056.
A voz de Bill continuou.
“Nós só andamos juntos porque o Ashley pediu, mas, pô, não é como se a presença do Koi fizesse alguma diferença de qualquer forma.”
Koi levou as duas mãos à boca apressadamente. Se não fizesse isso, sentia que ia soltar um grito. Enquanto ele permanecia escondido ali, prendendo a respiração sem conseguir ir para frente nem para trás, outra voz se seguiu.
“É verdade, ele quase não fala nada, é como se nem estivesse ali.”
“Para falar a verdade, andar com um cara como o Koi é algo que a gente nunca teria imaginado antes.”
Cada uma das palavras seguintes parecia perfurar o peito de Koi. No entanto, os garotos, que obviamente não sabiam de nada, não paravam.
“Mas o Ashley também não é meio imprevisível? Tipo, andar com ele só por pena…”
“Bem, como ele é um cara legal, deve ter batido uma compaixão.”
“O Ashley é um cara legal, mas ele costuma deixar bem clara a linha que divide as coisas, não?”
“O Koi deve ter parecido tão miserável assim para ele querer cruzar essa linha. E, no fim das contas, é a verdade.”
Compaixão. Por pena.
A ponto de cruzar a linha.
Foi bem no momento em que a mente de Koi ficou completamente em branco que, de repente, outra voz interveio.
“O que tem o quê?”
Ashley.
Koi encolheu os ombros de susto. O clima mudou, e os garotos que estavam reunidos pareceram desorientados.
Cheio de apreensão, Koi colocou a cabeça discretamente para fora e engoliu em seco ao avistar Ashley de pé a uma curta distância deles. Com um misto de ansiedade e uma ponta de esperança, ele esperou pelas próximas palavras.
Pode ser que aqueles caras estejam enganados.
Koi pensou. Ele pode ter falado aquilo da boca para fora, ou talvez estivesse falando de um assunto totalmente diferente e eles entenderam errado.
Sim, deve ser isso. Eu mesmo costumo entender as coisas errado direto.
Todo mundo comete esse tipo de erro. Sim.
Com o coração fervoroso, Koi olhou para Ashley.
Por favor, Ashley.
Diga que não foi isso o que você quis dizer.
Em seguida, Ashley perguntou: “Falem, sobre o que vocês estão conversando agora?”
Ashley olhou para o grupo reunido com o rosto fechado enquanto perguntava. A reação hesitante dos garotos indicava que a situação era tensa.
Esses idiotas, com certeza eu ouvi eles falarem o nome do Koi.
Ao ver a expressão fechada de Ashley, Bill, que hesitava no meio do grupo, tomou coragem e deu um passo à frente.
“A gente só estava conversando sobre o motivo de você andar tão grudado com o Koi ultimamente.”
Ao ver o vinco na testa de Ashley se aprofundar ainda mais, outro garoto apressou-se em se manifestar.
“Por que tanta curiosidade? O Ashley já tinha dito antes: vamos tratar ele bem porque ele é digno de pena. Por isso estamos andando juntos, ué.”
“É verdade, por isso a gente também deixou o Koi se juntar ao grupo. Não foi?”
Esses idiotas.
Bill, achando inacreditável a rapidez com que os outros o traíram, lançou-lhes um olhar feio e voltou-se novamente para Ashley. Diante de Bill, que exibia uma expressão injustiçada, Ashley abriu a boca.
“……É verdade que eu disse isso.”
…O quê?
Koi duvidou dos próprios ouvidos. Não conseguia acreditar. Ele ainda mantinha uma ponta de esperança de que, por acaso, os amigos tivessem entendido mal.
Era verdade?
As pupilas de Koi tremeram intensamente.
Ashley.
Ele admitiu.
Que era verdade que tinha dito aquilo.
Pálido e completamente paralisado, Koi ouviu a voz de Ashley continuar a ecoar em seus ouvidos: “É verdade que eu disse para tratarmos ele bem porque ele era digno de pena, mas…”
A voz de Ashley continuou, mas Koi não conseguiu mais permanecer naquele lugar.
Já era o suficiente. Se ele descobrisse mais da verdade além daquilo, e se isso saísse da própria boca de Ashley, ele simplesmente não seria capaz de suportar.
Koi deixou o local às pressas. Em sua mente, as palavras que o grupo despejava não iam embora e continuavam a ecoar sem parar.
Por pena. Por compaixão.
As lágrimas transbordaram.
***
Com uma expressão que demonstrava não estar muito contente, Ashley acrescentou.
“Isso foi no passado, agora eu não penso mais assim.”
“Ah? Sério?”
“Que história é essa?”
Diante da reação surpresa deles, Ashley explicou novamente com mais detalhes.
“Quero dizer, o Koi é um cara legal. Por isso ficamos próximos. É divertido conversar com ele.”
Os garotos olharam uns para os outros. Como se duvidassem da sinceridade de Ashley, eles hesitaram e abriram a boca de forma sem jeito:
“Ah…… é mesmo?”
“Não sabia que você se daria bem com um cara como o Koi……”
Incomodado com a reação pouco entusiasmada deles, Ashley mudou a postura e advertiu seriamente.
“É sério. Então não fiquem mais tocando nesse assunto.”
Mesmo diante de suas últimas palavras, todos hesitaram e ninguém respondeu de imediato. Bem no momento em que a expressão de Ashley estava prestes a ficar mais severa, Bill perguntou de repente.
“É só por isso? Só porque o Koi é um cara legal?”
“Que outro motivo teria?” Ashley rebateu e logo em seguida emendou, como se estivesse se corrigindo: “Embora o meu humor sempre melhore quando vejo ele sorrindo para mim.”
Ao vê-lo levantar discretamente os cantos da boca enquanto dizia aquilo, todos ficaram surpresos. Sem perceber a reação deles, Ashley continuou a falar.
“Quando ele sorri e mexe as orelhas, o rosto dele sempre fica vermelhinho. Vocês sabiam que a cabeça do Koi só dá até aqui em mim? Como o cabelo dele é bem cheio, quando olho de cima, ele parece um canário-da-terra. E o cabelo dele sempre fica espetado em algum lugar. Hoje estava espetado deste lado, eu ia falar para ele, mas achei que ele ficaria chateado e mudei de ideia. Vocês nunca repararam nisso? Sério? Nem uma única vez?”
Enquanto falava, Ashley de repente abriu um sorriso radiante. Fazia muito tempo que eles o conheciam, mas era a primeira vez que viam um sorriso tão brilhante em seu rosto, por isso todos o observavam surpresos. No meio daquela reação de perplexidade geral, Bill foi o primeiro a abrir a boca.
“Ah, entendi. Então você gostava dele porque ele é fofo.”
De repente, Ashley franziu o cenho.
“Fofo?”
Diante daquela reação inesperada, Bill hesitou antes de continuar a falar.
“Ah…… ele não é fofo? Tipo, ele parece aqueles animaizinhos bem pequenos. Sabe, me lembra muito um hamster ou um esquilo listrado.”
“É verdade, você mesmo não tinha dito que ele parecia um canário-da-terra?” Outro garoto concordou rapidamente.
A partir dali, as palavras começaram a jorrar como se todos estivessem esperando por aquele momento.
“Para falar a verdade, se o Koi não fosse um cara legal, a gente nunca andaria junto com ele.” Outro garoto assentiu com a cabeça.
“Sim, mesmo que o Ashley tivesse pedido, se o Koi fosse um cara chato, a gente só ia tratar ele com educação básica e depois ignorar.”
“Até porque a gente só se aproximou tanto assim porque o Koi é gente boa.”
“E ele também é fofo.”
“Sim, sim.” Os rapazes grandalhões assentiam com a cabeça um após o outro e começaram a tagarelar animados: “Aquele negócio dele mexer as orelhas é sensacional, né? Eu só tinha visto isso na TV, foi a primeira vez que vi de verdade.”
“Pois é. E por ser pequenininho, ele parece ainda mais fofo.”
Eles nem sequer levavam em consideração o fato de que o tamanho deles próprios era exageradamente grande.
A menos que fosse alguém com um desenvolvimento físico precoce para a idade deles, qualquer um pareceria menor. Em seguida, outro garoto falou.
“Existem muitos caras baixos por aí, mas o Koi é diferente, não acha?”
“Não sei o que é, mas o meu irmão caçula não tem nada de fofo, enquanto o Koi é uma fofura que só. Com certeza ele tem algo de diferente.”
“Mas o seu irmão é do seu tamanho, né? É lógico que o Koi vai ser muito mais fofo.”
“Ele é fofinho.”
“É verdade, ele é muito fofo.”
Ao ver os garotos conversando em um clima muito mais leve, o humor de Ashley, ao contrário deles, foi se tornando cada vez mais desagradável.
O que esses idiotas pensam que estão falando agora?
Ashley juntou as sobrancelhas e cruzou os braços.
Claro que o Koi é fofo.
Não existe ninguém mais fofo do que ele.
Mesmo se você juntar todas as coisas fofas do mundo, não daria nem metade da fofura do Koi.
Aquilo era algo óbvio para ele, mas o motivo de o humor de Ashley ter azedado tanto era outro.
Por que vocês estão aí de bobeira tagarelando que o Koi é fofo?
“Ei, ei.” Bill, que foi o primeiro a perceber a mudança no ambiente, chamou a atenção dos outros discretamente.
Os garotos, que até então continuavam conversando alegremente sobre Koi, finalmente notaram a atmosfera sinistra no ar e calaram a boca. O clima pesado vinha logo de trás deles. Os rapazes grandalhões encolheram os ombros e olharam para trás de relance, levando um baita susto.
Ashley estava de braços cruzados, encarando-os com um olhar assustador.
O que foi que a gente fez de errado?
Ninguém sabia o motivo, mas também não dava para simplesmente ficar ali parados sem fazer nada. Eles apressaram-se em mudar de assunto: “Ei, vocês não estão com fome?”
“Sim, com certeza. Vamos no Green Bell?”
“Beleza, vamos comer logo. Estou morrendo de fome. Ashley, e você?”
Diante daquela tentativa óbvia de puxar assunto, Ashley finalmente descruzou os braços, recuperou sua expressão habitual e respondeu:
“Eu tenho um compromisso.”
“Ah, entendi. Uma hora dessas…… Você não tem namorada e mesmo assim tem compromisso, é?” Bill deu uma cotovelada firme no amigo que falou o que não devia e forçou um sorriso: “Beleza, Ashley. Então a gente se vê amanhã. Você deve estar cansado, vai lá descansar. Vamos indo também, galera. Nossa, estou faminto de verdade. Não é?”
Olhando para trás e fazendo um escândalo de propósito, os outros rapazes também perceberam a situação rapidamente, assentiram com a cabeça e acenaram para Ashley.
“Até amanhã.”
“Tchau, Ashley.”
“Até amanhã.”
Ashley também acenou de volta, virou-se e caminhou na direção de onde seu carro estava estacionado. O restante do grupo esperou até que ele desaparecesse completamente de vista antes de juntarem as cabeças e começarem a cochichar novamente.
“O que foi aquilo? O que deu nele?”
“Não sei, é a primeira vez que vejo ele ficar bravo daquele jeito.”
“Pois é, a última vez que vi ele irritado nesse nível foi quando um cara do time adversário fez uma falta feia no jogo passado, e isso porque o juiz só deu um aviso pro Ashley. Fora isso, é a primeira vez.”
“Será que o Ashley não gosta do Koi?”
Diante da indagação de um deles, outro garoto negou imediatamente: “Não, o Ashley acabou de falar que eles ficaram próximos.”
“Mas ele nem chamou o Koi para a festa.”
“Não, o Ashley também não foi à festa. Será que os dois não foram para algum lugar juntos?”
“Caramba, sério? Será?”
“Não sei direito, mas olha só, agora há pouco o Ashley claramente defendeu o Koi. Não é como se ele odiasse o cara, de jeito nenhum.”
“Então o que foi aquilo, afinal?”
No meio daquela chuva de opiniões divergentes, Bill resumiu o mistério: “Ele disse para a gente que a relação dele com o Koi melhorou e falou um monte de coisas boas sobre o Koi por conta própria, mas quando a gente resolveu concordar e elogiar também, ele ficou puto. Por que diabos ele agiu assim?”
Enquanto se encaravam com expressões sérias, um dos garotos de repente deu um passo à frente: “Eu acho que sei o que é aquilo.”
“O quê?”
“O que é?”
Diante das perguntas apressadas, ele respondeu com uma expressão solene: “O meu pai fica exatamente desse jeito com a minha mãe.”
“O quê?”
“Que porra de conversa é essa?”
Vaias e críticas surgiram de todos os lados, mas ele continuou totalmente sério.
“Estou falando sério. O meu pai fica enchendo a boca para falar o quanto a minha mãe é bonita, fofa e inteligente, mas se a gente resolve concordar e dar alguns elogios também, ele muda de bicho na hora. Ele fica perguntando como a gente ousa falar aquilo, sendo que nós somos os filhos dele.”
No final, enquanto ele desabafava indignado, outro garoto perguntou.
“Por que ele faz isso? Por acaso o seu pai não sabe que vocês são filhos dele?”
“Ei, seu filho da puta.”
056.
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Lick Me Up If You Can
Connor Niles sempre esteve sozinho. Corredores silenciosos e intervalos vazios para o almoço são seus companheiros habituais. As notas importam para ele; são sua saída.
Ashley Miller...
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