002.
“O que…?”
“O quê? Bliss, o que aconteceu com o seu olho?”
“Uaaau, seu olho ficou vermelhão! Olha, olha, não tá vermelho? É como um morango! Bliss tá virando um morango!”
“Foi algum inseto que te picou?”
“ Cadê? … Que idiota, alguém deve ter batido nele. Bliss é meio estúpido de qualquer forma.”
“O quê? Bliss, quem te bateu? Quem foi? Fala logo!”
O mais velho, que estava observando em silêncio atrás enquanto os mais novos gritavam um atrás do outro, mas por fim ele finalmente falou.
“Se alguém realmente bateu em você, isso é um problema sério. A pessoa ousou tocar em um Miller.”
Com isso, o clima ficou tenso de repente. Normalmente Nathaniel não se envolvia quando o assunto era essas brincadeiras infantis. Na verdade, ele nem tinha idade para aquilo, mas sua personalidade naturalmente contribuía para que ele não fosse como os irmãos. O fato de ele estar naquela festa mesmo era por obrigação como o filho mais velho da família Miller, na maioria das vezes ele ignorava e deixava essas pequenas confusões que seus irmãos se enfiavam passar.
Mas atacar um “Miller” era uma história completamente diferente. Isso significava que estavam começando a não temer e respeitar mais a sua própria família. Aquilo era um insulto.
Nathaniel, franziu a testa em desagrado, todos voltaram seus olhares frios e endurecidos para Bliss que estava com o rosto vermelho e entre nos braços do papai. No silêncio que se seguiu, Ashley Miller, que até então não havia dito nada, finalmente falou.
“Nathaniel tem razão. Bliss, quem se atreveu a fazer isso com você?”
Quem quer que fosse, teria que assumir a responsabilidade por ter deixado um hematoma no olho do Miller caçula. Enquanto todos olhavam com expressões furiosas, Bliss, que até então só observava as reações ao redor com certa perplexidade, hesitou antes de abrir a boca.
“Fui eu que fiz.”
Por um breve momento, um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente. Como se todos estivessem tentando entender o que tinham acabado de ouvir. Então, como se um feitiço tivesse sido quebrado, todos começaram a falar ao mesmo tempo.
“O quê? Bee, você está dizendo que se bateu? Por quê?”
“Por que você faria uma coisa dessas? Você é realmente burro ou simplesmente não tem cérebro?”
“Ei Bliss, não me diga que queria testar o quão dura é a sua cabeça, queria?”
“Ei seu idiota, se fosse pra bater, o certo era pra ser na cabeça, por que foi no olho? Ah, será que Bliss não sabe diferenciar o olho da cabeça?”
“Não me surpreenderia vindo de Bliss. Ele é meio idiota mesmo.”
“Ei, Greyson, Stacy! Seus idiotas! Não foi isso que eu quis dizer!”
“Falando todos ao mesmo tempo, esses idiotas…” Bliss, não conseguindo conter a raiva, de repente bateu os pés enquanto estava no colo de seu papai.
Como se combinasse, todos ficaram em silêncio ao mesmo tempo e o encararam. Parecia que estavam esperando para ver o que tinha acontecido afinal. Após soltar um pequeno suspiro, Bliss finalmente abriu a boca.
“Antes… alguns pirralhos que eu não conheço tentaram me cercar enquanto estavam em grupo.”
“Te cercaram?”
“Tá, mas e daí?”
“Grayson, Stacy.”
Ashley Miller advertiu severamente os dois que não conseguiam esperar e ficavam atropelando as palavras do mais novo.
“Eu disse pra vocês que não podiam interromper quando alguém está falando, não foi? Fiquem todos quietos. Até o Bliss terminar de falar, ninguém abre a boca.”
Com a voz fria e penetrante, as crianças fecharam a boca tensas. Ashley, depois de observar um por um, agora completamente em silêncio, voltou seu olhar somente para Bliss.
“Então, o que aconteceu? Continue, Bee.”
Diante da voz calma direcionada a ele, Bliss mexeu as mãos de forma inquieta e desviou o olhar.
“Hum, é que… então… aqueles pirralhos…”
“Bee, em vez de ‘pirralhos’, diga ‘às crianças’.”
“Koi.”
Desta vez, o pai sorriu suavemente ao chamar a atenção do papai que tinha interrompido o pequeno ao apontar o uso da palavra “pirralhos”.
“Primeiro, vamos ouvir o que o Bliss tem a dizer, certo?”
Quando chamava a atenção das crianças, a voz de Ashley era completamente diferente da que ele tinha acabado de usar. Com um sorriso gentil, ele interveio no momento certo, e em resposta, Koi corou e fez um leve “hm” enquanto fechava a boca.
Só depois que o ambiente ficou totalmente silencioso, Ashley assentiu novamente para Bliss, como se dissesse para continuar. Após respirar fundo, Bliss finalmente disse o que estava guardando.
“Aquelas crianças… as crianças disseram que eu não era um Miller.”
Por um instante, tudo ficou em silêncio. Era um tipo de silêncio diferente de antes. Nathaniel ergueu uma das sobrancelhas, as outras crianças se entreolharam e o papai e o pai encararam Bliss com sobrancelhas franzidas. Depois que o silêncio se prolongou por um momento, com inúmeras perguntas se passando pela cabeça de todos, finalmente alguém decidiu falar.
“Que história é essa de que a Bliss não é um Miller?” Larien, o quinto filho, questionou primeiro.
Em seguida pelo quarto filho, Chase, que rebateu.
“Que bobagem é essa? Aqueles idiotas devem ter dito um monte de merda.”
“Chase, você não deveria falar palavras feias.”
Koi repreendeu novamente, mas logo em seguida os gêmeos — o segundo e terceiro irmãos, Grayson e Stacy — logo retrucaram.
“É mentira, mas o problema foi que eles disseram isso sem se preocuparem com o que bostejavam!”
“Verdade. Como ousaram dizer esse tipo de merda em voz alta? O que eles têm na cabeça deles? Acho que eles precisam levar uma surra bem dada. Como vamos fazer isso?”
“Crianças…” Sem saber como conter a forma rude de falar dos filhos, Koi abriu a boca novamente, mas, de repente, o mais velho levantou uma dúvida.
“Mas o que isso tem a ver com o seu olho ter ficado roxo?”
Quando Nathaniel apontou para aquele ponto, com o rosto franzido, as outras crianças pareceram perceber e olharam para Bliss. O pai, que estava assistindo tudo em silêncio, também perguntou de forma desconfiada.
“Eu também estava curioso sobre isso. Como foi que aconteceu isso com o seu olho?”
Diante da pergunta em tom calmo, todos passaram a olhar apenas para os lábios de Bliss que agora apenas murmurava as respostas. Sentindo-se pressionado pela atenção, ele respirou fundo e finalmente contou a verdade do ocorrido.
“Aqueles pirralhos…disseram que, como meu olho não é roxo, então eu não sou um Miller como vocês.”
“E então?”
Ao relembrar do pensamento, a raiva voltou a subir fervendo. Bliss estufou o peito e gritou para o pai, que havia pedido as próximas palavras após ver o seu filho caçula ofegante e tremendo demais.
“Eu bati no meu próprio olho para deixá-lo roxo!”
Assim, um suspiro coletivo de “Ah!” explodiu ao mesmo tempo. Não só as crianças, mas o papai e o pai também ficaram sem palavras, olhando para Bliss que erguia a cabeça triunfantemente.
“Se ser Miller é ter o olho roxo, então bastava fazer com que ele ficasse roxo! Por isso eu soquei meu olho, mas no fim eles fugiram! Covardes, idiotas! Bem feito! Eu ia bater mais neles! Mas quando fui correr atrás deles, alguém apareceu na minha frente e… Se eu só tivesse um pouco mais de tempo, eu teria feito isso! Assim, e assim…!”
Socando os punhos no ar, completamente exaltado, Bliss gritava “Há! Hey!”, mas ninguém conseguiu dizer mais nada, apenas encarando o outro. Sem saber que tipo de resposta dar, Koi manteve a boca fechada, e, com um pensamento não muito diferente do dele, as outras crianças também permaneceram em silêncio por um momento. Sendo seguido por Ashley que foi o único a se pronunciar.
“Você ter brigado pelo orgulho de se mostrar ser realmente um Miller… Você fez muito bem.”
Primeiro, ele elogiou Bliss que ainda estava ofegante com os movimentos anteriores e então continuou calmamente: “Mas, fazer isso com automutilação não é um bom método. Especialmente nessas situações”
“O que é automutilação?”
Inclinando a cabeça, Bliss perguntou. O pai fechou os olhos por um instante, como se pensasse. Ficou assim por cerca de dois ou três segundos e então abriu os olhos novamente, falando com a mesma voz calma de antes.
“Significa causar ferimentos a si mesmo. Em hipótese alguma, você não deve fazer algo que possa te machucar, entendeu?”
“Uhum…”
Sentindo como se tivesse feito algo errado, os ombros de Bliss caíram. Ao vê-lo assim, o pai rapidamente acrescentou: “Da próxima vez que algo assim acontecer, venha diretamente a mim ou até ao papai. A gente cuida disso pra você, tá?”
Diante do tom gentil que o acalmava, Bliss fez um biquinho e murmurou.
“Mas vocês não estavam vendo…”
“Porque o Bliss sempre faz o que quer.”
Sem perder a chance, o quinto filho, Larien, lançou um comentário seco. Recebendo um olhar frio e silencioso de seu pai Ashley, que interferiu apenas com o olhar. Após confirmar que o outro se calou, o pai voltou sua atenção para Bliss.
“Nesses casos, procure outro dos seus irmãos ou conte a qualquer adulto que estiver por perto. Diga a eles que você é “Bliss Miller” e fale quais pirralhos estão te incomodando.”
Explicando calmamente, Ashley sorriu de leve, levantando um canto da boca.
“Então alguém vai te ajudar e irá te trazer até a gente.”
Koi, que vinha ouvindo tudo até então, estendeu discretamente a mão e acariciou a cabeça do caçula. Como se dissesse que agora estava tudo bem, o toque caloroso fez Bliss relaxar e um leve rubor surgiu em suas bochechas, logo ele abriu um sorriso. Sem soltar, Koi o ergueu nos braços, perguntando rapidamente à criança.
“Bliss, quer tomar um sorvete?”
“Quero de morango!”
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...