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The Fourteenth Year of Chenghua

CAPÍTULO 43 - Sendo Provocado

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🟡 Em breve

E, contra todas as expectativas, a atmosfera que parecia seguir naquela direção foi rapidamente interrompida.

O subordinado que acompanhava o Eunuco Wang não ousava interromper o embate de olhares de seu superior, mas a pequena Ah-Dong não tinha essas reservas.
Ela saiu do quarto de Tang Fan, tigela e hashis nas mãos.

— “Por que estão parados aí e não entram?” — perguntou, confusa, ao ver aquela cena.

Só então o Eunuco Wang limpou o pó inexistente de suas roupas, curvou os lábios num sorriso de significado incerto para Sui Zhou, e passou por ele, entrando no recinto.

Vendo que Sui Zhou não o acompanhava, Ah-Dong ficou intrigada.

— “Você não vai entrar, Irmão Sui? Quem é aquele cara? Por que ele tem esse ar tão imperial?”

Sui Zhou apenas balançou a cabeça, sem responder.
Lançou um olhar ao guarda da Prisão do Depósito que estava do lado de fora e virou-se para ir embora.

Eles conversariam mais tarde, dentro do quarto.

Um homem normalmente elegante e de aparência refinada dificilmente mantinha o mesmo charme quando estava doente — e Mister Tang, é claro, não era exceção.

No momento, ele usava um lenço para cobrir o nariz enquanto espirrava, limpando-o em seguida.
Ao notar que o Eunuco Wang permanecia três chi (aproximadamente um metro) distante, com uma expressão de repulsa, ele comentou, com o nariz entupido:

— “Que honra receber sua visita, Eunuco Wang. A que devo sua presença?”

Sua voz soava carregada, o tom nasal acentuado, e os olhos ligeiramente avermelhados. Sua pele clara como jade contrastava com os cabelos bagunçados caindo sobre o rosto — uma aparência que, à primeira vista, lhe conferia uma beleza frágil.

…ou assim seria, se o Eunuco Wang não tivesse acabado de vê-lo espirrar e assoar o nariz.

O Eunuco Wang de repente avançou até onde Tang Fan estava, fechando a porta misteriosamente, como se fosse o anfitrião e não o convidado, expulsando até a família do dono da casa.
Naturalmente, ele não viera apenas para fazer uma visita.

— “Você ainda não ouviu as novidades na Corte?” — perguntou, respondendo à questão de Tang Fan.

— “Tenho estado doente nos últimos dias e permanecido em casa. Um dia tem doze shichens, e durmo pelo menos oito ou nove deles. Onde eu arrumaria tempo para me inteirar das notícias? O que aconteceu?”

Wang Zhi franziu os lábios.
— “Pedi ao Imperador autorização para retomar o Grande Curvado (Great Bend). Como você previu, foi rejeitado.”

Tang Fan assentiu, sem surpresa.

O outro parecia levemente contrariado. Jovem, ele vinha chefiando o Depósito Ocidental havia dois anos, adquirindo grande experiência fora do palácio. Sua capacidade de observação não ficava atrás da de Tang Fan. Mas, embora tivesse ambição de conquistar méritos militares e comandar tropas, seu conhecimento bélico era apenas mediano.

Puxou uma cadeira para perto da porta e sentou-se.
— “Qual é o truque disso? Me diga — como você tinha tanta certeza de que Sua Majestade não aprovaria a retomada?”

(Será que ele precisa se sentar tão longe? Eu só peguei um resfriado, não a peste…)

Tang Fan olhou para ele, ligeiramente sem palavras.

— “Todos sabem que o Grande Curvado é uma região estratégica, mas é fácil de atacar e difícil de defender. Mesmo que a dinastia a reconquiste, será difícil mantê-la. A Corte não vai gastar tamanha energia por um território que pode ser perdido a qualquer momento. Quando fizerem as contas, perceberão que os custos superam os ganhos. Essa é uma das razões.

“Outra é que, embora tenhamos força, nos falta moral. O país de hoje não é o mesmo de antes da Crise de Tumu. Veja a sociedade: quem, por vontade própria, fala em reconquistar terras? Mesmo o Imperador deve pensar que, quanto menos complicações, melhor. É natural, portanto, que sua proposta tenha encontrado resistência, Eunuco Wang.”

Wang Zhi franziu a testa.
— “Mas você mesmo sugeriu que eu fosse ao Norte. Agora que a retomada não pode acontecer, que mérito haveria nisso?”

— “Não é que o Grande Curvado não deva ser retomado, mas sim que não pode ser apressado”, respondeu Tang Fan, em tom baixo.
“Seria uma batalha enorme. Precisa do tempo certo, do lugar certo e das pessoas certas para garantir a vitória. Se nem um terço delas coopera, como discutir essa empreitada? Sua vontade de recuperar território é admirável, mas essa é uma refeição que se come mordida por mordida. A guerra é igual.

“O Norte muda constantemente — os Oirates e os Tártaros oscilam entre força e fraqueza —, mas o que nunca muda é que o Grande Ming continua sendo ameaçado. Yongle transferiu a capital para Pequim justamente para que os imperadores seguintes pudessem reagir rapidamente aos ataques bárbaros do Norte, mantendo a fronteira segura.”

O que ele não disse foi que era uma sorte a capital ser Pequim e não Nanquim.
Pois, se dependesse dos hábitos do imperador atual, ele estaria alegremente se divertindo no Sul enquanto o Norte seria invadido repetidas vezes pelos Oirates e Tártaros.
Agora, ao menos, havia uma constante sensação de urgência em relação à segurança de Pequim — pois a cidade jamais poderia ser perdida.

— “Portanto, mesmo que reconquistar o Grande Curvado seja importante, não é a única prioridade”, prosseguiu Tang Fan.
“Desde a Crise de Tumu, nosso lado tem perdido mais do que vencido, e isso enfraqueceu nosso ânimo.
Com o declínio dos Oirates, os Tártaros cresceram.
Muitos acreditam que, se não podemos vencer, o melhor é ficarmos trancados e, quando as coisas apertarem, subornar os Tártaros com ouro e tesouros — ou deixá-los saquear as cidades por um tempo, pois, quando se fartarem, partirão satisfeitos.

“Se você conseguir intimidá-los, a ponto de terem medo de nos atacar constantemente, isso já seria um mérito considerável.”

A Dinastia Ming era vasta, e justamente por isso não podia se mover com facilidade.
Os Tártaros, sendo nômades, faziam ataques rápidos e desapareciam logo depois.
Não se fixavam em nenhuma cidade fronteiriça.
O inimigo se escondia nas sombras, enquanto o Ming estava à vista — uma situação difícil de lidar.

Era por isso que o país nunca conseguia resolver o problema.
Eles eram como moscas negras zumbindo ao redor: bastava um tapa para dispersá-las, mas, com o tempo, voltavam a aparecer, enquanto o alvo — grande e imóvel — continuava exposto.

Como lidar com isso?
A única maneira era tornar-se tão poderoso que as moscas sequer ousassem se aproximar.

Mas, para que o Grande Ming se fortalecesse… seria preciso substituir os altos funcionários incompetentes da Corte, e, se possível, lavar o cérebro do Imperador, para que ele deixasse de desperdiçar sua vida.

Assim, se Wang Zhi quisesse realmente reconquistar o Grande Curvado, seria praticamente impossível fazê-lo sem antes enfrentar aqueles homens.

Wang Zhi estava animado, sonhando em pegar a melancia e comer também as uvas, mas Tang Fan o lembrou de que a melancia ainda não estava madura — então ele só poderia comer as uvas.
Seu entusiasmo desapareceu.

Vendo sua falta de interesse por assuntos pequenos, Tang Fan suspirou.
— “Eunuco Wang, perdoe minha franqueza, mas se o Grande Curvado fosse tão fácil de recuperar, Yongle, com toda a sua sabedoria e estratégia, já o teria retomado.
Por que seria nossa vez agora?
E uma vitória sobre os Tártaros não seria já um grande mérito?
Além disso, a dinastia sequer tem recursos para sustentar uma campanha de retomada nesse momento.”

Wang Zhi levantou-se abruptamente.
— “Chega! Não quero ficar na capital discutindo com Shang Ming todos os dias por causa de um pedaço de terra insignificante. Que tédio!
Quero fazer algo grandioso — só assim sentirei que não vivi em vão.”

— “Aqueles que vão embora quando o chá esfria são os que mais temem as difamações,” alertou Tang Fan.
“Quando você retornar, Sua Majestade e a Consorte talvez já o tenham esquecido.”

Na opinião de Tang Fan, Wang Zhi tinha muitos defeitos, mas era superior à maioria dos eunucos — tinha visão ampla, ao contrário de Shang Ming, que só sabia bajular o Imperador e eliminar rivais.
Independentemente de seus motivos, o fato de ter ajudado a encobrir o caso de Yuan Liang, protegendo assim o Príncipe Herdeiro da vigilância da Consorte Wan, fazia dele alguém melhor do que muitos oficiais da Corte.
Por isso Tang Fan estava disposto a aconselhá-lo.

Wang Zhi acenou, afastando o assunto.
— “Entendo.”
Mas logo franziu o cenho, desconfiado.
— “Ainda assim… você é jovem e ocupa um cargo pequeno. Como sabe tanto sobre o estado das fronteiras do Norte?
Dizem que os estudiosos aprendem sobre o mundo sem sair de casa, mas não há muitos como você na Corte.
Acho que nem mesmo Pan Bin, depois de tantos anos como oficial, conseguiria dizer o que você disse.”

Tang Fan sorriu.
— “Como estudiosos que nunca saem de casa poderiam conhecer o mundo?
Quando meus pais morreram cedo, usei meu título de Honorato do Condado recém-conquistado para viajar e estudar.
Fui de Yunnan, no Sul, até o Deserto de Gobi, no Norte.
Li muitos livros, caminhei muitos li, e cada passo que dei deixou uma marca.”

Wang Zhi ficou tocado com o relato, passando a vê-lo sob uma nova luz.

Naquela época, viajar era uma tarefa árdua.
Tang Fan não era uma mulher frágil, mas ainda assim estava sozinho.
Mesmo em tempos de paz, sempre havia bandidos e soldados rebeldes nas estradas.
Doenças, frio, fome — tudo era risco constante.
E desde o reinado de Zhengtong, revoltas surgiam repetidamente.
Um erudito sem artes marciais, como Tang Fan, se fosse pego no meio de uma rebelião, provavelmente seria morto sem piedade.

Mas ele sobreviveu.
E não apenas isso — passou nos exames imperiais, tornou-se Graduado do Palácio e depois, oficial da Corte.

Todas as dificuldades e riscos que enfrentou se transformaram em força.
Bastaria registrar tudo, e seria uma história maravilhosa de superação.

Um oficial como ele não podia ser comparado àqueles que apenas se trancavam em casa, vivendo para ler até morrer, ocupando cargos só para passar o tempo.

No mundo, nem todos os que enfrentam dificuldades alcançam a glória — mas todos os que se tornam grandes enfrentaram dificuldades, sem exceção.

O Eunuco Wang já achava que Tang Fan era diferente dos demais.
Agora, tinha certeza.

E decidiu que valeria a pena investir nele — fosse politicamente ou emocionalmente, manter uma boa relação com esse homem seria uma vantagem no futuro.

Depois de terminarem de conversar sobre assuntos oficiais, Wang Zhi se preparou para se levantar e ir embora. De bom humor, ele sorriu de forma ambígua para Tang Fan.

— Notei que você costuma se portar como alguém livre e despreocupado, mas não ao ponto de desperdiçar a vida à toa. Como acabou adoecendo? Já que tem um homem adulto e uma garotinha cuidando de você, quer que eu mande algumas criadas bonitas? — brincou.

— Dispenso, obrigado. O vinho é veneno para as vísceras, e a luxúria é uma lâmina para os ossos — respondeu Tang Fan. — Temo que meus ossos sejam cortados em pedaços antes mesmo de eu me recuperar do resfriado. Mas, se quiser me ajudar, há algo que você pode fazer por mim.

— E o que seria? — perguntou Wang Zhi, curioso.

Tang Fan pareceu um pouco constrangido.

— Bem… veja, tenho estado doente em casa nesses últimos dias e mal consigo sair. Ouvi dizer que várias livrarias estão lançando novos livros. Não posso incomodar Sui Zhou nem uma garotinha para comprar essas trivialidades, então gostaria de pedir que comprasse alguns volumes e os enviasse para mim. Estar doente é entediante, e seria bom para passar o tempo.

Wang Zhi franziu as sobrancelhas, desconfiado.

— Que tipo de livros? Não são eróticos, são?

Tang Fan quase engasgou.

— Eu pareço alguém tão indecente assim?!

Wang Zhi respondeu sem nem pensar:

— Não.

Tang Fan suspirou, aliviado.

— Mas as aparências enganam.

— …

Tang Fan fez uma careta.

— Não são livros eróticos, são romances! Histórias de amor com elementos sobrenaturais e casos estranhos! Vai trazê-los ou não?!

Wang Zhi sorriu, divertido.

— Trarei, claro. Já que você me ajudou tanto, como eu poderia recusar um pedido tão simples?

Em algum momento, Wang Zhi se aproximou e, de repente, ergueu o queixo de Tang Fan com a mão, observando-o de um lado para o outro.

— Pensando bem, você é até bonito. Se um dia deixar de ser oficial e for vender romances na cidade, acho que o negócio vai prosperar — todas as mulheres iriam querer comprar de você.

Tang Fan não conseguiu evitar e revirou os olhos, sem elegância.

— Se esse dia realmente chegar, vou vender meus livros bem na porta do Departamento Ocidental.

Assim que terminou de falar, ouviu-se o rangido da porta se abrindo.

Sui Zhou entrou com uma tigela de remédio, bem a tempo de ver Wang Zhi curvado, com a mão no queixo de Tang Fan. Este, por sua vez, estava inclinado para trás, reclinado na cama, coberto por um cobertor. Por causa da tosse, duas manchas rosadas tingiam sua pele pálida; o cabelo estava bagunçado e as roupas um tanto desalinhadas. A distância entre eles era tão pequena que qualquer um que visse poderia facilmente interpretar a cena de forma… errada.

Vale mencionar que os eunucos da dinastia Ming não eram tão efeminados quanto muitos imaginavam. Havia entre eles homens altos, fortes e de aparência máscula — se não fosse pela ausência de barba, ninguém perceberia a diferença.

O Chefe Eunuco Wang, apesar de ter um semblante mais suave, estava longe de ser fraco ou frágil. Afinal, alguém que praticava artes marciais desde a infância — assim como Sui Zhou — não teria um corpo delicado.

Em contraste, Tang Fan, sendo um erudito civil e ainda por cima doente, aparentava bem menos força.

De qualquer ângulo que se olhasse, parecia que o eunuco Wang estava dando em cima dele, provocando-o de forma sugestiva.

Sob o olhar frio e silencioso de Sui Zhou, Wang Zhi soltou graciosamente o queixo de Tang Fan e deu-lhe um leve tapinha no rosto.

— Passarei outro dia para vê-lo. Melhore logo — disse, com um tom que soava… carinhoso demais.

Tang Fan: “…”

Por que ele tinha a sensação de que aquelas palavras poderiam ser mal interpretadas?!

Ignorando completamente a aura gélida e imponente de Sui Zhou, Wang Zhi comentou com um sorriso:

— O Centurião Sui é realmente virtuoso — traz remédio e ainda cuida dele pessoalmente. Se as coisas continuarem assim, o Senhor Tang nem vai precisar se casar, não é mesmo?

Sem esperar reação de Tang Fan, Wang Zhi riu alto e saiu andando tranquilamente.

O que ele havia dito foi extremamente ousado, completamente indiscreto e, acima de tudo, atrevido. Se fosse outro homem sendo provocado dessa forma — comparado a uma esposa submissa — certamente guardaria rancor. Felizmente, Tang Fan não levou a sério, e Sui Zhou também não se rebaixou à provocação, permitindo que o diretor do Departamento Ocidental saísse livremente.

O azarado da vez foi Tang Fan, pois assim que Wang Zhi foi embora, ele acabou levando uma bronca.

— O humor de Wang Zhi é instável, e ele não sabe distinguir o certo do errado — disse Sui Zhou, com expressão fria. — Fazer amizade com ele não vale a pena.

Tang Fan concordava com a avaliação, mas ainda tentou argumentar:

— Sua Majestade está favorecendo os eunucos atualmente, e essa situação é difícil de mudar. Os que agem com rigor, como Huai En, são minoria. O Imperador prefere os que o agradam, como Liang Feng, Wang Zhi e Shang Ming. Mesmo que não fosse Wang Zhi, seria um Li Zhi ou um Zhang Zhi. Se eu puder ao menos direcioná-lo a fazer algo bom para o país e para o povo, já é um ganho.

Vendo que Tang Fan compreendia a situação, Sui Zhou não insistiu. Apenas colocou a tigela de remédio diante dele.

Tang Fan: “…”

Ele tentou sorrir de modo suplicante.

— Olha… será que a gente pode conversar sobre isso? Já estou quase bom. Não precisamos exagerar com o remédio, certo?

Apesar de dizer que estava “quase bom”, ele ainda fungava.

Imperturbável, Sui Zhou respondeu apenas:

— Vai tomar sozinho ou quer que eu te dê na boca?

Sem ousar mais discutir, Tang Fan pegou a tigela, tampou o nariz e engoliu o remédio de uma vez só, fazendo uma careta terrível. Nem quis aceitar o doce de osmanthus[3] que Sui Zhou trouxe para tirar o gosto amargo.

Quem gosta de comida boa certamente não gosta de remédio amargo.

Enquanto conversavam distraidamente, ouviram alguém chamar do lado de fora. Sui Zhou se levantou e foi atender.

Vale dizer que a residência de Sui Zhou, embora tivesse três pátios, não era pequena, mas seus moradores fixos se resumiam a ele, Tang Fan e Ah-Dong — e mais ninguém. Trabalhadores diários eram contratados apenas para limpar a casa e, depois do serviço, voltavam para suas próprias moradias na capital. Não havia porteiro nem mordomo; os próprios donos abriam o portão. Isso dava uma sensação de liberdade. Pessoas como Sui Zhou e Tang Fan não gostavam de se sentir presas, então era natural que também não quisessem estranhos circulando pela casa o tempo todo.

Depois que Sui Zhou saiu, demorou a voltar. Tang Fan estava prestes a ir ver o que havia acontecido quando viu Ah-Dong entrando de fininho.

Ele não sabia se ria ou se reclamava.

— Eu te impediria de entrar aqui por acaso? Por que está andando como se estivesse se escondendo?

Ela riu baixinho.

— O primo do irmão Sui veio de novo.

Tang Fan, sendo um homem adulto e de personalidade normalmente tranquila, não tinha nada contra a senhorita Zhou, prima de Sui Zhou. O mau humor que tivera naquele dia fora apenas reflexo da tensão do caso do Palácio Oriental, em que vira morrer alguém que não deveria. Ao voltar, deparou-se com Ah-Dong e Sui Zhou conversando e rindo com a prima Zhou — o que, na verdade, nem tinha acontecido da forma que ele imaginou. Aquilo fora pura interpretação subjetiva de Tang Fan. Ele acabara se sentindo solitário, como se estivesse atravessando a vida sozinho.

Mas o tempo passou, e as coisas mudaram. É claro que ele não seria infantil a ponto de agir como uma criança ciumenta fazendo birra atrapalhando seu amigo de se aproximar da senhorita Zhou e tudo o mais. Ao ouvir o que Ah-Dong disse, ele sorriu preguiçosamente.

— Ah-Dong, você está com ciúmes de que alguém está se aproximando do seu Irmão Sui? Normalmente, como você é tão jovem, seu irmão mais velho deveria tomar decisões por você. Se você gosta de Sui Zhou, espere alguns anos, até crescer um pouco, e então eu falo com ele pra ver se ele aceita te tomar como concubina. Mas do jeito que você é uma brotinha agora, não adianta nada vir aqui resmungar pra mim sobre isso.

Ah-Dong sempre fora ingênua e animada, mas ainda assim havia sido criada como criada de uma família rica. Era impossível que ela fosse totalmente ignorante sobre os assuntos domésticos. Assim que ouviu o que ele disse, pulou pra cima dele pra bater, gritando e xingando:

— Do que você tá falando?! Não tô com ciúmes da Irmã Zhou! Tô preocupada com você!

— Preocupada comigo por quê? — ele perguntou, confuso.

— Pensa bem! Se o Irmão Sui realmente casar com ela, o que vai ser de você?

Tang Fan, que geralmente era um homem muito inteligente, ficou completamente sem reação.

— O que quer dizer com isso? Que diferença faz pra mim? Quanto mais você fala, menos sentido faz.

Ela o olhou de lado.

— Ficou burro depois da doença?! Se eles casarem, ela inevitavelmente vai vir morar aqui, não é? Aí a gente teria que se mudar, certo? Claro que estou preocupada! Você também não ganha muito, então espero que possamos morar aqui o máximo possível, pra que você consiga juntar mais dinheiro!

Apesar da pouca idade, ela sabia fazer contas e explicava tudo de forma clara e lógica.

— Eu sou tão inútil assim aos seus olhos? — ele perguntou, meio amuado. — Acha que se nos mudarmos vamos ficar ao relento?

— Não vamos? — respondeu ela, triste. — Seu salário é tão baixo, e você come tanto. Todo dia é tanta coisa que você come, que já comeu até a própria pobreza. O que vai fazer daqui pra frente? Eu meço cuidadosamente o arroz e o macarrão que você compra pra mim todo mês, a gente planta nossas frutas no jardim, e compra só um pouquinho de carne — tudo isso pra sobrar algumas pratas por mês, que você pode guardar pra quando arrumar uma esposa. Se a gente se mudar, acho que nem isso vai sobrar. O que vai fazer então?

Ao ouvir aquele tom emocionado, ele teve vontade de revirar os olhos, dividido entre raiva e ternura. Tanto drama, e no fim a garota estava preocupada com os dois por causa disso?

Ele lhe deu um tapinha na cabeça.

— Tira essa preocupação daí, tá bom? — disse, num tom rouco. — A gente nunca vai acabar na rua. E mesmo que isso aconteça, você deixaria de me ver como seu irmão mais velho?

Ela balançou a cabeça com força.

— Então pronto, não é? Se eu tiver um pedaço de pão, você também vai ter. De qualquer forma, não subestime a velha família Tang. Antes dos meus pais morrerem, éramos respeitados em Shaoxing, e mesmo depois da decadência eles deixaram muitas coisas boas pra trás. E se tudo der errado, ainda tenho a família da minha irmã mais velha em Xianghe, onde poderíamos procurar abrigo.

Mas ele dizia aquilo apenas para consolá-la. Sua irmã mais velha havia se casado, o que significava que agora ela pertencia à família do marido; e Tang Fan, sendo um oficial na capital, nunca iria realmente correr pra depender dela.

A garota, porém, abriu um sorriso largo.

— Então tá bem, irmão mais velho. Não vou mais brigar com você por comer tanto. Aliás, devia até comer mais! Quando essa doença passar, você vai estar tão magro que quem te olhar vai achar que é um refugiado!

Ele foi apertar-lhe o rosto.

— Se continuar falando besteira, nem vai precisar esperar o Irmão Sui casar — eu mesmo te expulso daqui!

Enquanto os dois brincavam, uma voz veio inesperadamente da porta:

— Quem é que vai se casar?

Ao olharem para o som, viram que Sui Zhou havia chegado a tempo de ouvir apenas a última parte da conversa. Atrás dele estavam a senhorita Zhou e sua criada.

— Minha prima soube que você estava doente — ele disse. — Lembrando-se daquele dia em que esbarrou com você, pediu que eu a trouxesse para vê-lo e se desculpar.

Naquela época, as barreiras entre homens e mulheres eram grandes, mas não tão rígidas a ponto de não haver exceções. Tang Fan, por exemplo, era amigo de Sui Zhou, já havia visitado a família dele e estava hospedado ali, então não havia problema algum em a senhorita Zhou vê-lo. Comparativamente, se fosse no Sul, a moral confuciana seria mais rígida, mas o Norte era um pouco mais flexível.

A antiga altivez de Zhou Xiuyue não se via mais; ela parecia tímida diante do primo. Qualquer um que não fosse cego podia perceber suas intenções. Apenas o próprio Sui Zhou mantinha o rosto impassível — impossível saber se estava ciente ou não.

Tang Fan sorriu:

— A senhorita é muito gentil. Aquilo foi apenas um mal-entendido causado por não sabermos quem éramos. Agora que está tudo esclarecido, está tudo bem. Mas, no momento, peguei um resfriado; com medo de passar pra você, peço que não fique muito tempo.

Zhou Xiuyue assentiu, trocou algumas palavras educadas e, claramente incomodada com o cheiro de remédio no ar, nem chegou a se sentar. Ficou de pé na porta, deu um cumprimento a Ah-Dong e então se despediu.

Como anfitrião, Sui Zhou naturalmente foi acompanhá-la até a saída.

Enquanto caminhavam em direção ao portão, Zhou Xiuyue falou com um leve tom de doçura:

— O inverno está chegando, primo. Num dia de tempo melhor, que tal ir comigo ao Templo Yunju queimar incenso?

Sui Zhou era um homem reservado, mas irresistivelmente alto e de porte militar. De aparência marcante e talento excepcional, tinha um futuro promissor. Por isso, muitos casamenteiros batiam à porta dos Sui com propostas. Mas os pais nunca interferiram muito na vida do filho mais novo — e, além disso, havia um antigo acordo verbal entre as famílias Sui e Zhou, que acabara sendo deixado de lado.

O tio materno, do lado dos Zhou, havia trazido a família a Pequim por dois motivos: cuidar da mãe idosa e encontrar bons casamentos para os filhos.

Na verdade, o pai de Feng Xiuyue já havia escolhido outro pretendente para ela — o pai do rapaz tinha um cargo na Academia Hanlin, e ele mesmo estudava no Colégio Imperial. Era uma família de prestígio literário, completamente diferente da origem militar de Sui Zhou.

Desde que os Zhou haviam subido de posição graças à fama da Imperatriz Viúva, eles buscavam aproximação com famílias eruditas e oficiais, para consolidar sua influência. Que o tio fizesse uma escolha baseada nisso era algo natural.

Claro, na visão de Sui Zhou, isso talvez fizesse sua prima desistir da ideia.

A amizade entre eles havia ficado na infância — depois de tantos anos separados, não havia nem juras de amor eterno nem promessas de não se casar com mais ninguém. Ainda assim, Zhou Xiuyue parecia nutrir um sentimento mal disfarçado por ele. As visitas frequentes eram apenas uma tentativa de sondar seus sentimentos.

Mas, infelizmente, eles não estavam na mesma sintonia.

Com esforço, ela o convidou, mas ele balançou a cabeça:

— Não. Tang Fan está doente, e Ah-Dong não dá conta sozinha. Preciso ficar em casa pra cuidar das coisas.

Ela mordeu o lábio.

— E se eu arrumar uma criada ou um servo pra ajudar, então?

— Deixa pra lá. Não se preocupe tanto — respondeu calmamente. — Vá com o tio e os outros. Ouvi dizer que ele está procurando um bom casamento pra você, então o pretendente deve ser de ótima qualidade. Somos primos, mas homens e mulheres são diferentes. É melhor que você venha menos, pra evitar fofocas.

O rosto dela ficou imediatamente constrangido. Lançou-lhe um olhar furioso e disse apenas:

— Você é mesmo insuportável!

Virando-se, saiu furiosa.

A criada dos Zhou, que vinha logo atrás, havia se afastado um pouco para deixá-los conversar em particular. Quando viu sua senhora se irritar do nada, sacudir as mangas e ir embora, correu atrás dela, confusa.

Observando-as se afastarem, a expressão de Sui Zhou não mudou muito. Ele voltou para o quarto de Tang Fan.

O remédio já havia feito efeito, e Tang Fan dormia profundamente.

— O irmão mais velho não dormiu faz muito tempo — sussurrou Ah-Dong. — O que você quer comer no jantar, Irmão Sui? Eu posso preparar.

— Faça o que quiser — respondeu ele calmamente. — Só esquente um pouco de mingau depois.

Nos últimos dias, ele estivera ocupado cuidando do doente, e o próprio doente não podia comer nada muito elaborado. Ah-Dong também não tinha ânimo para preparar nada especial, então saiu logo depois de ouvir a resposta.

Assim, restaram apenas dois no quarto: um dormindo, o outro acordado. Um deitado, o outro em pé.

Tang Fan passava mais tempo dormindo do que desperto ultimamente. As doenças chegavam como montanhas desabando, mas iam embora como fios de seda sendo puxados.

O quarto estava silencioso, e o único som audível era o das respirações longas e ritmadas de Tang Fan, enchendo o ambiente.

Sui Zhou ajeitou o cobertor sobre ele com cuidado, depois ficou ali parado por um minuto, em silêncio.

Só quando ouviu a batida de Ah-Dong na porta, chamando-o para jantar, é que ele se virou e saiu do quarto.

–

[1] Citação do “Cântico dos Quatro Vícios”, uma advertência poética da Dinastia Song, de autor desconhecido. Faz referência ao vinho, à luxúria, à ganância e à ira.

[2] Li (李) e Zhang (张) estão entre os sobrenomes chineses mais comuns, junto com Wang (王). Costumam ser usados como nomes genéricos ou de exemplos — algo equivalente a “João Ninguém” ou “Fulano de Tal” em português.

[3] Honestamente, há informações contraditórias quando se pesquisa sobre esse doce. Alguns dizem que é outro nome para os “bolos de osmanto” (osmanthus cakes), que na verdade são gelatinas doces; outros afirmam que são blocos quebradiços de massa folhada. Deveria ser fácil de distinguir, mas… não é

CAPÍTULO 43 - Sendo Provocado
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The Fourteenth Year of Chenghua

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No décimo quarto ano de Chenghua, o harém imperial tinha uma Consorte Wan, assim como o Depósito Ocidental tinha um Eunuco Chefe chamado Wang Zhi. O Príncipe Herdeiro Zhu Youcheng tinha apenas...

Chapters

  • CAPÍTULO 72 - Velho Amigo
  • CAPÍTULO 71 - Outro é Enfurecido Até a Morte
  • CAPÍTULO 70 - O Conde Hegemônico
  • CAPÍTULO 69 - Retribuir Um ao Outro por Toda Uma Vida
  • CAPÍTULO 68 - Tigela Virada
  • CAPÍTULO 67 - Cabeça de Porco
  • CAPÍTULO 66 - Altamente Valorizado
  • CAPÍTULO 65 - Levando um Tapa
  • CAPÍTULO 64 - Bom Trabalho, Chefe
  • CAPÍTULO 63 - Compreensão Implícita
  • CAPÍTULO 62 - Falta de Juízo
  • CAPÍTULO 61 - Um Tamanho Nada Mau
  • CAPÍTULO 60 - Esta Viagem Foi uma Decisão Errada
  • CAPÍTULO 59 - Querendo Fugir de Casa
  • CAPÍTULO 58 - Com Outros Olhos
  • CAPÍTULO 57 - Ele ficou louco?
  • CAPÍTULO 56 - Irritar Alguém Até a Morte, Outra Vez
  • CAPÍTULO 55 - Visto a olho nu
  • CAPÍTULO 54 - Negócios de Outrem
  • CAPÍTULO 53 - Trabalhado até os Ossos
  • CAPÍTULO 52 -Um Novo Apelido
  • CAPÍTULO 51 - Covil de Ladrões
  • CAPÍTULO 50 - Desmaiados
  • CAPÍTULO 49 - Dor
  • CAPÍTULO 48 -Informações Internas
  • CAPÍTULO 47 - Vendo um Fantasma
  • CAPÍTULO 46 -Au! Au! Au!
  • CAPÍTULO 45 - Um Tanto Impotente
  • CAPÍTULO 44 - Popular
  • CAPÍTULO 43 - Sendo Provocado
  • CAPÍTULO 42 - Um Gênio Difícil
  • CAPÍTULO 41 - Um Glutão de Verdade
  • CAPÍTULO 40 - Ao Pequeno Príncipe
  • CAPÍTULO 39 - A Sorte Sorri aos Traidores
  • CAPÍTULO 38 - Não Coma Nuomici Com o Estômago Vazio
  • CAPÍTULO 37 - Cada Um por Si
  • CAPÍTULO 36 - A Família Han
  • CAPÍTULO 35 - O Tirano Louco, Eunuco Wang
  • CAPÍTULO 34 - Estão Perdidos
  • CAPÍTULO 33 - Senhor Tang Faz o Mal e Não Escapa Dele
  • CAPÍTULO 32 - O Sol Nasce no Oeste
  • CAPÍTULO 31 - Irritado com Tang Fan
  • CAPÍTULO 30 Casar é Terrível
  • CAPÍTULO 29 A Partir de Agora
  • CAPÍTULO 28 Sem Vergonha
  • CAPÍTULO 27 Encontrou-se com Duas Mães
  • CAPÍTULO 26 Um Pouco Empolgado
  • CAPÍTULO 25 Como um Porco
  • CAPÍTULO 24 Incapaz de Deixar Ir
  • CAPÍTULO 23 Você ainda é humano?!
  • CAPÍTULO 22 Como Ele Elogiaria Alguém
  • CAPÍTULO 21 Um Evento Chocante na Família Li
  • CAPÍTULO 20 Que história interna!
  • CAPÍTULO 19 Sorte Florescendo com as Flores de Pêssego
  • CAPÍTULO 18 Considere as Ações, Não o Núcleo
  • CAPÍTULO 17 O Culpado
  • CAPÍTULO 16 Uma Noite Inteira
  • CAPÍTULO 15 Feng
  • CAPÍTULO 14 Você Está Interessada Nele?
  • CAPÍTULO 13 O Último Pedaço de Bolo
  • CAPÍTULO 12 Um Medo Terrível
  • CAPÍTULO 11 Homem Respeitável
  • CAPÍTULO 10 Pego em Flagrante
  • CAPÍTULO 9 Um Amor por Ler Melodrama
  • CAPÍTULO 8 Minando o Território de Pan Bin
  • CAPÍTULO 7 A habilidade do herói salvador da beleza na zombaria
  • CAPÍTULO 6 Disparidade no tratamento
  • CAPÍTULO 5 Senhor Tang ficou chocado e sem palavras
  • CAPÍTULO 4 Um oficial menor de sexta patente
  • CAPÍTULO 3 Conhecido em Todo o Reino
  • CAPÍTULO 2 Reviravoltas, Surpresas e uma Morte Estranha
  • CAPÍTULO 1 Flutuando como uma nuvem errante

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