CAPÍTULO 53 - Trabalhado até os Ossos
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Dois inimigos. Um quer que você morra, outro quer usá‑lo. Qual você escolheria?
Se a Senhora Nona morresse, o próximo que Deng Xiucai iria querer eliminar seria Tang Fan. Ele não podia simplesmente permitir isso; tinha de encontrar os homens dela para ajudá‑la. Ela e Deng Xiucai não estavam de acordo; ela não era tão insensível quanto ele, deixando espaço para negociação e discussão.
O alvoroço da briga havia alertado muita gente. Todos observavam os dois líderes lutarem entre si e ficavam meio sem saber o que fazer. Corriam sucessivamente até a entrada do porão, imediatamente entupindo a passagem.
Tang Fan, não muito longe, avistou o guarda-costas que estivera ao lado da Senhora Nona.
— Irmão, entre e veja por si mesmo agora! Ah‑Han está lutando com o segundo em comando, ele vai matá‑la!
A Senhora Nona queria tanto seduzir Tang Fan quanto contar a ele segredos que não podiam ser revelados, por isso havia mandado esse guarda se afastar. Ele a chamava de “Ah‑Han” para mostrar aos outros o quão íntima era sua relação.
Realmente, o rosto do guarda se contorceu.
— Onde eles estão?!
Na verdade não havia necessidade de Tang Fan explicar tanto — o homem já ouvira os sons do choque de armas vindo de perto. Sem dizer mais, ele partiu em disparada, Tang Fan seguindo e tagarelando atrás.
— Tem de salvar a Ah‑Han, irmão! Não pode acontecer nada com ela!
O guarda não lhe deu atenção, empurrou a multidão e correu para dentro. Tang Fan, não muito longe, ouviu Deng Xiucai gritar de repente:
— O que vocês estão olhando?! Ajudem‑me a matar essa mulher! Não podemos deixá‑la voltar ao Supervisor e reclamar!
— Como ousa! — gritou a Senhora Nona. Em sua voz faltava fôlego; estava evidente que ela ia ficando em desvantagem.
Aquele era realmente um desejo inabalável de silenciar alguém pela morte.
Com o rosto ligeiramente alterado, Tang Fan preocupou‑se apenas em correr direto para fora. Nessas circunstâncias, ninguém prestava atenção em onde ele estava.
Enquanto os dois lados mergulhavam na briga, Tang Fan já havia fugido para um porão cheio de mantimentos numa curva à frente. Quando muitas pessoas se dispersaram para juntar‑se ao tumulto, ele saiu de seu esconderijo e correu adiante, na esperança de encontrar uma saída.
O local ficava na direção completamente oposta ao caminho onde o grupo de Ah‑Dong estava escondido. Tang Fan estava certo de que, com a astúcia de Deng Xiucai, não haveria apenas uma entrada — esses tipos não deixariam tudo numa única porta, senão seriam tartarugas numa jarra se alguém bloqueasse a passagem.
Esse labirinto subterrâneo não era muito grande — os porões eram poucos —, mas as passagens entre eles eram tortuosas, sinuosas e extremamente complicadas; era fácil se perder. Depois de virar e virar em infinitas curvas por um bom tempo, evitando rotas possivelmente vigiadas, Tang Fan finalmente encontrou uma área que parecia ser uma saída: era uma rampa para cima e tinha dois vigias fazendo guarda.
Deng Xiucai havia convocado quase todos os seus subordinados para matar a Senhora Nona, mas esses dois ainda lá estavam. Isso mostrava que o ponto que vigiavam era muito importante, e portanto, uma entrada.
Lá, sozinho dentro do covil de ladrões, ele não tinha como levar as crianças para fora por si só; seria morto antes de conseguir sair, e o sofrimento se abateria também sobre os pequenos. Por mais que quisesse correr até Ah‑Dong e resgatá‑los ali mesmo, sua razão dizia que não daria certo.
As crianças eram as galinhas dos ovos de ouro de Deng Xiucai; ele não as atacaria precipitadamente — caso contrário, não teria corrido risco de enfrentar o Governo apenas por elas. Tang Fan, por outro lado, não servia de utilidade para ele e só seria um estorvo durante a fuga. O melhor método, portanto, era salvar primeiro a própria pele, esperar a oportunidade na confusão para escapar e então trazer forças de resgate para cá. Capturar todo o grupo de Deng Xiucai de uma só vez também salvaria as crianças.
Ainda assim, ele sentia, com uma pontada de pessimismo, que a briga poderia acabar logo. Deng Xiucai tinha muitos homens, e a Senhora Nona não o igualava — ela era orgulhosa e convencida demais. Acreditava que seu posto como enviada do Supervisor e o status de convidada de honra da Gangue do Sul deixariam Deng Xiucai com medo de agir contra ela, por isso o contrapunha em tudo.
Mas, tendo sido sufocado por tanto tempo, o homem estava decidido a silenciá‑la. Como estavam num local ermo, bastaria eliminar a Senhora Nona e plantar a culpa nas autoridades. Ninguém suspeitaria dele.
Tang Fan, claro, não estava preocupado com ela por motivos de bondade — ela falara bem, planejava devolver as crianças, mas aquilo se dava porque queria confrontar Deng Xiucai, não por filantropia.
Porém, se ela morresse antes que a equipe de Sui Zhou chegasse, ele seria arrastado para uma situação muito perigosa.
A saída parecia perto, mas ele não podia avançar: estava preso ali, escondido numa sombra, mãos atadas. Essa condição de estar num patíbulo alheio deixava qualquer um ansioso e impotente; por mais esperto que fosse, naquele momento não conseguiu conceber uma saída.
Nesse exato instante, o som apressado de passos se aproximou. Sem tempo para pensar, ele se encostou nas sombras de uma reentrância próxima.
Viu algumas pessoas correrem em direção ao fim do túnel, onde os dois vigias estavam.
— O que houve?! — perguntou um deles.
— A Senhora Nona morreu — respondeu outro. — O segundo em comando ordenou que recuássemos!
O homem ficou pasmo.
— Ela está morta? Como?!
— Você se encantou demais por aquela beleza feminina, que nem repara nas coisas, palhaço? — provocou o outro, e em seguida baixou a voz. — O patrão a matou, junto com seus dois subordinados. Aquela senhora estava lhe causando dor de cabeça. Ele aguentou tanto tempo que seria estranho se não a tivesse eliminado.
O que perguntou sabia da ligação dela com a Sociedade da Lótus Branca.
— Mas ela não era a enviada do Supervisor? Matá‑la assim, por acaso, é permitido?
— Nem fale desses caras. A gente os paga todo ano em moedas, mas o que eles fazem por nós? Nada. O segundo em comando já queria se opor a eles há tempos. De qualquer modo, as autoridades apareceram pra encrencar — então, se colocarmos a morte dela nas costas deles, ninguém vai desconfiar de nós.
O homem, que ao menos tinha algum cérebro, hesitou ao ouvir aquilo.
— Então… não seremos procurados tanto pelas autoridades quanto pelo Supervisor?
— Pare de falar besteira — respondeu o outro, impaciente. — O segundo em comando disse que há gente do forte da montanha por aqui, então temos que empacotar tudo e fugir antes que as autoridades cheguem. Vocês dois vão ficar responsáveis por cobrir a retaguarda, vigiando uma das saídas, pra que o inimigo não ataque por trás. Ah, e aquele sujeito que o Coxo Luo amarrou escapou. Vocês viram ele?
— Não. Não tivemos coragem de sair do nosso posto nem por um segundo, não vimos nem sombra de ninguém.
— Houve uma brecha em outra saída no meio da confusão. O segundo e o terceiro em comando acham que ele aproveitou pra escapar. Enfim, se o virem, matem de uma vez.
Tang Fan se perguntou, surpreso, como assim havia também um “terceiro em comando”. Mas logo se lembrou: quando conhecera Deng Xiucai, havia um ancião sentado ao lado dele — devia ser ele.
Depois do assassinato da Senhora Nona e da decisão de bater em retirada, Tang Fan deixara de ser alguém que “precisava ser morto imediatamente” para ser “morto apenas se avistado”. Mas isso não o deixava nem um pouco feliz — porque, uma vez que Deng Xiucai se embrenhasse nas montanhas, seria como um dragão voltando ao mar: impossível rastrear.
Os dois homens assentiram, e logo em seguida ecoaram novos passos que se afastavam. Passaram então a cochichar.
— Se o chefe mandou a gente cobrir a retaguarda, quando é que vamos poder nos juntar a eles? Não é possível que tenhamos que esperar todo mundo ir embora pra depois sair, né?
— Vamos esperar. Se sairmos antes e o segundo em comando ver, vamos levar bronca.
— E aquele cara que ele mandou procurar? Vamos atrás?
— Idiota. Procurar o quê? O importante é fugir com vida! Quando estivermos nas montanhas, as autoridades não vão conseguir nos achar. Pra que se preocupar com vazamento de segredo agora?
Tang Fan não quis mais escutá-los. Por dentro, estava ansioso. Temendo que Deng Xiucai levasse embora as crianças, ele recuou cautelosamente pelo mesmo caminho de antes.
Com a morte da Senhora Nona, Deng Xiucai organizara a retirada por outra saída. Mas, por mais depressa que se movessem, ainda estavam atrasados por causa do grupo de crianças — tirá-las do porão já consumira um bom tempo.
Ah‑Dong se lembrara das instruções de Tang Fan. Sabendo que os bandidos não matariam as crianças de imediato, ela passou a andar devagar de propósito, arrastando-se, até que fingiu desmaiar, chorando que não podia mais andar. Um dos malfeitores, sem alternativa, teve de segurá-la pelo colarinho e carregá-la.
Eles saíam em grupos, e Tang Fan os seguia de longe. Ao longe, conseguiu ouvir alguém dizer que já havia uma carruagem esperando do lado de fora — o que o deixou ainda mais aflito. Observando enquanto eles saíam da caverna, aproveitou o momento para correr até lá e se esconder atrás de uma grande pedra próxima.
Se tivesse conseguido sair meia hora mais cedo, teria tido tempo de buscar reforços. Agora, só conseguia pensar que não podia deixá-los escapar — caso contrário, seria ainda mais difícil reencontrar as crianças depois.
Pensando nisso, ele não se preocupou mais em salvar a si mesmo primeiro. Gritou alto:
— Parem!
E saiu de trás da pedra.
O grito soou como um trovão no campo aberto. Todos os membros da gangue se sobressaltaram, e até Deng Xiucai virou-se imediatamente. Ao ver Tang Fan, ficou espantado, mas logo exibiu um sorriso sinistro.
— Pensei que você tivesse fugido. Ia deixar você viver mais um pouco, mas resolveu aparecer de novo. Acender uma lanterna numa latrina é mesmo pedir pra morrer, hein?
Tang Fan ajeitou as mangas, sem demonstrar nervosismo.
— De fato, consegui escapar antes, e já avisei a Guarda de Brocado e o Departamento do Oeste. Estão a cinco li daqui, mas chegarão em breve.
Sua afirmação causou alvoroço. Ao ouvirem que as autoridades estavam a caminho, os membros da gangue mostraram expressões de desconforto.
Tang Fan não esperou Deng Xiucai acalmar seus homens; falou por cima:
— Sinceramente, segundo em comando, eu não queria encurralá-lo, mas, já que matou a Senhora Nona e rompeu com a Sociedade da Lótus Branca, agora não tem mais caminho de volta. Se continuar enfrentando o Governo, ficará sem apoio de nenhum dos lados, e a situação será sombria. Mesmo que se esconda nas montanhas, o Império enviará tropas e acabará com todos vocês num instante. Sendo assim, por que não resolvemos isso pacificamente? Entregue as crianças, e posso interceder por você junto ao Eunuco Chefe Wang e ao Posto do Bastião do Norte. Seus irmãos sobreviverão também. Não seria perfeito?
Deng Xiucai zombou.
— Você fala bonito. Pena que não é o Imperador, senão talvez eu acreditasse. Se eu me arrepender agora, o tal Wan não vai ter mais como me usar. Ele está louco pra jogar toda a culpa em mim, então por que me pouparia só porque você pediu? Melhor lutar por conta própria do que morrer nas mãos de outros! Prefiro morrer em cima de um monte de ouro e prata do que viver como escravo!
Tang Fan uniu as mãos num gesto respeitoso.
— Segundo em comando, respeito sua franqueza. Mas talvez possamos chegar a um acordo. Se deixar as crianças, pode ir embora sem que ninguém o persiga. Quando a Guarda e o Departamento chegarem, eu os atrasarei pra que não consigam alcançá-lo. Assim, ambos os lados cedem um passo. Que tal?
Sua expressão era calma demais para um homem cercado por uma dúzia de membros da Gangue do Sul. Sem medo algum no rosto e falando com tanta segurança, ele acabou influenciando os demais — que, mesmo sem perceber, começaram a acreditar em suas palavras. O ancião, que parecia ser o terceiro em comando, chegou a dizer a Deng Xiucai:
— Ele tem razão. Já rompemos com a Sociedade; melhor não provocar demais as autoridades, senão acabaremos atacados pelos dois lados…
Deng Xiucai levantou a mão, interrompendo o discurso do outro. Fitou Tang Fan com os olhos semicerrados.
— Até eu quase acreditei em você. Não há reforço nenhum vindo — e ainda tem coragem de nos enganar aqui!
Sem mudar a expressão, Tang Fan arqueou uma sobrancelha.
— E como você tem tanta certeza disso?
O homem sorriu de forma cruel.
— Quando você foi capturado, fui eu quem o revistou pessoalmente. Tirei tudo o que tinha com você. Com o que você teria avisado as autoridades? Sua encenação foi convincente, quase me enganou! Alguém, matem esse sujeito!
Tang Fan dissera toda aquela conversa apenas para ganhar tempo, mas não esperava que o outro percebesse tão rápido. Vendo dois brutamontes da gangue se aproximarem, brandindo sabres de aço e passos largos, ele disse com firmeza:
— Parem! Os reforços estão bem atrás de vocês!
Deng Xiucai permaneceu impassível.
— Acabem logo com isso!
Ele já o considerava um homem morto, montando em seu cavalo enquanto falava. Outra carruagem, com as crianças dentro, também começou a disparar em galope.
Antes que Tang Fan pudesse reagir, as duas lâminas reluzentes já estavam diante dele. Não havia como desviar.
Ele fizera tudo que podia para ganhar tempo, mas o grupo de Sui Zhou ainda não aparecera. Mesmo com mil artimanhas, ele não poderia vencer pela força. Sem ter o que fazer, sem para onde fugir, pensou que aquele seria seu fim. Então simplesmente fechou os olhos, oferecendo o pescoço ao golpe.
Alguns instantes depois, as lâminas que deveriam ter abatido sua cabeça demoraram a chegar, e a dor que ele esperava não veio. No lugar disso, o som do vento cortado entrou em seus ouvidos.
Ele abriu os olhos involuntariamente e percebeu que a situação à sua frente havia se transformado completamente — os homens que estavam prestes a matá-lo caíram no chão, um com um sabre dourado cravado no centro das costas, e o outro com uma flecha emplumada atravessando o crânio.
Havia várias outras flechas, disparadas contra cavalos e pessoas. Os cavalos, feridos e assustados, derrubavam os homens com relinchos ensurdecedores.
Chocado e furioso, Deng Xiucai gritou uma ordem imediata a todos:
— Recuem!
No entanto, já era meio passo tarde demais. Quatro figuras desceram rapidamente da floresta à frente e se lançaram sobre eles — ao olhar mais de perto, era o quarteto de Sui Zhou!
As mãos do homem estavam vazias; não era difícil ver que fora ele quem lançara o sabre dourado, eliminando um dos assassinos de Tang Fan. Este gritou:
— Seu sabre! — e o puxou das costas do homem. Ignorando o sangue que respingou, lançou a lâmina para Sui Zhou.
Este fez um salto elegante, pegou a lâmina firmemente no ar e cortou outro traficante que estava descendo pelo vento.
Os subordinados de Deng Xiucai não eram fracos, especialmente os seus auxiliares de confiança. Em termos de habilidade, não havia dúvida, mas poucas pessoas haviam chegado com Sui Zhou. No máximo, poderiam ter feito ele perder alguns homens, não deixá-los em completo pânico.
Quem realmente mudou a situação foram os soldados que Wang Zhi trouxera, pois todas aquelas flechas haviam saído de seus guardas do Departamento.
Vendo sua tropa chegar, primeiro disparando flechas e depois se juntando à luta, o grupo de Sui Zhou sentiu-se como se tivesse recebido a ajuda de um deus. Os homens de Deng Xiucai foram completamente superados em número. O combate tornou-se um caos, com o resultado apenas questão de tempo.
Ainda assim, Tang Fan estava ansioso. Aproveitando o momento em que todos estavam ocupados demais para prestar atenção nele, correu até a carruagem com as crianças. Temia que, se se atrasasse, elas fossem levadas como reféns pela desesperada Gangue do Sul.
O cortinado da carruagem se levantou, e Ah-Dong, que deveria estar amarrada, agachava-se observando o exterior, com várias cabeças escondidas atrás dela. As crianças agarravam-se fortemente às suas roupas, completamente apavoradas.
O motivo pelo qual podiam se mover livremente era que a peça de porcelana deixada por Tang Fan cumprira seu papel. Depois que Ah-Dong aproveitou o caos para se libertar, soltou também seus pequenos amigos.
Isso, sem dúvida, economizou muito tempo. Exultante, ele correu até a carruagem, tirou as crianças uma a uma e fez com que Ah-Dong as levasse para se esconder atrás de uma rocha próxima, dizendo que não saíssem até que todos os bandidos fossem eliminados.
No meio de suas instruções, Sui Zhou gritou de repente:
— Runqing, mova-se!
Tang Fan rapidamente virou a cabeça e viu Deng Xiucai correndo em sua direção, um sabre ensanguentado na mão, olhar louco e distorcido nos olhos, e uma aura densa de assassinato em seu rosto. Evidentemente, a batalha havia se transformado em uma derrota esmagadora para ele, e não se conformava em ser impotente, querendo levar as crianças como reféns.
O incidente aconteceu em fração de segundo. Ele parecia insano, mas a mente permanecia clara. Sabia que segurar Tang Fan como refém seria inútil, pois este era apenas um funcionário menor; insignificante, facilmente descartável e sem serventia. Se quisesse reféns, o melhor seria capturar as crianças de oficiais de alta patente, que eram os verdadeiros alvos das autoridades. Somente segurando-as estaria verdadeiramente seguro.
Como Tang Fan não entenderia seus pensamentos? Uma vez que a filha de Zhu Yong fosse capturada, ninguém poderia deter Deng Xiucai. Por isso, sem pensar, não desviou para o lado, mas lançou-se contra o homem!
O ato parecia bastante tolo para um observador alheio, pois Tang Fan não possuía habilidade marcial alguma, era uma pessoa comum. Não segurava armas e não tinha força para enfrentar Deng Xiucai, tornando seu ataque equivalente a um ovo batendo numa pedra.
Ainda assim, foi isso que fez. Em frações de segundo, sem nenhuma encenação afetada, apenas ações subconscientes.
Na visão de Tang Fan, não se via como um oficial acima das crianças. Pelo contrário, justamente por ser um oficial patrono, sentia a necessidade de assumir a responsabilidade de proteger cidadãos.
Idiota!
Gigante idiota!
Colossal idiota!
Wang Zhi também presenciava a cena. Estava tão distante que era impossível bloquear a lâmina prestes a atingir Tang Fan. Tudo o que podia fazer era assistir impotente e xingar alto.
Até Sui Zhou, um pouco mais próximo, chegaria tarde demais, mas ainda queria fazer o possível. Em vez de perder tempo xingando como o Eunuco Wang, acelerou, rápido como um relâmpago, transformando-se em um borrão negro — sabre em mãos, investiu contra Deng Xiucai.
Ninguém esperava que, bem no instante em que Deng Xiucai estivesse prestes a cortar Tang Fan, este retirasse alguns objetos desconhecidos de suas lapelas e os arremessasse sobre ele. Eram vários objetos escuros que pareciam armas furtivas à primeira vista; muito afiadas, aparentemente com algo aplicado nelas.
…Seria veneno?
Grandemente surpreso, Deng Xiucai balançou o sabre rapidamente, protegendo-se. Ouviu-se apenas uma série de clangores, enquanto os objetos eram desviados, alguns quebrando-se e espalhando-se pelo chão.
Ao ver aquilo, Deng Xiucai ficou furioso.
Que armas furtivas?! Eram claramente fragmentos de porcelana! As áreas que pareciam envenenadas eram apenas o padrão azul e branco de uma tigela!
Tudo o que tinha em mente naquele instante era cortar Tang Fan em pedaços.
Como sempre, o campo de batalha mudava infinitamente em segundos. O tempo que Tang Fan ganhou foi suficiente — Sui Zhou havia chegado, seu sabre dourado pressionando com peso de trovão, a aura assassina iluminando Deng Xiucai!
Ele não teve escolha senão virar-se, cerrar os dentes e enfrentar Sui Zhou. As oportunidades eram fugazes, e Tang Fan o distraíra tanto que ele perdera a chance de capturar reféns.
Nem um instante depois, a Guarda de Brocado e os guardas do Departamento chegaram. Todos sabiam que Deng Xiucai era o líder dessas operações; ser capturado representava uma grande vitória.
Os outros, já contidos sucessivamente, cercaram Deng Xiucai. Sua derrota era inevitável, apenas questão de tempo.
Tendo escapado da lâmina e recuperado seu destino, Tang Fan finalmente suspirou aliviado. Após o susto, seu corpo se deixou ir, e sentou-se no chão.
— Irmão, está bem?! — Ah-Dong correu para ajudá-lo, com passos apressados.
— Estou — respondeu ele, exausto.
— Você está sangrando! — Ela apontou para o pescoço.
Ele tocou e realmente encontrou alguns cortes finos e sangrentos. Provavelmente, fora atingido inadvertidamente quando Deng Xiucai enviara os fragmentos de porcelana voando.
Ah-Dong tirou um lenço de dentro dos braços e entregou a ele. Era um prêmio que ele havia ganhado ao adivinhar charadas de lanternas. Ah-Dong carregava uma pilha de coisas nos braços, entre elas três lenços; não usar um deles agora seria um desperdício.
Ele aceitou o lenço e, casualmente, cobriu o pescoço, dando um tapinha na cabeça dela.
— Vá cuidar dos nossos pequenos irmãos e irmãs. Não os deixe correr por aí.
Ela concordou e se afastou. Nesse momento, uma risada zombeteira surgiu por trás dele.
— Você realmente está numa situação lamentável.
Ele não precisou se virar para saber quem era.
— Por que não vem ajudar, Eunuco Wang, e fica aí todo confortável?
— A situação geral já está resolvida. Basta registrar o caso como encerrado que já me rende méritos. Por que eu deveria ir ao campo eu mesmo?
— Mas vocês estavam patrulhando aquelas estradas oficiais. Como conseguiram chegar a tempo?
— Depois que vocês foram pelo caminho fora da estrada, fui buscar cavalos e dividi nosso grupo em dois. Os outros seguiram pelas estradas enquanto eu vinha atrás de vocês. O tempo perdido indo e voltando para pegar os cavalos foi muito, por isso só conseguimos chegar agora. Esses Guardas de Brocado são inúteis demais. Se o Depósito Ocidental tivesse seguido por aqui, vocês nunca teriam caído naquele covil de ladrões, porque já teríamos derrotado esses palhaços saltadores de telhado há muito tempo!
Tang Fan suspirou, mas com um enorme alívio estampado no rosto.
— E quem é o culpado por isso? Eu disse para vocês seguirem por esse caminho, mas não acreditaram em mim, desperdiçando tempo à toa! Pegamos um membro da gangue, mas não esperávamos que, mesmo com uma facada e dois dedos quebrados, ele ainda ousasse mentir para nós. Sui Zhou só tinha quatro homens com ele, e eles temiam não ter força suficiente, então tiveram que se unir para perseguir até a montanha. Vocês conseguirem chegar a tempo é obra do destino desses bandidos; caso contrário, minha própria vida provavelmente teria se perdido aqui.
— Além disso, o motivo pelo qual Deng Xiucai e os outros saíram dos porões é que a Gangue do Sul tem um reduto na montanha à frente, para onde poderiam ir se esconder até tudo passar. Depois que esses sujeitos forem capturados, precisamos descobrir a localização exata, pois esse reduto precisa ser destruído. O poder da gangue certamente não se limita a poucos homens de Deng Xiucai; há, presumivelmente, outras forças espalhadas pela capital. Por favor, erradiquem o mal, Eunuco Wang, e destruam cada grupo, um por um.
Wang Zhi franziu a testa, claramente relutante em se envolver em tanto trabalho. Para ele, encontrar as crianças já era o suficiente.
Quando Tang Fan virou a cabeça, percebeu a mudança em sua expressão e soube o que ele estava pensando.
— A Gangue do Sul tem alguma ligação com os seguidores demoníacos da Lótus Branca — acrescentou.
O outro ficou sério.
— É verdade?
— Ouvi com meus próprios ouvidos lá dentro. A Sul é apenas uma dessas gangues afiliadas à Sociedade, e também é uma fonte de renda para ela. No entanto, Deng Xiucai se recusou a ser mandado, entrou em conflito interno com a enviada do Supervisor e acabou matando-a. Depois que você o trouxer de volta, pode procurá-lo; certamente encontrará o símbolo de comando da Sociedade.
O feiticeiro Li Zilong, uma vez, havia causado pânico no palácio imperial, e investigações posteriores mostraram que ele estava ligado à Sociedade. Desde então, seu nome ficou formalmente exposto, obrigando todos a enfrentá-la de frente.
Infelizmente, nos últimos dois anos, a Guarda de Brocado e os dois Depósitos investigaram secretamente, sem progresso. A organização estava tão bem oculta que nem eles conseguiam achar pistas, apenas capturando os pequenos membros.
Agora que a ligação entre a gangue e a Sociedade havia surgido, Tang Fan não precisou dizer mais nada. Junto de Boss Lai, Liu Zhili e outras forças do submundo, o grupo de Wang Zhi certamente faria uma investigação.
Enquanto os dois conversavam, Deng Xiucai, mesmo com suas extraordinárias habilidades marciais, estava em grande desvantagem e finalmente foi capturado.
Excluindo aqueles mortos por flechas ou na luta, restavam apenas sete membros da gangue, incluindo o segundo e o terceiro em comando. Mais importante ainda, as crianças não sofreram grandes danos, apenas um grande susto.
Todos haviam passado a noite exaustos. Apesar dos méritos a serem distribuídos, não houve comemoração. Cada um tinha o rosto marcado pelo cansaço e pelo desejo de morte.
Isso era verdade mesmo para os habilidosos em artes marciais, quanto mais para um homem comum como Tang Fan. Ele havia passado por várias situações de vida ou morte, realmente se esgotando.
A carruagem que Deng Xiucai pretendia usar para transportar as crianças estava novamente cheia delas, mas seu trajeto havia mudado.
Mister Tang, ferido e extremamente cansado, não quis viajar sozinho. Para não cochilar e cair durante a jornada, dividiu um cavalo com Sui Zhou.
Todos estavam exaustos. Os cavalos não iam rápido, saltando com o caminho irregular. Sentado atrás de Sui Zhou, Tang Fan adormeceu sem perceber, deixando a baba escorrer pelas costas.
Sui Zhou não disse nada, apenas olhou para o céu.
CAPÍTULO 53 - Trabalhado até os Ossos
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The Fourteenth Year of Chenghua
No décimo quarto ano de Chenghua, o harém imperial tinha uma Consorte Wan, assim como o Depósito Ocidental tinha um Eunuco Chefe chamado Wang Zhi. O Príncipe Herdeiro Zhu Youcheng tinha apenas...