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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 71

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A festa fracassada que meu pai organizou não saía dos meus pensamentos, especialmente após o escândalo que a sucedeu.

Eu não sabia dizer como os convidados se sentiram, mas tinha certeza de que, para a minha família, não restaram boas lembranças. Curiosamente, ninguém me culpou; cada um processou o ocorrido à sua maneira. Inicialmente, meu pai foi quem mais lamentou o fiasco, enquanto os demais lidaram com o amargor em diferentes intensidades.

Na minha opinião, embora a intenção fosse boa, o evento não passou de dinheiro desperdiçado e tempo perdido — algo destinado a ser odiado na memória. Cinco horas de convivência genuína em família teriam sido muito mais valiosas. Só entre nós, de fato, poderíamos ter encontrado satisfação e reforçado nossos laços.

Mas não foi assim. O que restou foi vir o mais cedo possível — sem que meus irmãos ou Luciana soubessem — para investigar a origem do escândalo. Levantei a cabeça; o sol da manhã formava uma linha no horizonte, refletindo sua claridade expansiva nas janelas espelhadas da redação da Vibe Digital.

Estava escorado na lateral do meu carro, estacionado em uma esquina discreta, a poucos metros da entrada do prédio editorial. Cruzei os braços, observando o vai e vem de jornalistas e estagiários apressados.

Lá dentro, Ricardo estava fazendo o que sabia de melhor: ser invisível e eficiente. Ele tinha entrado há vinte minutos, usando um terno empresarial que o permitia transitar por aqueles escritórios como um funcionário corporativo, para “esclarecer um mal-entendido” com o departamento de TI da revista de fofoca.

Minha perna direita batia contra o pneu num ritmo impaciente. Cada minuto que passava, minha imagem ganhava mais exposição pública. As fotos de Helena já deviam estar em todos os grupos de mensagens da cidade, do país e mais além.

Finalmente, a porta de vidro se abriu. Ricardo saiu com passos medidos, o rosto uma parede de seriedade que me fez endireitar as costas imediatamente. Ele não olhou para os lados; veio direto na minha direção e parou a poucos centímetros.

— E então? — Minha voz saiu ansiosa, quase sumindo no barulho de um ônibus que passava. — Quem entregou as fotos?

Ricardo hesitou, um vinco de preocupação marcando sua testa. Ele tirou um tablet de couro da pasta e o ligou, mantendo a tela protegida da luz direta do sol.

— Consegui acesso ao registro de envios do servidor interno deles, Dominic. — Ele deslizou o dedo pela tela, parando em um log de dados técnicos. — O material não foi entregue pessoalmente, nem por um informante anônimo. Foi um upload direto para o portal de denúncias e escândalos anônimo do site deles.

— Rastreou o IP? — perguntei.

Ricardo soltou um suspiro curto, o olhar fixo no meu com uma superioridade que ele não fazia questão de esconder. Para ele, minha pergunta era um insulto à sua competência.

— Fiz mais do que isso, garoto. — Ele me encarou com um brilho intransigente antes de retomar o assunto. — O rastro digital termina em uma conta de armazenamento em nuvem vinculada a um dispositivo móvel específico. Cruzamos o número com os registros da operadora. As fotos da festa e o rascunho da matéria… tudo foi disparado do número pessoal que você me mostrou.

O trânsito ao meu redor pareceu perder os ruídos por um instante. O calor morno da manhã pareceu aquecer mais a minha pele. Helena, a “vítima” que as redes sociais ainda tentavam consolar. Ela mesma havia apertado o botão de enviar.

Ela não apenas sofrera a agressão; ela a transformara em munição, editada e cronometrada para me destruir nas plataformas digitais e pulverizar minha imagem pública.

— Dominic… — Ricardo pigarreou, a voz baixa. — Se levarmos isso ao seu pai ou à polícia, a armação dessa pessoa cai. O que você pretende fazer?

— Por enquanto? Nada. — Fechei o tablet de uma vez. — Se eu for levar isso a alguém, será para o meu pai. Ele é o único que pode esmagar essa cobra de uma vez. Por enquanto, silêncio absoluto. Essa é a única vantagem que nos resta. Quero ver até onde essa pessoa sustenta essa armação e deixá-la acreditar que eu ainda sou o protagonista cego.

— Eu conheço essa pessoa? — Ricardo perguntou enquanto me acompanhava para dentro do carro e ligava o motor. — Para ter feito isso, essa pessoa pode ser muito perigosa. Vou confiar em você e não levar nada ao seu pai, mas se você demorar, eu mesmo vou tomar providências.

— E ela é, Ricardo, mas não posso determinar o grau atual de periculosidade. Tanto você quanto todos ao meu redor conhecem a pessoa. Mas não posso fazer nada ainda, preciso de mais provas para queimar sua imagem. — Olhei para a cidade pela janela do carro em movimento; as ruas quase vazias eram frequentadas pelos que iam para o trabalho ou escola.

— Mudando de assunto, você fez a manutenção em todos os carros como eu pedi?

Ricardo desviou os olhos do trânsito, ajustando o retrovisor antes de me olhar. Estávamos chegando mais perto de casa.

— Não só fiz isso, como programei para ser feito semanalmente. — Ele se concentrou no trânsito novamente. — Mas não entendi o motivo do seu pedido.

Eu me ajeitei no banco para encará-lo assim que entramos na rua do nosso prédio.

— Isso é algo natural, que deve ser feito; é da segurança da nossa família que estamos cuidando. E quanto a você… Está indo ao médico como eu pedi?

Ele me olhou de soslaio e manobrou o volante para dar a ré. A luz da manhã desapareceu aos poucos, substituída por luzes elétricas. Entramos na garagem subterrânea do prédio. Só quando estacionou e desligou o motor, ele focou sua atenção total em mim.

— Sim, como me pediu — disse ele, soltando o cinto de segurança.

— Está tudo bem com sua saúde? — perguntei, depois de fazer o mesmo e abrir a porta para sair.

— Sim, garoto. Que insistência! Ele me pediu para fazer check-ups com frequência, cuidar da alimentação, tomar vitaminas e diminuir minha rotina de trabalho.

Ele trancou as portas do carro; o bipe alto do travamento foi ouvido entre nós. As luzes vermelhas piscaram uma vez. As chaves, entre seus dedos, faziam barulho. Começamos a caminhar, lado a lado, rumo ao elevador.

— Faça isso. Faça exatamente como o médico pediu. Eu me importo com você e não desejo vê-lo doente.

Segurei seu braço ao entrarmos no elevador. Ele tocou minha mão com um sentimento paterno; não disse nada, mas o leve erguer do canto da boca e o aceno de cabeça disseram o suficiente.

Talvez fossem os dias que passei longe, a crise que quase me levou ao hospital ou o meu surto recente que fizeram Ricardo não questionar meus pedidos, nem minha preocupação.

Ao entrarmos no apartamento, o calor do aquecedor nos envolveu imediatamente. A luz suave das luminárias revelava Luciana e Eugênio, que já estavam na sala.

Eles estavam sentados lado a lado na mesa, com as cabeças próximas, concentrados no notebook enquanto tomavam café da manhã. O contraste entre a minha descoberta e aquela cena aliviou instantaneamente o meu mau humor.

Aproximei-me devagar, meus passos sumindo no tapete.

— Parece que chegamos a tempo para tomar café da manhã com vocês — eu disse, a voz mais leve, um sentimento doce encobrindo o desgosto de mais cedo. — Cadê Estêvão?

Luciana apenas apontou para cima, sem tirar os olhos da tela. Apesar do que aconteceu na festa, ela não se distanciou de mim como eu temia. Pelo contrário, todos pareciam apreciar seu temperamento. Com a convivência diária, ela pareceu entender que meu caráter não era tão ruim quanto supunha e que, afinal, era possível me suportar.

Ela me estudou dia após dia, enquanto minha família confirmava que eu não era uma pessoa explosiva — algo que asseguraram a ela assim que Luciana ameaçou pedir demissão. Isso a acalmou. Meus esforços em demonstrar arrependimento, sendo atencioso e gentil, finalmente deram resultados. Minhas esperanças de perdão se concretizaram, e o desconforto que antes habitava seu olhar e seus modos desapareceu gradualmente.

Diferente de Luciana, Eugênio, porém, me puxou pela manga e me chamou para mais perto.

— Venha ver isto, Dominic. Uma notícia boa que Zhang enviou.

Inclinei-me sobre a mesa. Na tela, o site de notícias exibia uma galeria de fotos do Oscar. Ele estava impecável em sua dólmã branca, impondo uma autoridade natural à frente de uma equipe de chefs. A manchete brilhava: “O Sucesso de Oscar: O jovem que comanda veteranos”. Não consegui desviar a vista.

— As fotos ficaram lindas, não acha? — Luciana comentou, um sorriso admirado iluminando seu rosto. Ela não conhecia Oscar pessoalmente ou a amiga dele, mas a imagem exalava uma maestria que a cativou. — Esse garoto parece tão seguro de si, tão talentoso.

Eugênio assentiu, mas seu olhar estava fixo na garota ao lado de Oscar em outra foto. Zhang exalava uma elegância sofisticada, os olhos cheios de orgulho pelo sucesso do amigo.

— É o Oscar… ele merece — Eugênio disse com a voz suave, deixando transparecer uma admiração genuína por Zhang e pelo amigo, enquanto soltava um suspiro apaixonado. — E a Zhang está radiante. Eles formam uma equipe imbatível, não acha?

O meu “sim” saiu espontaneamente. Oscar estava radiante; quase não consegui desviar os olhos dele. Vê-lo deixava meu coração mais leve, desejando o que de melhor havia no mundo para ele. Então, observei meu irmão. Ele admirava a namorada e o triunfo de Oscar, sem ter ideia de que Helena era um espinho em nosso caminho. A vontade de contar tudo foi contida; eu precisava esperar o momento certo.

Afastei-me da luz da tela e me sentei à mesa. Luciana tomava seu café com leite, enquanto Ricardo se sentava ao meu lado e se servia de um café fumegante.

Eu não poderia deixar que Helena prejudicasse os outros. Ela podia fazer minha reputação apodrecer na lama, que eu não me importava, mas com as pessoas que eu amava, não. A mentalidade instável dela podia tentar atingir minha família a qualquer momento se eu não fosse mais rápido e tentasse conter a paixão doentia dela em relação a mim. Mas ela cometeu um erro e, agora, eu tinha a prova da falsidade dela. Mas só isso não bastava; era necessário obter mais.

Enquanto eu pensava nisso, Estêvão descia os degraus com uma lentidão deliberada, como se cada movimento fosse regido pelo aborrecimento estampado em seu rosto. Seus olhos não saíam da tela do celular; os polegares moviam-se freneticamente, digitando algo que parecia exigir toda a sua concentração e irritação. Ele mal olhou para onde pisava até alcançar a mesa.

— Algum problema? — perguntei, tentando manter a voz neutra, mas curioso.

— Nada — respondeu ele, ainda imerso no que quer que estivesse lendo.

Ficamos todos em silêncio, observando-o. Apenas Eugênio continuou parcialmente focado nas fotos da sua namorada. Ricardo, sempre o pacificador, deslizou um copo de suco gelado em direção a Estêvão, mas ele o deixou intocado. A luz azulada da tela era a única coisa que parecia existir para ele.

— É alguma namorada? — insisti, arqueando a sobrancelha. — Vocês brigaram?

Ele apenas negou com um balanço curto de cabeça, sem interromper o ritmo da digitação. A concentração exagerada dele começou a me incomodar. Levantei-me e caminhei até parar ao seu lado, tentando espiar por cima de seu ombro. No instante em que inclinei o corpo, ele bloqueou a visão com o braço, protestando com uma voz irritada que aquilo era “assunto pessoal”.

Não resisti. Em um movimento rápido, pesquei o celular de sua mão e me afastei dois passos.

— Ei! — ele saltou da cadeira, o rosto inflamado. — Devolve! Você não tem o direito de invadir minha privacidade assim!

Ele avançou, recuperando o celular com um puxão antes que eu conseguisse decifrar mais do que algumas meias palavras. Respirei fundo, forçando um sorriso de desculpas.

— Eu só fiquei curioso para saber quem conseguiu te deixar nesse estado. Mas me diga… o que a sua “amiga” falou para te deixar assim tão transtornado?

Observei-o sentar-se novamente. Ele guardou o celular no bolso com força excessiva e, finalmente, envolveu o copo de suco com as mãos, alisando a superfície gelada como se buscasse alguma coisa nela.

— Ela ainda está chateada com o que você fez — ele confessou, a voz mais baixa, quase amarga. — Ela mal quer falar comigo por causa disso. Expliquei para ela que você está passando por um momento difícil, que a crise não foi culpa sua, mas ela não quis mais explicações.

Ele deu um gole longo, esvaziando metade do copo de uma vez. Ninguém falou nada por um instante. Aproximei-me e sentei ao lado dele, pousando uma mão em seu ombro tenso, com meus dedos hesitantes.

— Então resolva isso — sugeri, minha voz soando mais calma do que meu coração. — Chame-a para um jantar de desculpas aqui em casa. Diga que o convite partiu de mim. Você vai ver, ela vai aceitar.

Estêvão me encarou, os olhos estreitos em dúvida.

— Está falando sério? Eu duvido que ela aceite. Helena está realmente irritada, você não faz ideia.

— Ela virá — reafirmei, sustentando o olhar. — Helena virá.

Pronunciei o nome de Helena como uma palavra qualquer e insignificante, lida em um papel, embora cada sílaba deixasse um gosto ruim na minha boca. Por dentro, as palavras pareciam amargas, azedas, mas forcei meus lábios a desenharem uma expressão alegre, completamente encorajadora. Se eu queria retomar o controle da situação, precisava agir como outrora. Precisava voltar a ser o velho conhecido dela. Ou, pelo menos, o melhor ator que Helena já tinha visto.

O clima na mesa amenizou. Estêvão, que até um segundo atrás estava aborrecido, me encarou com uma mistura de esperança e desconfiança.

— Você faria isso? — ele perguntou. — Depois de tudo? Depois da confusão na festa?

— Eu errei, Estêvão — menti, sentindo a falsidade na ponta da língua. — Agi por impulso. Se ela é importante para você, o mínimo que posso fazer é tentar reparar o dano. Diga a ela que quero me redimir. Um jantar aqui, em casa. Algo íntimo.

Eugênio ergueu os olhos do notebook, aprovando o gesto com um aceno silencioso. Luciana sorriu, tocando meu braço. Para eles, eu era o amigo arrependido tentando consertar seus erros. Para mim, eu era o peixe nadando contra a rede do pescador. Eu ia conseguir me livrar dela?

Ricardo, sentado ao meu lado, mantinha os olhos na xícara de café. Percebi seu leve desconforto, embora ele não dissesse uma palavra. Ele era o único que poderia ter notado a tensão escondida sob as minhas palavras, mas não sabia que Helena era a verdadeira culpada por tudo aquilo. Por isso, ele não compreendia a origem do meu mal-estar. Notei essa confusão no olhar que ele lançou para mim, antes de desviar a atenção para Estêvão.

— Vou mandar uma mensagem para ela agora mesmo! — Estêvão exclamou, o humor transformado. Seus dedos voaram sobre a tela.

Aproveitei o momento de distração geral para olhar novamente para a foto de Oscar no notebook de Eugênio. O sucesso dele era o oposto do pântano onde eu estava entrando. Minutos depois, o celular de Estêvão vibrou nas suas mãos. Ele leu a mensagem e abriu um sorriso largo.

— Ela aceitou! — ele comemorou. — Disse que está magoada, mas que valoriza nossa amizade acima de qualquer erro. Disse que pensa como Ana: não quer deixar que um problema como esse estrague a relação de velhos conhecidos que temos. Disse que vai trazer sua irmã. Elas vêm amanhã à noite.

— Ótimo — respondi, forçando um sorriso ao pegar uma fruta.

 

 

 

 

Capítulo 71
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

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  • Capítulo 71
  • Capítulo 70 Livro Três
  • Capítulo 69
  • Capítulo 68
  • Capítulo 67
  • Capítulo 66
  • Capítulo 65
  • Capítulo 64
  • Capítulo 63
  • Capítulo 62
  • Capítulo 61
  • Capítulo 60
  • Capítulo 59
  • Capítulo 58
  • Capítulo 57
  • Capítulo 56
  • Capítulo 55
  • Capítulo 54
  • Capítulo 53
  • Capítulo 52
  • Capítulo 51
  • Capítulo 50
  • Capítulo 49: Livro Dois
  • Capítulo 48 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 47 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 46
  • Capítulo 45
  • Capítulo 44
  • Capítulo 43
  • Capítulo 42
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