CAPÍTULO 61 - Um Tamanho Nada Mau
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Mais de dez pessoas já haviam morrido e, naquele ponto, ainda não estava claro se o assassino era humano ou um fantasma. O povo comum acreditava que aquilo era um castigo dos deuses do rio e todos estavam apavorados, fora de si. Até mesmo o magistrado He fora influenciado por esse pensamento. No entanto, Tang Fan e os demais encaravam a situação sob uma perspectiva investigativa; eles não podiam se dar ao luxo de pensar dessa forma, pois, se relatassem diretamente à Corte que se tratava de algo sobrenatural, o caso simplesmente não seria investigado.
Além disso, nenhum deles queria perder o chapéu preto que usava na cabeça.
— Já que havia cavernas de ladrões nos túmulos imperiais, isso certamente está relacionado a saqueadores de túmulos — disse Tang Fan. — Depois de tanto tempo, nenhum ladrão foi capturado sequer uma vez?
— Depois do incidente com o antigo chefe da aldeia, ninguém mais ousa ir até lá à noite — respondeu o magistrado He. — Este humilde oficial já levou algumas pessoas durante o dia para inspecionar as cavernas e os túmulos, mas nada foi encontrado. No começo, ninguém quis descer nas cavernas, então não tive alternativa senão oferecer uma recompensa em dinheiro. Só assim alguns se dispuseram a descer. Contudo, eles voltaram pouco tempo depois, dizendo que as cavernas haviam sido escavadas fundo demais, mergulhando numa escuridão total. Não conseguiam enxergar por onde andavam nem para onde os caminhos levavam, e ficaram com medo de avançar. Depois disso, aumentei a compensação mais algumas vezes, e ainda houve quem aceitasse procurar, mas…
Ele murmurou por um instante e, por fim, disse em voz baixa:
— …eles nunca mais voltaram à superfície.
O clima animado do jantar foi esfriando aos poucos. Todos ficaram abalados com a descrição do magistrado.
Esses detalhes não constavam nos memoriais apresentados, mas Tang Fan compreendia o motivo. Os acontecimentos eram estranhos demais e seria difícil descrevê-los claramente em textos tão concisos, já que os memoriais exigiam linguagem direta e resumida. Não havia como registrar cada pequeno detalhe.
Ainda assim, eles haviam vindo da distante capital justamente para investigar o caso, e precisavam descobrir a verdade — pela própria verdade. Apenas que, segundo as palavras do magistrado He, tratava-se de um caso complexo e perigoso, que provavelmente superava em muito as expectativas iniciais deles.
Até Yin Yuanhua, que havia vindo deliberadamente para roubar os créditos, começava a se arrepender da própria insistência.
O magistrado He olhou para Tang Fan com ansiedade, temendo ser repreendido por não ter relatado tudo com clareza no memorial. Só relaxou um pouco ao perceber que o outro não demonstrava intenção de culpá-lo. No instante seguinte, porém, ouviu Tang Fan perguntar:
— A que distância fica a Vila do Rio Luo daqui?
— Não é longe, apenas cerca de dez li da sede do condado.
— Sendo assim, iremos até lá assim que terminarmos de comer e passaremos a noite no local.
O magistrado He ficou completamente atônito.
— Hã?
— O que foi?
O magistrado voltou a si.
— Is-isso não vai dar certo. A vila é simples, temo que não esteja à altura das suas preferências. Além disso, no meio da noite—
— É exatamente por isso — interrompeu Tang Fan. — O senhor não disse que os lamentos começaram novamente há pouco tempo? Estamos indo na hora certa para ver com nossos próprios olhos que tipo de entidade realmente existe ali. Caso contrário, encontraríamos algo durante o dia?
Então ele se voltou para Sui Zhou.
— Qual é a sua opinião, irmão Guangchuan?
O outro assentiu.
— As palavras do senhor Tang fazem sentido. Nós, da Guarda Bordada, não temos objeções.
Claro que a Guarda não teria objeções. Até ali, nada daquilo havia sido particularmente desgastante. Viajar durante o dia e descansar à noite fazia parte do que eles consideravam uma missão externa comum. Quando Sui Zhou investigara o caso de Huang Jinglong, a situação fora muito mais difícil: precisaram evitar os olhos e ouvidos do inimigo, se esconder durante o dia, agir à noite e viajar em ritmo dobrado.
Para os funcionários civis, porém, aquilo era um tanto insuportável — especialmente para Yin Yuanhua. Ao ouvir isso, ele quase quis desmaiar e morrer ali mesmo.
— Senhor, acabamos de chegar! Vamos descansar uma noite aqui. Conversar sobre isso amanhã não seria tarde demais, certo?
Tang Fan era um chefe benevolente.
— Se você não tem forças suficientes, irmão Yin, pode descansar na cidade. Irei com o grupo do Enviado da Fortaleza.
Yin Yuanhua havia sofrido bastante desde a capital até o condado de Gong. Não fora tudo isso justamente para roubar os créditos e, de quebra, conseguir algum material comprometedor contra Tang Fan? Se não pudesse participar da investigação, qual teria sido o sentido de arriscar tudo para vir até ali?
Ele sabia muito bem que Tang Fan não queria levá-lo, ainda por cima lançando comentários sarcásticos, e só pôde forçar um sorriso.
— Como eu poderia fazer isso? Este humilde oficial tem seus deveres. Como eu poderia deixá-lo seguir sozinho, senhor? Por favor, permita que eu vá com vocês!
— Se não estiver se sentindo bem, não force — respondeu Tang Fan com cordialidade. — Recuperar-se da sua doença é importante. Eu posso lidar com tudo.
Doente é você! Doente é a sua família inteira!
Yin Yuanhua quase quebrou os dentes de tanto ranger, mas ainda assim precisou exibir uma expressão comovida.
— O senhor é muito atencioso, mas como eu poderia ficar tranquilo deixando-o enfrentar o perigo sozinho? Acompanhá-lo me deixará mais à vontade.
Vendo que ele insistia, Tang Fan assentiu.
— Então fica a seu critério. Cuide de si mesmo e, se não aguentar continuar, me avise.
O magistrado He não sabia nada sobre o atrito entre os dois e apenas pensou que o senhor Yin, sendo um emissário imperial da capital, estava realmente apostando tudo na missão. Mesmo tendo vomitado tanto, continuava focado exclusivamente no trabalho.
Já que Yin Yuanhua insistia em ir, não havia motivo para que os dois escrivães, Cheng Wen e Tian Xuan, ficassem para trás. O grupo inteiro terminou a refeição e seguiu rumo à Vila do Rio Luo sob a orientação do magistrado.
O grupo do subprefeito se antecipou para providenciar alojamento. A vila, afinal, era inferior à cidade, e com tanta gente chegando de uma vez, nem sabiam se haveria espaço suficiente para acomodar todos.
A distância entre a cidade e a vila não era grande, então ninguém montou a cavalo, optando por liteiras. Os cavalos da Guarda ficaram sob os cuidados da estalagem, merecendo um bom descanso após terem vindo tão longe. A sensação de viajar numa liteira era diferente de montar a cavalo. Sentado sobre uma almofada grossa e macia, com o balanço suave do trajeto, Tang Fan ficou tão confortável que quase cochilou.
Na verdade, cochilou mesmo.
Dormiu até que alguém o despertou com leves batidas.
— Chegamos — disse Sui Zhou, inclinando a parte superior do corpo para dentro da liteira.
Afinal, era um local público, e Yin Yuanhua e os outros estavam presentes. Seria inadequado demonstrar intimidade excessiva, então até a forma de falar entre eles precisava manter certo decoro.
Tang Fan sorriu, esticando as costas. Sentia-se um pouco mais disposto, mas o cansaço físico estava ainda mais evidente, fazendo-o desejar voltar a dormir. Reprimindo esse impulso à força, no instante em que desceu da liteira, voltou a ser o animado emissário imperial.
Essa missão não era apenas um ponto crucial em sua carreira pessoal, mas também estava ligada às perspectivas de riqueza e promoção de outras pessoas. Como enviado principal, ele precisava considerar todos os que estavam abaixo dele e não agir de maneira arbitrária.
Como naquela noite, por exemplo. Deixando de lado pessoas como Yin Yuanhua, que estavam sofrendo miseravelmente de enjoo de viagem, os guardas como Pang Qi estavam ansiosos para conquistar méritos e realmente aguardavam com expectativa a oportunidade de investigar o local imediatamente. Sui Zhou poderia contê-los, mas, colocando-se no lugar dele, Tang Fan não quis tornar as coisas mais difíceis.
Naquele momento, a noite começava a cair, e o céu ainda não estava completamente escuro. Sob o tom azul-acinzentado, todos finalmente contemplaram a Vila do Rio Luo.
Não era um lugar grande, mas também não era pequeno. Ficava próxima ao condado de Gong e às margens do rio Luo. Muitos moradores da cidade também eram originários dali. O constante vai-e-vem havia alisado as estradas, tornando o local relativamente próspero.
Ainda assim, uma vila continuava sendo apenas uma vila. Não havia como ter uma estalagem elegante como a da cidade. Por isso, o subprefeito aproximou-se para relatar a situação, com o rosto cheio de constrangimento.
— Emissários, esta é uma vila rústica e inferior à cidade. Foi difícil encontrar muitas casas. Mal consegui reunir algumas para que possam descansar temporariamente, mas, dessa forma, temo que todos tenham de se sacrificar e compartilhar os espaços. O que acham disso…?
As casas haviam sido desocupadas às pressas, depois que o subprefeito pediu a alguns moradores que se hospedassem com vizinhos ou parentes.
Tang Fan, obviamente, não se importou.
— Quantas casas há no total?
— Nove. Organizei especialmente para que todas ficassem interligadas.
— Agradeço o seu esforço — elogiou Tang Fan. — Assim está ótimo.
O subprefeito, que temia uma repreensão, acabou recebendo elogios e ficou radiante.
— Eu ficarei com Guangchuan. Irmão Yin, Cheng Wen e Tian Xuan ficarão juntos. O restante de vocês se dividirá de acordo com as ordens de Guangchuan.
Sui Zhou levou os guardas para distribuí-los nas sete casas restantes. Algumas eram maiores, outras menores. Tang Fan e Sui Zhou já estavam acostumados a dividir tudo; ficar num quarto pequeno e compartilhar a cama não era problema algum. Ninguém viera até ali para se divertir, então apertar-se um pouco não faria diferença.
O trio formado por Yin Yuanhua e os dois escrivães recebeu uma casa grande, com um cômodo interno e outro externo. Yin Yuanhua ficou com o quarto interno, enquanto os escrivães ficaram no externo.
Os guardas foram ainda mais fáceis de acomodar. Eram todos homens durões e, recebendo um lugar e um cobertor, conseguiam dormir em qualquer canto, sem exigências quando estavam longe de casa.
— Se o senhor não tiver pressa para voltar, poderia nos levar para visitar o antigo chefe da aldeia? — disse Tang Fan ao magistrado He, depois que as casas foram distribuídas.
Percebendo que o outro hesitava e parecia se conter para falar, Tang Fan acrescentou:
— Há algum problema com isso?
O magistrado He esboçou um sorriso sofrido.
— Não é que eu esteja deliberadamente enrolando, senhor. Depois de superar aquele susto anterior, o chefe aparenta estar bem no dia a dia, mas sempre que alguém menciona os acontecimentos daquela noite, ele começa a repetir as mesmas palavras sem parar, a ponto de não dar para extrair nada dele. Além disso…
— Além disso o quê? — perguntou Tang Fan.
— Já está quase anoitecendo. Que tal… que tal fazermos isso amanhã?
Assim que ele disse isso, Tang Fan percebeu que não era apenas o magistrado He — até mesmo o grupo do subprefeito parecia amedrontado.
Antes, o magistrado He havia afirmado que apenas o povo comum acreditava em manifestações sobrenaturais, mas sua hesitação naquele momento deixava claro que ele próprio também tinha receios.
Não muito longe dali, o som da água do rio Luo corria borbulhando, seguindo direto rumo ao Rio Amarelo, ao nordeste. Não era tão turbulento quanto este último, mas ainda assim fluía em correnteza veloz, com uma superfície larga o bastante para a navegação, e vegetação espalhada pelas duas margens. Durante o dia, a vista certamente seria agradável, com verde exuberante e névoa baixa pairando sobre a água — mas agora já era tarde demais para isso. Tudo estava envolto na escuridão, e o vento noturno cortante tornava o frio muito mais intenso do que durante o dia; quem estivesse com roupas mais leves acabava tremendo involuntariamente.
O rio à frente deles não parecia, em nada, capaz de ter engolido tantas pessoas. Ainda assim, talvez influenciado pelo estado de espírito do magistrado e dos demais, Tang Fan sentiu que, ao observá-lo de um ponto elevado, sob aquelas águas ondulantes poderiam estar ocultos inúmeros perigos desconhecidos.
Vendo que todos estavam tão tensos, ele não forçou a situação.
— Muito bem. Indique o caminho até a residência do chefe, deixe algumas pessoas familiarizadas com o terreno para nos auxiliar, e depois retorne para casa.
O magistrado He estava de fato um pouco assustado, então olhou para o subprefeito. Este, ao contrário, desejava agradar os emissários e se ofereceu espontaneamente:
— Este humilde oficial está disposto a ficar e conduzi-los.
Com isso, o magistrado He ficou ainda mais inquieto. Ele deixou mais dois oficiais de justiça para aguardar ordens e, em seguida, desculpou-se com o grupo de Tang Fan, entrou numa liteira e partiu apressadamente.
O magistrado He agia com excesso de cautela e indecisão. Se fosse uma pessoa comum, isso não seria um problema, mas ele era um funcionário nomeado pela dinastia. Deveria assumir ao menos parte da responsabilidade, nem que fosse pensando no próprio futuro. Como não tinha coragem de ir até o fim, estava fadado a jamais progredir na carreira oficial. Ainda assim, Tang Fan não o repreendeu; naquele momento, o mais importante era investigar o caso, algo que pouco tinha a ver com o magistrado. Sua presença ali não faria grande diferença.
Em contraste, o subprefeito Zhao mostrou-se muito mais entusiasmado. Através de sua explicação, o grupo de Tang Fan ficou sabendo que o atual chefe da aldeia era o filho do antigo chefe. Como o velho chefe sempre fora respeitado e disposto a se sacrificar pelos moradores, mas acabara sofrendo um destino tão trágico, todos haviam eleito seu filho mais velho como novo líder. O antigo chefe agora vivia com ele.
Guiados pelo subprefeito Zhao, chegaram à casa do chefe. O homem já havia ouvido dizer que figuras importantes tinham chegado ao condado, mas não ousara aparecer sem ordens do magistrado He. Agora, ao ver os emissários imperiais chegarem pessoalmente, apressou-se em recebê-los. Os vizinhos também ficaram alarmados, e a vila normalmente tranquila mergulhou num breve caos. A casa era pequena demais para acomodar tanta gente, então Tang Fan pediu a Pang Qi que montasse guarda do lado de fora com os demais, enquanto ele entrava com Sui Zhou, Yin Yuanhua e os escrivães.
O filho mais velho do chefe, de sobrenome Liu, tinha pouco mais de quarenta anos. Era um homem simples e honesto. Assim que soube da intenção de Tang Fan, entrou para chamar o pai e depois curvou-se em pedido de desculpas.
— Meu pai está com a fala um pouco confusa no momento. Às vezes, não dá para entender claramente o que ele diz. Peço que não o culpem, senhores.
— Não precisa se preocupar — disse Tang Fan com gentileza. — Faremos apenas algumas perguntas e iremos embora. Receio apenas que acabemos incomodando por alguns dias.
O chefe Liu parecia ter alguma experiência com situações assim. Embora demonstrasse respeito temeroso, suas palavras eram educadas. Ele sorriu de forma afável.
— É uma honra para este chefe receber senhores tão ilustres. Como poderiam ser um incômodo? Esta vila é que é simples demais; temo que sejam vocês os prejudicados.
Enquanto conversavam, o velho chefe escutava de perto. Ele parecia calmo, esfregando lentamente as mãos, sem nada que o diferenciasse de uma pessoa comum. Porém, quando Tang Fan mencionou aquela noite, sua expressão mudou de repente. Seu corpo começou a tremer levemente, a boca se abriu e se fechou, como se quisesse dizer algo.
— Pai, este é o alto funcionário enviado pela Corte para investigar o caso — disse o chefe Liu. — Pode contar a esses senhores o que realmente aconteceu naquela noite?
O velho chefe balançou a cabeça repetidas vezes.
— Não posso! Não posso! A ira divina cairá sobre nós!
— Não tenha medo, pai. Esses oficiais são mensageiros celestiais; nem fantasmas ousam se aproximar deles. O senhor não disse que viu deuses do rio? O que aconteceu?
O velho suspirou.
— Senhores, não é que este velho se recuse a falar, mas eu realmente não quero ver todos vocês caminharem para a morte! Naquela noite, eu vi claramente deuses saírem do rio — aqueles que foram saquear os túmulos foram arrastados de uma vez só, sem sobrar sequer ossos!
Essa parte da história não havia sido mencionada pelo magistrado He.
— O senhor viu ladrões antes disso? — perguntou Tang Fan.
O velho chefe assentiu.
— Sim. Eles carregavam pás para saquear túmulos. Quando nos encontraram, tentaram fugir, então os perseguimos, perseguimos até a margem do rio, e então… — Ao relembrar aquela noite, ele foi dominado pelo medo e logo voltou a falar de forma desconexa. — E então encontramos fantasmas! Havia fantasmas, muitos fantasmas…
Veja só. Antes eram deuses do rio; agora, fantasmas novamente.
Tang Fan, Sui Zhou e os demais trocaram olhares.
— Pai, do que o senhor está falando afinal?! — exclamou o chefe Liu.
O velho tremia, o rosto distorcido como se tivesse visto algo horrível demais para ser descrito. Encolhendo-se num canto, lágrimas escorriam de seus olhos turvos.
— O Pequeno Sexto da família Liu teve metade do corpo arrancada. A parte de cima ainda estava na margem, cravando as unhas no chão enquanto se arrastava de bruços, chorando e gritando para que o salvássemos… O oficial Zhou correu, agarrou a mão dele e tentou puxá-lo, mas se eu não tivesse segurado Zhou, ele também teria sido arrastado… então vimos, todos nós, que havia algo dentro do rio…
— O que era? — Tang Fan insistiu.
— Deuses do rio! Os deuses do rio!
— …
Não havia como manter uma conversa séria com um ancião naquele estado. Como o magistrado dissera, tudo o que ele falava era fragmentado: a primeira parte até fazia algum sentido, mas logo depois virava puro delírio, tornando impossível distinguir verdade de imaginação.
Como já não conseguiam extrair mais nada, Tang Fan se virou para Sui Zhou.
— Você quer perguntar algo, irmão Guangchuan?
O outro balançou levemente a cabeça.
Yin Yuanhua, porém, fez uma pergunta diferente.
— O senhor chegou a ver como eram os deuses do rio?
O velho chefe congelou por um instante, os dentes batendo. O chefe Liu correu para apoiá-lo.
— Pai, o que houve?! — perguntou, aflito.
Para surpresa de todos, o velho começou a tremer ainda mais violentamente, empurrou a mão do filho e se encolheu no canto do kang.
Sem alternativa, o chefe Liu implorou a Tang Fan:
— Senhor, nesse estado, meu pai realmente não consegue dizer mais nada. Poderiam voltar a perguntar em outra ocasião?
Sentindo-se um pouco envergonhado, Yin Yuanhua lançou um olhar irritado ao velho. Porém, naquele instante, o ancião ergueu a cabeça. O terror e o desespero em seu olhar eram extremos — e, junto deles, havia um pedido silencioso. Um frio percorreu o corpo de Yin Yuanhua, que desviou o olhar imediatamente.
Tang Fan se levantou, pediu ao chefe Liu que cuidasse bem do pai e saiu com os demais.
Atrás deles, o velho murmurava para si mesmo:
— Não vão… não vão nunca… há fantasmas lá, fantasmas, tantos fantasmas… fantasmas por toda parte…
Tang Fan não resistiu e olhou para trás, mas o velho já havia abaixado a cabeça, apoiando o crânio na parede. Não lhes lançou sequer um olhar.
Do lado de fora da casa dos Liu, ainda era o mesmo shíchen. Tang Fan ordenou que todos retornassem às casas que haviam sido temporariamente preparadas para eles e se preparassem para dormir.
Falando nisso, o subprefeito Zhao mostrara-se muito mais atencioso que o magistrado He. Havia providenciado até água quente e panos para o rosto. Temendo não ser cuidadoso o suficiente, enquanto Tang Fan e os outros estavam interrogando os Liu, ele mandara pessoas à cidade comprar alguns quitutes. Agora, o bule de chá sobre a mesa ainda estava soltando vapor. O conjunto era simples, mas assim que o aroma chegou ao nariz de Tang Fan, ele percebeu que se tratava de chá verdadeiro, de boa qualidade.
— O magistrado He teve medo da morte e insistiu em voltar antes, enquanto o subprefeito Zhao ficou por iniciativa própria. A consideração entre um e outro é como o céu e a terra! — Tang Fan balançou a cabeça enquanto servia chá para si e para Sui Zhou. — Ele só quer que você volte e diga algumas palavras boas por ele. As pessoas sempre buscam posições mais altas; ninguém quer ser subprefeito a vida inteira.
Sui Zhou abriu as bandagens limpas que havia pegado com Pang Qi e aplicou nelas a pomada que ele mesmo trouxera.
— Venha aqui.
Ao ver o que ele tinha na mão, Tang Fan soltou um riso seco.
— Estou enfaixado há tantos dias, você não sabe? Já devem estar praticamente curados. Não precisa trocar tudo de novo, é tão constrangedor.
— Eu disse para vir aqui, então venha — respondeu Sui Zhou, impassível. — Você acha que não sabe se estão realmente “curados”?
Claro que não estavam. Tang Fan só pôde suspirar, derrotado, e caminhar lentamente até ele.
— Deite, tire as calças e levante a túnica.
— …
Aquilo soava extremamente ambíguo. Se alguém estivesse passando do lado de fora naquele momento, certamente entenderia tudo errado.
Mas, na verdade, não era nada disso.
A constituição física de Tang Fan não era mais forte do que a de Yin Yuanhua ou dos outros dois. Montar a cavalo por tantos dias fora doloroso, mas viajar de carruagem teria sido ainda pior — bastava olhar o estado lamentável de Yin Yuanhua para comprovar isso. Em comparação, cavalgar machucava apenas o traseiro e as coxas, não o corpo inteiro. Como líder máximo da expedição, Tang Fan preferira suportar um pouco mais de dor; ele absolutamente não podia acabar como Yin Yuanhua, com toda a sua elegância jogada no chão.
Isso era o que se chamava suportar dificuldades em vida para morrer com dignidade.
Seu traseiro estava bem, protegido pela pele mais espessa. O verdadeiro problema eram as coxas internas, que haviam sido constantemente esfregadas e sacudidas durante a cavalgada, formando bolhas que estouraram e sangraram. Essas feridas precisavam receber pomada. No começo, Tang Fan tivera vergonha de mencionar isso por orgulho, até que Sui Zhou o obrigara a tratar os ferimentos.
Trocar os curativos todas as noites tornara-se a coisa que o senhor Tang mais detestava fazer. Se pudesse escolher, provavelmente preferiria ir enfrentar amigavelmente os “deuses do rio” de Luo a ficar deitado de costas — pernas abertas, calças abaixadas e túnica erguida — enquanto Sui Zhou envolvia as áreas feridas com novas gazes.
Mesmo sendo todos homens ali, cada um com o que devia ter e sem o que não devia, ele ainda se sentia extremamente constrangido. Fitava as vigas do teto acima de sua cabeça, fingindo que a mente vagava para longe, apenas para disfarçar o próprio embaraço.
Sui Zhou parecia capaz de enxergar seus pensamentos mais íntimos. Por dentro, achava tudo aquilo hilário; por fora, mantinha a expressão tão impassível quanto sempre. Deu algumas voltas com a faixa, então lançou um olhar aparentemente casual para a virilha do outro.
— Não é um tamanho nada mau — comentou, com total indiferença.
Ignorem Tang Fan fingindo-se de morto; sua atenção continuava completamente alerta. No instante em que aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos, ele ficou vermelho na mesma hora, fervendo de indignação.
— Que audácia a sua! Ter coragem de comentar a aparência de um emissário imperial! Quer morrer?!
Sui Zhou soltou um resmungo.
— Eu também sou um emissário.
— Você é o adjunto, eu sou o principal! Pare de falar besteira — tire a roupa e deixe este oficial comentar pessoalmente!
— Tem certeza de que quer ver?
— Claro que tenho!
Ele achou que Sui Zhou encontraria alguma desculpa para recusar, mas, contra todas as expectativas, o outro se levantou com naturalidade e começou a desatar o cinto da calça sem dizer mais nada.
— Não, não, deixa pra lá! — Tang Fan se apressou em dizer. — Eu sei que você é mais novo que eu, então não seria bom ferir o seu ego. Todo homem quer preservar as aparências; vou permitir que você faça isso dessa vez.
— Não tem problema. Eu não me importo.
— …
Sui Zhou só queria provocar Tang Fan; não era realmente tão tolo. Ao perceber que o senhor Tang estava prestes a eriçar os pelos, ele parou, puxou o prato de doces para perto, pegou um pedaço e levou pessoalmente até os lábios de Tang Fan.
Sob a luz fraca da vela, Tang Fan não conseguia distinguir bem a aparência do bolo de jujuba azeda, mas o sabor era excelente — doce e levemente ácido. Havia nele algo vagamente familiar, lembrando o tempero da cozinheira de sua casa de infância.
Sem resistir, ele passou a língua para recolher o restante do doce, roçando sem querer no dedo de Sui Zhou. O outro congelou por um instante e então retirou a mão com rapidez.
Tang Fan não percebeu. Cerrando levemente os olhos, saboreou a sensação e assentiu, elogiando:
— Esses doces que o subprefeito Zhao escolheu são ótimos! Que pena que este lugar é tão inquietante. Seria um desperdício desses bons quitutes se tivermos de sair correndo por aí no meio da noite.
Sui Zhou mandou que ele vestisse as calças e se levantasse, enquanto se inclinava para ajeitar os lençóis.
— Você acha que há algo estranho nisso tudo?
Tang Fan pegou outro doce e colocou na boca.
— Você percebeu também?
— Não coma demais, ou depois não vai conseguir dormir — Sui Zhou franziu a testa. — Aquele velho parece ter algum problema.
Tang Fan assentiu, querendo dizer algo, mas o doce acabou descendo de uma vez, fazendo-o quase se engasgar. Ele levou a mão ao pescoço e desviou o olhar.
Sem paciência, Sui Zhou se aproximou e deu leves tapinhas em suas costas, passando-lhe uma xícara de chá.
— Como foi que você conseguiu sobreviver esses últimos vinte anos?
O chá desceu, levando o doce junto. Tang Fan finalmente suspirou aliviado e riu.
— Eu devo ser um flagelo que dura mil anos. Também acho o velho suspeito; ele falava de forma desconexa, mas parecia mais encenação do que loucura de verdade.
Sui Zhou murmurou em concordância, esperando que ele continuasse.
— Existem algumas possibilidades. Primeiro: ele matou aquelas pessoas. Mas isso é pouco provável. Não consigo imaginar por que ele teria feito isso sem motivo algum e, além disso, trata-se de um ancião frágil. Seria impossível para ele matar tantos sozinho, a menos que tivesse ajuda — o que não parece viável. Então, por ora, podemos descartar essa hipótese.
— Segundo: ele, e talvez até a vila inteira, estejam em conluio com os saqueadores de túmulos, fazendo de tudo para nos enganar e nos conduzir à ideia de algo sobrenatural. Talvez os ladrões tenham prometido dividir os lucros com a vila depois de saquearem os túmulos reais. Aqueles que morreram teriam descoberto o segredo e tentado denunciá-los.
Depois de analisar isso com calma, Tang Fan balançou a cabeça de repente.
— Mas isso também não faz muito sentido. Temos pistas demais em falta. É difícil chegar à verdade tão rápido.
— Há outra possibilidade — disse Sui Zhou.
Tang Fan olhou para ele.
— O que o velho disse é verdade.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Você acredita em fantasmas?
Sui Zhou balançou a cabeça.
— Talvez não sejam fantasmas, mas outra coisa. Independentemente de o antigo chefe estar realmente louco ou fingindo, é certo que ele está escondendo algo e não pretende explicar.
Tang Fan sorriu.
— Diplomacia antes da força. Parece que vamos precisar da Guarda Bordada para agir.
Quando se tratava de arrancar confissões, ninguém no império era melhor do que a Guarda Bordada.
Muitos pensavam imediatamente em métodos cruéis ao ouvir a expressão “arrancar confissões”, mas, na verdade, existiam inúmeras técnicas não violentas capazes de fazer alguém contar a verdade obedientemente — métodos usados principalmente contra oficiais que mentiam, mas não podiam ser torturados. Era um segredo da Guarda, transmitido internamente e jamais compartilhado com outros.
Agora, usar algo assim contra um ancião de uma vila remota seria até exagero.
— Vamos descansar primeiro e falar mais disso amanhã — disse Sui Zhou.
De fato. Já era a Hora do Javali (entre nove e onze da noite); era hora de dormir.
Do lado de fora, reinava o silêncio absoluto. Não se ouviam nem galinhas nem cães. Tudo o que vivia parecia ter adormecido.
Dizer que não havia som algum, porém, seria incorreto. O rio Luo corria dia e noite, e o barulho constante da água preenchia os ouvidos. Depois de um tempo, o som deixava de incomodar e parecia, em vez disso, lavar os anos de confusão acumulados no coração.
O espaço no kang não era estreito, mais do que suficiente para duas pessoas dormirem. Tang Fan ficou por dentro, Sui Zhou por fora. Haviam dividido o mesmo teto por muito tempo, mas nunca haviam dormido lado a lado daquela forma.
Sui Zhou ouviu Tang Fan se mexer e então disse em voz baixa:
— Vire para o outro lado.
Tang Fan não perguntou o motivo e obedeceu, dando-lhe as costas. Sentiu o queixo ser segurado por uma palma quente, enquanto a outra mão de Sui Zhou pressionava lentamente alguns pontos de acupuntura na parte de trás de sua cabeça.
A tensão em sua cabeça foi se dissipando aos poucos, arrancando-lhe um gemido de conforto. Sob a pressão precisa de quem estava atrás, o cansaço veio acompanhado de ondas de sonolência intensa, e ele rapidamente caiu no sono.
Após a meia-noite, teve um sonho estranho.
Nele, caminhava à beira de um rio negro, com inúmeros montes funerários espalhados de forma irregular pelas planícies abertas à distância. O vento uivava, e, misturado a ele, vinha o som de choro, ecoando de longe — lúgubre, estridente, como se carregasse tristeza e ódio infinitos, ondulando pelas planícies até se infiltrar nos ouvidos de Tang Fan, fazendo-o estremecer de medo.
O choro se aproximava cada vez mais, mais e mais — de repente, parecia haver algo atrás dele!
A sensação era indescritível; ele só sabia que jamais sentira tamanho terror antes.
Lentamente, virou a cabeça…
E sacudiu o corpo inteiro, abrindo os olhos de supetão.
— Não se mexa — sussurrou Sui Zhou junto ao seu ouvido, com o braço passado firmemente pela cintura dele.
Ao ouvir sua voz, o coração de Tang Fan, que batia descontrolado por causa do pesadelo, foi se acalmando aos poucos. No entanto, logo percebeu que o lamento etéreo que lhe causara tanto desconforto não fazia parte do sonho.
Ele vinha diretamente do lado de fora.
CAPÍTULO 61 - Um Tamanho Nada Mau
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The Fourteenth Year of Chenghua
No décimo quarto ano de Chenghua, o harém imperial tinha uma Consorte Wan, assim como o Depósito Ocidental tinha um Eunuco Chefe chamado Wang Zhi. O Príncipe Herdeiro Zhu Youcheng tinha apenas...