055.
“É um pequeno santuário na propriedade. Se você caminhar em direção aos fundos do castelo, vai encontrá-lo rapidinho, então é fácil de achar. É uma igrejinha onde todos se reúnem para orar quando um clérigo vem, o que acontece cerca de uma vez por mês. Exceto por esses momentos, quem mais a usa é o Conde. Nós só entramos lá a cada um ou dois dias para limpar ou levar suprimentos. Claro que não somos proibidos de entrar, mas, você sabe como é… a maioria prefere evitar cruzar com o Conde. E aquele não é o único lugar para rezar.”
Penelope riu levemente, mas o interesse de Bliss estava focado em algo totalmente diferente.
“O Conde deve ter muitos motivos para rezar, não é?”
Com certeza. Quanta coisa ruim ele deve ter dito pelas costas enquanto fingia ser santo na frente dos outros? Aquele mentiroso, canalha!
Bliss sentiu a raiva que havia esquecido por um momento retornar e cerrou os punhos, mas Penelope continuou: “Eu diria que é mais para meditação. Ele parece ir para lá quando quer organizar os pensamentos ou descansar. Bem, é apenas o que eu suponho…”
Após dizer isso, Penelope resmungou para si mesma.
“É um bom lugar para descansar em silêncio, e ele deve estar muito cansado…”
“O quê?” Bliss, que não conseguiu ouvir direito, perguntou, mas Penelope, em vez de responder, abriu a porta seguinte de uma vez.
“Bem, aqui é a sala de jogos.”
Ela mostrou o salão com uma enorme mesa de bilhar, deu um tempo para Bliss observar o interior e seguiu caminho, fechando a porta.
“Se ele não estiver em nenhum desses lugares, provavelmente saiu para cavalgar ou praticar tiro ao prato, então estará dentro da propriedade. Claro, esses também são ‘pontos de interesse’.”
Com um sorriso cúmplice, Penelope o guiou por mais alguns quartos antes de abrir a porta mais ao fundo.
“E agora, finalmente. O tão esperado quarto principal.”
Através da porta escancarada, surgiu uma paisagem de campos verdes que pareciam não ter fim. Sem perceber, Bliss soltou um “uau” de admiração. Além da planície vasta e revigorante, o horizonte se encontrava com o céu. Olhando para aquela terra imensa, onde parecia possível galopar para sempre, Bliss ficou momentaneamente sem palavras.
Para Bliss, que cresceu em uma cidade cercada por prédios, aquela era uma visão desconhecida e emocionante. A sensação era de liberdade absoluta, como nos documentários de avestruzes correndo por grandes planícies.
Se ele visse aquela paisagem todos os dias, todo o seu estresse desapareceria!
“O Conde é um homem muito sensível, entende?”
“O quê?” Bliss, imerso na paisagem, virou o rosto diante do comentário inesperado.
Penelope segurou uma das cortinas penduradas e começou a prendê-la com habilidade enquanto continuava.
“Os funcionários que o servem diretamente limitam-se a mim e, ocasionalmente, ao Latif, quando eu não posso fazer o serviço. O Latif não faz muito tempo que chegou à Inglaterra, então não fala inglês muito bem.”
Mas então, ele consegue servir direito?
Como se estivesse lendo a mente de Bliss, que inclinou a cabeça em dúvida, ela acrescentou.
“Por isso, as chances de ele passar fofocas inúteis para outras pessoas são baixas e, como o Conde não exige muito dele, é seguro.”
Ah, então é por isso.
Ao notar a expressão de convencimento de Bliss, Penelope pensou consigo mesma: “É uma sorte que ele não entenda nada, mesmo quando o Conde o xinga.”
Ela continuou a explicação com um sorriso:
“A rotina do Conde é quase sempre fixa. O secretário me passa o cronograma uma vez por mês. Se houver mudanças ou algo para o qual devamos nos preparar, ele entra em contato comigo separadamente. Aí, eu divido as tarefas entre os funcionários conforme a necessidade. Mas isso quase nunca acontece e tudo segue a rotina normal, então não precisa se preocupar com esse ponto.”
Penelope parou em frente à porta do banheiro e olhou para ele de relance.
“Como eu disse antes, por ele ser sensível, não gosta de mudanças em seu cotidiano.”
Mesmo Bliss, que às vezes era um pouco lento, conseguiu entender o significado daquelas palavras. O fato de ele estar ali era uma aventura gigantesca, e a ajuda que Penelope oferecia era um apoio enorme.
O motivo de usarem poucos funcionários e detestarem estranhos provavelmente é esse também.
Penelope entrou no banheiro primeiro e levantou, com um esforço, o cesto contendo toalhas usadas e roupas. Ao ver a cena, Bliss apressou-se em ir à frente.
“Deixa que eu carrego.”
Penelope disse “obrigada” e entregou o cesto para Bliss naturalmente. Após terminar de arrumar o banheiro, o quarto e a sala de estar conectada, Penelope saiu para o corredor, fechou a porta e olhou para cima, encarando Bliss.
“Você entendeu tudo o que eu disse, Bliss?”
“Sim, sim…” Bliss gaguejou com o rosto pálido.
E com razão, já que Penelope havia listado umas cinco coisas que Cassian Strickland gostava, cerca de cem coisas que ele odiava e repetido que “o Conde é sensível” umas mil vezes.
Obviamente, era impossível dele se lembrar de tudo.
Mas uma coisa era certa.
Seguindo Penelope, Bliss pensou que o melhor seria evitar ao máximo ser visto por ele. O problema era o fato de que sua situação atual não permitia que isso acontecesse de jeito nenhum.
“Como eu disse antes.”
O Conde é sensível.
Enquanto Bliss lembrava automaticamente do resto da frase ao ouvir o início, Penelope continuou: “Por ser sensível, o Conde não gosta de situações inesperadas.”
“Sim.” Bliss forçou um sorriso, acrescentando timidamente em pensamento: “Eu já entendi!” Penelope assentiu para ele e finalmente chegou ao ponto principal.
“Por isso, já avisei ao Conde com antecedência que encontrei uma nova pessoa e que ela começaria a trabalhar hoje.”
Hum, faz sentido. Afinal, ele é o patrão, então é preciso reportar…
Penelope continuou falando.
“…Então, Bliss, quando o Conde retornar mais tarde, você deve se apresentar formalmente.”
Enquanto Bliss balançava a cabeça concordando, ele subitamente congelou. Diante do olhar vago dele, Penelope anunciou com um sorriso radiante;
“Parabéns, Bliss. Finalmente é a sua estreia. Você vai cumprimentar o Conde!”
Eeeeeek!
O sangue sumiu instantaneamente do rosto de Bliss e um grito ecoou do fundo de seu coração.
“J… já?” Seu coração batia forte contra as costelas.
Enquanto ele suava frio e perguntava sem perceber, Penelope inclinou a cabeça como se achasse a reação dele estranha.
“Como assim “já”, Bliss? Quanto tempo você acha que passou? Quanto mais cedo começar, melhor, não é?”
Ela tinha razão. Esse era o objetivo desde o início, então ele deveria estar feliz, mas…
De repente, Bliss percebeu que não estava nem um pouco preparado para encontrá-lo. Xingar alguém sozinho através da mídia é uma coisa totalmente diferente de ver Cassian Strickland andando, falando e se movendo bem na sua frente. Claro, até porque ele é um ser humano vivo.
E se ele me reconhecer?
“O que houve, Bliss? Há algum problema?” Sentindo que a expressão dele não estava boa, Penelope perguntou preocupada.
Bliss fechou a boca por um instante, prestes a dizer que não era nada. Seria a palpitação do seu coração fruto da ansiedade ou…?
“Na verdade, eu não tinha pensado nisso até chegar aqui… mas e se o Cassian me reconhecer?”
Já fazia mais de 10 anos desde que se viram. Bliss já havia crescido tanto que a probabilidade era quase zero, mas… Penelope parecia ter a mesma opinião, pois acenou negativamente e riu levemente.
“Ele não vai reconhecer, não se preocupe.”
“Mas a senhora me reconheceu.” Quando Bliss apontou isso com uma voz desanimada e baixou a cabeça, Penelope acariciou seu braço gentilmente.
“Isso é porque você era uma criança marcante.” Ao levantar a cabeça hesitante, Bliss encontrou o olhar dela e Penelope sorriu.
“Sim, o rosto daquela criança loiro-platinada de olhos azul-safira que corria inocentemente ainda permanece igual.”
“Se é assim, o Cassian também…”
“Mas esse é o meu caso.” Penelope mudou o tom e o interrompeu com firmeza.
Diante de um Bliss estático e em silêncio, ela suavizou o tom novamente para consolá-lo.
“É que você sempre esteve nos meus pensamentos.”
“Eu?”
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...