CAPÍTULO 33 - Senhor Tang Faz o Mal e Não Escapa Dele
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O Eunuco Wang não podia deixar de manter uma boa expressão naquele momento. Depois de ter recomendado Tang Fan na noite anterior, ele já o havia amarrado ao próprio barco. Se o outro causasse qualquer situação que lhe trouxesse problemas, ele, como o endossante, inevitavelmente acabaria levando parte da culpa junto. Era óbvio que Shang Ming estava por perto, esperando para rir dele.
O Depósito Ocidental havia sido criado recentemente, e não existia há tanto tempo. Não podia se comparar à longa história do Depósito Oriental, mas ainda assim estava em alta — cem por cento requisitado. Quem não queria uma vida de prestígio igual à do Depósito Oriental, tendo inúmeros subordinados sob seu comando, sendo anunciado por onde passasse e empunhando um imenso poder? Até mesmo oficiais medianos, como Liang Fang, olhavam para o Depósito Ocidental com cobiça e inveja. Apesar de ter a Consorte Wan como apoiadora, Wang Zhi ainda precisava agir com cautela.
No início desse caso, a Consorte Wan o havia convocado ao palácio para uma conversa pessoal e lhe perguntado como o assunto deveria ser tratado. Imediatamente, ele pensou em Tang Fan.
O Eunuco Wang conhecia muitos oficiais e também tinha vários subordinados dispostos a servi-lo. No entanto, quando se tratava de julgar casos e emitir veredictos, Tang Fan parecia ser o mais confiável entre as pessoas que ele conhecia. Pela ideia que o homem havia passado através de Pan Bin, Wang Zhi concluiu que ele era inteligente, habilidoso, esperto e adaptável — alguém que poderia se comparar a Liu Ji.
A situação era urgente, e na pressa, Wang Zhi não teve tempo de consultar Tang Fan antes de recomendá-lo. Pensou que o outro era sagaz e conseguiria compreender rapidamente os detalhes do caso, sem cometer erros.
Mas, inesperadamente, aquele sujeito parecia refinado e esperto por fora, enquanto, na verdade, era ríspido e inflexível. Primeiro, ele tomou a dianteira diante do Imperador e da Consorte, assustando Wang Zhi a ponto de suar frio. Depois, disse aquelas palavras a ele, o que o fez passar a noite inteira sem dormir. Com arrependimento no coração, o Eunuco Wang sentia que havia julgado o homem completamente errado.
Ainda assim, o que estava feito não podia ser desfeito. Ele não podia simplesmente voltar ao Imperador, admitir que havia sugerido a pessoa errada e pedir para trocá-la. Tudo o que lhe restava era engolir o orgulho, ir cumprimentar Tang Fan e sondar o terreno, para evitar que o outro cometesse algum erro e o arrastasse junto na queda.
Wang Zhi ignorou o olhar arregalado de Bian Yu e apenas deu um tapinha no ombro de Tang Fan, abrindo um sorriso largo.
— Dormi muito bem, é claro! — disse, puxando-o pelo ombro e começando a andar.
Tang Fan pensou consigo mesmo que a força do Eunuco Wang era considerável, quase comparável à de Sui Zhou. Com um puxão, ele simplesmente não conseguiu resistir.
Assim que os dois ficaram de costas para os outros, a expressão de Wang Zhi mudou.
— Tang Runqing, este Eunuco vai te dar um aviso amigável — disse em tom grave. — Este caso é de grande importância. Se descobrir algo, precisa me manter informado o tempo todo. De forma alguma tome decisões por conta própria, ou então sua causa da morte será “desconhecida”. Sua Majestade tem um coração brando e não gosta de matar pessoas, mas isso não significa que não haja exceções.
Tang Fan sorriu.
— Você me dá importância demais, Eunucho Wang. Sou apenas um juiz insignificante. Como poderia influenciar a situação geral? Além disso, nada está definido ainda. É difícil até dizer quais são os fatos verdadeiros. Já que você mesmo afirmou que a Consorte não está envolvida, por que está tão tenso?
Wang Zhi abaixou ainda mais a voz.
— Pare de fingir ignorância! Se não fosse por sua sugestão de se aproximar do Palácio do Leste, eu nem teria te trazido aqui. Vou ser direto: o assassino não pode ser nem a Consorte, nem alguém do Palácio do Leste!
Tang Fan balançou a cabeça.
— Não há motivo para preocupações infundadas, Eunucho Wang. Pelo que vejo, o Palácio do Leste não tem relação com isso.
Wang Zhi o olhou com desconfiança.
— Tem certeza?
— Quando eu estava na Academia Hanlin — explicou Tang Fan pacientemente —, cheguei a ler um ensaio escrito pelo Príncipe Herdeiro. Ele havia acabado de começar os estudos, e seu estilo era imaturo, nada impressionante. Mas, como dizem, “a escrita reflete o homem”. Ele é jovem, incapaz de disfarçar o que sente. Se houvesse malícia em seu coração, isso certamente apareceria entre as palavras. Contudo, no que li, tanto no ensaio quanto nos caracteres copiados, cada traço revelava sua natureza: honesta, estável e até um tanto gentil. Percebi que ele era uma pessoa de coração aberto, que não culpa os deuses nem os outros pelas dificuldades da infância, nem oculta pensamentos profundos e sombrios. Um homem assim dificilmente sacrificaria a vida de seu companheiro para incriminar a Consorte Wan. Ela está apenas pensando demais.
O outro soltou um suspiro de alívio.
— Se o que você diz for verdade, será o melhor.
Tang Fan riu.
— Que vantagem eu teria em mentir para você? Um país com um governante sábio é um país de grande fortuna; se não fosse assim, por que eu teria sugerido que você se aproximasse do Palácio do Leste?
Na Grande Ming, a maioria dos oficiais civis não tinha grande consideração pelos eunucos da corte, mesmo quando precisavam lidar com eles. Mesmo um eunuco famoso dificilmente teria mais espaço nos registros históricos do que um oficial civil mediano — e estes exigiam padrões muito mais altos dos eunucos do que de si mesmos. Se um eunuco tivesse um pouco de poder e tomasse decisões impetuosas, logo seria rotulado como “eunuco corrupto”.
Tang Fan, porém, via as coisas de outra forma.
Para alguém na vida pública, ser um oficial ganancioso ou corrupto não era difícil: bastava aproveitar as oportunidades (mas não em excesso), estar no lugar certo nos momentos críticos e jamais se opor ao Imperador. Seguindo esse caminho, o sucesso e uma aposentadoria gloriosa eram garantidos.
Ser um oficial íntegro e reto também não era difícil: quanto mais justo fosse, menos importância davam a ele. E, quando descobrissem alguma falha, o criticariam sem piedade — nem o próprio Imperador escaparia das repreensões. No fim, acabaria exilado ou preso, mas seu nome seria lembrado pelas gerações seguintes.
Agora, ser um oficial realmente disposto a realizar algo era o mais difícil de tudo. A maioria dos colegas acima, abaixo e ao redor não fazia absolutamente nada. O que se podia fazer? Nada, exceto unir quem pudesse ser unido e evitar dividir o mundo entre “bons” e “maus” de forma absoluta. Enquanto alguém fosse capaz de trabalhar — ou de ajudar no trabalho —, essa pessoa poderia se tornar um aliado.
Sob esse ponto de vista, Wang Zhi não era de todo ruim. Ele também queria realizar coisas boas. O problema era que, como eunuco, sua posição era limitada; e, por causa de sua natureza autoritária, acabou derrubando muitos oficiais de seus cavalos enquanto comandava o Depósito Ocidental, o que manchou sua reputação.
Por essa razão, Tang Fan lhe havia sugerido aquele plano — esperando que Wang Zhi usasse seu poder de forma mais produtiva, em vez de gastar toda a energia em eliminar opositores ou maquinar contra pessoas como Shang Ming dia e noite.
Eunucos deveriam ter objetivos de eunucos.
O que trazia certa satisfação era que Wang Zhi o havia escutado.
O que era lamentável, porém, era que o plano feito para beneficiar Wang Zhi acabara recaindo sobre a cabeça do próprio Tang Fan.
Quem pratica o mal não escapa de suas consequências. Tang Fan estava completamente sem saída; sem conseguir lidar com as insistências do Eunuco Wang, não teve escolha senão revelar a ele sua análise inicial sobre o Príncipe Herdeiro.
Wang Zhi finalmente se acalmou. Ao perceber que Tang Fan não tinha intenção alguma de desafiá-lo, sua expressão passou de nublada a ensolarada.
— Então, quem você acha que é o assassino? — perguntou.
— A investigação ainda nem começou, e eu não sou um deus. Como poderia saber? — respondeu Tang Fan, já irritado. — Mesmo o que eu disse agora há pouco foi apenas uma opinião pessoal. No máximo, pode servir como um complemento aos detalhes do caso. Tudo precisa de provas.
Wang Zhi soltou um risinho.
— Se você conseguir descobrir a verdade rapidamente, garanto que direi boas palavras a seu favor diante de Sua Majestade e da Consorte! Seu posto certamente será promovido!
Tang Fan suspirou.
— Se serei promovido ou não, isso é o de menos. Só peço, Eunucho Wang, que tenha piedade de mim e não jogue novas tarefas sobre minhas costas sem me consultar antes.
O outro assentiu.
— Está bem. Da próxima vez, eu te aviso com antecedência, então.
Tang Fan ficou em silêncio.
Sentindo-se satisfeito, o rosto delicado e belo de Wang Zhi assumiu um ar ainda mais afeminado, quase como o de uma donzela. Tang Fan, que acabara de testemunhar sua força, jamais o colocaria no mesmo grupo dos outros eunucos fracos e frágeis.
Devido à natureza delicada do caso, não se podia revelar muitos detalhes. Ainda assim, ao olhar para Sui Zhou, o Eunuco Wang não foi ríspido com sua identidade de Guarda de Brocado, mas sim lançou-lhe um sorriso significativo.
— Ouvi dizer que você e o Centurião Sui têm uma boa amizade, a ponto de dividirem o mesmo quarto. Parece que os rumores estavam certos — agora vocês até realizam missões juntos!
Um momento… o que ele quis dizer com “dividir o mesmo quarto”?
Quanto mais Tang Fan ouvia, mais achava aquela conversa estranha.
— O aluguel na capital é caro. Aconteceu de o Irmão Sui morar sozinho, então ele convidou a mim e à minha irmãzinha para ficarmos com ele — explicou depressa. — Este caso é complicado, e os oficiais de Shuntian não são muito confiáveis, por isso pedi, sem vergonha alguma, que ele me ajudasse. Felizmente, ele é um amigo leal e aceitou. Sou realmente grato por sua bondade!
Wang Zhi fez um “oh”, prolongando o som com uma expressão carregada de segundas intenções. Tang Fan não fazia ideia do que exatamente o outro insinuava, até ouvir:
— Eu também tenho uma casa vazia na capital. Se não se importar, Runqing, você poderia se mudar para lá. Assim não precisa incomodar o Centurião Sui dessa forma.
Tang Fan recusou imediatamente, sem nem pensar.
— Agradeço muito sua generosidade, Eunucho Wang. Mas sou preguiçoso por natureza e não gosto de mudanças, então prefiro não incomodá-lo.
Que piada! Fazer amizade com um eunuco imperial já era arriscado o bastante — morar na casa dele era algo totalmente diferente.
Com um sorriso largo, Wang Zhi comentou que era uma pena e não insistiu. Virando-se para Bian Yu, disse:
— A partir de agora, você e seus subordinados obedecerão às ordens do Sr. Tang. Sempre que ele precisar de algo, façam o possível para atender. Se algo ultrapassar o alcance de sua autoridade, venha me informar.
Bian Yu não era um simples oficial. Tanto o Depósito Oriental quanto o Ocidental tinham a mesma estrutura: abaixo do Eunuco-Chefe, havia doze líderes de esquadrão, organizados conforme os doze períodos do dia — Rato, Boi, Tigre, Lebre e assim por diante. Bian Yu era o líder do esquadrão da Lebre, podendo reportar-se diretamente a Wang Zhi.
Wang Zhi já havia dado essa ordem antes, mas repeti-la agora, na presença de Tang Fan, dava ao gesto um significado muito mais especial.
Bian Yu não tinha ideia do que Wang Zhi e Tang Fan haviam conversado em particular; apenas testemunhou o eunuco, que nunca respeitava ninguém, agir de forma amável e cortês com Tang Fan. Pareciam até bons amigos — o que o deixou completamente confuso. Assim que Wang Zhi se foi, a cordialidade de Bian Yu com Tang Fan subiu a um novo nível, manifestando-se em uma disposição exagerada de permitir que ele fizesse o que quisesse.
Tang Fan não fez cerimônia. Logo pediu que o levassem para interrogar a criada que havia levado a sopa.
Por ser serva da Consorte Wan, a moça não havia sofrido tortura alguma — apenas estava presa em um pequeno quarto, com comida e abrigo garantidos. Ainda assim, o tormento psicológico já era grande o suficiente. Desde que soubera que Han Zao havia morrido depois de beber a sopa doce que ela entregara, estava em constante estado de ansiedade. Assim que viu o grupo de Tang Fan, caiu de joelhos, chorando e gritando que havia sido acusada injustamente.
— Sem choradeira! — gritou o guarda ao lado, interrompendo-a. A moça se calou na hora, como se alguém tivesse apertado seu pescoço, e apenas os olhou com olhos cheios de medo.
— Não fique nervosa — disse Tang Fan. — Fui incumbido por ordem imperial para investigar este caso. Se você não tem culpa, será considerada inocente. Vou te fazer algumas perguntas, e você deve responder com sinceridade, entendeu?
Ela assentiu várias vezes.
— Qual é o seu nome?
— Fu Ru. Esta criada se chama Fu Ru.
— Preciso saber, Fu Ru: você levou as duas tigelas de sopa ao Príncipe Herdeiro sob ordens da Consorte Wan?
— Sim.
— Ela já havia mandado comida a ele antes?
— Não.
— Se nunca tinha feito isso antes, por que decidiu fazê-lo de repente? Conte tudo em detalhes, do começo ao fim. Se esconder algo, não poderei te ajudar.
Fu Ru respirou fundo e organizou as palavras.
— Foi assim: a Consorte ouviu dizer que a Imperatriz Viúva mandava comida ao Príncipe todos os dias e também ouviu que ele gostava de beber sopa de feijão-mungo com lírios. Então, decidiu que queria imitá-la. Eu a aconselhei a não fazer isso, mas ela insistiu.
— O que você disse a ela exatamente? — perguntou Tang Fan.
— Eu disse: “O Príncipe Herdeiro ainda se lembra de sua mãe biológica, provavelmente não a esqueceu, e não é próximo da senhora. Por que causar suspeitas agindo assim? Se algo acontecer a ele, todos irão culpá-la.” Mas ela respondeu: “Ele é o Príncipe Herdeiro. Todos os outros disputam para agradá-lo, e apenas eu o ignoro. Sua Majestade me disse ontem que eu não deveria ser distante dele. Hmph! Estou fazendo isso pelo bem de Sua Majestade, para que não digam que sou uma consorte intolerante!”
— E depois?
— Depois, ela mandou a cozinha preparar a sopa e me enviou para entregá-la. A sopa foi feita na cozinha de seus aposentos, não na cozinha principal usada pelos demais. Todas as refeições dela vêm de lá. A sopa foi apanhada por mim mesma e permaneceu comigo o tempo todo, então certamente não houve nenhuma troca.
Tang Fan não perguntou mais nada. Apenas a tranquilizou e saiu com os outros.
— O corpo de Han Zao também está aqui, Sr. Tang. Deseja vê-lo? — perguntou Bian Yu por iniciativa própria.
Tang Fan olhou para Sui Zhou primeiro.
— Guangchuan, peço que vá com o Irmão Bian examinar o corpo. Eu irei ao palácio buscar o médico que atendeu Han Zao.
Sui Zhou assentiu.
— Vá.
Com o posto que Tang Fan possuía, normalmente seria impossível entrar no palácio proibido à vontade. No entanto, após ser convocado por Chenghua na noite anterior, Wang Zhi lhe havia entregue um selo de autoridade[1] para facilitar a investigação. Caso contrário, perderia muito tempo com as várias etapas burocráticas a cada entrada.
Por coincidência, ao chegar ao hospital imperial e perguntar, Tang Fan descobriu que o médico Sun, o mesmo que havia examinado os pulsos da Imperatriz Viúva, do Príncipe Herdeiro e de Han Zao, também havia sido o responsável pela inspeção no momento da morte de Han Zao. E, por sorte, ele estava de plantão naquele dia — poupando Tang Fan do vai e vem desnecessário.
Ao ouvir a ideia de Tang Fan, o doutor Sun suspirou.
— Foi realmente inesperado. Quando tomei o pulso do jovem Han, ele estava claramente saudável, sem sinal algum de enfermidade. Quem poderia imaginar que morreria dessa forma? Depois, quando fui chamado naquele dia, ele ainda respirava fracamente, mas infelizmente já era tarde demais. Seria impossível prescrever o remédio certo em tão pouco tempo. Além disso, não sou legista, nem consigo examinar o pulso de um morto, então não percebi nada de anormal.
— Mesmo assim, ainda preciso lhe pedir que vá comigo. O senhor foi o primeiro a chegar, afinal. Pode haver detalhes que ainda não descobrimos, e precisarei da sua ajuda para deduzi-los.
O doutor Sun pareceu animado.
— Pois bem, irei. Embora não tenha conseguido salvar o jovem Han, se puder contribuir com meus modestos esforços, minha consciência ficará um pouco mais tranquila.
Tang Fan o levou para fora do palácio. O homem já era idoso e não aguentava andar muito, então alugaram uma liteira e seguiram rapidamente até os portões ocidentais do palácio, indo direto ao Departamento do Oeste.
Enquanto isso, Sui Zhou examinava o corpo junto do legista do Departamento. Ao notar a chegada deles, apenas levantou um pouco o olhar e comentou:
— Não encontrei nada.
Tang Fan ficou levemente desapontado, mas ainda perguntou:
— Já examinou completamente?
— O jovem Han não possui ferimentos nem hematomas no corpo, portanto não morreu por trauma contuso — explicou o legista.
— E se foi envenenamento?
— Posso ser ousado em perguntar se se refere a um veneno de ação súbita ou de uso prolongado?
— Se foi veneno, deve ter sido algo altamente tóxico e de ação rápida — respondeu o doutor Sun.
Quando Han Zao caiu ao chão reclamando de dor no estômago, um criado do Palácio Oriental havia corrido para chamar um médico, mas mesmo com a pressa, Han Zao morreu pouco depois. O intervalo entre o colapso e a chegada do doutor Sun não passara de meia shichen, por isso ele julgava que, se fosse veneno, teria sido de ação imediata.
O legista balançou a cabeça.
— Isso faz ainda menos sentido. Se ele tivesse morrido repentinamente por envenenamento, haveria marcas visíveis mesmo sem ferimentos — o corpo ficaria arroxeado, com manchas sob as unhas, inchaço nos olhos, e assim por diante. Mas, observando o cadáver, não há nenhum indício disso.
Tang Fan examinou o corpo com atenção e, de fato, não encontrou nada suspeito.
A profissão de legista era passada de mestre a aprendiz, e o do Departamento do Oeste era certamente mais experiente do que os de Shuntian. Tang Fan não duvidava da autenticidade de seu laudo.
Se ele dizia que não havia prova, então realmente não havia.
Já que não se tratava de uma doença súbita, nem havia vestígios de veneno, isso apenas mostrava que o assassino era extremamente astuto e de imaginação brilhante.
Casos assim sempre davam dor de cabeça aos oficiais — normalmente terminavam arquivados ou com algum inocente preso apenas para “fechar” o caso e garantir uma boa avaliação funcional. Porém, como todos os envolvidos neste caso eram de alta posição, mesmo sem pistas concretas era preciso seguir um rastro — e, mesmo sem caminho, ainda assim era necessário trilhá-lo.
— Raspe o cabelo e veja — disse Sui Zhou de repente. — Se não encontrar nada, faça uma dissecção.
Tang Fan compreendeu. Sui Zhou devia ter se lembrado do caso da Mansão do Marquês, quando haviam encontrado uma depressão no topo da cabeça de Zheng Cheng — uma área que as pessoas normalmente ignoravam por estar coberta de cabelo.
Autópsias não eram novidade, e o Departamento do Oeste tinha muitos métodos, mas considerando quem o falecido era, Bian Yu hesitou.
— Isso não seria um problema? E se a família Han não permitir…
Tang Fan pensou um instante.
— Raspar a cabeça antes está bem. No ponto em que estamos, só há um objetivo — descobrir a verdade. Tudo o mais é negociável. Eu cuidarei da família Han.
Com essas palavras, Bian Yu não protestou mais e mandou trazer uma navalha. O legista a empunhou pessoalmente — a lâmina era afiada, e em poucos movimentos, mecha por mecha, o jovem Han ficou completamente careca.
O corpo de uma pessoa vem da carne dos pais[2]; mesmo após a morte, isso ainda era visto como algo ofensivo. Ao ver Tang Fan e Sui Zhou apalpando a cabeça do falecido, o doutor Sun franziu os lábios e desviou o olhar, incapaz de suportar a cena.
Nesse momento, ouviu Tang Fan soltar um leve suspiro e, curioso, voltou-se. Viu-o inclinar-se sobre o cadáver e apontar para o ponto da fontanela anterior.
— Parece haver um pouco de vermelhidão aqui. A navalha o cortou sem querer?
— Não, fui extremamente cuidadoso — respondeu o legista. — Além disso, ele já está morto…
Ele também se aproximou e olhou de perto, intrigado.
— Por que parece haver uma leve contusão aqui? — murmurou. — Mas não há ferimento algum!
— Esperem! Ninguém se mova! — gritou de repente o doutor Sun.
Sua voz foi tão alta que todos se viraram para ele ao mesmo tempo.
Um pouco envergonhado, o velho se apressou em chegar mais perto. Sem se preocupar com limpeza, apalpou a área por um tempo, depois estreitou os olhos, examinando com atenção.
— Uma contusão, uma contusão… — murmurava repetidamente.
Tang Fan não se conteve:
— O senhor descobriu algo, velho Sun?
O doutor assentiu, depois balançou a cabeça.
— Esperem um momento, esperem um momento…
Vendo-o assim, todos ficaram quietos, observando.
A mão dele desceu da fontanela de Han Zao, passou pela testa, mandíbula, pescoço e esterno, até parar cerca de um cun acima do umbigo.
Depois, inclinado, ele examinou o local cuidadosamente. À medida que pressionava, sua expressão passou da calma para o choque e a fúria, alternando-se sem parar enquanto murmurava:
— É isso mesmo! É isso mesmo!
— O que o senhor encontrou, velho Sun? — perguntou Tang Fan.
O médico fez sinal para ele se aproximar.
— Venha ver, senhor Tang.
Tang Fan se aproximou, e o doutor apontou para que ele mesmo apalpasse o ponto. Ele o imitou, sem entender o motivo.
Han Zao estava morto havia mais de um dia, o corpo já rígido e sem elasticidade. Ainda assim, ao pressionar, Tang Fan sentiu algo estranho.
Havia algo ali dentro!
Ele olhou para o doutor Sun, que confirmou com a cabeça.
— Parece uma meia agulha… mas só teremos certeza se a retirarmos.
O legista assumiu a tarefa, tateou o ponto indicado e, em seguida, pegou uma pequena faca afiada e fez uma incisão cuidadosa.
A pele se abriu, mas nenhum sangue escorreu. O legista, com uma pinça, puxou rapidamente o objeto estranho.
Ao observarem de perto, todos ficaram surpresos.
Era uma agulha de prata, com menos de meio cun de comprimento, e tão fina quanto um fio de cabelo.
Tão delgada que, se caísse no chão, seria quase impossível de enxergar.
E ainda assim, uma agulha dessas havia sido encontrada no abdômen de Han Zao — algo extremamente estranho.
O doutor Sun suspirou.
— Cruel. Verdadeiramente cruel. Médicos devem ter o coração de pais — como alguém pode ser tão impiedoso a ponto de imaginar um método desses para matar alguém?!
— Doutor Sun, o que quer dizer com isso? — perguntou Tang Fan depressa.
Em geral, uma agulha tão curta e fina, ao penetrar o corpo de alguém, poderia nem ser sentida — no máximo, uma dor leve. Como, então, ela poderia ter sido usada para matar?
Além disso, qual era a relação entre a contusão na fontanela e a agulha no abdômen? E como o doutor Sun havia percebido a anormalidade da contusão e seguido essa pista até encontrar a agulha?
–
[1] Selo de autoridade: um tipo de insígnia oficial usada por eunucos ou enviados do imperador para garantir acesso livre e poder de investigação dentro do palácio.
[2] Referência confuciana clássica: “O corpo, o cabelo e a pele são recebidos dos pais; não se deve danificá-los — este é o começo da piedade filial.”
CAPÍTULO 33 - Senhor Tang Faz o Mal e Não Escapa Dele
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The Fourteenth Year of Chenghua
No décimo quarto ano de Chenghua, o harém imperial tinha uma Consorte Wan, assim como o Depósito Ocidental tinha um Eunuco Chefe chamado Wang Zhi. O Príncipe Herdeiro Zhu Youcheng tinha apenas...