067.
“— A bicicleta sumiu.”
Pela manhã, enquanto se preparava para ir à escola, Ashley se assustou com a ligação repentina de Koi, mas logo abriu um sorriso.
“Nossa, que problemão. O que aconteceu?”
Embora já estivesse pensando em uma solução, ele perguntou calmamente. Koi hesitou do outro lado da linha, murmurando e sem conseguir falar direito.
“— É que, bem… acho que a deixei na sua casa…”
“Ah, caramba…” Ashley suspirou alto de propósito.
Ele conseguia imaginar perfeitamente a cena de Koi sem saber o que fazer de tanta vergonha. Diante da reação dele, que estava suando frio sem coragem de pedir uma carona, Ashley parou de provocá-lo e sugeriu com uma voz dócil.
“Tudo bem, Koi. Eu vou até aí.”
“— Sério? Tudo bem mesmo?” Koi exclamou aliviado, mas logo em seguida perguntou com tom preocupado: “— E se você se atrasar ou algo assim…?”
“Ainda dá tempo, não se preocupe.” Ashley cuspiu a espuma de pasta de dente que enchia sua boca e continuou a falar. “A gente se encontra naquele lugar onde sempre te deixo, pode ser? Vai levar uns 30 minutos a partir de agora.”
“— U-hum. Pode ser lá.” Koi respondeu apressadamente e acrescentou em voz baixa: “— Obrigado, Ash…”
“De nada, Koi. Então até daqui a pouco.” Após desligar o telefone com entusiasmo, ele enxaguou a boca rapidamente e saiu do banheiro.
O dia hoje parecia ótimo. O sol brilhava mais do que o normal, o vento estava suave e o céu incrivelmente azul.
Além disso, Koi tinha ligado logo cedo pedindo para buscá-lo.
Ele já planejava dizer a Koi em breve que passaria para buscá-lo pelas manhãs. Sendo o namorado de alguém que não tem carro, isso era o mínimo que se podia esperar.
Na verdade, mesmo que Koi tivesse um carro, ele ainda faria questão de buscá-lo.
Ver-se apenas na escola pela manhã não era o suficiente. Ele queria ver o rosto de Koi nem que fossem 5 minutos mais cedo. Ashley vestiu rapidamente a primeira camiseta que pegou, colocou o jeans e os tênis de sempre.
Ao colocar a mochila nas costas e descer as escadas, seus passos pareciam incrivelmente leves.
“A partir de hoje, vou começar a buscá-lo todos os dias.”
Se eles estavam namorando, era natural ir ao encontro dele.
Claro, Koi não admitia isso abertamente, mas Ashley sabia que o garoto gostava dele, então, para ele, os dois já estavam praticamente namorando.
Assobiando sem perceber, ele saiu e caminhou olhando ao redor à procura da bicicleta. Ela estava exatamente no local indicado por Koi. Só que não era a bicicleta velha que Ashley conhecia.
“…Hã?” Ashley ficou confuso com a situação inesperada.
A bicicleta apoiada na parede de um lado da mansão era novinha em folha, nem se comparando à que Koi costumava usar. Ele chegou a duvidar se era realmente daquela que Koi estava falando, mas não havia outra bicicleta por ali.
Ao se aproximar para olhar melhor, ele franziu a testa, desconfiado. Aquela bicicleta lhe parecia familiar por algum motivo.
Onde foi que eu já vi isso…?
Enquanto vasculhava a memória, ele notou um adesivo de gato colado no guidão. Era o personagem de gato que a Ariel gostava. Só então a memória voltou completamente. Aquela era a bicicleta que a Ariel usava antes de comprar um carro.
Por que o Koi está com isso?
Mesmo sabendo que não havia outra explicação além da óbvia, Ashley pegou o celular e ligou para Koi. Após alguns toques, a voz de Koi atendeu, e Ashley perguntou mantendo o tom casual de sempre.
“Koi, acho que a bicicleta mudou, estou certo?”
“Ah, sim.” Do outro lado, Koi respondeu de forma inocente. “Está certo. É a que tem o adesivo de gato no guidão.”
“Entendi.” Ashley falou com carinho, mas sua expressão facial não continha sorriso algum. “Chego aí logo, Koi.”
“Sim, até logo.” Koi desligou o telefone sem desconfiar de nada.
Ashley olhou para o aparelho por um instante, guardou-o e caminhou em direção ao carro estacionado logo à frente, empurrando a bicicleta.
Desde o momento em que colocou a bicicleta no porta-malas até se sentar no banco do motorista e dar a partida, não houve sequer um vestígio de sorriso em seu rosto.
E, enquanto dirigia ao encontro de Koi, todo tipo de paranoia e ciúme corroía o seu interior.
***
“Oi, Koi.” Sentado no banco do motorista, Ashley foi o primeiro a falar.
Koi, que estava de pé na beira da estrada onde haviam se despedido no dia anterior, alegrou-se ao vê-lo e retribuiu a saudação.
“Oi, Ash.”
Ah, mas logo em seguida Koi hesitou. Ele pensou que estava sendo muito sem-vergonha por agir assim logo após o que tinha acontecido na noite anterior.
No entanto, não houve tempo para se martirizar por muito tempo. Se demorassem, poderiam se atrasar, e o trânsito na estrada estava aumentando gradativamente, tornando impossível manter o carro parado ali para sempre.
Apressando-se, Koi abriu a porta do passageiro e acomodou-se no banco confortável do carro, bem diferente de sua bicicleta habitual, expressando sua gratidão.
“Obrigado por vir me buscar, Ash. Eu esqueci completamente que tinha deixado a bicicleta para trás.”
Ashley sorriu olhando fixamente para a frente.
“Eu também tinha esquecido completamente ontem.”
Na verdade, era natural que ambos estivessem distraídos. Fazia pouco tempo que Ashley havia despertado e eles ainda tinham tido uma pequena discussão.
Eu gosto de você.
Ao se lembrar das palavras de Ashley, o rosto de Koi ferveu. Ele baixou os olhos rapidamente, tentando disfarçar enquanto procurava algo para dizer, mas, felizmente, Ashley puxou assunto primeiro.
“Aconteceu algo ontem?”
“Ah, não.” Koi gaguejou sem querer, mas logo acrescentou apressadamente: “Não aconteceu nada, foi tudo bem.”
Teria sido melhor não dizer essa última parte? Enquanto ele se preocupava por ter falado demais por puro nervosismo, Ashley retomou a palavra.
“De quem é aquela bicicleta? Eu nunca tinha visto antes.”
“Ah, aquela?” Koi se alegrou por mudarem para um assunto mais tranquilo e respondeu sem hesitar: “A Ariel me deu. A roda da minha quebrou e ela ficou inutilizável.”
“A roda?” Foi possível ver Ashley franzindo a testa. “E ela ainda estava inteira? Aquela roda?”
“Se estava inteira eu não sei, mas eu andava nela.”
Embora fosse uma bicicleta velha, Koi se sentiu um pouco chateado com o tom de deboche em relação ao veículo que tinha sido responsável por todo o seu transporte, incluindo a ida e vinda da escola.
“Ela deu o melhor de si.”
“Sim, sim.” Ashley acenou com a cabeça, mas, por mais que se olhasse, não parecia nem um pouco sincero.
Enquanto Koi sentia uma culpa secreta em relação à própria bicicleta, Ashley girou o volante, fazendo uma curva, e perguntou.
“Mas como a Ariel acabou te dando essa bicicleta?”
“Ah? Bem…” Koi respondeu gaguejando. “Eu estava andando de bicicleta quando caí e a roda quebrou. Enquanto eu a puxava de volta para casa, a Ariel, que tinha saído para correr, me viu… Ela disse que se eu continuasse andando nela e sofresse um acidente, o time de cheerleading estaria em sérios apuros e acabou me dando essa.”
“Entendi.” A resposta de Ashley foi simples se comparada à longa explicação de Koi. O mal-entendido agora estava desfeito.
Durante os quase 20 minutos que levou da mansão até o lugar onde Koi o esperava, todas as paranoias que preenchiam o peito de Ashley se transformaram em bobagens sem fundamento e desapareceram completamente, mas o ciúme não diminuiu na mesma proporção.
“Eu deveria ter comprado uma para você.”
“Hein? O que disse?”
Koi, que não conseguiu ouvir direito o murmúrio baixo, perguntou. Ashley abriu um sorriso radiante para ele e respondeu: “Não, nada… Não é nada.”
“Ah…” Mesmo confuso, Koi não perguntou mais nada e voltou a olhar para a frente.
Assim que o sinal fechou e o carro parou, Ashley tamborilou os dedos lentamente no volante, perdido em pensamentos.
Não posso me apressar demais, ou o Koi vai ficar assustado.
Deveria apenas tê-lo trancado em algum lugar. Será que agora é tarde demais?
Decidimos não ter esse tipo de pensamento. Recompose-se, Ashley Miller.
Mas eu posso pelo menos pensar, não posso? Você também teve tantas fantasias impuras com o Koi ontem à noite e agora vem se fazer de santo?
O Koi é tão fofo, o que eu posso fazer?
Exatamente. Por isso, vamos trancá-lo. Assim você poderá fazer todas as coisas que imaginou.
Será? Então faço isso?
“Espera aí, por que vocês dois estão entrando em um acordo agora?”
“Ah? O quê?” Koi virou a cabeça assustado com a voz que Ashley soltou de repente.
Ashley rapidamente disfarçou com um sorriso: “Não, não é nada.”
Assim que o sinal mudou, ele deu a partida no carro e acalmou a mente outra vez. Olhando para Ashley pelo canto do olho, Koi sentiu uma ponta de pena dele, no fundo do coração.
Os feromônios devem estar deixando as coisas bem difíceis para ele…
Por outro lado, Koi se sentia patético por ter pedido para ser buscado. Como ele pôde esquecer a bicicleta? Por mais distraído que estivesse, aquilo era demais!
Soltando um leve suspiro, Koi segurou firme a alça da mochila e prometeu a si mesmo: A partir de amanhã, não posso esquecer de jeito nenhum de pegar a bicicleta. É uma falta de educação esquecê-la, até mesmo com a Ariel, que fez questão de me dar.
“Koi.”
“Ah, sim.”
Chamado de repente, Koi recobrou os sentidos e respondeu apressadamente, enquanto Ashley dizia.
“A partir de amanhã, eu venho te buscar.”
“O quê? Não, não precisa!” Koi recusou rapidamente. “Não há necessidade de você fazer todo esse caminho de volta. Está tudo bem, eu posso ir de bicicleta.”
“Mas para mim não está tudo bem.” Ashley interrompeu a fala dele. Diante de um Koi surpreso, ele acrescentou com naturalidade: “É óbvio que eu quero ver a pessoa de quem gosto nem que seja um minuto mais cedo.”
Logo após dizer isso, Ashley abriu um sorriso na direção de Koi.
O rosto de Koi, que piscava os olhos sem reação, foi ficando vermelho aos poucos. Ele precisava dizer algo, mas nenhuma palavra vinha à mente.
Até ontem eu estava dizendo com toda a certeza que não gostava dele, então agir assim agora não faz sentido. Ele passou dos limites hoje!
Mesmo que desta vez não tenha tido jeito, isso não pode continuar.
Fale logo, recuse firmemente! Rápido, seu lerdo!
“Bem, sabe…”
“Chegamos.” Bem no momento em que ele ia começar a falar, Ashley o interrompeu.
Como Ashley havia dito, a escola estava logo ali. Sem dar tempo para Koi falar mais nada, o carro fez uma curva acentuada e estacionou na avenida em frente à escola.
067.
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Lick Me Up If You Can
Connor Niles sempre esteve sozinho. Corredores silenciosos e intervalos vazios para o almoço são seus companheiros habituais. As notas importam para ele; são sua saída.
Ashley Miller...
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