Capítulo 72
O dia do jantar com a Helena chegou. Eu estava em frente ao espelho do closet, ajeitando o cabelo com os dedos e desfazendo os amassados da minha roupa com as palmas das mãos.
Peguei o frasco de perfume e borrifei a fragrância; o cheiro forte de vinho tinto que costumava me acompanhar foi inteiramente substituído por algo mais leve, um aroma frutado. Eu já tinha enjoado da nota antiga e decidi mudar.
Olhei-me no espelho mais uma vez antes de sair. Apanhei o buquê de flores que tinha deixado em cima da cama e desci as escadas. Era quase surreal: eu tinha gastado tempo me arrumando e agora segurava um arranjo de desculpas para a Helena.
Todos já estavam lá embaixo, esperando-me. A mesa de jantar exibia uma organização primorosa: os talheres brilhavam sob a luz, e as flores adornavam os conjuntos de pratos. Tudo estava perfeito.
— Nossa, você está muito bem arrumado! — Estêvão comentou assim que me aproximei, farejando o meu perfume no ar e admirando minhas roupas. Ele estava sentado no sofá ao lado do nosso pai, enquanto Eugênio, Luciana e Ricardo completavam o círculo, todos sentados.
— Você está lindo, Dominic — Luciana olhou-me de cima a baixo, com uma expressão satisfeita. — Esse perfume frutado é um charme a mais!
— É apenas a perfeição que todos os meus filhos apresentam, Luciana — meu pai comentou, cheio de orgulho. — Fico satisfeito vendo-o disposto a reparar o seu erro.
Agradeci os comentários deles com um aceno e, antes que eu pudesse sentar ao lado do Eugênio — que estava trocando mensagens com a Zhang no celular, como sempre fazia —, o som da campainha tocou.
Eu me ofereci para atender a porta e segui com o buquê em mãos. Toquei no trinco frio de metal, disfarçando a mesma frieza que sentia pelas convidadas sob uma expressão amigável e um pouco sorridente.
Helena e Ana observaram-me admiradas assim que me viram. Fiz um gesto para que as duas entrassem e elas pararam logo em seguida, quando estendi as flores vermelhas para a Helena. Ela abriu um pouco os olhos, surpreendida, e as pegou contra o peito.
— Me desculpe. Eu fui muito grosso com você, fiz algo reprovável e sem razões. Você não merecia passar por aquilo.
Peguei educadamente uma de suas mãos e beijei-a; meus lábios demoraram um pouco sobre sua pele macia e pude sentir um pequeno tremor nela. A Helena definitivamente não esperava que eu fizesse isso.
Afastei-me e sorri para ela. Em seguida, direcionei-me para a Ana e fiz uma recepção mais moderada, mas não menos educada. Então estendi o braço, guiando as duas para a sala onde todos nos esperavam.
Estêvão foi o primeiro a se pronunciar, levando Helena para perto dele, enquanto o meu pai cuidou de recepcionar Ana com muita cordialidade, deixando Eugênio, Luciana e Ricardo conversando ao fundo. Não houve apresentações; Helena e Ana já conheciam Luciana e dispensamos as cordialidades.
As risadas aumentaram conforme a noite avançava. Todos foram se entretendo e quem mais falava entre nós era o Estêvão, sempre comunicativo. A risada dele soava mais alta; ele parecia satisfeito por estar perto da sua amiga. O laço entre eles parecia ser forte, mas, como não eram melhores amigos, eu sabia que não teria trabalho para separá-los e acabar com aquela amizade.
Na hora em que o jantar foi servido, fiz questão de guiar Helena até a mesa. Quando Luciana e Ricardo se sentaram, ela lhes lançou olhares expressivos. Sem dúvida, para alguém como ela, os empregados não deveriam sentar-se na mesma mesa que seus superiores. Olhando ao redor, principalmente para meu pai, ela se deu conta de que ninguém, além dela, se importava com aquela cena.
Helena pareceu-me tola e arrogante quando consegui ler seus pensamentos. Ela deixou de lado os seus preconceitos e guardou sua opinião para si, satisfeita ao concluir que, naquela noite, ninguém era preferido a ela. Uma expressão de puro contentamento escapou de suas feições, deixando sua satisfação visível.
Os sentimentos dela eram fáceis de ler. Sempre que surgia uma brecha, eu a tocava propositalmente nas mãos ou nos ombros. Quando o vinho foi servido, toquei deliberadamente em sua mão, deslizando meu polegar carinhosamente pela pele dela, e ela arregalou os olhos.
— Estava sujo aqui — sorri, olhando diretamente nos olhos negros dela. As suas pestanas batiam lentamente, refletindo o meu próprio olhar. — Agora está limpo.
— Obrigada, Dominic… — ela falou baixo, quase gaguejando as primeiras palavras.
— É tão bom vê-los próximos assim — meu pai comentou enquanto repousava a sua taça de volta na mesa, com um pequeno sorriso nos lábios.
Estêvão concordou, e os outros também. Luciana levou o garfo à boca e acenou expressivamente com a cabeça. Ela parecia muito satisfeita ao me ver redimindo-me e apagando o meu péssimo comportamento da última vez.
— É uma pena que não vamos nos encontrar com tanta frequência na Universidade — lancei a frase no ar.
Minha voz tinha uma pontada de dor quando pousei o copo de água sobre a mesa. Todos me olharam no mesmo instante, desentendidos.
— O quê? Vai largar a faculdade novamente? — A voz do meu pai subiu dois tons, mudando, e ele parou de comer com o garfo no ar.
Balancei a cabeça, mantendo uma expressão calma, sem a intenção de brigar.
— Apenas vou estudar remotamente, transferir o meu curso presencial para o EAD.
— E por que você fez isso? — Eugênio perguntou, franzindo a testa.
— Não tenho nenhum motivo especial, mas decidi me juntar precocemente aos negócios, pai. — Direcionei o olhar para ele e pude ver a raiva em seu rosto ser substituída por um lampejo de orgulho nos olhos. — Tenho muitos planos para quando estivermos trabalhando juntos.
Meus lábios subiram para os lados em um sorriso e o meu pai mostrou os dentes, a satisfação pulando para todos os lados ao redor dele.
— Esplêndido! Maravilhoso, você, Dominic, demonstrando interesse nos negócios! Eu pensei que o Eugênio fosse se manifestar primeiro, mas você me pegou de surpresa! — Ele esqueceu completamente a comida no prato enquanto falava orgulhosamente alto, chamando a atenção de todos.
Os outros se manifestaram logo depois. Ricardo concordou com Dário. Eugênio pareceu surpreso inicialmente, mas um sentimento satisfeito assumiu sua expressão e ele me ofereceu um gesto positivo com a mão. Estêvão lamentou minha ausência como companhia diária para a ida à Universidade, mas se calou no mesmo instante quando viu a satisfação do nosso pai. Luciana me felicitou. Ana não disse nada, quieta em seu canto, com o ouvido atento a cada palavra minha.
No entanto, a pessoa que mais me satisfez quando a máscara rachou foi a Helena. Ela não falou nada e ninguém ao redor percebeu sua cara estranha — uma expressão que sumiu assim que ela notou o meu olhar fixo sobre si. Como gostei de incomodá-la, mesmo que por tão pouco! Ela não me teria mais tão próximo no campus, e eu não teria que suportar seus olhares melosos e apaixonados nos corredores.
— O que foi, Helena? — Usei uma voz doce para perguntar, encostando nossas mãos por cima da mesa. Ela não puxou os dedos, mas novamente eu as senti tremer sob o meu toque.
— Nada… É uma pena por um lado que não vamos nos ver tão frequentemente, mas por outro, fico contente que vá trabalhar com seu pai. Vocês dois não são muito próximos e isso será bom para o relacionamento de vocês — ela diminuiu o tom ao falar as últimas frases para que só eu pudesse ouvir, enquanto observava o meu pai de soslaio e redirecionava os olhos para mim.
Sorri amigavelmente para ela. No final da noite, eu provavelmente estaria com cãibra nos lábios de tanto forçar simpatia. Meus dedos apertaram suas mãos e, em nenhum momento, ela pareceu estranhar meu comportamento exageradamente cordial; era muito provável que minha antiga frieza, substituída por aquela aproximação repentina — que a satisfez excessivamente —, a tenha feito negligenciar essa observação. Seus sentimentos obscureceram sua razão; ela caía, metaforicamente, em meus braços.
Ao final do jantar, todos nos acomodamos de volta no sofá. A madrugada avançava silenciosa, como se estivesse ansiosa para finalizar a noite e dar espaço ao dia.
As duas irmãs fizeram menção de ir embora. Como haviam consumido álcool durante o jantar e não tinham vindo de carro, não podiam dirigir. Eugênio, de modo cavalheiro, se ofereceu para levá-las, mas, quando elas rejeitaram a carona dele, eu me ofereci logo em seguida — apenas para que fizessem o mesmo comigo. Isso me deixou feliz; significava menos tempo perto delas.
— Já pedimos um Uber, obrigada pelo jantar. Eu e minha irmã gostamos muito — Helena se levantou, ajeitando a bolsa, e Ana fez o mesmo.
— Obrigada, tudo estava uma delícia — Ana acompanhou a irmã até a entrada, depois de se despedir de todos na sala.
Novamente, me despedi delas com um beijo, mas, desta vez, depositei um na bochecha de cada uma. Finalmente, as duas entraram no elevador e as portas de metal as engoliram. Não importava o transporte que escolhessem, desde que as levasse para longe de mim.
Desabei no sofá, desabotoando os três primeiros botões da minha camisa social, relaxando meu corpo em seguida. Luciana e Ricardo se retiraram para a cozinha com os copos vazios, e meu pai subiu as escadas, bocejando alto.
Estêvão chamou minha atenção, limpando a garganta com força, e Eugênio largou a tela do celular para nos observar de perto.
— Obrigado — Estêvão disse, em um tom agradecido que ele tentava conter.
— Não me agradeça. Eu faria qualquer coisa para ver meu irmãozinho mais novo satisfeito — admiti meus sentimentos reais, sustentando o olhar fixo bem nos olhos dele.
As palavras pareceram rodopiar animadas pela sala. Estêvão congelou no assento. A pose descontraída que ele sempre exibia se esfarelou em segundos. Ele abriu a boca, mas nenhum som saiu de imediato de seus lábios.
— Irmãozinho? — ele repetiu a palavra, com a voz um tom mais baixa, arrastando as sílabas. — Você nunca usou essa palavra comigo antes.
Senti um aperto involuntário no peito, um remorso tardio pelos anos de distância. Sentei-me corretamente no sofá para encará-lo de frente, deixando transparecer meu lado mais humano, humilde e verdadeiro.
— Foi um erro não ter chamado você assim antes — admiti, sentindo o rosto esquentar de leve. — É exatamente como sempre me senti em relação a você aqui dentro, só não sabia como dizer. Percebo agora que, no fundo, para mim você sempre foi isso. O meu amado irmão mais novo querido.
As pupilas dele se dilataram num sobressalto, engolindo a cor dos olhos por um segundo. Ele me encarou com uma intensidade tão profunda que me fez desviar o rosto para o lado, mas não antes de ver o vinco de tensão em sua testa relaxar completamente.
Subitamente, ele pigarreou alto e olhou fixamente para o teto; as suas orelhas ganharam um tom rosado imediato. O que o deixou fofo.
— Obrigado — ele disse com a voz firme, embora fizesse um esforço óbvio para evitar o contato visual direto. — Vou dormir, o cansaço me pegou — a vergonha e a timidez na voz dele eram perceptíveis enquanto ele se levantava.
Ele apertou o passo em direção às escadas, saindo na frente para bater em retirada. Mas eu vi: o canto da boca dele simplesmente não conseguia ficar parado. Um sorriso teimoso surgiu ali, e o meu próprio rosto relaxou por reflexo, acompanhando o gesto dele.
Eugênio colocou o celular sobre a mesa de centro e avançou para cima de mim, com um sorriso largo de orelha a orelha.
— Que cena linda, vocês dois! Finalmente as coisas se alinharam, eu sempre quis que esse momento acontecesse. Para mim a realidade é exatamente essa; o Estêvão também é o nosso caçula, o verdadeiro objeto de amor desta casa. O mais novo e o mais amado por todos.
Eugênio sentou-se no sofá ao meu lado, nossas pernas roçando, e passou os braços pelo meu pescoço num abraço estranho, todo torto, o que me deixou ainda mais envergonhado e desarmado ao ouvir aquelas palavras sinceras.
Capítulo 72
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...