CAPÍTULO 60 - Esta Viagem Foi uma Decisão Errada
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A Grande Ming possuía duas capitais, Pequim e Nanjing, além de treze províncias, oficialmente chamadas de Secretarias para Administração Contínua.
Quando o país foi fundado, para evitar semelhanças com a Dinastia Yuan, decidiu-se não chamá-las de “províncias”, adotando esse nome longo e estranho. Naturalmente, um título tão desajeitado jamais pegou entre o povo, e todos continuaram a se referir a elas simplesmente como províncias.
A Prefeitura de Henan era apenas um dos vários territórios sob a Secretaria de Henan. Ela administrava um estado com treze condados, sendo Gong um deles. Ainda assim, esse pequeno lugar era especialmente singular, pois ali se encontravam os túmulos de sete imperadores da Dinastia Song do Norte.
Por conta disso, os moradores das aldeias vizinhas ao condado haviam assumido a responsabilidade de proteger os túmulos. Para eles, o fato de imperadores de dinastias passadas terem escolhido ser enterrados ali era prova de que a região possuía excelente feng shui. Por essa razão, todas as famílias num raio de vários li sentiam grande orgulho disso.
Apesar de a maioria ser analfabeta, essas pessoas pareciam ter mais conhecimento histórico do que moradores de outras regiões. Mesmo homens com mais de setenta anos frequentemente apontavam para algum trecho de terra e diziam aos descendentes que ali abaixo estava enterrado determinado imperador. Comentavam que, embora hoje não se visse sequer um pavilhão com estela, antigamente não era assim — até que os Yuan saquearam tudo — e assim por diante.
Esses descendentes, por sua vez, transmitiam a história aos seus próprios filhos, e assim o relato sobre os túmulos imperiais atravessava gerações.
No entanto, tudo isso mudou após o incidente. Agora, quando os moradores mencionavam os túmulos da Song do Norte, a primeira reação já não era orgulho, mas um terror inexplicável.
O grupo de Tang Fan partiu da capital rumo à Prefeitura de Henan por via terrestre. Sui Zhou deixou Xue Ling encarregado do Escritório da Fortaleza do Norte e levou consigo vinte guardas pessoais, incluindo Pang Qi. Os dois seguiram juntos para o sul, sob o título de emissários imperiais.
Embora o caso não fosse o mais urgente, havia causado mortes e envolvia o saque de túmulos imperiais. Por isso, partiram imediatamente a cavalo. Contudo, após dois dias avançando sem descanso, uma diferença começou a ficar evidente.
Os Guardas Bordados eram um bando de homens grandes e resistentes. Depois de suportarem o treinamento infernal de Sui Zhou, já tinham pele de cobre e ossos de ferro. Mesmo sem esse treinamento pesado, montar a cavalo era trivial para oficiais militares como eles. Já os funcionários civis do Ministério da Justiça eram outra história. Passavam o dia inteiro sentados em escritórios; o trabalho mais pesado que faziam era servir chá ou buscar água. Cavalgar de repente por dois dias seguidos quase desmontava seus corpos. Sem falar no constrangimento impossível de comentar: todos estavam com bolhas na parte interna das coxas. Algumas haviam se rompido, sangrando e causando uma dor ardente.
Como emissário imperial principal, Tang Fan precisava manter uma postura digna de liderança. Por isso, cerrou os dentes e suportou tudo em silêncio. Ainda assim, Sui Zhou percebeu rapidamente que os civis não estavam nada bem. Ordenou que os guardas diminuíssem o ritmo e até tirou pomada para que Tang Fan e os outros passassem nos ferimentos.
Se ambos os líderes se mantivessem firmes, os dois escrivães subordinados naturalmente se sentiriam constrangidos demais para reclamar. Porém, Yin Yuanhua se recusou a montar novamente no cavalo e insistiu em solicitar uma carruagem.
Os guardas não estavam acostumados com aquele grupo de civis, mas sabiam que o Chefe Sui tinha uma boa relação com Tang Fan. Diziam até que o emissário estava hospedado na casa dele. Já Yin Yuanhua vinha tentando dificultar as coisas para Tang Fan durante toda a viagem. Estava claro que os dois não seguiam o mesmo caminho. Como não ousavam zombar do emissário, concentraram toda a artilharia em Yin Yuanhua.
Um deles piscou o olho e disse:
— Ei, ei, alguém acha que veio passear. Carruagem? Quer também uma cortina de contas pra levantar como uma donzela tímida, cobrindo o rosto antes mesmo de falar?
Outro riu estranhamente:
— Como você sabe que ele não é uma donzela? Já viu ele sem roupa?
Naquele momento, todos já haviam parado numa estalagem oficial para descansar. Tang Fan e Sui Zhou, como emissário e vice-emissário, jantavam separados, já que ninguém queria se sentar à mesma mesa que os líderes. Yin Yuanhua estava com os dois escrivães, enquanto os guardas se espalhavam em mesas próximas — e ele ouviu cada palavra vinda da mesa ao lado.
Como poderia não saber que estavam falando dele? Furioso, bateu os hashis com força na mesa e se levantou de repente.
— De quem vocês estão falando?!
Se ele não tivesse se levantado, nada teria acontecido. Mas assim que ficou de pé, suas coxas tiveram uma cãibra violenta. Ele fez uma careta de dor, provocando gargalhadas imediatas entre os guardas.
Tang Fan não gostava de Yin Yuanhua, mas como líder da missão, precisava manter a postura. Não podia simplesmente assistir à humilhação de um subordinado. Usando a outra ponta dos hashis, cutucou o braço de Sui Zhou. Este pigarreou levemente; seus olhos, afiados como relâmpagos, varreram os subordinados. Todos pararam de rir no mesmo instante e baixaram a cabeça para comer.
Após a refeição, Yin Yuanhua decidiu de vez que não montaria mais a cavalo e insistiu em ir de carruagem até Henan. Os dois escrivães, igualmente atormentados, olharam para Tang Fan com olhos suplicantes.
A expressão de Tang Fan ficou um pouco estranha.
— Vocês realmente querem ir de carruagem?
Os escrivães não ousaram responder, mas Yin Yuanhua sim:
— É necessário! Este humilde oficial não é como o senhor e não tem o título de emissário imperial pesando sobre ele! Conforto é importante! Não tenho medo de ser ridicularizado!
Ele insinuava claramente que Tang Fan estava se torturando apenas por orgulho.
— A próxima estalagem talvez não tenha cavalos suficientes — respondeu Tang Fan. — Depois que vocês mudarem para a carruagem, terão de ir nela até Henan, mesmo que se arrependam.
Quanto mais Tang Fan falava assim, mais Yin Yuanhua sentia que ele estava dificultando de propósito. Ainda assim, insistiu na carruagem.
Como já havia avisado, Tang Fan decidiu “ajudá-los”. Na estalagem, pediu ao estalajadeiro que preparasse uma carruagem.
Ela era bem espaçosa, suficiente para Yin Yuanhua e os dois escrivães. Um cocheiro também foi providenciado; ao chegar ao destino, ele simplesmente retornaria com a carruagem.
Assim que viram o interior acolchoado, muito mais confortável que um cavalo, os três subiram alegremente.
O resultado foi que, depois de algumas dezenas de li percorridos, entenderam por que Tang Fan fizera aquela expressão indecifrável ao ouvir o pedido.
Era porque aquela maldita carruagem era ainda pior que montar a cavalo…
Ao deixarem os arredores da capital, as estradas ficaram irregulares, cada trecho pior que o anterior. Andar de carruagem nem sempre era mais confortável que cavalgar, mas Yin Yuanhua jamais imaginara algo assim. Ele mesmo havia pulado num poço de fogo e agora não conseguia sair.
Era sacudido a ponto de quase vomitar sangue; parecia que seus órgãos internos estavam se deslocando. Era uma sensação difícil de descrever — só quem estava ali entenderia — mas não havia como voltar atrás. Mesmo que quisesse implorar para Tang Fan para retornar ao cavalo, não havia mais cavalos disponíveis…
Queria chorar, mas nenhuma lágrima saía. Pela primeira vez, provava o gosto de esmagar o próprio pé com uma pedra. Não era só ele — Cheng Wen e Tian Xuan também estavam com as entranhas retorcidas de arrependimento.
Após serem sacudidos durante toda a viagem, chegaram finalmente ao Condado de Gong, antes que suas almas fossem literalmente jogadas para fora do corpo.
Muito antes da chegada do grupo, o magistrado He já havia levado pessoas à estalagem oficial fora da cidade, aguardando ansiosamente com a cabeça erguida.
— Senhor, não seria melhor sentar um pouco e descansar? — perguntou o vice-magistrado, já tonto de ver o outro andar de um lado para o outro sem parar.
Além do vice-magistrado e de vários funcionários menores, muitos figurões do condado haviam querido acompanhar o magistrado He, mas todos foram recusados. Ele estava irritado demais; não tinha tempo nem paciência para levar uma comitiva só para se exibir diante dos emissários imperiais.
Diante de seu fiel vice, o magistrado não escondeu a apreensão:
— Ai, meu irmãozinho… você sabe que esses emissários não vieram passear. Eles vieram investigar o caso. E algo aconteceu com os túmulos sob a minha jurisdição! Um passo em falso, e posso perder meu chapéu preto!
— Não adianta se preocupar agora, senhor — aconselhou o vice. — É melhor cooperar com os emissários, facilitar as investigações e deixá-los voltar à corte falando bem do senhor. Talvez minimizem o ocorrido.
O magistrado suspirou.
— Só resta isso mesmo. Sou um magistrado azarado… pensando bem, meus antecessores deixaram incontáveis bagunças, mas os túmulos imperiais nunca tiveram problemas com eles. Eu limpei toda essa sujeira sem ninguém reconhecer, e agora que algo aconteceu com os túmulos, a responsabilidade cai toda sobre mim!
O vice pensou consigo: Que oficial não passa por um ou dois escândalos durante o mandato? Quando houve uma carreira tranquila? E ainda assim, quando algo dá errado, você culpa os céus e os outros, sem pensar em como agradar os emissários imperiais que estão prestes a chegar. Que futuro você espera ter assim?
Mas, sendo apenas um subordinado, mesmo pensando isso, continuou consolando o magistrado.
Enquanto conversavam, um grupo se aproximava à distância, avançando lentamente e levantando poeira. Havia uma carruagem na retaguarda. Os dois foram ao encontro, e um funcionário menor veio informar que o grupo à frente eram os emissários imperiais.
— Depressa, venham comigo recepcioná-los! — disse apressadamente o magistrado He, ajeitando as roupas e o chapéu.
A carruagem vinha devagar, e os cavalos enfeitados à frente pareciam reduzir propositalmente o passo para esperar o veículo atrás. Após cerca de um quarto de hora, o contingente que já estava visível há algum tempo finalmente se aproximou tranquilamente.
No meio do grupo de Guardas Bordados havia um jovem vestindo o uniforme de um oficial civil de quinto grau, acompanhado por um guarda com traje de peixe-voador.
O magistrado apressou-se para recebê-los, juntando as mãos em saudação.
— Sou He Haosi, magistrado do Condado de Gong! Saudações aos emissários!
Mesmo quando não estava claro quem era o emissário principal, demonstrar respeito dessa forma nunca era errado.
Os documentos oficiais enviados pelo Ministério da Justiça indicavam que o emissário-chefe era Tang Fan, da Secretaria de Henan, e o vice era Sui Zhou, Enviado da Fortaleza do Norte da Guarda Bordada. Mas, se o emissário principal e o adjunto estavam ali… então quem estava sentado dentro da carruagem?
Poderia ser alguém ainda mais importante?
O magistrado He não conseguiu conter um olhar furtivo para trás. No entanto, viu o guarda ao lado do oficial civil se afastar ligeiramente, evidenciando a diferença de status entre eles, e então ouviu-o falar, confirmando sua suposição:
— Este é o chefe Tang Fan, da Secretaria de Henan. Ele é o emissário principal desta expedição.
Tang Fan, visivelmente marcado pela viagem, desceu do cavalo e retribuiu a saudação.
— Não há necessidade de tanta formalidade. Viajamos sem parar por vários dias; seria melhor encontrarmos um lugar para sentar e conversar com calma, não acha?
— Sim, sim, claro! — respondeu rapidamente o magistrado, despertando do transe. — Este humilde oficial já providenciou a estalagem e ordenou que preparassem água quente e refeições! Peço que todos se dirijam à cidade do condado, que fica logo ali.
Tang Fan assentiu.
— Então, por favor, nos conduza.
O grupo chegou à estalagem da cidade. O magistrado He realmente havia preparado tudo com antecedência — até roupas limpas para trocar após o banho, algo extremamente atencioso. Contudo, como ainda precisariam jantar e discutir o caso, todos apenas se refrescaram rapidamente e trocaram de trajes oficiais.
Somente depois que quase todos já haviam entrado é que a carruagem que vinha por último se aproximou lentamente e parou diante da estalagem.
A curiosidade pesava no coração do magistrado He, e ele acabou se desviando do caminho. Já havia imaginado inúmeros cenários, inclusive a possibilidade de algum emissário ter trazido consigo uma bela concubina durante a investigação. Ao ver a carruagem parar, não resistiu: interrompeu seus passos e se virou para ver quem sairia dali.
Uma mão surgiu de dentro, levantando lentamente a cortina. O magistrado pensou consigo que a mão era bastante pálida, mas, infelizmente, parecia uma garra de galinha — nada graciosa.
Em seguida, uma cabeça apareceu. Ao perceber que se tratava de um homem, o magistrado quase deu um pulo de susto; aquilo não correspondia em nada ao que ele havia imaginado.
O homem tinha uma aparência miserável, olhos sem brilho e profundas olheiras. Parecia gravemente doente, mas vestia o traje de um oficial de quinto grau. O magistrado não pôde deixar de se adiantar e perguntar:
— O senhor também é um emissário imperial? Este humilde oficial é o magistrado do Condado de Gong—
Antes que pudesse terminar, o homem projetou o tronco para fora da carruagem, como se fosse descer. O rosto se contorceu, ele agarrou a coisa mais próxima para se firmar, baixou a cabeça e começou a vomitar.
O que ele havia agarrado… eram as vestes do atônito magistrado He.
O magistrado não teve sequer tempo de reclamar, coberto de sujeira — ironicamente, justamente quando estava acompanhando Tang Fan e os demais para se lavarem e trocarem de roupa. Como não havia trazido roupas extras, foi obrigado a suportar o cheiro azedo enquanto corria até a sede do condado para se trocar, com ninguém ousando se aproximar dele pelo caminho. Nem era preciso mencionar o quão azarado estava; a raiva fervia em seu peito sem ter onde ser descarregada. Quem mandou ser tão curioso? Além disso, o outro era um oficial da corte central, e ainda de cargo mais alto. Só lhe restava aceitar o azar com o nariz tapado.
Mal havia terminado de se trocar quando ouviu que o emissário imperial o procurava, obrigando-o a correr de volta à estalagem.
Ao entrar, Tang Fan e os demais já haviam se organizado e trocado de roupa; não estavam mais cobertos de poeira. Ainda pareciam cansados, mas muito mais apresentáveis.
— Presumo que o senhor saiba o motivo de nossa vinda, magistrado He — disse Tang Fan.
— Sim, sim! E tudo o que desejarem perguntar, este humilde oficial responderá — disse ele apressadamente. — No entanto, os senhores ainda não jantaram. Não seria melhor conversarmos depois da refeição?
— Se o senhor também não comeu, não seria melhor sentarmos e conversarmos enquanto comemos? — Tang Fan sorriu. O magistrado, que queria aproveitar a oportunidade para relatar suas dificuldades, naturalmente acatou.
A comida da estalagem era, sem dúvida, excelente. Por se tratarem de pessoas da capital, o magistrado He não ousou ser negligente. Até os cozinheiros haviam sido trazidos da sede do condado, preparando pratos autênticos de Henan: frango das oito preciosidades, cordeiro assado ao molho vermelho, e filés de peixe fritos em molho espesso e doce, todos exalando aromas irresistíveis.
Sui Zhou e os guardas não foram muito afetados, e até Tang Fan se sentia bem, já acostumado a cavalgar. Em contraste, Yin Yuanhua, Cheng Wen e Tian Xuan não tinham apetite algum, sacudidos pela carruagem durante todo o trajeto. Assim que sentiram o cheiro da carne, seus rostos alternaram entre verde e branco. Cobriram a boca e correram para fora, apoiando-se no corrimão da varanda, ânsia após ânsia. Infelizmente, seus estômagos já estavam vazios — nem bile tinham para vomitar.
Só então o magistrado He percebeu sua falha. Enjoos de carruagem tornavam impossível comer pratos pesados.
Vendo o constrangimento, Tang Fan falou:
— Peça à cozinha que prepare alguns pratos leves e algumas tigelas de mingau de arroz refinado. Traga uma tigela para mim e arrume uma mesa separada para os três, para que não passem mal com o cheiro da carne.
— Não é necessário outra mesa… — disse Yin Yuanhua, fraco, aproximando-se. — Este humilde oficial sentará aqui mesmo.
O motivo de ele ter insistido em acompanhar Tang Fan por milhares de li tinha dois objetivos: disputar méritos e causar incômodo. Isso fora tacitamente aprovado pelo vice-ministro Liang, que justificara a presença de um assistente como algo perfeitamente legítimo.
Tang Fan conhecia bem seus cálculos. Vendo sua insistência, apenas sorriu, sem forçá-lo.
— Muito bem.
Havia apenas uma mesa naquele amplo salão. Sentaram-se Tang Fan, Sui Zhou, Pang Qi, Yin Yuanhua, o magistrado He, os dois escrivães, além do vice-magistrado, do registrador e outros funcionários do condado. O restante do pessoal ficou em uma sala ao lado, proibido de perturbar a conversa.
Com o estômago roncando, ninguém tinha ânimo para falar de trabalho. Quando os pratos começaram a ser servidos, trocaram algumas cortesias e pegaram os hashis.
Yin Yuanhua, sentado ao lado de Tang Fan, viu-o comer um pedaço de carne. Tang Fan então comentou, cheio de falsa piedade:
— Que pena que hoje você não pode comer, irmão Yin. Apesar de usarem os mesmos ingredientes, o sabor aqui é diferente do da capital. Não é à toa que dizem que cada região tem seu próprio estilo. Se eu pudesse comer um frango das oito preciosidades tão delicioso todos os dias, estaria disposto a morar aqui para sempre!
O magistrado He sabia que aquilo era elogio cortês à hospitalidade, e o incentivou a comer mais. O vice-magistrado e o registrador, por sua vez, tentavam agradar Sui Zhou e Pang Qi, puxando conversa. O clima à mesa ficou excepcionalmente caloroso.
Yin Yuanhua, sofrendo sozinho ao lado, sentiu o mingau que acabara de engolir querer subir novamente com cada repetição da palavra “carne”. Em sua mente, já havia xingado os ancestrais de Tang Fan por dezoito gerações.
Depois de finalmente terminar a refeição, achou que poderia descansar. Mas Tang Fan pousou os hashis e disse ao magistrado He:
— Agora que já comemos, devemos tratar dos assuntos importantes.
— Senhor, deixar isso para amanhã não seria tarde demais? — apressou-se Yin Yuanhua. — Todos estamos bastante cansados hoje.
Tang Fan assentiu.
— Sei que todos se esforçaram muito ao percorrer uma distância tão grande. No entanto, carregamos uma grande responsabilidade e precisamos entender todos os detalhes antes de qualquer outra coisa. Se estiver cansado, pode ir descansar primeiro.
Se eu viesse apenas para descansar, por que teria vindo com você? pensou Yin Yuanhua, rangendo os dentes.
— Este humilde oficial não está cansado, senhor. Ainda consigo aguentar.
— Agora sei que o irmão Yin é totalmente dedicado ao trabalho e disposto a carregar o peso de seu cargo — respondeu Tang Fan, satisfeito. — Você é realmente um exemplo para todos nós.
Depois de terminar de provocar Yin Yuanhua, Tang Fan voltou-se para o magistrado He.
— Os documentos eram, no fim das contas, concisos demais, e muitos detalhes não foram registrados. Terei de pedir que o senhor descreva o caso minuciosamente, magistrado He.
Finalmente chegou a hora, pensou o magistrado. Endireitou-se rapidamente e começou a explicar toda a situação em profundidade.
O que ele relatou, na verdade, não diferia muito do que já havia sido reportado, mas, comparado ao texto frio dos documentos, sua descrição era naturalmente mais detalhada e vívida. O vice-magistrado, o registrador e outros funcionários acrescentaram informações aqui e ali, dando ao grupo de Tang Fan uma compreensão ainda mais profunda dos acontecimentos.
Por exemplo, o dossiê enviado anteriormente ao Ministério da Justiça não mencionava em detalhes os lamentos fantasmagóricos que surgiam à meia-noite, nem as reações dos aldeões vizinhos — mas o magistrado He sim.
— Os lamentos não acontecem todas as noites. Às vezes surgem, às vezes não. Depois que o incidente ocorreu, eu mesmo fui à aldeia e, nos poucos dias em que fiquei lá, não ouvi nada. Porém, os oficiais que enviei — exceto aquele que enlouqueceu — afirmaram todos ter ouvido. Os aldeões também dizem o mesmo.
— Os ladrões de túmulos não foram capturados? — perguntou Tang Fan.
O magistrado He balançou a cabeça, envergonhado.
— Não. Apenas os esconderijos foram descobertos. Nenhum ladrão foi preso. Desde as mortes sucessivas, ninguém mais ousa se aproximar daquele local. Os moradores dizem que os deuses do rio estão furiosos, e que os imperadores da dinastia anterior se enfureceram por terem seus túmulos saqueados, razão pela qual há choros no meio da noite—
— Magistrado He — Pang Qi interrompeu. — O senhor fala tanto de “deuses do rio enfurecidos” quanto de “imperadores enfurecidos”. Afinal, isso está relacionado aos deuses ou aos túmulos imperiais?
O magistrado sorriu amargamente.
— Não esconderei nada dos senhores. O primeiro grupo de seis desaparecidos foi dado como afogado, então o povo disse que os deuses do rio, enfurecidos, os arrastaram para servir sob as águas. Como discípulos dos sábios, como poderíamos acreditar em tamanha fantasia? Por isso fiz um relatório à Corte, ao mesmo tempo em que enviei pessoas do governo para investigar. O que aconteceu depois, os senhores já sabem. Dez pessoas foram, apenas duas voltaram. Entre elas, o oficial que enlouqueceu e ainda perdeu uma mão, e o outro foi o velho chefe da aldeia, já de idade avançada, que também sofreu grande choque. Ele não consegue dar um relato claro, passa o dia falando coisas confusas sobre fantasmas e monstros. Assim, os rumores de assombração voltaram a se espalhar.
Ele fez uma pausa.
— Dos túmulos da dinastia Song do Norte, Changling e Yongling não ficam longe do Condado de Gong, apenas cerca de dez li da cidade. Ao lado deles fica a Vila do Rio Luo, que faz fronteira com o próprio rio. Agora circulam rumores de que os imperadores Renzong e Yingzong tornaram-se deuses do rio Luo após a morte, e que, por seus túmulos terem sido saqueados, passaram a arrastar pessoas como punição.
— Isso é tudo superstição de gente ignorante! — disparou Pang Qi.
O magistrado assentiu.
— Concordo. Mas, com dois grupos morrendo em sequência, ninguém ousa mais ir até lá. Minhas mãos estão atadas. Enquanto eu aguardava a chegada dos senhores para investigar, o pânico começou a se espalhar pela capital do condado — quanto mais pela Vila do Rio Luo. Dizem que os deuses do rio estão irados e exigem sacrifícios, então… então…
Ele começou a gaguejar, deixando Yin Yuanhua impaciente.
— “Então” o quê?!
— Então começaram a oferecer sacrifícios por conta própria — completou o vice-magistrado.
Tang Fan compreendeu de imediato.
— Sacrifícios humanos aos deuses do rio?
— Exatamente.
Sui Zhou finalmente falou pela primeira vez desde que chegara.
— Ridículo.
Todos os funcionários do Condado de Gong baixaram a cabeça, hesitando em responder.
Desde os tempos antigos, as pessoas sempre reverenciaram os espíritos dos rios. Não era raro que deuses de montanhas e rios recebessem os nomes de imperadores e cortes de dinastias passadas. O mais importante entre eles era, naturalmente, o deus do Rio Amarelo, seguido por inúmeros deuses fluviais menores.
O povo comum era ignorante; quando as águas transbordavam, acreditavam que o deus do rio estava irado e que precisavam apaziguá-lo. Para isso, não hesitavam em oferecer todo tipo de sacrifício — inclusive seres humanos.
Como afluente do Rio Amarelo, o rio Luo tinha certa importância. Graças às repetidas ordens da Corte, sacrifícios humanos aos deuses do rio não ocorriam havia muitos anos. No entanto, com um incidente tão anormal em Gong County, onde até as autoridades haviam falhado, essa antiga prática voltou à mente de todos.
Tang Fan os repreendeu sem piedade:
— Vocês são oficiais locais encarregados de educar o povo e mantê-lo afastado de superstições. Como puderam ouvir algo assim e simplesmente deixar passar, permitindo que sacrificassem pessoas vivas?
O magistrado He sorriu amargamente.
— Perdoe-me dizer, senhor, mas ainda há mais a respeito disso.
— Fale.
— Desde que oito dos dez enviados no segundo grupo morreram, espalharam-se rumores por toda a Vila do Rio Luo — e até pelo Condado de Gong — dizendo que os deuses do rio estavam furiosos e exigiam sacrifícios. Assim, há cerca de meio mês, todos prepararam oferendas de animais e foram ao rio prestar culto.
— Nenhuma pessoa? — perguntou Tang Fan.
— Não. Naquele momento, acreditavam que oferecer animais e objetos seria suficiente.
Tang Fan murmurou um “hm”.
— Continue.
— Antes, mencionei que os dois imperadores teriam se tornado deuses do rio; isso foi apenas uma interpretação forçada do povo. Na verdade, os registros do condado sempre apontaram que o deus do rio Luo é a filha mais nova de Fuxi. Mas… os senhores sabem, ninguém pode ter certeza nessas coisas. Para garantir, prepararam três conjuntos de oferendas, destinados a três deuses do rio diferentes. A cerimônia durou do amanhecer ao entardecer, quase os doze shichen inteiros. Ao ver que ainda mantinham algum senso moral e não usavam pessoas como sacrifício, fechei os olhos e não interferi.
O magistrado falou por um longo tempo sem chegar logo ao ponto principal, ocasionalmente tentando se eximir de culpa para evitar uma repreensão de Tang Fan. O vice-magistrado suava frio ao ouvir o chefe falar, mas, felizmente, Tang Fan manteve a paciência.
— Mais tarde naquela noite, depois que os sacrifícios foram lançados no rio, a multidão começou a se dispersar. Apenas algumas mulheres idosas ficaram para vigiar a mesa de incenso. É um costume local: a mesa deve ser guardada por toda a noite como sinal de devoção, e só depois pode ser descartada. Contudo, naquela noite, diz-se que o vento e a chuva se intensificaram repentinamente, e então os aldeões ouviram aqueles lamentos fantasmagóricos, ficando assustados demais para sair. No dia seguinte, quando foram verificar, descobriram que a mesa havia tombado e as frutas estavam espalhadas pelo chão, mas as mulheres haviam desaparecido.
— Por que usaram mulheres idosas para vigiar a mesa, em vez de homens fortes? — perguntou Tang Fan.
— Eles temiam que o qi yang dos homens fosse forte demais e ofendesse o… os deuses do rio quando aparecessem. Mas isso foi o que o povo disse — eu jamais aprovei!
Tang Fan assentiu, indicando que prosseguisse.
Embora o magistrado He não tivesse estado presente, falava com tanta vividez que parecia ter visto tudo com os próprios olhos. Não fosse a ocasião inadequada, Pang Qi certamente zombaria dele; mas, como seus dois superiores ouviam com atenção, só lhe restava escutar em silêncio.
— No início, pensaram que as mulheres tinham fugido por causa do mau tempo e voltado para casa. Mas, ao perguntarem às famílias, descobriram que nenhuma delas retornara — haviam simplesmente desaparecido. O caso me foi reportado, então enviei pessoas para procurá-las, mas também não foram encontradas. Como o relatório já havia sido enviado à Corte, pensei em aguardar a chegada dos senhores para apresentar tudo de uma vez.
— E os sacrifícios humanos? — perguntou Tang Fan.
O magistrado suspirou amargamente.
— O povo diz que os deuses do rio descarregaram sua ira porque receberam apenas animais, e não pessoas. Por isso levaram aquelas mulheres como aviso. Todos ficaram aterrorizados, e várias famílias ricas do condado estão se preparando para sacrificar seus próprios servos.
— O senhor não impediu isso?
A expressão dele era de sofrimento.
— Impedir? Ainda nem começou. Eu disse a eles que a Corte enviaria emissários imperiais para investigar e que, com certeza, a verdade seria esclarecida, então absolutamente não poderiam sacrificar pessoas. Por enquanto, ouviram. Mas o povo é ignorante e vive em constante medo. Se este caso não for resolvido e uma explicação convincente não lhes for dada, temo que não aceitarão a persuasão… e acabarão realizando os sacrifícios em segredo.
CAPÍTULO 60 - Esta Viagem Foi uma Decisão Errada
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The Fourteenth Year of Chenghua
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