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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 69

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Assim que as portas duplas de aço inoxidável se abriram, o hálito quente de gordura atingiu meu rosto, em total contraste com a noite amena lá fora. Aquele espaço era o motor de um hotel cinco estrelas em plena rotação. Garçons manobravam bandejas como pilotos e subchefes gritavam comandos que se perdiam no chiado das chapas.

Pedro parou no centro de tudo e abriu os braços, um sorriso preenchendo seu rosto. Ele não me trouxe a um restaurante qualquer; estávamos no coração do Hotel Stone, o refúgio da elite empresarial e das celebridades que eu costumava ver apenas em colunas digitais, revistas e jornais.

— Está vendo isso, Oscar? — Ele apontou para a cozinha de última geração, o brilho das luzes refletindo nas bancadas. — O Masterchefe adoeceu. O dono estava em pânico, mas eu dei a ele uma das suas marmitas. Ele não apenas gostou; ele exigiu você. Entre todas as opções de renome, ele escolheu o seu tempero. Foi por isso que te enviei uma mensagem tão tarde ontem!

Ele me apertou em um abraço eufórico, mas minha mente já estava se adaptando à novidade e pulando para o que ia acontecer a seguir. Não havia tempo para humildade excessiva. A adrenalina substituiu a surpresa.

— Isso é sério, Pedro? — Minha voz saiu empolgada, sem o tremor que ele esperava. Mas isso não o desanimou.

— Absolutamente. — Ele se afastou e virou para todos os funcionários na cozinha, a voz calando o tilintar de facas e talheres. — Atenção! Este jovem é o Masterchef de vocês por hoje. Erros significam demissões. O jantar de gala deve ser uma obra-prima. Vá, Oscar. Ocupe o seu lugar.

Fui me trocar, escondendo a alegria que repuxava meus lábios. Era a minha primeira vez em uma cozinha de restaurante, como o manda-chuva. A dólmã tinha um toque engomado, o tecido estalando contra minha pele enquanto eu abotoava a gola com praticidade. Quando voltei à cozinha, eu não era mais o universitário; eu era o chefe.

Não precisei gritar; minha postura diante da bancada central impôs o silêncio necessário. E com a voz calma, mas um pouco elevada, para todos ouvirem, com a autoridade de quem conhecia cada processo daquele trabalho:

— Preparativos em cinco minutos. Quero as reduções no ponto, os ingredientes cortados e limpos, prontos para pôr no fogo — comandei.

O prazer de cozinhar sob pressão era grande. Eu deslizava pelas bancadas, o nariz captando a redução perfeita de um molho, os olhos julgando o ponto exato de uma carne. Era arte. O molho demi-glace descia sobre os bifes como seda escura, criando um contraste geométrico nos pratos de porcelana branca. A sobremesa era uma ilusão: arquitetura de açúcar e frutas que marcava o paladar antes mesmo de ser engolida.

Cozinhar era fazer o cliente comer primeiro com os olhos, para depois ser arrebatado pelo sabor.

No auge do serviço, um cozinheiro de rosto amargo esbarrou propositalmente em mim, quase derrubando uma bandeja de entrées.

— Saia da frente — rosnou ele.

Parei o que estava fazendo e segurei o braço dele. Não apertei com raiva, apenas com firmeza suficiente para ele não se mover e me encarar.

— O jantar de gala não se importa com o seu ego — disse, baixo, mantendo o contato visual até ele desviar. — Seu emprego está na ponta da minha faca. Volte para o seu posto. Se errar o ponto do risoto, a porta da rua é logo ali.

Ele bufou, mas abaixou a cabeça, recuando para os freezers. Nada menos que a excelência era a única linguagem que eu permitia naquela noite, tudo o que eu aprendi com o Chef Rodrigues na Universidade.

— Ele é próximo do antigo chefe — sussurrou uma cozinheira ao passar, limpando o balcão. — Não aceita receber ordens de alguém tão novo.

— Ele deveria ser mais profissional. É a única coisa que importa aqui — respondi, sem desviar o foco do último plating.

Quando o último prato saiu — uma sobremesa delicada que parecia uma ilusão de ótica entre traços finos e cores vibrantes —, Pedro entrou na cozinha com sua explosão de ânimo e me arrastou para o salão.

— Oscar! Foi um sucesso absoluto! Que orgulho! Agora querem conhecer o gênio por trás do menu.

O choque térmico foi imediato: do calor úmido das grelhas para o ar condicionado gélido e o perfume caro dos convidados. As luzes da sala refletiam em cada sorriso dos convidados que, com taças em mãos, brindaram ao sucesso do evento. Quando meu nome foi anunciado, as palmas começaram — um som frequente que preenchia cada espaço do salão.

Recebi os cumprimentos com um semblante satisfeito. Aceitei os elogios com cortesia, saboreando o sucesso que eles confirmavam. Afinal, havia trabalhado arduamente para que aquela noite fosse memorável. As pessoas estavam claramente felizes, e o ambiente, repleto de risadas e conversas animadas.

Com um gesto delicado, me despedi dos convidados e me afastei.

Um fotógrafo loiro se aproximou, o flash da câmera me cegando por um milésimo de segundo.

— Além de talentoso, é lindo — comentou ele, com um sorriso charmoso.

— Você costuma paquerar enquanto trabalha? — Arqueei uma sobrancelha, encarando-o sem desviar.

Ele hesitou, surpreso pela minha falta de timidez. O sorriso dele se alargou.

— Só quando o modelo vale a pena — retrucou ele, aproximando-se o suficiente para que eu sentisse seu perfume cítrico.

— Isso deve acontecer sempre, então — provoquei, mantendo o meio sorriso enquanto ele disparava outro flash.

— Me dá seu número?

— Sinto muito — respondi, com um meio sorriso que o deixou intrigado. Quando ele ousou tocar meu queixo, segurei seu pulso com suavidade, mas sem ceder. Passei o polegar pelos lábios dele, um toque lento, dominante. — Sabe, sou eu quem escolho. Mas quem sabe… um dia.

Soltei-o antes que ele pudesse reagir. O fotógrafo soltou uma gargalhada deleitada enquanto nos separávamos.

Deixei-o com a frase no ar e segui em direção à entrada, onde avistei Pedro perto da entrada, e meu coração amoleceu instantaneamente.

Minha mãe estava em um vestido de veludo azul que lhe dava um ar de nobreza; Zhang, em um verde vibrante com detalhes dourados, parecia uma joia lapidada. As duas tinham os cabelos presos — a primeira, em um coque; a segunda, em um rabo de cavalo — para destacar as joias simples que lhes davam um charme especial. A vivacidade em suas faces as deixava ainda mais lindas.

— Vocês estão maravilhosas. — Eu as envolvi em um abraço simultâneo, sentindo o cheiro de casa em meio àquele ambiente luxuoso. O riso delas era o melhor som da noite.

— Pedro nos buscou. Ele nos contou o que tinha planejado e claro que viemos testemunhar! — Zhang riu, já sacando o celular para registrar tudo. — O Eugênio vai se surpreender quando ver você assim. Uma notícia boa para substituir o escândalo sobre o irmão dele. Ele tem que saber que meu melhor amigo é um masterchefe lindo! Você é o coração deste lugar!

— Oscar, meu filho… estou tão orgulhosa — minha mãe sussurrou, me apertando com força. O cintilar nos olhos dela valia mais do que qualquer estrela Michelin.

Rimos e posamos para as fotos de Zhang, que já planejava imprimir e colocar lá em casa, no seu porta-retrato de urso! Levei-as até uma mesa reservada e pedi que servissem o melhor do menu.

Observar as duas fazendo “caras e bocas” a cada garfada, deliciadas com o que minhas mãos haviam criado, foi o clímax da noite. Sentei-me com elas por um momento, finalmente relaxando os membros.

Olhei ao redor, para o salão lotado e para as mulheres que eu amava. Eu não era apenas um universitário preparando marmitas; era o Masterchef que comandava aquela noite. E, com a companhia delas, cada segundo tinha um sabor indescritivelmente maravilhoso.

O tilintar dos talheres nos pratos diminuiu quando Zhang se inclinou na minha direção, limpando o canto da boca com o guardanapo.

— E então, Oscar… — ela começou, fazendo uma pausa para engolir. — Essa experiência te fez mudar de ideia? Você pensa em algum dia abrir um restaurante?

Estava muito satisfeito com a ocasião. Estava feliz, sabia que estava feliz e sabia que tinha todo o direito de ser feliz. Nenhum olhar ou palavra poderia diminuí-los. Não conseguia conter meu sorriso enquanto observava as duas; ele sequer diminuiu ao ouvir a pergunta. Era natural que elas sentissem curiosidade.

— Essa experiência foi inesquecível, mas não. De maneira alguma. Não mudou meus planos em nada. Ainda planejo trabalhar na área empresarial e passar todo meu tempo livre com vocês.

— Mas filho, ser chef de cozinha é muito bom. Seria uma boa escolha. Você disse uma vez que não queria contabilidade, agora está falando em trabalhar em uma empresa — ela balançou a cabeça, o olhar confuso. — Eu não te entendo, Oscar.

Pedro se juntou ao grupo a tempo de ouvir o que minha mãe dizia e, com um sorriso largo, interveio:

— Esse garoto é muito misterioso, mas não deixa de ser excepcional! Sófia, seu filho é um prodígio! Essa conclusão veio de muitas semanas de convivência. Oscar se mostrou muito eficiente, não apenas na cozinha! Suas opiniões são luz para mim. Já faz meses que nos conhecemos e minha opinião sobre ele só aumenta! Fico contente em tê-lo conhecido; não planejo desmanchar nossa parceria, ao contrário! Um jovem como ele não se encontra em qualquer lugar!

Foi minha vez de balançar a cabeça, ouvindo os elogios e as expectativas dele. Pedro era ansioso demais para ser observador e comunicativo demais para conseguir ficar calado; enquanto ele falava, as outras duas comentavam a comida, fazendo pausas, vez ou outra, para se juntarem a ele e especular sobre o meu futuro. Eu apenas sorria, saboreando o momento.

 

 

 


 

*Reduções: molhos, caldos, vinhos ou sucos.

*Estrela Michelin: maior honraria que um restaurante ou chef pode receber no mundo. É o auge da carreira de qualquer profissional na gastronomia.

*Entrées: significa entradas, petiscos ou o prato principal, dependendo do país

*Plating: é a arte de organizar e decorar a comida no prato e tornar a refeição mais bonita e apetitosa.

*Demi-glace: é um caldo gelatinoso à base de ossos de boi e legumes

 

 

 

Capítulo 69
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

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  • Capítulo 51
  • Capítulo 50
  • Capítulo 49: Livro Dois
  • Capítulo 48 Extra Primeira Confissão
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