053.
O tempo passou como em um sonho.
Koi entrou e saiu do provador várias vezes, trocando de roupa a cada instante. Sempre que Koi saía, Ashley arrumava o caimento de suas roupas, ajeitando o colarinho da camisa amassada ou a linha da cintura da calça que estava torta, enquanto acariciava seu pescoço e sua cintura.
No fim das contas, ele até chegou a tentar entrar no provador dizendo que o ajudaria a se trocar.
No entanto, Koi recusou firmemente essa última investida até o fim.
O reflexo de seu próprio corpo no espelho do provador era realmente sem graça. Ele jamais queria mostrar sua nudez a alguém.
Mesmo que essa pessoa fosse Ashley.
Não, justamente por ser Ashley, ele queria recusar ainda mais.
Se Ashley, que tinha um corpo magnífico aos olhos de qualquer um, visse o corpo sem graça dele, o quão patético o acharia? Ele imaginava que Ashley já devia saber, mas não queria confirmar isso pessoalmente de forma alguma.
Depois de terminarem as compras daquela maneira, Ashley comprou para Koi um terno para a festa de Homecoming, uma gravata, um relógio e até várias mudas de roupas para usar no dia a dia.
Koi achou que aquilo tudo era um tremendo exagero, mas dessa vez acabou sendo levado mais uma vez pela lábia de Ashley e, quando deu por si, já estava dentro do carro a caminho de um restaurante.
O lugar para onde Ashley o levou após as compras era um restaurante assustadoramente luxuoso.
Mais tarde, ao pesquisar na internet, Koi descobriu que era um lugar extremamente famoso e popular, cujas reservas para os próximos três meses já ficavam completamente esgotadas com antecedência.
Mesmo ali, a situação continuou a mesma.
O cardápio estava escrito em inglês, mas continha nomes de pratos e ingredientes que ele não fazia a menor ideia do que eram. Enquanto ele apenas encarava fixamente o menu, Ashley perguntou com consideração.
“Posso fazer o pedido?” Naturalmente, Koi acenou com a cabeça de bom grado.
E ele descobriu que existem várias outras maneiras de se saborear uma comida além do sabor em si.
Por algum motivo, ele sempre teve um paladar pouco sensível e, por isso, costumava pensar que qualquer comida era tudo a mesma coisa, mas aquilo era um enorme equívoco. Isso só acontecia porque Koi só tinha comido, até então, alimentos que eram de fato sempre a mesma coisa.
Pratos e ingredientes que ele só via por fotos, ou que nem sabia que existiam no mundo, deixaram Koi completamente maravilhado. Entre eles, o que mais ficou marcado em sua memória foram as sobremesas.
Na verdade, até aquele momento, ele pensava que comer não seria muito diferente de mastigar a sola de um sapato ou um bife duro.
Mas os macarons eram diferentes. A textura ao mastigar era diferente, a sensação de derreter na boca era diferente e, acima de tudo, dava para sentir o sabor doce.
Aquele era um sabor completamente diferente do que ele costumava sentir no cotidiano. Pela primeira vez, Koi compreendeu o real significado da palavra ‘gostoso’.
E não foi só isso.
O chocolate e o cheesecake também estavam deliciosos. Koi ficou completamente encantado com a suavidade do bolo gelado que derretia suavemente em sua boca.
Ele não conseguiu comer todo o menu degustação que Ashley havia pedido, mas comeu todo o sorvete e o bolo que vieram de sobremesa.
Ao ver aquela cena, Ashley chamou o funcionário e perguntou se poderiam dar mais uma sobremesa para Koi. Graças a isso, Koi esvaziou dois pratos de sobremesa acompanhados de um café quente.
“Daqui para frente, vou pedir para darem uma atenção especial às sobremesas.” Ashley disse sorrindo ao ver Koi feliz diante dos pratos vazios.
Koi raramente tinha a experiência de comer esse tipo de comida doce na casa de Ashley. Isso acontecia porque Ashley quase não comia doces, mas Koi recusou apressadamente, pensando que não deveria fazê-lo passar por esse tipo de incômodo por sua causa.
“Não, eu já comi o suficiente hoje. Está tudo bem.”
“Para mim também está tudo bem.” Ashley disse. “Porque é algo que eu quero fazer por você.”
Do outro lado da mesa, Koi ficou um tempo observando o rosto sorridente de Ashley, completamente hipnotizado. Mais uma vez seu coração acelerou e as pontas de seus dedos formigaram.
Apesar de haver tantas pessoas naquele restaurante espaçoso, apenas Ashley entrava em seu campo de visão. Parecia que todos os seus sentidos, tanto os olhos quanto os ouvidos, estavam abertos unicamente para ele.
O que seria aquele sentimento afinal?
Koi continuou com aquela dúvida na cabeça, mas não conseguiu encontrar uma resposta mesmo quando chegaram perto de sua casa.
“Muito obrigado por hoje, Ash.” Koi disse parado na rua, com o rosto intensamente corado. Ashley franziu a testa enquanto tirava do porta-malas as sacolas de compras que continham as várias mudas de roupas que havia comprado.
“Tem certeza de que não quer que eu te acompanhe até a porta de casa?”
“Sim, está tudo bem. É logo ali. É perto.” Koi acrescentou apressadamente. “A rua é muito estreita para o carro entrar. É melhor nos despedirmos aqui.”
Nesse caso, eles poderiam caminhar juntos até lá, mas Koi jamais diria algo assim. Ao vê-lo recusar terminantemente, Ashley não insistiu mais.
Eu não sou o namorado do Koi.
Ashley sussurrou para si mesmo. Por enquanto, ele era apenas um amigo. Apenas isso.
Por isso, por hora, ele resolveu fazer a vontade de Koi.
“Tudo bem.”
Ufa.
Soltando um suspiro de alívio sem perceber, Koi segurou as sacolas pesadas com as duas mãos e olhou para ele. Como já estava perto da meia-noite, os arredores estavam tomados por uma escuridão profunda.
“Obrigado por me trazer, Ash.”
Koi olhou para cima, encarando Ashley, e expressou seus agradecimentos. Ashley, parado bem à sua frente, ficou em silêncio por um breve instante antes de abrir a boca.
“Koi.”
“Sim?” Assim que ele respondeu prontamente, Ashley sorriu.
“Você se divertiu hoje?”
“Sim, claro. Bastante.” Para Koi, que acenou com a cabeça sem hesitar, Ashley estendeu a mão.
Ah.
A mão grande dele tocou sua bochecha. Embora o ar da noite estivesse frio, a pele onde a mão de Ashley tocava ficou tão quente quanto se estivesse pegando fogo. Sem perceber, Koi prendeu a respiração, e Ashley perguntou.
“Você sabe o que isso significa?”
“……O quê?” Diante da pergunta inesperada, Koi piscou os olhos.
Ashley continuou a falar com aquela mesma voz terna.
“Koi, pense bem. O que eu fiz por você hoje e porque fiz tudo isso.”
“…….”
“Se você refletir com calma, vai acabar descobrindo. Porque você já sabe a resposta.”
A mão que acariciava suavemente sua pele, como se fizesse um leve traço, envolveu sua bochecha com ternura. Koi soltou o ar trêmulo com dificuldade e sussurrou de volta: “……Eu?”
“Isso.” Ashley acenou com a cabeça. “A resposta já está aí dentro de você.”
Segurando o forte impulso de beijá-lo, Ashley apenas sorriu para ele. Em seguida, despediu-se de Koi, que continuava a olhá-lo com uma expressão confusa, virou-se e foi embora.
Sentado no banco do motorista, Ashley deu a partida e deu uma olhada pelo retrovisor; a imagem de Koi ainda parado ali, observando a direção por onde ele passava, entrou em seu campo de visão. Ashley ignorou o desejo de descer do carro novamente, abraçá-lo e cobri-lo de beijos e, em vez disso, apressou-se em deixar o local.
Vou me confessar.
Ele pensou enquanto dirigia pela rua deserta, correndo acima do limite de velocidade necessário.
E determinou que o momento ideal seria no dia da festa de Homecoming. Ele iria buscar Koi para irem juntos à festa. Eles dançariam e beberiam aquela ponche deliciosa também. Quando o clima estivesse favorável, ele levaria Koi até a alameda arborizada atrás da escola. E falaria lá.
Que a pessoa de quem eu gosto é justamente você, Koi.
Até então, seus relacionamentos com outras namoradas sempre começavam de forma natural e terminavam de forma natural. Nunca havia existido aquilo de pedir para namorar primeiro e embora dissessem que gostavam um do outro, ele jamais havia experimentado essa sensação de o peito arder de saudade e o coração disparar desse jeito.
Mas desta vez era diferente. Ele iria confessar seus sentimentos a Koi e pretendia implorar para que ele se tornasse seu namorado.
E como reagiria Koi?
O rosto de Koi surgiu em sua mente, olhando para cima com as bochechas completamente vermelhas. Ele certamente ficaria sem saber o que fazer, com as orelhas totalmente coradas.
E diria para ele: “Eu também gosto de você.”
Só de imaginar, parecia que seu coração iria explodir. Ashley acabou soltando um gemido baixo, incapaz de conter a emoção.
Koi, por favor, perceba logo.
O rosto de Koi olhando para ele com uma expressão confusa ressurgiu em sua memória. Ashley rezou fervorosamente acompanhado de um suspiro caloroso.
Deixe-me te abraçar e te beijar logo.
***
Ele correu para casa, felizmente seu pai ainda não havia chegado.
Koi entrou cuidadosamente no motorhome com as luzes apagadas e acendeu a lâmpada interna. Assim que o interior escuro se revelou, ele procurou primeiro um lugar para esconder as sacolas que havia trazido. O espaço no motorhome era apertado e não havia muitos lugares adequados para guardar objetos.
Sem outra escolha, ele puxou uma caixa de roupas velha e rasgada que ficava embaixo da estrutura baixa da cama e, no lugar dela, empurrou as sacolas de compras.
Ao colocar a caixa de roupas de volta na frente para disfarçar, ela acabou ficando visivelmente estufada para fora, mas não havia problema. Seu pai estava sempre bêbado e nunca reparava direito no interior da casa, então jamais perceberia se a bagagem tivesse diminuído ou aumentado.
Depois de terminar a arrumação básica, Koi soltou um suspiro e lavou-se rapidamente. Ele dobrou com cuidado as roupas que havia usado, guardando-as bem escondidas junto com as outras peças, vestiu a camisa velha e a calça de moletom furada que costumava usar para dormir e deitou-se na cama.
Assim que o silêncio se estabeleceu, cada detalhe do que ele havia vivenciado hoje começou a ressurgir em sua mente. Por mais que pensasse a respeito, não conseguia acreditar que aquilo era realidade.
Talvez estivesse sonhando até poucos instantes atrás.
No entanto, bastava virar um pouco a cabeça para que a caixa de roupas, projetada para fora da cama, entrasse em seu campo de visão, servindo de prova de que tudo o que aconteceu hoje era puramente real.
Koi soltou um longo suspiro para acalmar o coração transbordante e virou-se de lado. Seu peito começou a palpitar e a acelerar novamente. Como podia existir um dia como aquele?
Parecia que a sensação fria e doce da sobremesa ainda permanecia em sua boca. Ele fechou os olhos para reviver as lembranças e logo uma dúvida natural surgiu em sua mente.
Por que o Ash agiu assim comigo hoje?
053.
Fonts
Text size
Background
Lick Me Up If You Can
Connor Niles sempre esteve sozinho. Corredores silenciosos e intervalos vazios para o almoço são seus companheiros habituais. As notas importam para ele; são sua saída.
Ashley Miller...
- Side Stories There is no chapters
- Volume 2 There is no chapters
-
Volume 1
-