CAPÍTULO 59 - Querendo Fugir de Casa
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[Arco 5: O Caso do Antigo Caixão no Rio Luo]
Henan foi o berço da Dinastia Yin-Shang e, desde tempos imemoriais, banhou-se em glória. Depois que o Grande Ancestral da dinastia Song, Zhao Kuangyin, escolheu Kaifeng como capital, Henan transformou-se no coração incontestável do império. Todos os imperadores da Song do Norte foram enterrados ali.
Após a dinastia Han, os mausoléus passaram gradualmente a se popularizar, pois as montanhas eram vistas como túmulos naturais, e escavar nelas significava ocultá-los. Esse estilo consolidou-se oficialmente durante a dinastia Tang, quando praticamente todos os seus imperadores mandaram esculpir mausoléus nas profundezas ocultas das montanhas. Por um lado, isso parecia bastante imponente; por outro, reduzia ao máximo a quantidade de ladrões de túmulos que apareciam para “prestar homenagens”. (Claro, a ganância humana é inesgotável, então essa última função era, na prática, quase nula.)
Chegando à dinastia Song do Norte, eles não adotaram mausoléus em montanhas como os imperadores Tang, por considerações de feng shui e geomancia. Em vez disso, escolheram colinas situadas em frente ao Monte Song, encostadas nas águas do Rio Luo ao norte e não muito distantes do Rio Amarelo. Além disso, todos os túmulos dos primeiros sete imperadores, antes da mudança da Song para o sul, estavam localizados ali, relativamente próximos uns dos outros — o que tornava o saque extremamente conveniente para quem tivesse más intenções.
Assim, apesar da existência de guardas nas proximidades, os túmulos da Song ainda eram saqueados esporadicamente.
Desde antes da dinastia Yuan, todas as dinastias que haviam conquistado o império davam grande importância à proteção dos túmulos de imperadores anteriores, e a atual não era exceção. A corte proibiu expressamente o saque de sepulturas, mas, apesar das repetidas ordens, nunca conseguiu erradicá-lo completamente, nem sequer mapear sua real extensão. Por isso, as autoridades locais prendiam qualquer pessoa encontrada nas imediações, evitando que a situação fugisse totalmente ao controle.
Recentemente, porém, algo extremamente estranho e chocante ocorreu no condado de Gong, onde se localizavam os túmulos da Song.
Dizia-se que, a partir de um ano atrás, no meio da noite, moradores das redondezas passaram a ouvir sons bizarros vindos dos túmulos da Profundidade Eterna e do Brilho Eterno. No começo, acreditaram que fosse apenas o vento, mas, ao ouvir com mais atenção, parecia o som de alguém chorando.
Profundidade Eterna era o túmulo do imperador Yingzong da Song, Zhao Shu, enquanto Brilho Eterno pertencia ao imperador Renzong, Zhao Zhen. Zhao Shu sucedera Zhao Zhen, mas não era seu filho biológico; como todos os filhos de Zhao Zhen haviam morrido, Zhao Shu fora escolhido dentro do clã imperial.
Nada disso, porém, era o mais importante. A verdadeira questão era: como poderia haver choro dentro do túmulo de um imperador, em plena noite?
Os imperadores da Song estavam mortos havia muitos anos, e já não existiam descendentes piedosos que lhes prestassem luto. Mesmo que ainda houvesse algum, por que escolheriam sair no meio da noite para chorar diante de um túmulo imperial?
Era algo absolutamente bizarro.
Os moradores das aldeias vizinhas acumulavam a função de guardas noturnos dos túmulos. Depois de ouvirem aqueles lamentos por várias noites seguidas, alguns aldeões foram até o túmulo da Profundidade Eterna para investigar.
Eles nunca mais voltaram.
No entanto, após a mudança da Song para o sul, o antigo status de Henan também foi declinando gradualmente. Após a invasão do povo Jin, foi a vez da cavalaria mongol, fortemente armada, pisotear as Planícies Centrais. As engrenagens da história continuaram a girar, o povo sofreu repetidas vezes com as chamas da guerra, e, quando o Grande Ancestral da atual dinastia conquistou o império, mais de cem anos já haviam se passado.
Quando o Grande Ancestral passou pelo condado de Gong, logo após o fim dos conflitos, descobriu que os outrora majestosos túmulos imperiais da Song haviam sofrido destruição devastadora. Quase todas as construções de superfície estavam arruinadas; os campos tomados pelo mato estavam repletos de esculturas de pedra quebradas, cujas formas originais já não podiam ser discernidas. Entre elas, os túmulos dos imperadores Gaozong, Xiaozong e dos dois imperadores Hui e Qin da Song do Norte haviam sido brutalmente escavados e danificados, com a conivência tácita da antiga dinastia Yuan. A desolação estendia-se até onde os olhos alcançavam, uma tragédia insuportável de se contemplar.
Dizia-se ainda que os ossos de vários imperadores Song haviam sido desenterrados e queimados, enquanto incontáveis tesouros foram oferecidos ao imperador mongol Kublai Khan, para servirem como adornos em mosteiros.
Em resposta, o Grande Ancestral ordenou que esses túmulos imperiais saqueados e esvaziados fossem novamente aterrados e reparados. Proibiu o povo comum de recolher qualquer recurso naquela área e determinou que o governo local organizasse famílias responsáveis pela guarda, concedendo isenção de impostos conforme necessário. Foi apenas assim que a onda de saques conseguiu ser contida.
Entretanto, isso já era um assunto antigo, dos tempos da fundação da dinastia Ming. Enquanto os túmulos imperiais continuassem existindo, sempre haveria ladrões dispostos a arriscar tudo em troca de enriquecimento rápido. Até mesmo os túmulos da dinastia Qin, cujas localizações exatas eram desconhecidas, despertavam cobiça — quanto mais os túmulos da Song, cujas localizações eram bem definidas.
O que exigia uma explicação especial, porém, era que os túmulos imperiais da Song do Norte diferiam um pouco dos das dinastias anteriores.
Antes da dinastia Tang, muitos túmulos seguiam o estilo de não erguer monumentos visíveis, sendo enterrados profundamente, com palácios construídos no subsolo. O exemplo mais clássico disso era o túmulo do Primeiro Imperador Qin.
Foi então que o chefe da aldeia percebeu que algo estava errado. Enquanto mobilizava outros aldeões para procurar os desaparecidos, também fez um relatório às autoridades do condado de Gong, que enviaram homens para vasculhar a área — sem encontrar ninguém. Como os túmulos imperiais haviam sido construídos às margens do Rio Luo, as autoridades concluíram que aqueles homens talvez tivessem caído acidentalmente na água ao caminhar à noite.
Com essa conclusão, o assunto acabou sendo deixado em aberto.
Por muito tempo depois disso, os lamentos não voltaram a ecoar, e a aldeia pareceu retornar à tranquilidade. Exceto pelas poucas famílias que haviam perdido parentes, todos gradualmente esqueceram o ocorrido.
No entanto, há apenas meio ano, aquele choro aterrador reapareceu — ainda mais alto do que antes, vagamente misturado ao som de trovões. O chefe da aldeia não se atreveu a ser descuidado e rapidamente fez outro relatório às autoridades. Por causa do episódio anterior, o magistrado do condado de Gong achou que o chefe estava exagerando. Mesmo sem dar muita importância, como se tratava de túmulos imperiais, enviou alguns oficiais do condado para verificar a situação.
Essa investigação revelou várias tocas de ladrões próximas aos túmulos da Profundidade Eterna e do Brilho Eterno. Ao que parecia, saqueadores haviam posto os olhos nesses túmulos há algum tempo e já tinham ido até lá.
Quando se tratava de roubo de túmulos imperiais, o magistrado não ousava ser negligente. Ordenou que alguns oficiais se juntassem a jovens aldeões fortes para montar uma emboscada perto dos túmulos, na esperança de capturar os ladrões.
Embora o chefe da aldeia fosse idoso, ainda carregava uma responsabilidade que não podia evitar, e por isso também se juntou ao grupo.
O primeiro dia transcorreu em silêncio. O luar parecia água derramada, e o som do Rio Luo corria ao lado deles; fora isso, não havia nada. Tudo estava calmo.
O segundo dia foi igual.
No terceiro dia, algo aconteceu.
Haviam partido três oficiais, seis aldeões e o chefe da aldeia — dez pessoas ao todo. No final, apenas duas voltaram.
Um era um oficial; o outro, o chefe da aldeia. Um enlouqueceu. O outro ficou embotado.
O que enlouqueceu foi o oficial. Ele e o chefe fugiram dos túmulos, um na frente e outro atrás, mas sua mente estava em completo caos, e ele atacava qualquer um que visse. Era incapaz de falar de forma compreensível. O chefe estava aterrorizado, coberto de sangue, quase à beira de acabar no mesmo estado.
Após o diagnóstico de um médico, concluiu-se que o oficial havia sofrido um terror tão extremo que perdera a sanidade. Provavelmente permaneceria assim pelo resto da vida, pois não havia tratamento. O chefe da aldeia, embora mais velho e frágil, tinha vivido mais experiências e, por isso, mostrou-se um pouco mais resistente. Depois de um período de descanso, seu espírito foi se recuperando lentamente.
Ainda assim, sempre que o ocorrido naquela noite era mencionado, ele se calava e se recusava a falar mais. Só quando o magistrado do condado foi interrogá-lo pessoalmente é que ele passou a repetir frases como — vimos um fantasma — e — havia um monstro —, mas, mesmo com mais perguntas, não explicou o motivo.
Sem alternativas, o magistrado sentiu que havia algo profundamente estranho em tudo aquilo e foi obrigado a enviar vários relatórios à capital.
— Vimos um fantasma? Um monstro?
No pequeno pátio, Tang Fan refletia sobre aquelas palavras.
— Será que são ladrões de túmulos fingindo ser algo sobrenatural?
Sui Zhou balançou a cabeça.
— Acabei de receber esse caso. Apenas com base no relato do magistrado, é difícil tirar conclusões. Isso precisa ser visto pessoalmente para que algo fique claro. Além disso, isso está sob a jurisdição de Henan, e provavelmente será encaminhado pelo Gabinete ao Ministério da Justiça para investigação, o que pode acabar caindo sobre o escritório de Henan.
Tang Fan sorriu, com certo amargor.
— Pelo visto, isso é praticamente inevitável.
Ele se espreguiçou.
— Tudo bem, afinal eu já nasci um idiota imprestável que não sabe ficar parado. Estou cansado de ficar sentado no gabinete todos os dias. Se tivesse escolha, preferiria sair para caminhar por aí.
— Também pretendo ir pessoalmente — murmurou Sui Zhou.
Tang Fan fez cara de quem havia recebido uma graça celestial.
— O quê? Será possível? O Enviado da Fortaleza Sui quer lutar lado a lado comigo? Isso seria a maior honra para este humilde oficial!
Embora o cargo real de Sui Zhou fosse apenas o de um comandante de mil homens, na prática ele era o chefe de todo o Escritório da Fortaleza do Norte, acima apenas de Yuan Bin. No meio oficial, todos estavam acostumados a exagerar nos títulos ao se dirigir uns aos outros, de modo que gritos de — Enviado Sui, Enviado Sui — já ecoavam havia muito tempo.
Claro que, quando esse título saía da boca de Tang Fan, vinha acompanhado de um leve tom de deboche.
Reclinando-se na cadeira, Sui Zhou pegou o chá de trigo-sarraceno que Ah-Dong lhe entregou.
— Lutar lado a lado talvez não seja necessário. Já que sou o Enviado da Fortaleza, é natural que eu tenha de proteger os arredores. Já você, como um oficial civil de quinto grau, terá de obedecer às minhas ordens.
O tom de brincadeira era ainda mais evidente — como convinha.
Tang Fan caiu na gargalhada.
— Então eu vou discutir com você! Agora você é um oficial militar de quinto grau, e eu sou um oficial civil de quinto grau. Desde a época Zhengtong da nossa Grande Ming, os civis sempre comandaram os militares. Seguindo o princípio de que oficiais civis de quinto grau podem dar ordens a generais de quarto grau, mesmo que o seu chefe Yuan estivesse aqui, ele provavelmente teria de me obedecer. Caso contrário, com esse meu físico frágil, o que eu faria indo até lá? Não vou poder sair agarrando vermes com as próprias mãos, vou?
Ele piscou para Ah-Dong.
— Não é mesmo, irmãzinha?
Ela assentiu.
— É.
Ele cruzou a perna, triunfante.
— Ter uma irmãzinha é maravilhoso! Olha como a minha Ah-Dong é atenciosa!
— O Irmão Sui está certo, quero dizer — completou ela.
Na mesma hora, Tang Fan ficou indignado.
— Por que você me traiu?!
Ela riu baixinho.
— Minha traição era inevitável. O Irmão Sui controla todo o seu dinheiro. Sem ele, nem vento para beber a gente teria!
— Como assim todo o meu dinheiro?! — ele protestou. — Eu só entrego metade! Não basta passar dinheiro todo mês para você comprar comida?!
— Então diga — perguntou Sui Zhou — quanto você tem agora?
Vendo que os dois o encaravam com quatro olhos atentos, Tang Fan respondeu com descaramento.
— As finanças privadas de um homem são um segredo que não deve ser perguntado assim, casualmente!
— Quanto dinheiro você tem agora, Irmão Sui? — perguntou Ah-Dong.
Sui Zhou não disse que aquilo não podia ser perguntado. Respondeu calmamente:
— Ajudei ele a economizar trinta taéis no ano passado. Somando aos trezentos e cinquenta que ele já tinha me entregue antes, dá trezentos e oitenta taéis. Eu também tenho algumas economias próprias, que totalizam mil e quatrocentos taéis.
Ela exclamou, repetidas vezes:
— Você é tão rico, Irmão Sui!
— Ainda tem aquela pintura do Wang Ximeng no meu quarto, que vale mais do que todo o dinheiro dele! — Tang Fan protestou às pressas.
Ah-Dong revelou o segredo com um olhar sabido.
— Aquilo claramente foi deixado pelos seus pais.
Ele soltou uma risada seca.
— O clima hoje está ótimo, não acha? Aquele prato de carne cristalizada está esperando sozinho há um bom tempo para a gente devorar. Falar de dinheiro é vulgar demais! Dá gosto de cobre na boca!
Ah-Dong cobriu a boca ao sorrir.
— Você claramente escondeu o pagamento dos seus escritos debaixo do travesseiro e não entregou. Achei que você conseguiria esconder por mais tempo, mas acabou gastando tudo comprando um monte de livros inúteis!
Tang Fan não conseguiu manter a dignidade.
— Como assim inúteis? Aquilo é o Comentário de Zuo sobre os Anais da Primavera e do Outono! Uma edição da dinastia Song que nem dinheiro compra! Tive que revirar meio mundo para conseguir!
Ela piscou.
— Mas também tinha um livro lá chamado Marés da Primavera.
Sui Zhou franziu a testa.
— Esse nome soa meio estranho.
Tang Fan ficou um pouco culpado.
— São só histórias reais sobre monstros. Não vá pensando besteira!
Ele deveria ter ficado quieto, porque quanto mais explicava, mais suspeito parecia.
— Traga para eu ler depois — disse Sui Zhou.
Ah-Dong fez uma careta estranha para Tang Fan.
— Eu também quero ler!
O senhor Tang ficou furioso e sofrido ao mesmo tempo.
— Da última vez, você pegou meu exemplar de Crônicas dos Estados Combatentes e até agora não devolveu!
Quando tinha algum tempo livre, o senhor Tang escrevia romances leves para passar o tempo e, de quebra, ganhar algum dinheiro como escritor. Dizer que ele escrevia apenas romances seria injusto. Crônicas dos Estados Combatentes, por exemplo, era uma dramatização histórica ambientada no período dos Estados Combatentes da dinastia Zhou Oriental. Porém, devido ao conteúdo complexo e à falta de tempo, ele só havia conseguido concluir cerca de dois terços da obra.
— Ainda não terminei de ler. Devolvo quando acabar — respondeu Sui Zhou, com toda a inocência.
— E quando você vai acabar?
— Quando você garantir que não vai esconder o dinheiro dos seus escritos da próxima vez.
A raiva deu origem a uma coragem extrema, e o senhor Tang expressou sua indignação com esse sistema injusto.
— Então você que fique com o dinheiro!
— Porque eu não tenho problemas com gastos — respondeu Sui Zhou, encerrando a controvérsia de forma direta.
— …
Com um estalo imaginário, o amor-próprio de Tang Fan se despedaçou.
Nos dias atuais, quanto mais alto o cargo de um oficial, menor seu status dentro de casa. Que tipo de vida era essa?!
Ele queria fugir de casa…
Vendo-o cabisbaixo, com as orelhas quase caídas, o Enviado Sui, raramente afetuoso, afagou a cabeça do amigo como se fosse um cachorro.
— Não estou sendo ganancioso com o seu dinheiro, só estou ajudando a guardá-lo. Quem é que perde o controle toda vez que vê um livro? O escritório mal consegue comportar mais pilhas deles. Você precisa de autocontrole.
O senhor Tang ficou com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Como Sui Zhou havia previsto, o caso foi reportado ao Gabinete e depois encaminhado ao Imperador. Até ele, que detestava trabalhar, ficou alarmado. Não só deixou claro ao Gabinete a importância que atribuía ao assunto, como também solicitou que outras pessoas fossem enviadas para se unir à Guarda Bordada na investigação. Era imprescindível descobrir a verdade; e, se realmente houvesse saqueadores de túmulos, eles precisavam ser capturados e severamente punidos.
Será que o Filho do Céu havia se sensibilizado, sofrendo pelas quatorze mortes humanas?
Claro que não.
Isso se devia apenas ao fato de que todos os envolvidos eram imperadores. O saque aos túmulos dos imperadores da Song do Norte era como enxergar o próprio futuro. Ele inevitavelmente pensou no que aconteceria depois de sua morte — se ignorasse isso agora, não estaria incentivando o saque de túmulos, arriscando que o seu próprio fosse profanado no futuro? — e, por isso, deu enorme importância a uma investigação minuciosa.
O Gabinete deliberou e, por fim, repassou o caso ao Ministério da Justiça, já que, em última instância, crimes de saque a túmulos estavam dentro de suas atribuições.
E, como era inevitável, Tang Fan, enquanto chefe do Escritório de Henan, não tinha como se esquivar dessa tarefa.
O ministro Zhang mandou chamá-lo e pediu que levasse pessoas consigo para, pessoalmente, unir-se à Guarda Bordada na investigação.
Desde que Tang Fan confrontara o vice-ministro Liang, o ministro Zhang inexplicavelmente passou a vê-lo com bons olhos, expressando generosamente sua apreciação em ocasiões públicas. Embora Tang Fan soubesse que isso se devia, em grande parte, à rivalidade de Zhang com Liang Wenhua e ao desejo de usá-lo como instrumento, ele ainda assim tirava proveito da situação. No mínimo, isso ajudava a acalmar os ânimos dentro do Escritório de Henan.
De qualquer forma, a relação entre Zhang Ying e ele era vantajosa para ambos. E, claro, sendo um grande ministro, quando Zhang Ying dava uma ordem, Tang Fan não tinha margem para recusá-la.
Foi exatamente por isso que Zhang Ying o chamou especificamente ao seu gabinete. Antes de entrar no assunto principal, perguntou como andava o trabalho recentemente, se havia encontrado dificuldades, e disse que não hesitasse em falar caso tivesse problemas, pois ele, como ministro, faria o possível para ajudá-lo. Naturalmente, Tang Fan respondeu que tudo ia bem graças à benevolência de Sua Excelência.
Depois de algumas trocas de cortesias vazias, Zhang Ying finalmente chegou ao ponto.
— Você já está ciente do caso de saque aos túmulos dos imperadores da Song, correto?
Tang Fan assentiu.
— Os documentos já foram entregues ao Escritório de Henan. Este humilde oficial já leu o dossiê.
— O que você acha?
— Perdoe minha franqueza, mas esse caso é espinhoso.
Zhang Ying suspirou levemente.
— Sim. Aqueles aldeões e oficiais talvez não tenham se afogado no rio, e isso pode não ser nenhum tipo de artimanha sobrenatural. Mas, se o adversário conseguiu matar mais de uma dúzia de pessoas em sequência, então, caso tenha sido obra de um humano, certamente se trata de alguém extremamente perverso. Esse caso não será fácil de resolver. Mas… — ele fez uma pausa — independentemente de quão espinhoso seja, você precisa fazer tudo o que puder. Se conseguir solucioná-lo, informarei os conselheiros e solicitarei que lhe concedam um mérito por desempenho.
— Este humilde oficial certamente não poupará esforços. Não ouso falar de méritos.
— Ouvi dizer que vocês todos nos chamam, a mim e aos outros cinco ministros, de “estátuas de barro” pelas costas — disse Zhang Ying de repente. — Isso não é verdade?
Tang Fan fez uma expressão de espanto.
— De onde vieram tais palavras? Este oficial nunca ouviu falar disso.
Zhang Ying sorriu levemente.
— Não precisa bancar o desentendido. Não estou te culpando, só quero ouvir a verdade.
— Não sei quanto aos outros — respondeu Tang Fan com seriedade —, mas no terceiro ano de Chenghua, quando Vossa Excelência era Coordenador Provincial de Ningxia, atuando como Censor-Adjunto da Direita, foi precisamente por sua defesa e administração que a capital mudou de aparência, passando de construções de barro para tijolos. Mais tarde, Vossa Excelência também presidiu pessoalmente o controle dos cursos d’água, desviando as águas do Rio Amarelo para irrigar mais de setecentos qing de terras agrícolas em Lingzhou, beneficiando incontáveis pessoas. Esses atos de governo benevolente ainda estão vivos na memória do povo; os cidadãos de Ningxia o consideram como um segundo pai. Se alguém assim é uma “estátua de barro”, então realmente há pouquíssimos grandes oficiais capazes nesta corte!
Isso era a verdade. Embora Zhang Ying fosse classificado entre os chamados “ministros estátuas de barro”, ele não havia sido assim no início. Também já fora alguém cheio de vigor, dedicado ao serviço do Estado, benevolente com o povo, acumulando feitos e exibindo-se como um ministro capaz. Muitos, ao vê-lo hoje passando os dias bebendo chá, acreditavam que ele sempre fora assim.
Se Tang Fan não tivesse examinado a trajetória profissional de Zhang Ying por meio de Sui Zhou, jamais saberia que o ministro já possuíra tamanha competência e motivação.
Como esperado, a expressão de Zhang Ying mudou.
— Como você sabe disso?
Tang Fan sorriu.
— Meu mestre é Qiu Jun. Ele frequentemente elogiava suas capacidades diante de mim. Quando soube que eu ingressaria no Ministério da Justiça, escreveu-me dizendo que eu deveria aprender muito com Vossa Excelência.
Aquilo, é claro, era em parte um enfeite à reputação de seu mestre, e ao mesmo tempo uma explicação plausível para Zhang Ying. Ele não poderia dizer — vi seu histórico de trabalho nos arquivos da Guarda Bordada —, afinal.
Zhang Ying ficou um pouco comovido e também um pouco envergonhado.
— Não imaginei que Qiu Qiongshan tivesse tal avaliação de mim. Infelizmente, já estou velho como Lian Po e não sou mais quem eu era.
— Não há vantagem alguma em depreciar a própria reputação — disse Tang Fan com sinceridade. — O que as pessoas dizem agora não importa; daqui a cem anos, os livros de história certamente lhe darão uma avaliação justa.
Zhang Ying já estava há muito tempo imerso na vida oficial. Antes, não era alguém facilmente tocado emocionalmente, mas as palavras de Tang Fan atingiram o fundo de seu coração. Hoje em dia, todos evitavam problemas e se contentavam em apenas sobreviver. Quanto mais tempo ele passava como oficial, mais via e mais vivenciava, e mais desanimado se sentia, enterrando todo o antigo entusiasmo, seguindo o fluxo dos outros em uma inércia estéril, passando os dias cultivando flores e passeando com pássaros.
Por isso, acabara sendo colocado no mesmo saco que Yin Qian, Liu Zhao e os demais, todos ridicularizados com o apelido de “ministros estátuas de barro”. Depois de ouvir isso por tanto tempo, tornara-se insensível.
E ainda assim, naquele dia, fora um simples chefe de escritório que, com precisão, expusera as frustrações e injustiças escondidas no fundo de seu coração. Como não se comover?
A partir dali, a relação entre os dois se aproximou consideravelmente.
Zhang Ying decidiu chamar Tang Fan diretamente por seu nome de cortesia.
— Runqing, não encare este caso como algo espinhoso, mas como uma oportunidade de se manter aos olhos de Sua Majestade. Se você se sair bem, isso trará grandes benefícios para sua carreira futura.
Era evidente que o ministro Zhang já via Tang Fan como alguém “do seu lado”; caso contrário, não teria falado tão abertamente. Isso não se devia apenas ao fato de Tang Fan ter tocado seu íntimo, mas também porque ele não tinha qualquer base sólida dentro do Ministério. Depois de entrar em conflito com Liang Wenhua, a única pessoa em quem podia se apoiar era o próprio ministro.
Diante desse jovem oficial inteligente, que sabia avançar e recuar, Zhang Ying teve a intenção de cultivá-lo.
Compreendendo a mensagem implícita, Tang Fan fez uma reverência solene.
— Agradeço pelos ensinamentos, Ministro. Empregarei todas as minhas forças na condução deste caso.
Zhang Ying assentiu, satisfeito.
— O único ponto inconveniente será lidar conjuntamente com a Guarda Bordada. Ouvi dizer que o Enviado do Escritório da Fortaleza do Norte também irá pessoalmente. A intenção do Gabinete é designar você como responsável principal e ele como auxiliar, ambos atuando como enviados imperiais de igual nível. No entanto, a Guarda sempre foi peculiar e talvez não esteja disposta a seguir todas as suas disposições. Ainda assim, como você conseguiu solicitar a ajuda deles no caso que Yin Yuanhua conduziu anteriormente, imagino que exista alguma amizade entre vocês, então não preciso me preocupar tanto.
Tang Fan ficou um pouco constrangido.
— Este oficial foi impetuoso naquela ocasião e acabou lhe causando problemas. Peço perdão, Ministro.
O outro sorriu.
— Liang Wenhua sempre foi presunçoso, acreditando que o Ministério funcionava apenas de acordo com a sua vontade. Já era hora de alguém conter essa atitude. Ainda assim, entre vocês existe a distinção de superior e subordinado; seja um pouco mais deferente ao lidar com ele, para não lhe dar margem a usar algo contra você.
Tang Fan aceitou prontamente a orientação.
Era melhor agir cedo do que tarde, rápido em vez de devagar. As tarefas foram repassadas a Dai Hongming, que ficou encarregado de comandar temporariamente o Escritório de Henan, com dois escrivães à disposição para diligências. Tang Fan, por sua vez, levou consigo Yin Yuanhua e outros dois escrivães, Cheng Wen e Tian Xuan, e partiu para Henan junto dos homens enviados pela Guarda Bordada.
Pelas normas, Yin Yuanhua nem precisava acompanhá-lo. Como assistente de Tang Fan, caberia a ele assumir o comando do Escritório durante a ausência do chefe. Não se sabia o que lhe passara pela cabeça, mas ele solicitou, por iniciativa própria, ir junto na viagem. O vice-ministro Liang ainda acrescentou que, como os detalhes do caso eram importantes, o posto de assistente-chefe do Escritório de Henan também deveria avançar, para demonstrar a importância dada à investigação.
Dessa forma, Dai Hongming acabou se beneficiando inesperadamente. Na condição de simples executivo, passou a ocupar temporariamente o cargo de chefe que comandava todo o Escritório.
No final de maio, o grupo deixou a capital, seguindo em direção ao condado de Gong, na prefeitura de Henan.
CAPÍTULO 59 - Querendo Fugir de Casa
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The Fourteenth Year of Chenghua
No décimo quarto ano de Chenghua, o harém imperial tinha uma Consorte Wan, assim como o Depósito Ocidental tinha um Eunuco Chefe chamado Wang Zhi. O Príncipe Herdeiro Zhu Youcheng tinha apenas...