando, e no dia seguinte andei pelas ruas a manhã inteira. Meus tênis voltaram molhados e enlameados. Quando meu pai chegou, mais cedo do que o esperado, seu semblante estava mudado. Ele parecia tenso ao me entregar o celular. O resto do dia foi tudo, menos tranquilo, depois que li a manchete.

 

 

 

 

Capítulo 67
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

Chapters

  • Capítulo 70 Livro Três
  • Capítulo 69
  • Capítulo 68
  • Capítulo 67
  • Capítulo 66
  • Capítulo 65
  • Capítulo 64
  • Capítulo 63
  • Capítulo 62
  • Capítulo 61
  • Capítulo 60
  • Capítulo 59
  • Capítulo 58
  • Capítulo 57
  • Capítulo 56
  • Capítulo 55
  • Capítulo 54
  • Capítulo 53
  • Capítulo 52
  • Capítulo 51
  • Capítulo 50
  • Capítulo 49: Livro Dois
  • Capítulo 48 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 47 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 46
  • Capítulo 45
  • Capítulo 44
  • Capítulo 43
  • Capítulo 42
  • Capítulo 41
  • Capítulo 40
  • Capítulo 39
  • Capítulo 38
  • Capítulo 37
  • Capítulo 36
  • Capítulo 35
  • Capítulo 34
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  • Capítulo 32
  • Capítulo 31
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  • Capítulo 04
  • Capítulo 03
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