CAPÍTULO 51 - Covil de Ladrões
Ele despertou em meio ao som de uma discussão.
Ao recobrar gradualmente a consciência, percebeu que seus braços e pernas estavam firmemente amarrados, suas costas encostadas em uma parede dura, e seus olhos vendados. Duas pessoas à sua frente pareciam conversar em voz baixa.
— Você não vai matá-lo lá fora? — perguntou uma voz rude. — Por que se deu ao trabalho de trazê-lo pra dentro?
— Liu Grande, seu idiota! — respondeu outra, mais contida. — Você não ouviu o que o Pequeno Seis disse? Ele enganou aqueles caras pra irem até a montanha e teve que perder dois dedos, além de levar uma facada, pra fazê-los acreditar nele. Se eles não encontrarem ninguém lá, com certeza vão voltar. E, quando acharem esse cara morto ali, podem acabar descobrindo este lugar também. Nosso objetivo é ganhar tempo, não atrair os soldados pra nos caçar!
— Isso tudo é culpa do Luo Aleijado — disse Liu Grande, abatido. — Se ele tivesse verificado direito quem eram aquelas crianças antes de pegá-las, não estaríamos nessa confusão!
— Não dá pra culpar só ele — o outro também parecia desanimado. — Crianças andam por aí sem rótulo, como é que alguém vai saber de quem são filhos? Pra fazer esse tipo de coisa, é preciso ter olhos atentos, mãos rápidas e decisões certeiras. Ele viu que estavam bem-vestidas e tinham boa aparência, então as pegou. Não foi um erro de julgamento…
— E agora, o que fazemos? — perguntou Liu Grande. — A Guarda de Brocado e o Depósito Ocidental já nos perseguiram até aqui. Devolvemos ou não devolvemos?
— Pelo que o segundo-em-comando deu a entender, parece que não. Um erro é um erro. As pestes vão ser levadas pro Sul pra serem vendidas, e sempre tem quem pague caro por elas. Se as devolvermos agora, aqueles abutres do governo vão nos empurrar pra assumir a culpa! Hehe… e você viu as mercadorias que conseguimos desta vez? Aquela carne tenra vai render pelo menos cem taéis de prata por cabeça. As duas mais bonitas, então, talvez rendam umas duzentas! Quando isso acontecer, cada um de nós vai receber uma parte bem gorda!
— Cinco taéis? — perguntou Liu Grande.
O homem zombou: — Dá pra ser mais ambicioso? Coloca um zero a mais!
Liu Grande soltou um assobio.
Cinquenta taéis — que quantia! O próprio Tang Fan não recebia isso nem em um ano inteiro de salário. Sem dúvida, os oficiais Ming viviam uma vida dura; dos ministros até os funcionários de sexto escalão, todos ganhavam pouco — caso contrário, ele mesmo não precisaria escrever romances para complementar a renda. Cinquenta taéis também não eram pouca coisa para um plebeu comum, já que uma família de cinco pessoas vivia com cerca de trinta por ano. Um preço de resgate de alguns milhares, como o de Feng Qingzi, era algo que só os ricos podiam pagar — mas, ainda assim, muita gente se acotovelava para comprá-la. Era, portanto, um comércio extremamente lucrativo, mostrando que ainda havia muitos abastados.
Não era de se estranhar que aquele homem estivesse disposto a correr riscos tão grandes por um “alto retorno” de cinquenta taéis.
Ao ouvir isso, Liu Grande pareceu visualizar a prata brilhando e começou a rir com desejo ilimitado.
— Irmão Xin, você precisa guiar este seu irmãozinho aqui! Tudo o que fiz na Gangue do Lado Sul até agora foram serviços pequenos, sem importância. Como posso cair nas boas graças do segundo-em-comando como você? Você sempre foi subordinado dele, então vou seguir o que você disser!
O Irmão Xin, astuto, respondeu: — Nada disso! Todos nós seguimos ele; como eu teria habilidade pra te guiar? Vou ser honesto: o que aconteceu dessa vez causou confusão demais. Aquele cara Wan provavelmente não vai conseguir encobrir a gente, então vai mandar pessoas pra procurar. O segundo-em-comando disse que vai enrolar por uns dez dias ou meio mês. O pessoal do governo vai agir por ondas, e quando o alvoroço passar, as buscas vão enfraquecer. Depois disso, pegamos um barco em Tianjin e descemos pro Sul. Com tanta terra e água, duvido que consigam nos achar!
Tang Fan manteve os olhos fechados, fingindo continuar inconsciente, esperando ouvir mais informações úteis. A dor latejava na parte de trás da cabeça; ele suspeitava que estava sangrando por ter levado uma tijolada.
— Mas, Irmão Xin… parece que o grupo da Senhora Nona está tentando convencer o segundo-em-comando a soltar as duas crianças mais bonitas, não é? Dizem que são filhos de oficiais, e que o pessoal lá fora está nos perseguindo por causa delas. Se as soltássemos, o governo talvez parasse de nos caçar. Mesmo vendendo só o resto, ainda lucraríamos.
O Irmão Xin bufou: — Idiota! Eles são uns covardes, o segundo-em-comando é que tem razão! Agora que as coisas chegaram a esse ponto, não adianta devolver e achar que tudo vai se resolver — Wan vai precisar de um bode expiatório pra culpar. Então, em vez disso, é melhor irmos até o fim. Com eles em nossas mãos, podemos negociar em melhores termos com aqueles abutres da Corte.
— Você é esperto demais, Irmão Xin! — elogiou Liu Grande sem parar. — Então… a gente fica escondido aqui ou aproveita que eles estão subindo a montanha pra fugir?
Ao ouvir isso, Tang Fan percebeu que, de repente, o silêncio caiu. Achou estranho — até levar um chute forte na perna, que o fez gemer de dor.
— Ainda fingindo dormir? — zombou o homem. Logo depois, o pano que cobria seus olhos foi arrancado. Ele piscou, ajustando-se à fraca luz da vela acesa na sala. Era uma caverna simples, com paredes de barro, apenas uma cadeira e um cobertor estendido no chão.
Notou também quatro buracos redondos no teto, um em cada canto, do tamanho de uma palma — pareciam servir de ventilação.
Seu coração deu um salto, mas outro chute o atingiu antes que pudesse pensar mais. Ele soltou um som abafado, se contorcendo de dor, sem poder alcançar a perna com as mãos amarradas.
— O que está olhando, olhos traiçoeiros! — gritou o tal Xin. — Nem adianta procurar saída! Entrou, não sai mais!
Era a primeira vez na vida que alguém o chamava de “olhos traiçoeiros” — e o pior: quem o fazia era um traficante de pessoas. Era tão absurdo que Tang Fan quase riu, mas apenas pigarreou.
— Acho que vocês dois estão me entendendo mal — começou calmamente. — Imagino que saibam que há muita gente procurando vocês lá fora. Acontece que vim sob ordens secretas do Enviado Wan. Preciso me encontrar com o segundo-em-comando para transmitir uma mensagem.
Xin riu friamente: — Ainda bancando o esperto? Acham que não sabemos quem você é? É o Juiz de Shuntian, que está junto com aqueles que estão nos perseguindo! Saiba que sua vida está em nossas mãos — se vive ou morre, depende da gente. Pare com esses joguinhos, senão vai morrer antes de conseguir usar a língua!
O coração de Tang Fan afundou, gelando pela metade. Não por causa da ameaça, mas porque o inimigo estava nas sombras enquanto ele e os outros estavam expostos. Já sabiam exatamente quem ele era, mas ele não sabia quase nada sobre eles, além do que ouvira de Wang Zhi.
Vendo-o calado, Xin sorriu com arrogância. — Fique quietinho aqui. Não pense em fazer truques. Talvez assim viva mais um pouco. — Em seguida, virou-se para Liu Grande. — Vou avisar o segundo-em-comando que o fedelho acordou. Fica de olho nele.
Liu assentiu, e Xin saiu apressado.
Como o nome dizia, Liu Grande era alto e robusto. O teto era baixo, e ele precisava se curvar um pouco para ficar de pé. Incomodado, decidiu se sentar — mas a cadeira, já bamba, quebrou com um estalo assim que ele se jogou, e Liu caiu sentado no chão com um gemido.
Tang Fan teve vontade de rir, mas conteve-se para não provocar o homem. Fez um esforço para parecer sério e preocupado.
— Está bem, irmão? Cuidado pra não ter caído sobre o osso. Que tal passar um pouco de vinho medicinal?
Liu Grande lançou-lhe um olhar feroz. — Vinho? No meio do nada?! Cala a boca ou enfio o pé da cadeira na sua boca!
Tang Fan suspirou. — Ouvi o outro homem dizer que seu sobrenome é Liu, então vou chamá-lo de Irmão Liu, pode ser? Dá pra ver que é um homem imponente, de grande talento, bem mais forte do que esse caniço magro que eu sou. Com certeza tem ótima habilidade. Se servisse ao governo, talvez já fosse líder de patrulha. Por que desperdiçar uma constituição dessas aqui?
Ele fingia estar tendo uma conversa sincera, já que, pelo que ouvira antes, Liu Grande parecia meio desprovido de inteligência. Tang Fan tentava apelar à emoção, na esperança de arrancar mais informações. Se fosse o Xin quem tivesse ficado, essa tentativa provavelmente teria rendido outro chute.
De fato, Liu Grande pareceu lisonjeado. Embora ainda o ignorasse, sua expressão ficou um pouco mais branda.
Tang Fan aproveitou a brecha e continuou:
— Antes de eu vir pra cá, a Guarda de Brocado e o Depósito Ocidental estavam fazendo uma caçada conjunta a vocês. Não preciso explicar o poder deles, certo? Os métodos são cruéis, sem piedade alguma. Não se comparam a oficiais comuns como eu, do Prefeituro de Shuntian. Se você cair nas mãos deles, vai passar por torturas tão brutais que vai desejar a morte. Por enquanto, ninguém morreu — vocês só sequestraram algumas crianças, o que ainda deixa espaço pra negociação. Se estiver disposto a mudar de lado e me ajudar, posso garantir sua segurança completa. Além disso, posso conseguir um cargo como patrulheiro de Shuntian. Não seria melhor do que viver fugindo?
Ele havia falado com tanta paciência e cuidado por tanto tempo, apenas para o Grande Liu de repente perguntar:
— Então, quanto é o salário anual de um patrulheiro, ou seja lá o que for?
Tang Fan tentou persuadi-lo com tanto esforço, mas teve que dizer a verdade casualmente:
— Cerca de uma dúzia de taéis.
— Se eu trabalhar sob o comando do segundo-chefe, recebo mais de cinquenta taéis por ano. Por que diabos eu iria te seguir pra ganhar uma dúzia? — o Grande Liu olhou para ele com uma expressão de “você é maluco”. — Não vem me enrolar! O irmão Xin disse que vocês, funcionários, só ganham umas duas dúzias de taéis por ano quando estão no topo! Se eu não conseguir isso, não é azar o meu? É melhor você se juntar a nós. O segundo-chefe vai te fazer viver bem!
… Droga. Um segundo de distração, e agora eu é que estou sendo recrutado!
Tang Fan se acalmou, manteve uma aparência de quem estava apenas conversando normalmente e usou um tom gentil para baixar as defesas mentais do outro.
— Falando nisso, por que eu estou ouvindo tanto você mencionar o “segundo-chefe”? O seu primeiro-chefe é Ding Yimu, e ele é um herói famoso.
O Grande Liu estava entediado por não ter nada para fazer. Já que alguém estava disposto a conversar, ele resolveu acompanhar.
— É verdade, mas não sei dizer. Desde que entrei na Gangue, nunca vi o primeiro-chefe. Pra mim, o segundo é o mais poderoso. A sabedoria dele é comparável à daquele Zhu… alguma coisa…
— Zhuge.
— Isso! Zhuge! Nós confiamos muito nele. Desde que eu o sigo, minha vida melhora a cada dia. Minha mulher em casa até pode usar coisas de seda!
— Que bom. Nem eu posso usar seda — disse Tang Fan com um sorriso. — Mas ela sabe o que você faz? Que vive cercado de medo todos os dias?
— Não deixei ela saber. Ela faz uns bicos fora por minha causa.
— Então sua casa é na capital, mas você está preso aqui agora; não tem medo de ela ficar preocupada?
— Não tem o que fazer, com esse pessoal procurando tão de perto. Mas isso aqui nem fica tão longe de casa. Se eu conseguir voltar, uma hora é mais que suficiente.
— Irmão Liu, você e eu estamos em lados diferentes, mas somos bons camaradas, já que conseguimos conversar assim. Eu não suportaria ver um casal separado. Me desculpe perguntar, mas já pensou no que vai acontecer depois disso? O Departamento Ocidental certamente vai mobilizar toda a capital pra rastrear vocês. Talvez não consigam achar vocês nesse matagal, mas se quiserem sair daqui, provavelmente não conseguirão.
O Grande Liu coçou a cabeça.
— Também não tem o que fazer. Risco é parte da busca pela riqueza. O segundo-chefe não tem medo, então a gente também não. E vai ser difícil pra eles acharem esse lugar. O segundo disse que, mesmo que estejamos só um chi abaixo da superfície, não seremos encontrados se não sairmos, e podemos ficar tranquilos.
Tang Fan ficou exultante, pois havia conseguido duas informações importantes com o Grande Liu: uma era que eles ainda podiam estar naquela aldeia deserta; a outra, que podiam estar subterrâneos. A Gangue do Sul havia aproveitado a topografia e o ambiente da vila para cavar alguns porões, servindo como esconderijos.
Com a vigilância do grupo de Sui Zhou, se ninguém fosse encontrado na montanha, eles certamente voltariam e o achariam.
Ou seja, se ele conseguisse sair e fazer um relatório — ou mandar notícias à superfície — todos ali poderiam ser capturados de uma só vez.
— Esse é um bom método — disse ele —, mas vocês pretendem ficar aqui pra sempre?
— Tá perguntando demais! — o Grande Liu respondeu, na defensiva. — Quer saber onde fica a saída, é? Não vou te contar!
Tang Fan ficou sem palavras.
Não dava pra dizer que aquele sujeito era inteligente, pois tinha acabado de entregar várias informações. Mas também não era burro, já que permanecia em guarda e não relaxava nos momentos críticos. Tang Fan não sabia ao certo se ele era genuinamente tolo ou apenas fingia.
Nesse momento, uma risada sombria veio da entrada.
— Você é bom, hein, pra fazer o Grande Liu falar tanto. Vem comigo. O nosso segundo-chefe ouviu que você acordou e quer te ver.
Xin tinha voltado. Deu grandes passos até ele e agarrou com força o ombro de Tang Fan, levantando-o.
Os braços de Tang Fan estavam amarrados, e ele tinha ficado muito tempo sentado no chão, então seu corpo perdeu o equilíbrio. Acabou caindo sobre o outro com o puxão.
Xin o empurrou com uma expressão de nojo.
— Olha só como você é delicado. É um desses caras que gosta de “flores de jardim”? Esse velho aqui não curte isso! Fica na sua!
— …
Ele também queria soltar alguns palavrões, mas sua vida estava nas mãos de quem o mantinha sob vigilância. Precisava se comportar. O senhor Tang forçou um sorriso apologético, tentando parecer submisso.
— Desculpe, desculpe! Minhas pernas estão dormentes, não foi de propósito! Minha vida está em suas mãos agora, como eu ousaria agir precipitadamente?
— Mas, se me permite perguntar, irmão Xin, por que o segundo-chefe quer me ver? — perguntou ele, tentando parecer bajulador.
Xin deu uma risada zombeteira e olhou para ele com desprezo.
— Como é que eu vou saber? Um frangote como você, com medo da morte, é melhor ficar escondido. Se não fosse porque ele disse que queria te ver, eu já teria te mandado pro outro mundo faz tempo — e nunca teria que ouvir tanto papo!
Com um único olhar, Tang Fan percebeu o brilho sanguinário que passava pelos olhos de Xin. Entendeu imediatamente que ele era de outro tipo — alguém que já havia matado antes e provavelmente tinha muitas vidas nas mãos. Como não poderia usar o mesmo tipo de conversa com esse criminoso, resolveu não dizer mais nada. Apenas ficou em silêncio, tentando perceber o caminho que tomavam.
De repente, Xin pegou a faixa de pano que tinha jogado no chão antes, vendou-o novamente e o empurrou para frente. Tang Fan não teve escolha a não ser contar os passos mentalmente enquanto andava.
Percebeu que caminhavam cerca de dez passos à frente, depois virou à direita. Após uns três passos, pôde ouvir vagamente vozes jovens — de crianças —, mas pareciam com as bocas tapadas, só conseguindo emitir gemidos fracos. Logo em seguida, escutou alguém gritar baixinho:
— Fiquem quietos, ou não terão comida amanhã!
Seu coração disparou, mas antes que pudesse pensar, foi novamente empurrado para uma curva à esquerda. Depois de uns cinco passos e outra curva à direita, finalmente pararam, com uma mão o pressionando pelo ombro.
— Segundo-chefe, ele está aqui! — disse Xin.
— Traga-o para dentro — respondeu outra voz.
Enquanto tentava manter a noção da direção, Tang Fan tropeçou ao ser empurrado com força para dentro por Xin e caiu de cara no chão, em um estado lamentável.
— Ele matou o seu pai, Xin Shitou? Por que tanta grosseria? — repreendeu uma voz delicada vinda de perto.
Xin Shitou riu.
— Está preocupada, Dama Nona? Então é verdade que você se encantou por esse sujeito, e é por isso que não deixa o segundo-chefe matá-lo. Ele é tão fraco. Será que conseguiria te servir direito? Que tal deixar esse irmão aqui fazer isso por você?
— É assim que você controla seus subordinados, Deng Xiucai? Deixando-os serem tão rudes comigo? — disse ela, a voz sombria.
— Por que ainda não pediu desculpas à Dama Nona, Shitou? — falou a mesma voz que havia ordenado que o trouxessem. O tom calmo só podia ser de Deng Xiucai, o segundo-chefe da gangue.
Xin Shitou não teve escolha a não ser pedir desculpas, relutante.
— Este deve ser o senhor Tang, de Shuntian? — perguntou Deng Xiucai. — Já ouvi falar muito do seu nome ilustre.
Tang Fan sorriu.
— Não passo de um simples juiz, que nome ilustre? Está me elogiando demais. Mas, devo dizer, a venda estava muito apertada, e isso doeu bastante. Poderia me ajudar a tirá-la primeiro?
— Você só quer ver como somos, não é? Pra que rodeios? Shitou, tire a venda dele. Dê-lhe uma cadeira também.
Com a venda removida, Tang Fan soltou o ar e pôde finalmente observar tudo ao redor. Era outra sala estreita e apertada, mas, diferente da anterior, o mobiliário era muito mais confortável.
Sem falar no fato de que as cadeiras em que aquelas pessoas estavam sentadas não eram nem um pouco frágeis.
Havia três pessoas sentadas à frente. À esquerda, um ancião que não havia dito uma palavra; no meio, Deng Xiucai; e à direita, a bela Dama Nona. Além de Xin Shitou, havia também alguém em pé atrás de Deng Xiucai e da Dama Nona — provavelmente um guarda pessoal.
Deng Xiucai, como o próprio nome sugeria, tinha aparência erudita. Devia ter por volta de trinta anos e usava uma barba bem aparada no queixo. Tang Fan havia ouvido de Wang Zhi que, embora fosse apenas o segundo no comando da gangue, o poder de Deng era considerável. Como o líder raramente aparecia ultimamente, Deng Xiucai acabara se tornando a autoridade principal — de modo que os membros da gangue conheciam apenas ele, e não Ding Yimu.
Além do tráfico de pessoas, a gangue administrava bordéis e casas de jogos, praticava agiotagem e envolvia-se em todo tipo de negócio escuso e lucrativo. Graças às suas conexões com o funcionalismo público, nunca haviam tido um ano ruim — e, quanto mais influência ganhavam, mais ousados se tornavam. Foi assim que tiveram coragem de sequestrar a filha do Grande Tutor. Mas não esperavam que as coisas saíssem tanto do controle: Wan Tong não pôde protegê-los, e o Departamento Ocidental decidiu persegui-los implacavelmente. Por falta de opção, acabaram fugindo para aquele lugar.
Agora que o via pessoalmente, Tang Fan fez uma avaliação mental: Não se deixe enganar pela aparência gentil. Este com certeza é um tirano cruel.
No entanto, quando seu olhar se voltou para a Dama Nona, que estava ao lado, ele ficou surpreso.
Ela riu ao ver sua expressão.
— Por que tão chocado, senhor Tang? Já me viu antes?
Ele rapidamente recobrou a compostura e riu também.
— Não vou esconder, senhorita. Sua aparência é um tanto parecida com a de uma velha conhecida minha. Quase a confundi com ela.
Ela cobriu a boca, rindo como uma flor que balança ao vento, e lançou-lhe um olhar provocante.
— Acertou. Realmente me pareço com ela, e não apenas isso — somos irmãs.
— Então, a Dama Chen — respondeu ele com calma. — Imagino que ela seja a mais velha?
— Você tem bons olhos.
Ela não negou — portanto era verdade. Aquela Dama Nona era a irmã mais nova da concubina de Li Man. Quando o caso da família Li aconteceu, a Dama Chen havia desaparecido. Tang Fan nunca imaginou que encontraria sua irmã.
Agora faz sentido minha identidade ter sido descoberta, pensou ele. Foi ela quem a revelou.
Quando a troca entre os dois terminou, Deng Xiucai finalmente falou, com voz tranquila:
— Você está bem-humorada, Dama Nona. Uma grande calamidade está prestes a cair sobre nós, e ainda assim consegue relembrar o passado.
Ela lhe lançou um olhar.
— Está enganado. Foi você quem causou tudo isso; se não tivesse sequestrado aquelas duas “batatas quentes”, os oficiais não estariam em polvorosa agora. — Então voltou-se para Tang Fan com um sorriso. — O senhor é um homem sábio, senhor Tang. Não queríamos causar tamanho alvoroço. Na sua opinião, o que deveríamos fazer?
Tang Fan não sabia qual era exatamente a posição daquela mulher dentro da gangue, mas, ao ver o lampejo de irritação no rosto de Deng Xiucai, resolveu ir a favor dela.
— Isso é fácil de resolver. Sei que vocês não tinham intenção de desafiar a Corte. Se libertarem essas crianças, podemos fingir que nada disso aconteceu.
— E que peso têm as suas palavras, senhor Tang? — perguntou Deng Xiucai, com tom sombrio.
— Como sabe, a Guarda de Brocado e o Departamento Ocidental são os responsáveis por caçar vocês. Tenho certa amizade com o diretor do Departamento. A pressão sobre vocês é grande porque há filhos de oficiais envolvidos, o que alarmou Sua Majestade. Se vocês cederem um pouco e entregarem as crianças, tudo pode ser suavizado. Quanto à Guarda, é ainda mais fácil. Ouvi dizer que a relação entre a gangue e o emissário Wan é boa — uma palavra sua pode valer mais que dez minhas.
Antes que Deng Xiucai pudesse responder, a Dama Nona interveio:
— Eu disse que o senhor Tang era sensato, segundo-chefe. Ainda duvida? Por melhor que seja a mercadoria, essas crianças não renderiam mais do que mil taéis se fossem vendidas. Já os agentes do Departamento podem tirar nossas vidas. Com ordens imperiais, eles virão atrás de nós como cães raivosos. Vale a pena arriscar nossas vidas por mil taéis?
— A senhora realmente é especialista em assuntos alheios, Dama Nona — respondeu Deng Xiucai lentamente. — Os superiores dão enorme importância ao dinheiro. Sem esses mil taéis, minha tarefa deste ano ficará incompleta. E agora que tudo virou uma bagunça, Wan Tong vai temer ser implicado e, com certeza, arranjará um bode expiatório. Se eu devolver as crianças agora, esse azarado serei eu. A senhora é esperta; com certeza já pensou nisso, não? Ou está querendo me empurrar conscientemente para o fogo?
Ao ouvir isso, Tang Fan compreendeu algo. No albergue onde a Dama Chen havia desaparecido, havia sido deixado o símbolo da Sociedade do Lótus Branco. Assim, se a Dama Nona era irmã dela, também devia ter relação com a Sociedade — o que significava que o “superior” a que Deng Xiucai se referira provavelmente era de lá.
Pela interação entre os dois, não era difícil perceber que havia certo conflito entre eles. Suas opiniões não coincidiam, mas ela não parecia ser membro da gangue — e sim uma enviada da Sociedade. Por isso, embora não gostasse de Deng Xiucai, não podia se opor abertamente a ele.
Ela acreditava que deveriam apaziguar os oficiais entregando as crianças; ele pensava exatamente o contrário. Essa divergência fez Tang Fan se alarmar internamente: Se Deng Xiucai só quer fugir para o Sul, eu me tornei desnecessário, não é?
Além disso… se ela é da Sociedade, por que está se esforçando tanto para me proteger? As mulheres são realmente difíceis de entender.
A Dama Nona sorriu.
— Está levando as coisas a sério demais, segundo-chefe. Você é um dos melhores da Gangue do Sul; se algo acontecer a você e Ding Yimu não conseguir manter o controle, a gangue se desfaz na hora. Eu só acredito que as coisas ainda não chegaram a esse ponto. Entrar em guerra com os oficiais não trará benefício algum — nem para você, nem para mim. Se arruinar nossos assuntos importantes por causa disso, nem precisará se preocupar com os oficiais; a própria Sociedade cuidará de você. Acredita nisso?
Aquelas palavras revelaram informação demais, e Tang Fan mal conseguiu assimilar tudo. Um suor frio escorreu por suas palmas e costas — quanto mais soubesse naquele momento, pior seria para ele.
Como esperado, o rosto de Deng Xiucai se fechou. Ele lançou um olhar gélido para Tang Fan.
— Não me diga que você pegou aquela doença de “não consegue andar reto ao ver um homem bonito”, Dama Nona? Falou demais na frente desse idiota. Pelo visto, não podemos deixá-lo vivo. Vou te ajudar a resolver isso — assim o desastre não voltará para te assombrar depois!
Dito isso, um brilho prateado lampejou de sua manga — uma adaga apareceu e voou direto em direção a Tang Fan!
Este tinha as mãos amarradas e estava sentado em uma cadeira — não havia tempo para desviar. Só conseguiu se inclinar para trás por reflexo, mas o outro se moveu rápido como um relâmpago, surgindo diante dele num piscar de olhos.
A lâmina brilhava friamente, a ponta já rasgando a roupa de seu peito, prestes a perfurar-lhe a pele… quando a voz da Dama Nona ecoou:
— Você ousa tentar matá-lo na minha frente?!
Mal as palavras saíram de sua boca, a sombra de um chicote cortou o ar. Não atingiu ninguém, mas se enrolou na adaga, arrancando-a da mão de Deng Xiucai.
Tudo aconteceu em um piscar de olhos. Todos ficaram atônitos. Quando os dois subordinados se lembraram de proteger o chefe, o confronto já havia terminado.
— Eu tenho uma maneira de resolver as coisas para os dois lados — disse ela, friamente. — Vai me ouvir, ou não?
Deng Xiucai bufou.
— “Resolver para os dois lados”? Como se eu não soubesse o que você está pensando! Você só quer transformar esse sujeito no seu amante!
CAPÍTULO 51 - Covil de Ladrões
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The Fourteenth Year of Chenghua
No décimo quarto ano de Chenghua, o harém imperial tinha uma Consorte Wan, assim como o Depósito Ocidental tinha um Eunuco Chefe chamado Wang Zhi. O Príncipe Herdeiro Zhu Youcheng tinha apenas...