CAPÍTULO 68 - Tigela Virada
Do amanhecer ao crepúsculo, o Subdelegado Zhao esperou do lado de fora com os dois oficiais de justiça, sem ousar se afastar nem por um instante, com medo de que algo acontecesse de repente no momento seguinte. Até mesmo o almoço lhes fora preparado e entregue pelos aldeões.
Até onde a vista alcançava, o lugar estava tomado por ervas daninhas, flores silvestres e ruínas, sem um único ponto de sombra. O sol não estava forte demais, mas ficar exposto a ele por muito tempo já era suficiente para causar tontura. Zhao estava há muito acostumado a uma vida cercada de criados e atendentes em casa; passar o dia inteiro largado no meio do mato era simplesmente insuportável para ele.
Ainda assim, precisava aguentar. Ele não era como o Magistrado He; já que emissários imperiais raros haviam vindo da capital, queria se esforçar um pouco mais para deixar uma boa impressão — quem sabe garantir um caminho mais tranquilo na carreira no futuro.
Apesar de sua ânsia por fama e fortuna, sua capacidade de executar tarefas era muito superior à do Magistrado He. Caso contrário, Tang Fan não teria permitido que ele os acompanhasse nem que ficasse ali de vigia.
Mesmo assim, depois que um dia inteiro se passou, os três que aguardavam do lado de fora não conseguiram evitar a ansiedade.
— Senhor… — começou o oficial Teng. — Dá pra ver que logo vai escurecer. Eles não levaram muitas provisões quando desceram lá. Será que…
O Subdelegado Zhao lançou-lhe um olhar de canto.
— Continue falando. Por que não termina o que ia dizer? Espere até o Senhor Embaixador ouvir isso, e aí veremos como você se sai!
O oficial Teng cobriu a boca imediatamente e se calou.
O oficial Di se inclinou para a frente.
— Senhor, ficar esperando assim não parece a melhor ideia. Por que não mandamos alguém descer para dar uma olhada? Se algo inesperado tiver acontecido, ainda dá tempo de reagir!
Zhao assentiu.
— Está vendo isso, velho Teng? O velho Di está falando num nível bem mais alto que o seu! Que tal aprender um pouco com ele?!
Antes que o oficial Di pudesse lançar um olhar presunçoso para Teng, Zhao continuou:
— Quem é corajoso o suficiente para descer? Que tal você ir ver, velho Di?
O rosto de Di desabou na hora.
— Senhor, o senhor não pode colocar as pessoas nessa situação…
O que havia lá embaixo já parecia um campo de batalha de Asura. Nenhum membro do séquito dos emissários imperiais havia saído até agora — quem ousaria descer? Nem uma cesta de ouro seria suficiente para convencer alguém!
Zhao cuspiu no chão.
— Se está com medo, cale a boca e pare de fazer barulho sem motivo! Velho Teng, volte agora mesmo para a cidade e informe o Magistrado. Não podemos continuar esperando assim. Se eles não saírem nunca, a culpa vai cair sobre nós—
Antes que terminasse a frase, o chão tremeu de repente. Não foi o suficiente para derrubá-los, mas todos sentiram claramente a vibração sob seus traseiros. Sons estrondosos e contínuos ecoaram de dentro da caverna dos ladrões.
Os três empalideceram de susto e trocaram olhares.
Aquilo que mais se temia realmente aconteceu — ao pensar que o grupo de Tang Fan ainda estava lá embaixo, nenhum dos três conseguiu permanecer sentado.
— N-não pode ser que tenha desabado, né? — gaguejou o oficial Di.
O rosto do oficial Teng se contorceu de aflição.
— O que a gente faz, senhor?!
A voz de Zhao também tremia um pouco.
— Não entrem em pânico…!
— Mão! — gritou Teng em alarme. — Tem uma mão!
O oficial Di correu até lá e agarrou firmemente a mão que surgira de repente para fora da caverna. Os outros dois reagiram rápido, e os três juntos puxaram o homem para fora.
Um rosto coberto de poeira apareceu diante deles. Zhao levou um bom minuto para reconhecê-lo: parecia ser um Guarda Brocado chamado Yan Li. Antes mesmo que Zhao pudesse fazer qualquer pergunta, o outro já estava berrando em desespero:
— Vão chamar ajuda agora! Tudo lá embaixo desabou!
— E os outros? — perguntou Zhao às pressas.
— Lá embaixo! Estão todos lá embaixo! Eu fui designado para vigiar a entrada e consegui escapar!
Ao ouvir isso, a alma de Zhao quase saiu do corpo. Se os emissários estivessem lá embaixo, não havia sequer necessidade de pensar em promoções ou riquezas — provavelmente ele nem conseguiria manter o próprio chapéu preto.
Pessoas correram separadamente para a capital e para a aldeia em busca de socorro. Os aldeões chegaram rápido, mas assim que alguns mais corajosos desceram um pouco, ouviram fortes estrondos vindos de dentro e subiram de volta às pressas, apavorados.
Quando o Magistrado He, Cheng Wen e Tian Xuan chegaram correndo, viram os aldeões saindo da caverna, dizendo que não poderia haver sobreviventes lá embaixo.
Yan Li ficou atônito no lugar. Ele não acreditava naquela sentença. Arrancou uma pá da mão de um aldeão e voltou sozinho para dentro. Zhao cerrou os dentes e desceu com outras pessoas também. Um shichen depois, todos retornaram com os rostos pálidos como cinza.
O Magistrado He se apressou até eles.
— E então? Como está?!
Zhao balançou a cabeça.
— O andar superior da cripta praticamente desabou todo. Os caminhos mais abaixo estão completamente bloqueados. Não há como chegar lá.
O Magistrado empalideceu por completo. O que faria agora? Teria mesmo de relatar à Corte que emissários imperiais haviam morrido ali?
Todos ficaram aterrorizados, sem saber o que fazer.
Foi então que o oficial Teng teve uma ideia.
— O Senhor Tang não disse que há outra entrada pelo rio, conectada à tumba? Talvez devêssemos tentar entrar por lá para procurar!
O oficial Di balançou a cabeça, falando baixinho:
— Você sequer sabe onde fica essa abertura? As águas do Luo são turbulentas. Ninguém garante que o nível não suba depois que alguém descer.
Yan Li caiu de joelhos com um baque diante da caverna dos ladrões, chorando convulsivamente.
— Senhor! Este subordinado falhou com o senhor!
O Magistrado He estava prestes a chorar junto. Ele acariciou o chapéu oficial sobre a própria cabeça e pensou: Chapéu preto, ah, chapéu preto… não sei se ainda vou poder continuar usando você daqui a alguns dias!
O Subdelegado Zhao queria chorar ainda mais. Para que passara o dia inteiro ali? Se algo tivesse acontecido aos emissários, ele não estaria na mesma situação que o Magistrado?!
— O que vocês estão fazendo? Isso aqui é um velório, por acaso?
Uma voz fraca soou.
Para o Magistrado He e os demais, aquilo não significava nada. Mas para Yan Li, era um som incrivelmente familiar, como algo natural. O choro cessou de imediato. Ele virou a cabeça e viu Pang Qi vindo sozinho, arrastando um sabre pelo chão. Seu uniforme estava tão imundo que mal dava para distinguir a cor original; o rosto estava coberto de sangue e sujeira, e ele parecia exausto como um cachorro morto.
— Velho Pang! — Yan Li saltou de pé, correu até ele e o abraçou com força. Beliscou a si mesmo — não era um sonho! — Você não morreu?!
Ao ouvir isso, Pang Qi revirou os olhos, preguiçoso demais para explicar qualquer coisa.
— Depressa, tragam gente para aquela aldeia abandonada entre os rios Luo e Wuluo — disse diretamente ao Magistrado He. — O Senhor Tang, o Emissário do Bastião e todos os nossos irmãos estão lá!
Ao ouvir isso, todos ficaram em êxtase. Já acreditavam que seriam destituídos de seus cargos e condenados, cada um com cara de luto; jamais esperaram uma reviravolta dessas!
— Eles estão bem?! — perguntou o Magistrado, apressado.
— Por que você não corre logo pra lá em vez de ficar falando besteira comigo?! — rugiu Pang Qi.
Quase se mijando de medo depois do grito, o Magistrado He liderou o grupo e saiu numa nuvem de poeira.
Finalmente… tinha acabado.
Pang Qi não aguentou mais. Caiu sentado no chão, encostou-se em Yan Li e desmaiou.
O cofre da família Gong havia sido completamente destruído; os dois guardiões da tumba foram esmagados até a morte lá dentro. Li Man originalmente pretendia atrair Tang Fan para dentro, fazê-los lutar contra os guardiões até que ambos os lados se ferissem gravemente e então fugir com o tesouro. No entanto, os crimes que cometera lhe custaram a vida. Ele escapara das garras de Tang Fan na capital, apenas para acabar morrendo diretamente por causa dele em Henan, a milhares de li de distância.
Após a batalha sangrenta na aldeia abandonada, os Guardas capturaram muitos seguidores da Seita do Lótus Branco, mas a maior captura foi a amante de Li Man, a Senhora Chen. Quando foi retirada da aldeia pelos homens do Magistrado He, suas roupas estavam desarrumadas — ela estava vestida exatamente como quando fora arrancada da cama — bela e lamentável enquanto tremia de frio. Muitos homens a observaram com olhares ardentes, inclusive o próprio Magistrado, que não conseguiu evitar olhá-la algumas vezes.
Ainda assim, sem a autorização de Tang Fan, ninguém ousou dirigir-lhe a palavra. Ela era uma criminosa procurada pela Corte, que seria escoltada diretamente para a capital, além de ser uma das maiores conquistas daquela viagem. Seu status dentro da Seita não era baixo; com certeza muita informação interna seria arrancada dela.
Os tesouros do cofre haviam sido escondidos por ela em potes de arroz dentro daquela casa, todos cobertos por grossas camadas de arroz integral. O grupo os encontrou rapidamente. Antes de inventariar e transportar os bens para cima, Tang Fan separou secretamente um décimo dos objetos e os presenteou aos Guardas.
Ele estava imerso na burocracia havia muito tempo e compreendia um princípio fundamental: não havia problema algum em seguir a própria doutrina, mas não se podia forçar os outros a fazer o mesmo. Água clara demais não cria peixes; rigor excessivo não cria aliados. Se exigisse que todos seguissem seus próprios padrões, acabaria sendo, no máximo, um oficial solitário, sem subordinados competentes.
Por causa dessa missão, os Guardas Brocados quase haviam sacrificado suas vidas. Para não falar dos feridos, quatro Guardas de fato haviam sido enterrados lá embaixo. Quem vive no mundo bruto dificilmente passa ileso a golpes; numa profissão como a deles, era preciso estar preparado para morrer a qualquer momento. Ainda assim, essas vidas tinham valor, e a compensação da Corte certamente não seria generosa. Aqueles presentes eram simplesmente o que lhes era devido.
Como líder, Tang Fan queria demonstrar consideração completa, mas também os advertiu repetidas vezes a apenas aceitarem os objetos e não falarem sobre isso; caso contrário, os benefícios seriam retirados e substituídos por uma acusação.
Todos entendiam o princípio de não ostentar riqueza, então os Guardas juraram que não comentariam nada, tornando-se ainda mais gratos a ele. Como era de conhecimento geral, poucos superiores pensavam sinceramente em seus subordinados. Muitos oficiais civis se mantinham distantes dos Guardas Brocados, temendo que seu próprio valor fosse manchado. Pessoas como Tang Fan eram tão raras quanto penas de fênix e chifres de qilin.
Quanto ao destino de Qian San’r, Tang Fan também refletiu bastante. O garoto havia se saído bem no cofre, tinha bom caráter e, mais importante, era rápido de raciocínio. Assim, Tang Fan buscou a aprovação de Sui Zhou para levá-lo de volta à capital. Se ele passasse no exame, poderia ingressar no Escritório do Bastião do Norte; se não, seria enviado à Prefeitura de Shuntian. Tang Fan já havia deixado aquele lugar, mas sua reputação ainda era bastante útil.
Qian San’r ficou zonzo com aquela boa notícia caída do céu, agradecendo repetidas vezes e passando a seguir Tang Fan para todo lado, como se quisesse grudar nele feito um rabo.
A cripta havia desabado, a tumba Song fora destruída. Para os locais, isso era algo digno de muitos suspiros, mas, ainda assim, estavam felizes, pois os dois guardiões da tumba também haviam morrido. Nunca mais ouviriam aquele lamento estranho, nem haveria pessoas sendo arrastadas para baixo ao passar pela margem do rio. Naturalmente, todos ficaram radiantes. Comovidos até às lágrimas, agradeceram ao grupo de Tang Fan, chamando-os de salvadores e querendo erguer tábuas memoriais de longevidade eterna em sua honra.
Para a família Liu, porém, aquilo foi mais uma tragédia. Não apenas o velho chefe havia morrido, como também ficou provado que o primogênito, Liu Daniu, já estava morto havia muito tempo, com o paradeiro do corpo desconhecido. O Chefe Liu que aparecera diante de todos fora apenas uma impostura feita pelo demônio do Lótus Branco, Li Man.
Ao ouvir essa notícia, uma névoa de luto caiu imediatamente sobre eles.
Independentemente de qualquer outra coisa, a morte do velho chefe estava ligada ao cofre dos Gong. Se ele não tivesse descido pessoalmente para investigar por segurança da aldeia, nada daquilo teria acontecido. Assim, Tang Fan instruiu o Magistrado He a indenizar a família Liu e quaisquer outros aldeões que tivessem sofrido perdas familiares semelhantes.
Essa expedição não apenas eliminou as feras que causaram o desastre, como também arrancou o templo da ramificação da Seita do Lótus Branco em Henan pela raiz. Pessoas em posições importantes, como Li Man, estavam todas mortas; o grupo de clérigos fora eliminado; a Senhora Chen fora capturada; e os tesouros do cofre Gong, arduamente contrabandeados, haviam sido recuperados. Sob qualquer perspectiva, era um grande mérito.
Ainda assim, enquanto para os outros isso significava glória, para Tang Fan havia uma sombra pairando sobre sua cabeça.
E essa sombra era a morte de Yin Yuanhua.
Dentro do cofre, ele salvara a vida de Yin, apenas para ser empurrado por ele e usado como escudo num piscar de olhos. Se Sui Zhou não tivesse chegado a tempo, Tang Fan teria morrido ali.
Depois disso, Yin Yuanhua viu o guardião da tumba deixar a entrada do salão e acreditou ter encontrado um caminho para sobreviver, fugindo sem se importar com mais nada. Ele não poderia imaginar que havia outro guardião do lado de fora — essencialmente, atirou-se na própria armadilha e matou a si mesmo.
Sua morte não merecia piedade alguma.
Mas os observadores não veriam dessa forma. Deixando todos os outros de lado, quando a notícia de sua morte chegasse à capital, aquele professor dele seria o primeiro a procurar Tang Fan para cobrar essa dívida.
“Você disse que Yin Yuanhua foi morto pelo guardião da tumba — quem acreditaria nisso? Onde está a prova? Como sei que você não o deixou lá de propósito para se livrar de um opositor? Com os Guardas Brocados tão próximos de você, eles obedeceriam facilmente a uma ordem para matar alguém e silenciá-lo! É simples assim!”
Não era preciso esperar que o Vice-Ministro Liang dissesse qualquer coisa; Tang Fan já havia antecipado toda a linha de acusação. Ele podia até prever que, ao retornar à capital, os outros provavelmente receberiam recompensas por esse caso, enquanto ele sozinho não receberia nada. Pior ainda, acusações estariam à sua espera.
Pensando nisso, chamou Cheng Wen e Tian Xuan para perto.
— Depois que retornarmos, a Corte pode investigar a morte de Yin Yuanhua. Como vocês dois não desceram ao cofre, digam isso claramente quando chegar a hora. Eu assumirei toda a responsabilidade. Não precisam se preocupar em serem implicados.
Os dois realmente haviam ficado tensos ao saber da morte de Yin Yuanhua. Como emissário-chefe, não seria impossível para Tang Fan transferir a responsabilidade para eles, caso quisesse. Bastaria declarar num memorial que haviam instigado Yin Yuanhua a entrar no cofre, e nada poderiam fazer para se defender. Eram apenas funcionários comuns do Ministério da Justiça, sem cargos oficiais — os candidatos perfeitos a bodes expiatórios.
Nenhum deles esperava que Tang Fan não apenas recusasse essa opção, como ainda dissesse que arcaria sozinho com tudo.
Depois de muito tempo no funcionalismo, muitos acabavam se fechando por medo de errar, evitando chamar atenção. Ainda assim, corações humanos são feitos de carne; aquilo que se investe retorna. Nem todos pensam apenas em intrigas políticas e eliminação de adversários.
Cheng Wen ficou comovido.
— Senhor, embora as palavras deste subordinado não tenham muito peso, já que participei dessa viagem ao seu lado, ainda tenho alguma credibilidade. Se for necessário um testemunho, por favor, coloque meu nome junto ao seu no memorial, para confirmar que a morte do Subchefe Yin foi culpa dele mesmo, e não deixem que recaiam sobre o senhor!
— Eu também, Senhor — disse Tian Xuan. — O Vice-Ministro Liang já o vê como um incômodo há muito tempo. Com certeza ele vai criar problemas quando voltarmos. O Subchefe Yin sempre foi extremamente desrespeitoso com o senhor; um fim assim para ele já estava determinado pelos Céus, sem ninguém mais a culpar! Também estou disposto a testemunhar no memorial!
Tang Fan não esperava que aqueles dois, normalmente tão cuidadosos consigo mesmos, estivessem dispostos a se apresentar por ele. Aquilo o tocou um pouco. Ainda assim, balançou a cabeça, recusando suas boas intenções.
Vendo que ele havia se decidido, não tiveram escolha senão engolir tudo e não insistir mais, pensando que, de qualquer forma, o Senhor Tang ainda tinha o apoio do Ministro Zhang — não deveria ser tão ruim.
O que eles não sabiam era que, pouco depois de partirem da capital, o Ministro Zhang Ying havia sido transferido do Ministério da Justiça de Pequim para assumir o Ministério da Justiça de Nanjing.
Todos que circulavam no meio oficial sabiam que tipo de lugar era Nanjing. Para dizer de forma agradável, era uma capital secundária: o posto não diminuía com a transferência, era um excelente lugar para aposentadoria, onde se recebia o salário sem praticamente precisar fazer nada.
Aquilo realmente soava bonito, mas a realidade era que, naquele lugar, não se teria nem um pingo de poder real — especialmente em um departamento como o Ministério da Justiça.
Apenas porque Zhang Ying havia recebido antes a recomendação de Tang Fan, um pequeno resquício de consciência fora despertado dentro dele. Coincidentemente, Li Zisheng apresentara ao Imperador artes de alcova, atraindo maldições gerais da sociedade, e o Ministro Zhang submetera um memorial de admoestação.
Todos conheciam os veneráveis nomes daqueles “Sólons de papel-machê”, mas, na verdade, Wan An, Liu Xu e Liu Ji não trabalhavam em conjunto. Cada um ocupava o próprio cume, lutando tanto às claras quanto nas sombras, separados como as três pernas de um caldeirão — incapazes de lidar uns com os outros.
Embora Zhang Ying se apoiasse no Grande Chanceler Wan An, era um pouco mais compatível com Liu Xu. Wan An já achava há muito tempo que Zhang era indeciso demais e pouco obediente, e vinha querendo substituí-lo por um novo Ministro da Justiça. Ele aproveitou a oportunidade para escrever um memorial ao Imperador, dizendo que Zhang Ying já estava avançado em idade e não conseguia mais administrar seu ministério, sendo melhor deixá-lo “descansar” em Nanjing e substituí-lo por alguém mais jovem e vigoroso.
Wan An compreendia profundamente os pensamentos do Imperador e sabia que ele precisava derrubar alguém de destaque para impedir que todos continuassem a criticá-lo e importuná-lo. Assim, infelizmente, Zhang Ying tornou-se esse “alguém de destaque” e foi despachado para Nanjing para “pastar”.
No instante em que Zhang Ying partiu, Liang Wenhua inevitavelmente se tornou a figura número um do Ministério. Mesmo sem ainda ter sido promovido oficialmente ao cargo de Ministro, já detinha o controle total — sua palavra era lei. O Vice-Ministro Assistente da Direita, Peng Yichun, sempre fora um bajulador, então naturalmente não se opôs a nada disso.
Assim, Cheng Wen e Tian Xuan não tinham a menor ideia de que o que aguardava Tang Fan à frente era um destino impossível de sondar.
Não era que ele não pudesse voltar por haver a possibilidade de ser rebaixado, porém. Acima de tudo, Sui Zhou estava gravemente ferido, e os Guardas Brocados também tinham sofrido lesões semelhantes. Conseguir tratamento adequado no condado de Gong seria difícil; por isso, precisavam retornar à capital — quanto antes, melhor.
Na opinião de Tang Fan, suas próprias perspectivas futuras eram muito menos importantes do que a saúde de seu companheiro. Ele ordenou que Cheng Wen e Tian Xuan inventariassem rapidamente os objetos de valor e redigissem um registro, depois recusou o pedido insistente do Magistrado He para que permanecessem ali e liderou todos de volta à estrada rumo à capital.
Eles não puderam se apressar como na chegada. Como era preciso cuidar dos feridos, a viagem teve de ser mais lenta, com paradas frequentes em estalagens para descanso. O Magistrado He ordenara que várias carruagens fossem preparadas para eles, acolchoadas com camadas grossas de colchões para transportar os feridos. Havia também um médico acompanhando o grupo, pronto para tratar ferimentos e preparar decocções medicinais.
Sui Zhou precisava descansar frequentemente por causa das lesões internas. Com a ajuda de remédios que induziam o sono, ele passou oito dos dez dias da viagem dormindo.
Os feridos precisavam de alguém para cuidar deles. A única mulher presente era a Senhora Chen, mas seu status era o de criminosa procurada pela Corte. Embora tivesse o tratamento especial de uma carruagem só para ela, seus membros estavam fortemente algemados e ela permanecia sob vigilância rigorosa. Tang Fan jamais permitiria que ela cuidasse de Sui Zhou, então se ofereceu pessoalmente para assumir a tarefa de enfermar o paciente.
Pang Qi e os Guardas ficaram profundamente comovidos com o elevado caráter moral do Senhor Tang.
Sui Zhou estava dormindo naquele momento, mas, se não estivesse, teria sido o primeiro a pular e se opor a isso…
Ainda assim, a realidade já estava selada em ferro. Era tarde demais para discutir.
Quando Sui Zhou acordou, descobriu que quem trazia seu remédio havia sido trocado — do médico acompanhante… para Tang Fan.
“…”
— O que foi? — perguntou Tang Fan.
— Onde está o médico?
— Ele está trocando os curativos de outra pessoa. Hoje eu vou te ajudar a beber.
Sui Zhou forçou um sorriso.
— Não precisa. Eu faço isso sozinho.
Tang Fan interpretou aquilo como cortesia e o empurrou de volta para deitar, sem espaço para debate.
— O médico disse que forçar a viagem agora não tem sido bom para a recuperação da sua lesão, e que você precisa ficar deitado o máximo possível para se curar mais rápido. Não somos amigos? Não seja tão formal comigo!
Sui Zhou ficou em silêncio, pensando consigo mesmo: eu realmente não estava sendo formal com você.
O Senhor Tang pegou uma colherada do caldo medicinal. Justo quando ia levá-la à boca de Sui Zhou, lembrou-se de como havia sido cuidado por ele anteriormente, então imitou o gesto: primeiro levou a colher aos próprios lábios para testar a temperatura, depois a levou até ele.
Quando chegou ao destino, sua mão deu um solavanco acidental.
Sui Zhou: “…”
Tang Fan: “…”
— …Eu posso beber sozinho.
Tang Fan riu.
— Desculpa, desculpa, eu não sou bom nisso! Que tal trocarmos de posição?
Ele limpou a gola de Sui Zhou com a manga, colocou a tigela de lado, ajudou-o a se sentar meio apoiado nele e então pegou novamente a tigela, levando-a com cuidado até os lábios de Sui Zhou. Ao incliná-la levemente, pensou que sua mão definitivamente não tremeria como da última vez.
Foi então que um grito feminino soou inesperadamente do lado de fora.
…seguido por ainda mais barulho e confusão.
Um bom minuto depois, a voz de Qian San’r soou do lado de fora do quarto:
— Perdão por incomodar seu descanso, Senhor Sui. Foi aquela mulher Chen que começou a gritar sem motivo, insistindo que alguém estava espionando ela enquanto se trocava. Ela não o incomodou, certo, Senhor Sui?
Tang Fan: “…”
Sui Zhou: “…”
Dessa vez, as coisas tinham realmente ido muito bem. A tigela inteira havia virado direto no rosto de Sui Zhou.
Felizmente, a temperatura do remédio estava perfeita — caso contrário, mais uma lesão teria sido adicionada à lista.
Sui Zhou teve de erguer a mão e remover a tigela do rosto.
— Eu vou beber sozinho — disse, com dificuldade.
— Guangchuan, eu realmente não fiz isso de propósito…
Embora Sui Zhou fosse a vítima, ele quis rir.
— Eu sei. Você não tem talento pra cuidar de ninguém. Peça para fazerem outra tigela e fique só me fazendo companhia para conversar.
Qualquer pedido de um paciente precisava ser atendido, sem exceções. O Senhor Tang se animou.
— Certo. Sobre o que você quer conversar?
— …Traga primeiro um conjunto de roupas para eu trocar.
— …Ahhhh.
Ao ver Tang Fan se levantar para buscar as roupas, Sui Zhou sentiu ao mesmo tempo uma grande impotência e um leve, emergente doce no coração.
Impotência por Tang Fan — que mal conseguia cuidar de si mesmo — querer cuidar de outra pessoa. Qualquer um que fosse cuidado por ele certamente sofreria.
Quanto à leve doçura… bem, bastava ele saber. Não havia necessidade de descrevê-la.
Pouco depois, o Senhor Tang voltou correndo com uma pilha de roupas.
As lesões de Sui Zhou eram internas, não nos membros. O médico explicara que ele precisava descansar, mas nunca dissera que não podia se mover; trocar de roupa não seria problema algum. Ainda assim, Tang Fan insistiu em expressar sua culpa pela péssima performance anterior e quis se desculpar; diante de tamanha sinceridade, Sui Zhou não teve coração para recusar e acabou consentindo tacitamente que ele ajudasse.
Sob a túnica interna, a pele de Sui Zhou era bronzeada. Pelas curvas firmes de seus braços e peito, dava para ver que ele treinara intensamente. Por vagar constantemente à beira do perigo e suportar incontáveis batalhas, seu corpo também carregava muitas cicatrizes antigas. Algumas já envelhecidas, com a cor quase apagada; outras, recém-adquiridas no cofre dos Gong, ainda cobertas por crostas.
No entanto, um corpo repleto de cicatrizes só realçava ainda mais sua masculinidade. Sem a cobertura das roupas, sua imponência tornava-se ainda mais evidente do que o normal. Mesmo sentado na cama, ferido, o que vinha à mente dos outros era um leão adormecido — não um gato ferido.
Bastaria trocar as vestes externas e superiores, mas Tang Fan disse para mudar tudo, insistindo que ele tirasse até as calças. Sui Zhou não teve escolha senão obedecer.
Como resultado, quando removeu as calças, viu o Senhor Tang encarando um “certo lugar”, com um sorriso mal-intencionado.
— Então esse é todo o seu tamanho.
“…”
Ele realmente guardava rancor… quantos dias tinham se passado desde então? Aquilo não fora nada além de uma provocação casual, e ele ainda se lembrava disso?
Tang Fan o vestiu.
— Essa viagem ao condado de Gong me deu material novo para uma história — comentou, como quem não quer nada. — Há um homem que tem uma inclinação natural para brincar entre flores. Um dia, um monstro se interessa pelo artefato herdado de seus ancestrais, mas o artefato reconhece seu dono e não permite que outros se aproximem. Então o monstro passa a beber o sangue de mulheres todos os dias até se transformar também numa bela mulher. Ela seduz o homem até ele se apaixonar completamente e lhe entrega o artefato por vontade própria. Assim que o obtém, o monstro revela sua forma original, e o homem — ao ver que o alvo diário de suas afeições era na verdade um terrível monstro coberto de escamas e olhos vermelhos de sangue — morre de susto. O que você acha?
Sui Zhou ficou em silêncio por um instante.
— Interessante.
Ainda assim, teve um pressentimento nada bom…
E, como esperado, no momento seguinte ouviu Tang Fan dizer:
— Dar o nome de ‘Sui Zhou’ ao homem serviria, né?
— Troque.
— Certo. Então o monstro vai se chamar Sui Zhou — respondeu o Senhor Tang, feliz em aceitar a sugestão.
“…”
Como diziam os antigos: melhor ofender um nobre do que ofender o Senhor Tang. Sui Zhou normalmente era frio com subordinados e estranhos, com um semblante distante. Todos acreditavam que essa frieza o deixara sem amigos; até mesmo com seu bom amigo Tang Fan, este sempre parecia ceder.
A percepção das massas desavisadas costumava estar errada. Diante do Senhor Tang, Sui Zhou sempre seguira o princípio de: “desde que ele esteja feliz, eu posso fazer qualquer coisa”. Quando ceder se tornava um hábito, a pessoa recuava sem perceber… recuava e recuava…
Até recuar completamente, perdendo todo o território.
Assim, o nome do monstro na nova história do Senhor Tang foi decidido.
Quando, no futuro, os membros do Escritório do Bastião do Norte vissem esse livro nas lojas, todos ficariam boquiabertos. O nome do Senhor Emissário não era comum; como poderia aparecer ali?[1] O autor devia ser alguém que fora capturado e torturado na Bastilha antes, certo?
Mas isso era coisa do futuro. No presente, aproveitando-se da rara fraqueza de Sui Zhou, o Senhor Tang usara a troca de roupas como oportunidade para intimidá-lo descaradamente, e agora estava de ótimo humor, até assobiando uma musiquinha de vez em quando.
Sui Zhou não sabia se ele fazia aquilo de propósito para que ele visse, ou se simplesmente não se importava. Sem conter a preocupação em seu coração, perguntou:
— Você já pensou no que vai acontecer depois que voltarmos à capital?
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[1] O nome de Sui Zhou é distinto porque o caractere Zhou (州) é usado exclusivamente para territórios (Suzhou, Fuzhou, Guangzhou etc.), fazendo com que soe mais como um nome de lugar do que de pessoa. “Sui” não é o sobrenome mais comum, mas também não é o mais raro, além de ser o nome de uma dinastia passada. (Na verdade, o sobrenome de Tang Fan também é o nome de uma dinastia — claramente intencional por parte da autora.)
CAPÍTULO 68 - Tigela Virada
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The Fourteenth Year of Chenghua
No décimo quarto ano de Chenghua, o harém imperial tinha uma Consorte Wan, assim como o Depósito Ocidental tinha um Eunuco Chefe chamado Wang Zhi. O Príncipe Herdeiro Zhu Youcheng tinha apenas...