CAPÍTULO 42 - Um Gênio Difícil
[Arco 4: No Ministério da Justiça]
Deixando de lado como diabos eles tinham acabado apostando, Tang Fan saiu da residência de Wang Zhi, percebeu que o shíchen estava mais ou menos no horário certo e seguiu direto para casa.
Por causa do recente caso do Palácio Oriental, ele vinha correndo de um lado para o outro entre o palácio e o Depósito Ocidental, e às vezes até a residência da família Han. Não podia trabalhar normalmente em Shuntian, mas o senhor Pan ficou feliz em lhe conceder uma licença temporária, para que ele não precisasse ir todos os dias se apresentar ao gabinete, podendo esperar o encerramento do caso para retornar.
Ambos envolviam investigações, claro, mas ter de comparecer pontualmente todos os dias ao gabinete e poder trabalhar de forma livre eram conceitos completamente diferentes. Embora Tang Fan não fosse o tipo de oficial que levava a vida empurrando com a barriga, ele ficava bastante satisfeito em conseguir enfiar um pouco de preguiça aqui e ali de vez em quando.
Agora que o caso havia chegado ao fim, sua vida livre também estava prestes a acabar. Era difícil não se sentir um pouco abatido. Ele não fez o desvio habitual até aquela barraca conhecida de wontons, indo direto para casa. O ideal seria que Ah-Dong estivesse em casa cozinhando hoje. Ele definitivamente não queria repetir o desastre da última vez, quando comeu nuomici de estômago vazio e acabou passando mal.
O céu foi escurecendo aos poucos. Quando ainda estava a certa distância de casa, Tang Fan já conseguia ver vagamente a fumaça do fogão subindo da direção da cozinha. De repente, parecia até que ele conseguia sentir o cheiro da comida, o que melhorou bastante seu humor. Ele começou a cantarolar baixinho, apressando o passo.
Não importa aonde você vá, casa ainda é o melhor lugar!
O portão do pátio não estava trancado, apenas entreaberto. Assim que entrou, ele ouviu uma explosão de conversa e risadas vindo de dentro. No meio delas, parecia haver vagamente uma voz masculina familiar.
Sui Zhou tinha voltado?
Tang Fan se assustou por um instante, mas logo um sorriso surgiu em seu rosto.
Antes mesmo de dar alguns passos para dentro, porém, ele percebeu que a porta ligando o salão principal à sala de jantar estava escancarada, revelando uma mesa cheia de pratos fumegantes. Ah-Dong acabara de sair da cozinha carregando um prato, chamando enquanto andava:
— Irmão Sui, irmã Zhou, a comida está pronta! O irmão mais velho com certeza não vai voltar para comer de novo, então vamos começar agora!
Um homem e uma mulher estavam de pé ao lado da mesa no salão.
O homem era, naturalmente, Sui Zhou, que não aparecia havia muitos dias. Ele parecia um pouco mais magro, mas também ainda mais afiado — provavelmente tinha voltado fazia pouco tempo. Não vestia aquele uniforme intimidador da Guarda Bordada, mas roupas comuns, o que o fazia parecer uma espada preciosa ainda não desembainhada, uma lâmina saciada de sangue escondida sob trajes ordinários.
Alguém assim simplesmente não precisava de roupas luxuosas, nem de se proteger com uma lâmina afiada. Bastava estar ali parado para ser impossível de ignorar.
A mulher era a prima Zhou que Tang Fan encontrara outro dia, aquela que tinha vindo procurá-lo sem sucesso. Por acaso, hoje ela tinha dado de cara com ele.
Tang Fan não sabia o que ela havia dito, mas o rosto severo de Sui Zhou suavizou visivelmente em um leve sorriso. A risada dela se espalhou pelo ambiente como o tilintar de sinos de prata. A distância entre os dois não era nem próxima demais, nem distante demais — estava na medida exata. Os braços pareciam quase se tocar, mas ao mesmo tempo não se tocavam. Aos olhos de Tang Fan, era uma ambiguidade ao mesmo tempo concreta e indefinida.
Ah-Dong entrou saltitando no salão com o prato, disse algo à mulher, e as duas riram juntas, parecendo bastante próximas.
Desde quando vocês se conhecem, hein? Já ficaram grudadas assim de imediato! Você é mais carinhosa com ela do que comigo, seu próprio irmão! pensou ele.
Ele jamais admitiria que estava se sentindo um pouquinho azedo.
O ângulo em que ele se encontrava ficava exatamente bloqueado por uma árvore, e o dia já estava escuro. Ninguém o notaria ali por enquanto.
Vendo os três se sentarem, como se realmente fossem comer sem esperar por ele, Tang Fan não avançou. Em vez disso, quase sem perceber, virou-se e recuou silenciosamente.
Sempre que o manto da noite caía, incontáveis lares acendiam suas lanternas para os reencontros. Ele normalmente não era do tipo sensível ou propenso a remoer coisas, mas, por algum motivo, hoje, ao ver aquela cena dos três conversando e rindo em volta da mesa… ele se sentiu um pouco sobrando, como se fossem uma família, e sua entrada naquele momento só os atrapalharia.
A mais detestável de todas era Ah-Dong. Meninas que crescem não ficam mais em casa, é isso? Ela ainda nem tinha crescido, mas já estava louca para se aconchegar com estranhos!
Tang Fan resmungou para si mesmo, sem perceber o erro na escolha das palavras em seu raciocínio.[1] Ele deu uma volta pela residência dos Sui, com as mãos para trás como um velho, e logo acabou chegando ao portão interno do pátio dos fundos.
Sentindo o cheiro da comida vindo de dentro, esfregou o estômago, ficando ainda mais faminto. Pensou se não deveria sair para procurar algo para comer antes de voltar, mas tinha corrido demais de um lado para o outro nos últimos dias. Mesmo tendo usado liteiras às vezes, ainda assim não conseguia acompanhar quem se deslocava diariamente; assim que relaxava, suas pernas ficavam absurdamente doloridas e fracas, deixando-o preguiçoso demais para se mexer. Acabou sentando no batente da porta dos fundos, encarando distraído o céu cheio de estrelas.
O começo do outono já se aproximava, e depois que anoitecia ficava frio.
Não muito tempo depois, ele espirrou, vencido pelo cansaço. Encostou a cabeça no batente da porta e, sem perceber, adormeceu ali mesmo.
Após um tempo indefinido, abriu os olhos, sentindo algo mais pesado sobre si. Estava completamente escuro, mas a luz vinda do interior da casa lhe permitiu ver quem estava à sua frente.
— Guangchuan? — murmurou sonolento, e só então percebeu quem mais estava ali. — Ah-Dong… por que vocês dois estão aqui?
Só então ele percebeu que a sensação de peso vinha da capa que Sui Zhou havia colocado sobre ele.
Ah-Dong colocou as mãos na cintura, piando para ele:
— Quer explicar isso, irmão mais velho? A gente esperou e esperou, mas você não voltava! Ficamos mortos de preocupação! O irmão Sui até ia sair para procurar você, mas você estava escondido aqui! Por que não entrou?!
Tang Fan acabara de acordar; seus olhos estavam vazios e o rosto inexpressivo, ainda meio inconsciente. Vendo que Ah-Dong ia continuar, Sui Zhou a interrompeu e ajudou Tang Fan a se levantar.
As pernas dele tinham ficado dormentes por ficar sentado tanto tempo. Com o rosto se contorcendo, ele quase caiu para frente — mas, felizmente, Sui Zhou tinha olhos atentos e mãos rápidas, segurando-o pela cintura.
— Consegue andar? — as sobrancelhas franzidas deixavam bem claro que, se não conseguisse, ele o carregaria.
Pelo bem de sua dignidade masculina, o senhor Tang respondeu rápido:
— Consigo sim, só fiquei sentado tempo demais. Daqui a pouco melhora.
— Por que não entrou? — perguntou Sui Zhou, repetindo a pergunta de Ah-Dong.
Tang Fan sentiu uma culpa inexplicável e tocou o nariz.
— Eu estava meio cansado quando cheguei, então pensei em sentar aqui um pouco. Não achei que fosse acabar dormindo sem querer.
Assim que disse isso, percebeu o quão fraca era sua desculpa.
Quem era Sui Zhou? Um oficial do Bastião do Norte, especialista em interrogatórios. Como ele não saberia distinguir quando Tang Fan mentia e quando dizia a verdade?
Sob o olhar silencioso do outro, Tang Fan se sentiu ainda mais culpado.
Sui Zhou o observou por um bom tempo.
— Vamos voltar — disse por fim. — Vá preparar uma sopa de gengibre, Ah-Dong. Ela concordou e saiu correndo.
Ninguém rejeita o conforto de ser cuidado, e Tang Fan não era exceção. O pequeno incômodo que sentira antes se dissipou, e ele sorriu ao ver Ah-Dong correr até a cozinha. Sentia que, desde que reconhecera essa irmãzinha, sua qualidade de vida tinha melhorado bastante.
Suspirando pela própria boa sorte, virou a cabeça e percebeu que Sui Zhou o observava.
— O que você está olhando? — perguntou.
— Você está magro — concluiu o outro, depois de encará-lo por um bom tempo.
— Não estou, não? — Tang Fan apalpou a própria bochecha, sem notar nada de errado.
— Hm. Está sim. — Sui Zhou parecia ter perguntado e respondido a si mesmo, anotando a conclusão mentalmente. — Enquanto eu não estava em casa, como você e Ah-Dong estavam se alimentando?
Tang Fan sorriu.
— Como assim, como eu estava comendo? Não deixei de fazer três refeições por dia. Só que, investigando o tempo todo, às vezes pular uma era inevitável.
— E a Ah-Dong?
A menina entrou nesse momento com uma tigela fumegante de sopa de gengibre. Tang Fan suspirou, meio se lamentando, meio brincando:
— Ela passou os dias bem mais confortavelmente do que eu. Às vezes ia brincar na casa da sua família com sua irmã, ficava para o jantar e até dormia lá. Outras vezes, comia na casa dos vizinhos. Uma vida dessas até economiza comida aqui em casa!
Ah-Dong colocou a língua para fora, fazendo bico:
— Quem mandou você nunca estar em casa, irmão? Eu deixo comida para você, mas você não come. Aí acaba estragando…
Interrompendo a reclamação dela, Sui Zhou perguntou:
— Você ainda não jantou, certo?
Tang Fan pigarreou, constrangido, sem responder.
Diante do silêncio dele, Sui Zhou simplesmente se levantou e saiu. Assim que ele saiu, Tang Fan puxou Ah-Dong:
— Quem foi que ofendeu ele? Por que ele está com cara de quem está devendo oitocentas cordas de moedas?
Ela torceu o nariz.
— “Quem”? É você que está devendo a ele!
Ele revirou os olhos.
— Para de mentir. O que isso tem a ver comigo?
— Como não tem a ver? A gente preparou a comida e ficou esperando você, mas você não voltou. O irmão Sui mandou eu e a irmã Zhou começarmos a comer, mas ele mesmo não tocou nos hashis! Me diz: dá pra ele ficar feliz sem ter comido?
Tang Fan foi pego de surpresa.
— Ele também não comeu?
Ele tinha visto claramente todos sentados, prestes a comer…
Ah-Dong riu.
— Como ele poderia? Ele é bem leal. Como estava esperando você, ficou encarando uma mesa cheia de comida sem mexer um dedo! Tinha até perna de cordeiro assada com mel e fu rong de ovo que ele mesmo fez! Quando ele mandou a gente comer, a irmã Zhou ainda fez cerimônia, mas eu não aguentei, estava babando. Peguei os hashis e comecei…
O estômago vazio do pobre senhor Tang deu um nó, e sua expressão ficou completamente abobalhada[2] ao ouvir isso. Ele também começou a babar com as descrições vívidas e realistas dela.
Droga… se ele soubesse disso antes, teria entrado! Para que serve dignidade? Tang Runqing, ah, Tang Runqing — dignidade não enche a barriga!
Ele beliscou a bochecha dela.
— Você realmente não segue o código entre irmãos, garotinha. Não me diga que não deixou nada para mim?
— A perna de cordeiro não fica boa fria! — ela protestou, indignada. — E não é exagero, viu? O irmão Sui cozinha muito bem! O cordeiro ficou dourado, ainda pingando gordura. Quando estava quase pronto, ele passou uma camada de mel e assou mais um pouco, até ficar com aquele cheirinho tostado. Quando eu comi, ainda estava fumegando, sem nem falar de como estava macio. Eu pensei: “Que pena que o irmão mais velho não pode comer isso tudo de gostoso, fazer o quê!” Então tive que ajudar você comendo mais, né? Comi quatro fatias seguidas! Fiquei cheia! O fu rong também estava delicioso, mas eu já não aguentava mais comer. Ai…
A tristeza no coração dele já tinha transbordado fazia tempo. Para de falar…
— Além disso, a irmã Zhou cozinhou alguns pratos, mas achei mais ou menos. Só dei uma mordida e não toquei mais. Percebi que ela também quase não comeu. Irmão, vou te contar um segredo: acho que ela gosta do irmão Sui, igual a irmã Ah-Xia gostava de você antes. Enquanto a gente comia, ela ficava roubando olhares para ele, mas ele fingia não ver nada. Foi tão engraçado… — Ela parecia uma galinha-mãe tagarela, falando animada, gesticulando tanto que quase deu um soco no olho dele.
Sem graça nenhuma, Tang Fan cutucou a menina, indicando que ela já estava passando dos limites. A coisinha, infelizmente, não captou o recado e continuou fofocando sobre Sui Zhou e a prima.
— Ah, e mais, mais — eu ouvi ela perguntando: “Primo, você ainda se lembra do acordo entre nossas famílias quando éramos pequenos?” — Ela imitou a expressão da senhorita Zhou, apertando os olhos numa tentativa de parecer tímida.
Por pouco, ele não riu dela. Continuou observando Ah-Dong encenar aquele espetáculo, mas, seguindo a doutrina da compaixão entre irmãos, resolveu avisá-la com gentileza:
— Ah-Dong.
— O quê?! — ela respondeu, impaciente. — Você não está prestando atenção nenhuma! Tem alguém aqui explicando coisas importantíssimas!
Tang Fan segurou o queixo dela e virou sua cabeça, indicando que olhasse para trás.
Ela viu Sui Zhou parado ali, encarando-a sem expressão alguma. Não dava para saber quanto ele tinha ouvido.
Ah-Dong: “…”
Sui Zhou: “…”
Ah-Dong, fingindo subitamente demência: “…”
Ele lançou a ela um olhar sereno.
— Vá ver a lenha. Tem mingau cozinhando no fogão.
Como se tivesse recebido anistia imperial, Ah-Dong escapuliu dali numa velocidade absurda, quase voando em direção à cozinha.
O olhar de Sui Zhou voltou-se então para Tang Fan. O outro piscou, exibindo uma expressão pura e inocente de “não faço a menor ideia do que ela estava falando agora há pouco”.
— A sopa de gengibre esfriou — comentou Sui Zhou, casualmente.
— Ah… — Tang Fan respondeu, abaixando a cabeça e tomando um gole apressado.
O ambiente caiu numa espécie de constrangimento sutil. Felizmente, o senhor Tang era rápido de raciocínio e logo puxou um assunto para desviar a atenção do outro.
— E o caso que você foi resolver? Como foi?
Sui Zhou puxou uma cadeira e se sentou.
— Fomos a Jiangxi investigar Huang Jinglong, magistrado da prefeitura de Ji’an.
Tang Fan endireitou a postura, atento.
— O que ele fez?
— Os censores supervisores de Jiangxi apresentaram um memorial alegando que, nos três anos desde o décimo primeiro ano de Chenghua, mais de trezentos prisioneiros morreram sob tortura em Ji’an por causa dele. Ele alegava falsamente que haviam morrido de doença, encobrindo tudo.
Tang Fan ficou horrorizado.
— Que audácia!
Sui Zhou assentiu.
— Exato. Houve uma ordem superior para que o Ministério da Justiça e os censores supervisores colaborassem com o Bastião do Norte, indo até o local para apurar a verdade e prender Huang Jinglong, trazendo-o para a capital. Por isso tive que sair às pressas.
— E como terminou? Deu certo?
— Estava indo bem. As provas eram sólidas, e ele não conseguiu rebater. O número de mortos sob tortura chegou a quatrocentos e dezessete. Além dos trezentos e tantos prisioneiros, havia ainda algumas dezenas de pessoas presas sem culpa alguma, encarceradas e depois torturadas até a morte em segredo. No entanto, ao fazermos o levantamento dos corpos, descobrimos que cerca de uma dúzia estava desaparecida. Perguntamos novamente, mas ele não soube explicar.
— Como assim?
— Não sei. Ele só disse que não havia tanta gente assim. Mas os quatrocentos e dezessete foram contabilizados cruzando os registros da prisão com denúncias feitas pelas famílias dos mortos. Racionalmente falando, esse número não está errado — e talvez nem seja o total real.
Desde a época do imperador Yingzong, para entrar na Corte como oficial era necessário ser jinshi — ou seja, passar nos exames palacianos. Claro que isso não era absoluto: graduados provinciais também tinham seus caminhos, e alguns sortudos conseguiam ocupar cargos vagos. Mas, por maior que fosse o posto, ele dificilmente ultrapassaria o nível de Comissário Provincial, sem jamais entrar no Eixo do Poder ou no Gabinete.
Era por isso que, na Grande Ming, todos lutavam desesperadamente para passar nos exames do palácio.
Depois de anos — ou até décadas — de estudo árduo para se tornar oficial, cada um tinha suas próprias ambições: alguns queriam servir ao país, outros ajudar o povo; alguns buscavam dinheiro, outros almejavam poder para subir ainda mais. Tudo isso era compreensível.
Mas era simplesmente impensável que um magistrado de quarto grau verdadeiro, alguém que se esforçara tanto para chegar onde chegou, maltratasse prisioneiros a ponto de ser denunciado e acabar perdendo tudo.
Que tipo de retrato isso pintava, afinal?
Huang Jinglong tinha enlouquecido de tanto estudar? Tinha perdido o juízo? Ou desenvolvido algum tipo de perversão, obtendo prazer psicológico em torturar prisioneiros?
Tang Fan achava tudo aquilo difícil de acreditar, entendendo agora por que o caso havia alarmado tanto a Guarda Bordada.
— Ele não tentou explicar suas motivações?
Sui Zhou balançou a cabeça.
— Depois de preso, não disse uma única palavra. Recusou-se a revelar qualquer coisa.
Depois que Huang Jinglong foi levado à capital, a missão foi considerada concluída. Outros departamentos cuidariam do restante, e Sui Zhou não precisaria mais se envolver.
Enquanto conversavam, Ah-Dong entrou carregando uma tigela. O aroma acompanhou a brisa criada pela porta se abrindo e foi direto ao nariz de Tang Fan.
O estômago dele, já aquecido pela sopa de gengibre, roncou imediatamente.
— Que cheiro bom! — ele não resistiu.
— Claro que cheira bem, foi o irmão Sui que cozinhou! — ela bajulou, colocando a tigela na mesa. — Tem carne moída, shiitake, aipo e amendoim picado! Ele é uma pessoa realmente ótima, irmão! Uma pessoa realmente ótima!
Depois de ter sido flagrada por Sui Zhou imitando a prima Zhou com precisão excessiva, Ah-Dong claramente tentava se redimir. Pena que, por ser jovem demais, seu repertório de elogios fosse limitado; só conseguiu repetir “uma pessoa realmente ótima” várias vezes.
Tang Fan lançou-lhe um olhar enviesado. Sem desmascará-la, abaixou a cabeça, pegou uma colherada do mingau escaldante, soprou e comeu.
O arroz estava bem macio, cozido até o ponto certo, com o sabor da carne se espalhando pela boca. Os shiitakes e o amendoim elevavam o sabor a outro nível. Nem era preciso mastigar muito; era uma textura suave, perfeita para o estômago de alguém que estava faminto havia dias. Para o senhor Tang, era ideal.
Sem dizer mais nada, ele se concentrou totalmente em comer.
Vendo isso, Sui Zhou também pegou sua colher.
Quando já tinham comido quase tudo, o ritmo diminuiu.
— Muitas coisas aconteceram em Shuntian nesse meio-tempo? — perguntou Sui Zhou.
Lembrando-se do comentário sobre estar magro, Tang Fan balançou a cabeça.
— Não em Shuntian.
Ele mandou Ah-Dong dormir e então contou a Sui Zhou o que havia acontecido.
Assuntos envolvendo o palácio eram delicados demais; havia muita coisa que não podia ser dita. Por mais próximo que fosse de Sui Zhou, falar demais poderia ser perigoso. Saber demais, às vezes, era fatal.
Ele selecionou apenas alguns pontos principais, deixando muita coisa subentendida. Não havia necessidade de explicar em detalhes — com a inteligência de Sui Zhou, ele entenderia.
Após ouvir tudo, Sui Zhou ficou em silêncio por um bom tempo, como se refletisse.
— Há muitos segredos ainda não revelados nisso tudo — disse por fim. — Wang Zhi não sofre restrições por ser eunuco, mas, com a sua posição, é melhor não se envolver fundo demais.
O recado era claro. Wang Zhi era um eunuco querido pelo Imperador e pela Consorte; já Tang Fan era um oficial externo, e ainda por cima de baixo escalão. Se soubesse demais e desagradasse alguém lá em cima, bastaria um gesto descuidado para que fosse descartado.
Tang Fan sorriu.
— Fique tranquilo. O assassino já vai ser executado, então não preciso me preocupar com o resto. Daqui em diante, não vou me meter nos assuntos do eunuco Wang.
Mesmo sendo inteligente e de visão ampla, ele jamais poderia prever que, a partir dali, teria inúmeros encontros com o eunuco Wang — nem que sua carreira política, que deveria ter sido tão breve quanto uma estrela cadente, tomaria um rumo completamente diferente.
Ele terminou o mingau e afastou a tigela.
— A Ah-Dong já cozinha muito bem, mas você é ainda melhor — elogiou. — Comparado a você, eu sou um idiota que não sabe nem distinguir esquerda de direita!
Um leve sorriso surgiu nos olhos de Sui Zhou.
— Já que estou aqui, por que você precisaria fazer isso?
É… quando a Ah-Dong se casar, e você também tomar uma esposa… o que vai ser de mim?
O senhor Tang, amante da boa comida, não ficou nem um pouco feliz com aquela resposta. Pelo contrário, ficou abatido.
Já estava tarde. Os dois conversaram mais um pouco e então foram para seus respectivos quartos descansar.
Mesmo com a sopa de gengibre, no dia seguinte o senhor Tang pegou um resfriado. A doença veio forte, derrubando-o de vez. Ele ficou de cama, tossindo sem parar, com um pouco de febre, o rosto vermelho e os olhos marejados.
Abrir mão de algo sempre vinha acompanhado de ganhar outra coisa — essa era a verdade. Ele não precisava ir ao gabinete, nem trabalhar. Finalmente podia pedir licença médica com toda a legitimidade do mundo e ficar de molho em casa.
A doença era desconfortável, mas o tratamento dado aos doentes era especial. Alguém cozinhava para ele e levava a comida direto à sua boca; ele nem precisava lavar o rosto, pois alguém espremia um pano e fazia isso por ele.
Mesmo assim, o senhor Tang não se sentia sortudo.
Olhando agora para o mingau branco e os legumes em conserva à sua frente, sentiu o paladar desaparecer.
— Não dá pra colocar algo mais forte nisso? Nem que seja carne temperada ou carne cristal — implorou a quem estava diante dele.
Vendo a expressão miserável de Tang Fan, Sui Zhou até teve vontade de rir, mas seu rosto permaneceu frio e indiferente.
— Não.
Tang Fan espirrou, quase chorando. Os olhos ficaram enevoados, o nariz coçando, deixando-o ainda mais digno de pena.
O coração do centurião Sui era realmente feito de ferro. Ele permaneceu impassível, apenas empurrando o mingau para ele.
— Vai comer sozinho ou quer que eu te dê na boca?
— Eu como, eu como! — o senhor Tang ergueu a bandeira branca em rendição.
Que piada. Se isso se espalhasse, sua reputação de homem sagaz iria por água abaixo.
Mas, assim que olhou para aquele mingau insosso e os legumes absurdamente salgados, perdeu totalmente o apetite.
Foi então que sua estrela salvadora desceu dos céus.
Ah-Dong abriu a porta e entrou.
— Irmão, tem alguém lá fora procurando você. Ele parece muito importante e disse que é do Depósito Ocidental.
Tang Fan sentiu como se tivesse recebido um perdão imperial. Quando ia largar a tigela, recebeu um olhar gelado de Sui Zhou e, envergonhado, voltou a erguê-la.
Sui Zhou mandou Ah-Dong vigiar Tang Fan para garantir que ele comesse o mingau, e então saiu. Assim que passou pela porta, viu duas pessoas se aproximando.
O da frente vestia roupas comuns, mas caminhava com as mãos para trás. Bastava um olhar para perceber, pela arrogância natural, que se tratava de alguém poderoso — alguém que até Sui Zhou reconhecia.
O visitante era o recentemente famoso diretor do Depósito Ocidental, herdeiro da maior parte da reputação de seu predecessor Wang Zhen[3] como um eunuco poderoso e traiçoeiro: Wang Zhi.
Embora estivesse ali para uma visita, o eunuco Wang não esperou ser recebido, entrando direto como se estivesse em terra de ninguém. Sua presença era, de fato, imponente.
Enquanto avançava, não deixou de comentar:
— Tem flores demais nesse pátio, e estão plantadas sem critério, como se quem arrumou não entendesse nada de estética. É realmente horrível de se ver! Que vulgar
Sui Zhou juntou as mãos em cumprimento.
— Não sabia que o eunuco Wang viria. Peço perdão por não tê-lo recebido à porta.
Esse sempre fora seu jeito: falava até com a Imperatriz Viúva com o mesmo rosto impassível. Ainda assim, era extremamente competente, e por ser da família natal da viúva Zhou, Chenghua e ela tinham grande apreço por ele. Consideravam-no eficiente e alguém que não abusava de seu status como parente por afinidade, muito superior aos demais consortes inúteis.
A viúva adorava dizer a todos: “Vejam como o nosso Ah-Zhou é excelente!” Chenghua chegou até a compará-lo a Sun Jizong, irmão mais velho da Imperatriz Viúva Sun da corte de Yingzong.
E quem era Sun Jizong? O mais poderoso consorte da Corte atual e da anterior, alguém que conquistara a confiança de dois imperadores. Ele comandara tropas, ajudara Yingzong a retornar ao trono e supervisionara a compilação dos registros históricos.
O quanto o imperador confiava nele? A ponto de lhe entregar o poder militar, recusando-se a permitir sua aposentadoria. Sempre que havia uma grande deliberação na Corte, era ele quem presidia. Anos atrás, quando lhe concederam o título de Grande Tutor e os oficiais civis protestaram dizendo que consortes não deveriam deter poder militar, o imperador simplesmente os ignorou.
Um consorte em tal posição despertava inveja — e ódio.
Independentemente de Sui Zhou realmente ter ou não o estilo de Sun Jizong, aquilo não passava de um elogio feito pelo Filho do Céu para agradar sua mãe. Ainda assim, com uma avaliação dessas, o status de Sui Zhou destacou-se entre os demais.
Ele próprio não gostava de usar conexões para avançar, permanecendo como um centurião mediano da Guarda Bordada. Mas, se quisesse, poderia subir rapidamente. Pessoas com status eram fáceis de encontrar; pessoas com talento, também. Mas alguém com ambos era raro.
Por isso, mesmo Wang Zhi sendo poderoso e querido pelo Imperador e pela Consorte, teve de conter seu orgulho ao encarar alguém assim. Ele também juntou as mãos em cumprimento.
— Quem diria? O anfitrião já estava aqui. Não leve a mal meus comentários impulsivos!
O tom era casual, como se ele não estivesse realmente pedindo desculpas. Sui Zhou não se deu ao trabalho de responder à provocação.
— O eunuco Wang é muito gentil.
Depois disso, ambos ficaram em silêncio, avaliando-se mutuamente.
Um se perguntava por que o outro tinha vindo.
O outro ponderava qual era a relação do primeiro com Tang Fan.
À primeira vista, pareciam dois mestres marciais que se encontraram num caminho estreito, prestes a cruzar espadas.
───
[1] “Meninas que crescem não ficam em casa” é um idioma chinês que significa “deve-se casar a moça assim que atinge a idade apropriada”, e não que ela sai por conta própria. Literalmente, ele não está errado, mas figurativamente, perdeu o sentido.
[2] Especificamente, a expressão foi (⊙o⊙).
[3] Observação rápida: o Wang de Wang Zhi (汪) e o Wang de Wang Zhen (王) são caracteres diferentes. Parecem parecidos, mas não têm relação nem são pronunciados da mesma forma.
CAPÍTULO 42 - Um Gênio Difícil
Fonts
Text size
Background
The Fourteenth Year of Chenghua
No décimo quarto ano de Chenghua, o harém imperial tinha uma Consorte Wan, assim como o Depósito Ocidental tinha um Eunuco Chefe chamado Wang Zhi. O Príncipe Herdeiro Zhu Youcheng tinha apenas...