007.
Não dava mais para aguentar.
Koi cerrou os dentes, com os olhos vermelhos de pura frustração. Sua condição física já estava péssima por ter passado a noite em claro por causa de outro trabalho, o que o impedia de pensar com clareza. E, para piorar, Ashley Miller vinha testando sua paciência há dias.
Como ele pôde passar a perna em mim com aquela cara tão cínica?
Na mente de Koi, Ashley já havia se tornado um criminoso de primeira classe. Se ele não aparecesse logo para entregar a parte dele do trabalho, Koi sentia que nenhuma explicação seria capaz de acalmar sua raiva.
Na realidade, porém, ele não conseguia sequer ver o rosto de Ashley, muito menos tirar satisfação.
Além de ter o e-mail ignorado, até a mensagem que havia enviado com tanto custo foi completamente esquecida, fazendo a fúria de Koi aumentar ainda mais. No entanto, o fato de não haver absolutamente nada que pudesse fazer o deixava ainda mais indignado.
Como último recurso, antes do início das aulas, ele ficou parado em frente aos armários esperando pelo grupo que sempre andava com Ashley. Se fossem eles, com certeza saberiam o que havia acontecido.
E quando a oportunidade finalmente surgiu, o que ouviu daquele grupo foi algo totalmente inesperado.
“O Ashley está doente?” Surpreso, a voz de Koi subiu de tom sem que ele percebesse, e um dos rapazes do bando confirmou.
“É, parece que é um resfriado. Se ele descansar um pouco, deve melhorar. Mas por que a pergunta?”
“Ah…… Não, por nada. ……Obrigado.” Gaguejando, Koi se afastou dali quase correndo, sentindo uma pontada de culpa por ter ficado espumando de raiva sozinho até agora.
Será que foi porque ele tirou a jaqueta para me dar naquele dia?……
Era a única explicação lógica. Afinal, Ashley tinha parado de frequentar a escola exatamente no dia seguinte. E o fato de ser um resfriado parecia uma prova irrefutável.
“Ele está muito doente?” Koi perguntou preocupado, mas a resposta que recebeu veio acompanhada apenas de um de dar de ombros.
“Bom, uma hora ele melhora e volta. Por quê? Precisa falar com ele?”
“Ah……” Diante daquela pergunta inesperada, Koi hesitou.
Se ele revelasse o motivo pelo qual Ashley havia pegado um resfriado, a conversa logo se espalharia. O que as pessoas diriam se soubessem que Ashley Miller acabou acamado por ter sido excessivamente gentil com ele? Uma coisa era certa: ninguém iria elogiar Ashley.
E os caras que vivem me importunando na escola provavelmente iriam aumentar ainda mais.
Assustado com esse pensamento sombrio, Koi balançou a cabeça rapidamente negando.
“Não, não é nada demais. Então, valeu. Até mais, tchau.” Despejando as palavras rapidamente, ele deu meia-volta e fugiu dali.
Enquanto corria, olhou de relance para trás e viu que os rapazes continuavam caminhando e conversando entre si. Parecia que nenhum deles desconfiava da atitude suspeita de Koi.
“Ufa.” Encostando-se na parede logo após dobrar a esquina, ele respirou fundo e fechou os olhos para recuperar o fôlego.
Viu só? É por isso que uma vida sem nenhuma presença marcante, como a de um grão de poeira, é a melhor de todas.
Aqueles caras com certeza já tinham esquecido o rosto dele a essa altura. Convicto disso, Koi conseguiu se acalmar.
De qualquer forma, tudo bem. Era uma pena que Ashley estivesse resfriado, mas o trabalho escolar vinha em primeiro lugar. Como ele deveria resolver essa situação? Enquanto caminhava em direção à próxima aula, ele se perdeu em pensamentos profundos.
Pois é, tinha que ser assim.
Por um momento, achou que as coisas estavam se resolvendo fácil demais. Sua intuição de que o trabalho fluiria sem problemas acabou falhando feio.
No entanto, esse tipo de imprevisto já era algo muito familiar para ele. Embora sua vida não fosse longa, as coisas nunca tinham corrido de forma totalmente tranquila para o seu lado.
Mas caramba, isso é só um trabalho escolar.
Uma onda de irritação o invadiu ao pensar que até algo simples assim precisava dar errado. Ele sentiu vontade de soltar um belo palavrão para quem quisesse ouvir, mas como não conhecia nenhum insulto pesado de verdade, ficando ainda mais zangado.
Por que eu não sei nem xingar direito?
Após alguns minutos de autorrepreensão, ele finalmente recuperou a compostura.
Não era hora de ficar deprimido. Precisava achar uma solução o quanto antes. E o único caminho era…
Sem prolongar o dilema, ele tomou uma decisão. Era uma pena que o outro estivesse doente, mas precisaria pedir para ele fazer o que dava. Por mais que pensasse a respeito, terminar aquele trabalho sozinho no tempo que restava era impossível.
Koi ainda tinha uma montanha de tarefas de outras matérias acumuladas.
Assim que decidiu, agiu rápido. Ele pegou o celular e procurou pelo número de Ashley Miller.
Entre os poucos contatos salvos em seu aparelho — que incluíam até o telefone da loja onde fazia bico e não chegavam a dez no total —, não foi difícil encontrá-lo. Além disso, graças à ordem alfabética, o nome de Ashley estava logo no início da lista.
Koi respirou fundo uma vez e, antes que sua coragem diminuísse, apertou o botão de chamar. Enquanto o som da chamada ecoava, ele teve que respirar fundo várias vezes para tentar acalmar o coração, que parecia prestes a explodir no peito.
E então, finalmente, a longa espera terminou e uma voz ecoou do outro lado da linha.
“……Alô.”
Era Ashley Miller.
No instante em que ouviu aquela voz extremamente abatida, o coração de Koi, que batia feito louco, pareceu parar por um segundo. Logo em seguida, porém, ele começou a disparar no dobro da velocidade, e Koi cobriu a boca com uma das mãos, sentindo medo de que o som de seus batimentos escapasse por seus lábios.
Após uma breve pausa, a voz de Ashley ecoou novamente: “……Alô? Quem é?”
A voz carregada de cansaço deixava claro para qualquer um que ele estava realmente doente. Sentindo uma mistura de culpa com a óbvia preocupação pelo trabalho, Koi tomou coragem para falar:
“Ah, oi, olá. Sou o Connor Niles, da aula de espanhol. Nós somos do mesmo grupo para o trabalho. Nós nos reunimos no Greenbell da última vez, lembra?”
Ele gaguejou ao despejar a explicação detalhada, mas Ashley permaneceu em silêncio do outro lado da linha por alguns instantes.
“Ah……”
Sem saber se aquele som indicava que ele havia entendido ou se era apenas um suspiro, Koi afastou o celular do ouvido por um segundo antes de colá-lo de volta para continuar: “Olha, eu te mandei um e-mail e também uma mensagem, mas não tive resposta. Fiquei sabendo que você estava doente, você está bem?”
“……Não deveria ser a primeira coisa a se perguntar se eu estou bem?” Com a voz completamente rouca, Ashley ironizou.
Não que ele estivesse chateado achando que Koi não se importava com a sua saúde. Era apenas a irritação típica de quem está doente. Afinal, eles nem eram tão próximos assim a ponto de se preocuparem genuinamente um com o outro.
Além disso, sendo o garoto mais popular da escola, ele já devia ter recebido uma enxurrada de mensagens de melhoras de garotas bonitas, então Koi só precisava dizer o que tinha para dizer.
Pensando nisso, ele limpou a garganta com uma tosse falsa e continuou:
“Desculpa por ter feito tantas perguntas pessoais da última vez. Não vou mais fazer isso, então…… será que podemos terminar o trabalho juntos?”
Enquanto esperava pela resposta, Koi já se preparava para o que diria a seguir, mas Ashley franziu o cenho e, com um tom de total desinteresse, rebateu:
“Trabalho?”
Foi uma reação muito mais desanimadora do que Koi esperava. Ele não achava que Ashley estaria tão focado no projeto quanto ele, mas não imaginava que ele seria tão indiferente a ponto de deixá-lo completamente sem reação.
“É, nós conversamos sobre isso da última vez, não lembra? Ficou combinado que iríamos pesquisar sobre a cultura gastronômica da Argentina. Eu fiquei com a parte do café e você com a dos sanduíches. Bem, você fez a pesquisa……?”
Até para os seus próprios ouvidos, o tom de Koi soou totalmente desprovido de confiança. Sua voz desanimada carregava um nítido sentimento de inferioridade, mas ele sabia muito bem que não era Ashley Miller, e as coisas não mudariam só porque ele desejava.
Enquanto aguardava a resposta tentando ler o clima, Ashley soltou um suspiro entediado e disse: “Bom, não sei não.”
“O quê?”
Koi se assustou, mas Ashley já parecia ter perdido totalmente o interesse pelo assunto. Com uma voz fraca e arrastada, ele murmurou: “Esse trabalho nem é obrigatório. Por que a gente não faz de qualquer jeito?”
“Não, não dá. Espera aí, Ashley!” Sentindo que ele iria desligar a qualquer momento, Koi tentou segurá-lo às pressas.
O suspiro profundo que veio do outro lado da linha o desencorajou por um segundo, mas ele precisava resistir. Juntando toda a coragem que lhe restava, continuou com a voz trêmula: “Então eu faço a pesquisa de dados. Você só precisa ficar responsável por alguns capítulos depois. Olha, a introdução, o tema e todo o resto eu organizo sozinho, o que acha?”
Antes que Ashley pudesse dar outra resposta desanimadora, Koi se adiantou e disparou: “Eu preciso mesmo dessa nota.”
Seguiram-se alguns segundos de silêncio absoluto. Como se estivesse rezando, Koi fechou os olhos com força, até que Ashley finalmente falou:
“Isso não tem nada a ver comigo.”
“Espe……” Ele tentou chamá-lo às pressas, mas a ligação já havia sido encerrada.
Koi ficou olhando boquiaberto para a tela apagada do celular. Terminar a conversa daquele jeito, de forma tão unilateral? Sério mesmo?
Era inacreditável, mas era a realidade. A ligação tinha sido cortada e, por mais que ele tentasse discar de volta, o outro simplesmente não atendia mais.
Tomado pelo desespero, Koi teve que aceitar o fato: Ashley não tinha a menor intenção de fazer aquele trabalho.
007.
Fonts
Text size
Background
Lick Me Up If You Can
Connor Niles sempre esteve sozinho. Corredores silenciosos e intervalos vazios para o almoço são seus companheiros habituais. As notas importam para ele; são sua saída.
Ashley Miller...
- Side Stories There is no chapters
- Volume 2 There is no chapters
-
Volume 1
-