019.
Já não eram apenas as bochechas, mas o rosto inteiro de Bliss que estava vermelho e quente. Cassian apressou-se em dar água ao menino para que ele não chorasse mais; após beber, o choro finalmente cessou, mas foi seguido por soluços intensos.
Ao ver a criança ofegante, incapaz de respirar direito de tanto chorar, Cassian sentiu um súbito vazio de desanimo.
“O que estou fazendo com uma criança pequena?” Sentindo-se patético, ele soltou um longo suspiro. Foi então que Bliss perguntou entre soluços.
“V-você nunca mais vai me contar segredos?”
Cassian olhou para o rosto do menino sem dizer nada. No rosto redondo e avermelhado de Bliss, misturavam-se ansiedade, decepção, expectativa e resignação. Se ele respondesse que sim, Bliss voltaria a chorar ou tentaria se conter desta vez?
Por algum motivo, Cassian sentiu que seria a segunda opção. Pois, naquele exato momento, Bliss mordia o lábio inferior com força, tentando desesperadamente engolir os soluços. Além disso…
“…Desculpa por te colocar em uma situação difícil, Cassian.” O menino pediu desculpas novamente com a voz trêmula. Chegando a esse ponto, Cassian simplesmente desistiu de tudo.
Sim, era apenas um mês.
Como a Duquesa havia dito, bastava dividir bem os dias. Como era responsabilidade de sua mãe também, ela assumiria metade. Então, ele poderia aproveitar o restante das férias. Se houvesse algum plano que não conseguisse realizar, poderia fazê-lo em outra oportunidade.
Além disso, não era algo tão grandioso a ponto de fazer aquela criança chorar tanto, era?
O que aconteceu durante o dia ou o fato de o menino ter revelado o segredo por descuido, foi apenas um erro de criança. Pensando bem, tudo parecia compreensível.
É claro que, como sua vida era milimetricamente planejada em cada etapa, não seria fácil criar uma oportunidade assim de novo. Mas não havia problema. Se existem pessoas que dizem que vão para Marte, por que umas férias um pouco desregradas seriam impossíveis?
“De agora em diante, não conte para mais ninguém.”
Em um instante, os olhos de Bliss se arregalaram. Diante das pupilas azuis que o olhavam com esforço por baixo das pálpebras inchadas, Cassian acabou soltando um riso involuntário. Ao ver a reação dele, Bliss esqueceu o choro e gritou com a voz subitamente animada.
“Sim, sim! De agora em diante, nunca vou contar! É um segredo! Segredos devem ser guardados!”
“Sim, com certeza. Shh.”
“Shh.”
Cassian colocou o dedo nos lábios fazendo o som e Bliss o imitou. Logo em seguida, o menino abriu um grande sorriso e correu para os braços de Cassian.
“Cassian, eu te amo tanto!”
Desta vez, Cassian não o afastou e o abraçou com ternura. Ele até deu tapinhas nas costas do menino antes de perceber sua própria atitude e soltar um riso amargo.
É melhor deixar as coisas como estão.
Com esse pensamento, ele trouxe à tona o plano que havia pensado inicialmente.
“Quer ir ver os pássaros amanhã?”
“Pássaros?”
Surpreso com a proposta repentina, Bliss se afastou e olhou para ele. Cassian assentiu e continuou: “Vamos observar os pássaros usando ferramentas como binóculos, ou algo do tipo. Tem um pântano bom para ver pássaros na propriedade. Se formos de carro, é rapidinho…”
“Eu quero ir!” Bliss gritou animado. “Eu vou, eu quero muito ir! Qualquer lugar serve! Pássaros, vamos ver os pássaros!”
“Sim, sim.”
Cassian assentiu, aceitando a empolgação do menino. Quando Bliss finalmente começou a se cansar e a respirar pesadamente, ele se levantou e disse.
“Mas você tem que acordar cedo, tudo bem?”
“Claro, eu consigo acordar cedo! Pode confiar em mim!”
Bliss bateu no próprio peito com o punho, cheio de energia. Cassian assentiu e estendeu a mão.
“Chega de papo, vou te levar para o quarto agora.”
“Não posso dormir com você?” Bliss olhou para ele com um olhar de lamentação.
Aquele rosto bagunçado de tanto chorar era a arma mais poderosa de todas. Não havia intenção por trás, mas o resultado foi fatal. Cassian, que abriu a boca para recusar, ficou sem palavras ao ver aquele rosto. Por fim, ele suspirou e pegou Bliss no colo.
“Só hoje.” Depois de dizer isso, ele colocou Bliss na cama, apagou a luz e voltou para o seu lugar para deitar. “Boa noite, Bliss.”
“Boa noite, Cassian.”
Após a saudação, Cassian fechou os olhos e logo sentiu um movimento em um dos lados da cama. Bliss, aproximando-se de fininho de Cassian, que permanecia imóvel, agarrou o braço dele e o abraçou.
“Hehe.”
Bliss deu uma risadinha, soltou um suspiro profundo e encostou a cabeça nele. Em pouco tempo, a respiração rítmica da criança começou a soar. Quando Cassian abriu os olhos e olhou de soslaio, Bliss já estava em um sono profundo.
…O que eu faço agora?
Parecia que, mesmo se ele o soltasse e o empurrasse um pouco para longe, o menino não acordaria. Cassian chegou a levantar a mão para afastar a mão da criança, mas desistiu logo em seguida e suspirou. Ele pensou que não conseguiria dormir profundamente devido à mente inquieta, mas, para sua surpresa, acabou pegando no sono em pouco tempo. Assim como a criança que dormia pendurada em seu braço.
♩♫♪♪♬♩♫♪…
Cassian abriu os olhos com o som barulhento do alarme do celular. O sol ainda não havia nascido, mas para observar os pássaros, era preciso se apressar desde cedo.
‘Eu consigo acordar cedo! Pode confiar em mim!’
No dia anterior, Bliss havia sorrido radiante e batido no peito com confiança. É claro que Cassian não acreditou.
Pois é, como esperado.
Cassian, que se levantou imediatamente e terminou de se preparar, olhou para baixo com os braços cruzados e a testa franzida. Bliss estava completamente mergulhado em um sono profundo.
Com um suspiro, Cassian desligou o alarme barulhento que tocava ao lado da cabeça de Bliss. Após colocar o celular silencioso sobre a cama, ele ficou observando Bliss, que dormia mexendo a boquinha.
Ele pensou por um momento se deveria ir sozinho, mas logo mudou de ideia e balançou levemente o corpo da criança.
“Bliss, acorde. Temos que ir ver os pássaros.”
Ele falou com calma, mas Bliss não demonstrou nenhuma reação. Após observar por um instante o menino dormindo profundamente com os braços para cima, Cassian levantou-se e foi até o quarto de Bliss. Como esperado, sobre a mesa de cabeceira, as roupas que seriam usadas hoje, preparadas pelo empregado no dia anterior, estavam dobradas com cuidado.
Ao retornar ao quarto, ele mesmo tirou a roupa que o menino vestia e colocou a que havia preparado; durante todo o processo, Bliss não acordou nem uma única vez. Cassian o carregou em silêncio, colocou-o no banco do passageiro, prendeu o cinto de segurança e deu partida no carro em direção ao destino. Após dirigir por algum tempo vendo o sol nascer, finalmente chegou ao pântano, o destino final.
“Bliss, acorde.”
Ele primeiro tirou o equipamento e terminou todos os preparativos necessários. Só então balançou Bliss novamente para acordá-lo, que até aquele momento não tinha aberto os olhos e estava em sono profundo. Foi então que o menino reagiu.
“Mm, uung.”
“Acorde, Bliss. Já chegamos.”
“Uung…”
A criança olhou para Cassian piscando os olhos ainda cheios de sono. Bliss permanecia sentado com os olhos semicerrados, parecendo não entender a situação devido à sonolência avassaladora. Cassian continuou a falar.
“Acorde, já está na hora. Daqui em diante, teremos que ir a pé.”
“Uung.”
Bliss resmungou um gemido sonolento e esfregou os olhos, soltando logo em seguida um bocejo enorme. Cassian não esperou mais; pegou Bliss no colo, tirou-o do carro e vestiu nele uma capa fina que havia deixado preparada no banco traseiro. Em seguida, ele ajeitou o equipamento sob um braço e, com o outro, ergueu Bliss de uma vez.
“Certo, vamos.”
Enquanto era carregado por Cassian, que caminhava com passos largos, Bliss observava os arredores e via a paisagem passar rapidamente. Bliss exclamou “Uau!”, com as bochechas coradas.
“Cassian, você parece o meu pai. Hehe.” A criança sorriu e o rastro de sono havia desaparecido completamente de seu rosto. Cassian olhou para frente e respondeu com indiferença.
“Você não disse que éramos amigos?”
Foi algo dito sem pensar muito, mas para Bliss foi diferente.
“Tudo bem, como nós vamos nos casar, posso dizer que somos família.”
Bliss falou com naturalidade e acrescentou com confiança: “Além disso, eu vi o seu piu-piu, Cassian. Por isso, tenho que assumir a responsabilidade. Como um homem!”
Que homem nada, você é do tamanho de um amendoim, garoto.
“Você não tinha dito que não viu?”
Quando Cassian deu uma risadinha ao mencionar a mentira que a criança havia contado, Bliss logo soltou um “hihi”, rindo abertamente, e respondeu em seguida.
“Na verdade, eu vi. Está tudo bem, já que somos noivos.”
019.
Fonts
Text size
Background
Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...