001.
“Vou fazer você se arrepender. De ter me abandonado.”
***
A estrada que levava à escola estava, como sempre, com uma longa e enfileirada fila de carros. Eram os veículos dos pais deixando os filhos a tempo para as aulas.
Koi, como de costume, pisou com força nos pedais enquanto passava direto pelos carros que esperavam pelo sinal, cruzando a rua rapidamente. Um carro que vinha de longe avistou a bicicleta do garoto e reduziu sutilmente a velocidade. Koi moveu as pernas com ainda mais força e entrou direto no terreno da escola. Os alunos que chegavam no mesmo horário desciam dos carros e se cumprimentavam como faziam todos os dias.
“Sarah, aqui!”
“Você viu Eternity ontem? Eu chorei muito naquela cena. Como eles puderam terminar daquele jeito?”
“Meu pai quer ir acampar de novo. Que saco.”
Passando pelos jovens que conversavam por todos os lados, Koi deixou a bicicleta na área designada e se dirigiu aos armários. Os alunos se reuniam em seus próprios grupos para fofocar, mas ninguém cumprimentava ou falava com o moreno.
Como era uma situação muito familiar, ele abriu o armário sem pensar muito e pegou os livros didáticos. Enquanto segurava no braço apenas o material que usaria nas aulas da manhã e fechava a porta do armário, de repente ouviu um burburinho.
Diante da atmosfera subitamente animada, Koi virou a cabeça distraidamente e logo entendeu o motivo. Do outro lado, o “grupo dos 6” titulares do time de hóquei no gelo vinha caminhando e conversando animadamente alto.
Como era de se esperar, eles atraíram a atenção de todos imediatamente. O grupo de seis rapazes, que costumavam andar sempre juntos, era composto por jovens que não apenas tinham um físico extraordinariamente maior do que o dos rapazes de sua idade, mas também rostos muito bonitos.
Mesmo entre eles, quem mais se destacava, sem dúvida, era Ashley Dominic Miller. Caminhando no centro como se fosse o dono de todo aquele lugar, ele ignorava levemente os olhares dos colegas de classe enquanto brincava e conversava alto com os amigos. No entanto, ao contrário de sua reação indiferente ao redor, todos olhavam para ele fixamente. É claro que Koi também era um deles.
Ele fica ainda mais bonito quando sorri.
Koi segurou o fôlego por um momento e o observou. Não havia ninguém na escola que não o conhecesse. Na verdade, qualquer pessoa que gostasse de hóquei no gelo saberia quem ele era. Normalmente, o moreno achava o apelido dele extremamente infantil e de dar arrepios, mas, pelo menos neste momento, ele não teve escolha a não ser aceitar, por mais frustrante que fosse.
O Príncipe do Gelo.
Ugh, que brega.
Koi quase levou a mão ao pescoço fingindo que ia vomitar.
Ele odiava admitir que, mesmo que por um breve instante, tinha concordado com aquele apelido. No entanto, recebendo a luz do sol da manhã, o cabelo loiro platinado brilhante dele, e até mesmo suas sobrancelhas levemente franzidas, eram absurdamente bonitas.
Dos olhos cinza-azulados ao olhar profundo, do nariz imponente que parecia nunca ter sido quebrado aos lábios grossos e largos, e até o maxilar bem marcado… As linhas do seu rosto eram tão nítidas que, em vez de uma estátua de gesso, poderiam muito bem ter esculpido o rosto dele ali.
E o que dizer daquele corpo robusto? Apesar de estar vestindo uma camiseta comum e calça jeans em vez do uniforme, sua altura de quase 1,90 m destacava claramente seus ombros largos, o peito firme e as coxas grossas, além de um quadril bem modelado — ele era perfeito.
Claro, afinal, aquele cara era o capitão do time de hóquei no gelo da Buffalo High School, que nunca havia perdido um campeonato.
Para Koi, que mal tinha a quantidade mínima de músculos necessária para sobreviver, ver aquele homem tão perfeito — que parecia um sonho inalcançável e cuja mera admiração já pesava na consciência — o fazia sentir que deveria apenas encolher-se e ficar no seu canto.
Foi bem nesse momento.
Ashley, que por acaso virou a cabeça, avistou Koi e imediatamente abriu um sorriso radiante, acenando com a mão. O moreno, que tentava desviar o corpo discretamente para o lado, ficou confuso com a situação inesperada e arregalou os olhos, olhando para ele.
Hã? Eu?
Meio desconfiado, Koi apontou timidamente para si mesmo com o dedo indicador, e Ashley sorriu ainda mais, com os olhos transbordando de alegria.
O Ashley Miller sabe quem eu sou?
Na verdade, eles faziam a maioria das aulas de AP (Advanced Placement) juntos. Claro que Ashley estava quase sempre com os amigos, enquanto Koi sentava-se sozinho em um canto, sendo uma presença apagada como poeira. Mas aquela estrela do hóquei no gelo conhecia Koi? E ainda por cima tomou a iniciativa de cumprimentá-lo?
Bem, nós fazemos algumas aulas juntos.
Fazendo essa suposição plausível, o moreno observou Ashley se aproximar. Foram apenas alguns segundos, mas esse tempo pareceu extremamente longo para Koi.
Ver o capitão loiro do time de hóquei sorrindo calorosamente enquanto olhava para ele foi o suficiente para deixá-lo temporariamente hipnotizado, apesar de ambos serem homens.
Além disso, o fato da pessoa mais popular da escola falar com ele primeiro deixou Koi ainda mais animado.
“Ah…” Foi bem no momento em que Koi, com uma expressão abobalhada, olhou para ele e ergueu a mão.
De repente, alguém passou raspando por Connor como um vendaval. Logo em seguida, o olhar de Ashley, que antes estava direcionado a Koi, mudou naturalmente para ela.
“Oi, Ash.” A estudante que o beijava com um sorriso doce era a namorada de Ashley e, como era de se esperar, a capitã do time de animadoras de torcida.
Vendo aquele casal composto pelo astro do esporte e pela líder de torcida — algo que existia em qualquer escola —, Koi percebeu que havia se equivocado.
Ele estava sorrindo porque viu a namorada.
Em um instante, tomado pelo constrangimento, seu rosto ardeu intensamente.
Normalmente, ele costumava se depreciar dizendo que sua presença ali não valia mais do que a poeira do canto daquele lugar, mas, naquele momento, sentiu-se imensamente grato por isso. Se não fosse por isso, a essa altura todos estariam rindo da cara dele.
Enquanto ele não sabia o que fazer de tanta vergonha, um dos rapazes do grupo passou por Koi e resmungou rispidamente: “Sai da frente, otário.”
Sem intenção, Koi acabou bloqueando o caminho e o sujeito o empurrou sem a menor cerimônia.
Ele acabou batendo o corpo contra o armário, mas ninguém deu a mínima para ele. E não era para menos, já que a atenção de todos estava voltada para o bando que se afastava, passando direto por Koi. Massageando o braço atingido, ele abaixou o olhar, humilhado.
O Ashley Miller nem sabe quem eu sou.
Era óbvio. Para ele, Koi era apenas mais um entre os inúmeros colegas de classe comuns. Quanto mais pensava nisso, mais sem graça ficava, e ele acabou coçando a cabeça sem parar. Quando tardiamente tentava trancar a porta do armário, de repente, alguém desferiu um tapa violento na parte de trás de sua cabeça.
“Ah!” Ele soltou um grito involuntário e encolheu os ombros, mas não parou por aí.
Outro cara golpeou com força os livros que Koi estava segurando. O moreno tentou pegá-los rapidamente, mas, infelizmente, os livros apenas roçaram as pontas de seus dedos e caíram de qualquer jeito no chão, espalhando-se.
“Perdedor babaca.”
“Presta atenção, seu imbecil de merda.” Nelson e seu bando se afastaram rindo alto.
Koi apenas olhou fixamente para os livros caídos no chão, soltou um suspiro profundo e recolheu suas coisas às pressas. Já estava quase na hora de a aula começar.
Apressando-se pelo corredor, ele chegou à sala de aula e viu que quase todos os lugares já estavam ocupados. Sentados bem no meio da sala estavam, como sempre, Ashley e seus amigos. Os membros que andavam juntos costumavam ser seis, mas talvez três deles estivessem fazendo uma aula diferente, mas agora havia apenas três, incluindo Ashley.
Apesar disso, a presença deles continuava marcante.
Koi olhou de relance para eles e, como de costume, dirigiu-se ao seu lugar no canto. Não foi intencional, mas a conversa deles acabou entrando naturalmente em seus ouvidos.
“Então, como vai ser? Dá para colocar alguém novo agora?”
“Não me parece que vão mudar a coreografia. Ouvi dizer que estão procurando para ver se tem alguém decente disponível.”
“Você não ouviu nada, Ash?”
Diante da pergunta do amigo, Ashley deu de ombros e respondeu: “Chegaram a me perguntar também, mas você acha que é fácil achar um membro que entre de repente para a equipe de torcida e consiga competir na temporada? Seria melhor mudar a coreografia.”
“É? Mas a El disse que não quer?”
“Ela disse que aquela coreografia é indispensável.”
“Nossa, quão incrível deve ser essa coreografia?”
À pergunta de outro amigo, Ashley respondeu com desinteresse.
“Sei lá, eu também não sei. De qualquer forma, se as coisas não funcionarem, a El vai acabar desistindo.”
Ao terminar de falar, ele virou a cabeça e olhou na direção de Koi.
Como Koi estava passando por eles bem naquele momento, acabou reagindo instantaneamente, mas desta vez foi a mesma coisa. Ashley apenas pareceu dar um sorriso protocolar e ensaiado por terem cruzado os olhares ao virar a cabeça, e logo em seguida desviou o rosto novamente.
Tinha que ser.
Sentindo uma decepção profunda no peito, Koi caminhou até seu lugar no canto e se sentou. Enquanto isso, os caras, incluindo Ashley, continuavam a tagarelar sobre assuntos fúteis. Deixando entrar por um ouvido e sair pelo outro aquele monte de conversas banais — como o resultado do jogo do dia anterior ou a briga em casa com o irmão mais novo —, Koi se preparou para a aula.
Não demorou muito para que a professora entrasse na sala. Logo o ambiente silenciou e ela deu início à aula de forma calma, como de costume. Era uma manhã que não diferia em nada de qualquer outra.
001.
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Lick Me Up If You Can
Connor Niles sempre esteve sozinho. Corredores silenciosos e intervalos vazios para o almoço são seus companheiros habituais. As notas importam para ele; são sua saída.
Ashley Miller...
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