013.
“Você tem se comportado de maneira estranha ultimamente.”
Após o término das aulas e do treino, Ashley e o grupo do time de hóquei no gelo se reuniram no Green Bell com suas respectivas namoradas.
Depois de terminarem os exercícios e devorarem a comida com o apetite voraz típico de garotos que não passam de animais, Ariel abriu a boca assim que eles recuperaram um pouco da razão.
Ashley olhou para ela, intrigado com o que sua namorada disse com uma expressão fechada.
“Eu?”
“Sim.”
Os outros rapazes que estavam reunidos ali também olharam para eles com interesse. Ariel continuou a falar.
“Você está andando por aí com aquele perdedor esquisito. Antes, você nem olhava para garotos assim.”
“Quem?”
“Você não está falando do Koi?” Disse um dos rapazes que observava Ashley franzir a testa.
Só então Ashley assentiu com a cabeça, como se tivesse entendido, soltando um “ah“. Ariel cruzou os braços abaixo dos seios com um biquinho com os lábios.
“Você nem tratava garotos assim como a gente antes. Por que isso do nada? Será que ele pegou em algum ponto fraco seu?”
“Meu?” Ashley riu alto.
Os rapazes que faziam parte do time principal de hóquei no gelo reunidos ali também caíram na gargalhada. Ariel corou as bochechas, mas virou a cabeça fingindo não se importar.
“Só estou dizendo que é o que parece.”
“Mas é verdade, nós também ficamos curiosos.” Bill, que fazia parte do grupo que andava junto, continuou o assunto. “Você deixa aquele cara se juntar a nós todo almoço. Por que está fazendo isso? Não é como se você estivesse sendo chantageado, ele realmente deve ter pegado em algum ponto fraco, não?”
Bill, que acrescentou as últimas palavras de propósito, sorriu de canto para Ariel. Enquanto Ariel franziu as sobrancelhas, Ashley, que havia engolido um pedaço grande de hambúrguer, abriu a boca.
“Não é nada demais. É só porque tenho pena dele.”
“Pena?” Ariel perguntou como se achasse aquilo absurdo.
Então, em vez de Ashley, outro rapaz assentiu com a cabeça entendendo a situação.
“Pensando bem, acho que aquele cara era bastante atormentado por aqueles moleques valentões.”
Diante dessas palavras, outro rapaz concordou.
“É verdade, acho que até na primeira vez que o vimos, ele estava apanhando, não estava?”
“Não estava apanhando. Mas foi por pouco.”
“Dá no mesmo.”
“É diferente! Totalmente diferente!”
Ashley, que deixou a conversa fluir por um momento com piadas inúteis, abriu a boca.
“Enfim, por isso, vocês também tratem ele bem de qualquer jeito. Ele é um cara digno de pena.”
Todos se olharam e assentiram com a cabeça, concordando.
“Basta aceitar os cumprimentos dele, não é?” Diante do que Bill disse, Ashley inclinou a cabeça para o lado e levou uma batata frita à boca.
Ariel, que até então estava sentada com uma expressão desagradável, disse: “Não fique andando com um cara desses à toa. Até você vai parecer um otário.”
Ela levou a Coca-Cola à boca e acrescentou de forma esnobe.
“Nós somos diferentes de pessoas assim.”
Ashley abriu a boca enquanto olhava vagamente para o gelo flutuando no copo de Coca-Cola dela.
“Diferentes, claro.”
Até porque aquele cara é o único que não coloca gelo no refrigerante.
Ele deu um sorriso contido ao pensar nisso consigo mesmo e logo mudou de pensamento.
“Ah, pensando bem, aquele cara faz as mesmas aulas que a gente.”
Quando Bill falou como se tivesse acabado de se lembrar, outro rapaz assentiu com a cabeça.
“Ele faz algumas comigo também. Elas coincidem bastante com as de Ashley, né? Parece que ele faz todas as aulas avançadas (AP).”
A namorada de um dos rapazes que soltou um breve assobio disse com um sorriso de canto: “Se não tem nada para fazer, o jeito é estudar. Ele também não tem amigos, né?”
“Quem iria brincar com um esquisito daqueles?” Ariel deu uma alfinetada e todos riram.
Ashley também riu junto, fingindo não notar a pequena culpa que surgia em um canto do seu peito.
Por que será que o rosto sorridente daquele garoto me veio à mente logo agora?
Ele colocou de propósito o gelo do copo na boca e o mastigou com força, fazendo um barulho estalado.
Em seguida, esvaziou a mente e começou a jogar conversa fora com os outros rapazes.
***
“Oi, Koi.”
“Oi, Bill.” Um dos titulares do time de hóquei no gelo, que cruzou com ele em frente aos armários, o cumprimentou primeiro.
Quando Koi retribuiu o cumprimento contente, o rapaz deu um sorriso de canto e logo se direcionou ao seu próprio armário.
Depois daquele dia, os rapazes que andavam com Ashley frequentemente fingiam notar a presença de Koi. Mesmo que isso não passasse de um cumprimento simples, para Koi era uma mudança gigantesca.
Como até então não havia ninguém na escola que o cumprimentasse primeiro, ninguém além dele mesmo sabia o quão reconfortante e alegre era ouvir apenas uma única palavra de saudação.
A mudança não parou por aí.
A atitude dos outros alunos em relação a Koi também mudou.
Aqueles que o tratavam como se ele fosse invisível ou que cochichavam pelas suas costas desapareceram, sendo substituídos por cumprimentos simples ou, indo um passo além, por conversas leves.
Quando um colega que fazia a mesma aula comentou casualmente sobre o programa de TV que tinha assistido no dia anterior, Koi ficou tão surpreso que quase desmaiou.
Como Koi não conseguiu responder direito, o colega logo se retirou, mas aquilo já era um progresso enorme. Naquele dia, Koi passou o tempo todo imerso em pesquisar no celular sobre o programa que o colega havia mencionado, checando o conteúdo e assistindo aos vídeos gratuitos que estavam no YouTube.
O melhor de tudo era o fato de que as perseguições da gangue de Nelson haviam sumido. Passar o dia sem ser ridicularizado ou agredido, livre até mesmo desse tipo de medo, era algo extremamente pacífico e feliz.
Koi estava aproveitando aquela rotina pela primeira vez, passando dias imensamente satisfatórios. Tudo isso era graças a Ashley Miller.
Como podia existir alguém assim?
Koi pensou, sentindo o coração palpitar novamente. Ele é bonito, tem um corpo bom, é alto, joga bem e ainda por cima é inteligente e tem um bom caráter! Será que existia outro ser humano tão perfeito assim no mundo?
Se existisse uma religião chamada Ashley Miller, Koi certamente seria o primeiro a se converter.
A esse ponto, o loiro havia ocupado um espaço enorme em sua vida. Embora para Ashley pudesse não ser nada demais, ele transformou a vida de Koi, que antes era puro desespero, em uma jornada feliz e satisfatória.
Toda a gratidão de uma vida inteira não seria suficiente para retribuir a Ashley. Koi pensou que, se um dia pudesse ser útil de alguma forma para ele, faria qualquer coisa. Embora parecesse impossível que alguém como Ashley Miller precisasse de alguém como Connor Niles.
Assim que o tempo passou, o trimestre chegou ao fim e eles entraram em férias.
***
♫♫♫♬♬♩♫…
Amanheceu cedo e Ashley acordou com o som do toque do celular.
“Ugh…”
Soltando um gemido doloroso, ele esticou seus longos braços com o rosto ainda enterrado no travesseiro, tateando a mesa de cabeceira em busca do celular. O aparelho continuava a tocar sem parar.
“– Ash?”
Ao ouvir a voz ecoando assim que atendeu a ligação, Ashley não conseguiu reagir de imediato.
“…Ariel?”
Quando ele chamou com a voz ainda rouca de sono, Ariel respondeu do outro lado da linha.
“– Ash, o que está fazendo? Ainda está dormindo?”
“……Que horas são?”
Forçando as pálpebras pesadas a se abrirem para checar o relógio do celular, ele por pouco não soltou um palavrão.
“Então, o que aconteceu?”
Ariel fez uma pausa antes de responder à voz que soou um tanto ríspida.
“– É que acho que não vamos conseguir nos ver hoje. Meu pai quer que todos nós jantemos juntos.”
Ashley, que estava de cenho franzido, logo se deu conta.
“……Ah, hoje é 4 de julho.”
Diante do murmúrio que saiu como um suspiro, Ariel concordou e continuou a falar.
“– Desculpa, por acaso seus pais não vêm ou algo assim?”
Era um fato conhecido por quase todos que os pais de Ashley moravam na Costa Leste e que ele vivia sozinho ali. Ashley respondeu sem nenhuma emoção em particular.
“Tudo bem, no Dia da Independência a família tem que ficar junta mesmo. Entendi.”
“– Te ligo depois, Ash.”
Deixando um som de beijo pelo telefone, Ariel desligou. Ashley olhou por um momento para o celular que havia ficado em silêncio, jogou-o em cima da cama e virou-se para o lado com um suspiro.
“Pois é. Nos feriados tem que se passar com a família.” Após repetir as próprias palavras, ele fechou a boca.
Ao redor, o silêncio se tornou absoluto.
***
Um som que parecia o vento cortando o ar foi ouvido de longe e, logo em seguida, um estrondo enorme ecoou. Os fogos de artifício haviam começado.
Koi, que estava atrás do balcão de atendimento, olhou para fora sem pensar. Através do vidro da janela era possível ver apenas os rastros finais dos fogos se desfazendo no céu.
Deve ser divertido. Koi pensou vagamente.
O Dia da Independência era um dos maiores feriados do ano e naquele dia qualquer comércio ficava lotado. Os restaurantes costumavam aumentar os preços nessa época e, naturalmente, as famílias pagavam o valor para passarem o tempo juntas.
Mas aquilo não tinha relação com ele. Fazia muito tempo que ele havia perdido o hábito de passar momentos com a família.
Em dias assim, o melhor a se fazer era trabalhar. Ele mudou o foco de seus pensamentos e virou a cabeça. O mais importante agora era o exame de admissão da faculdade que aconteceria no mês seguinte. A preparação já estava concluída, restando apenas o resultado.
Foi quando ele voltou a se concentrar nos problemas de matemática que não havia terminado de resolver no dia anterior.
Ao ouvir o som repentino do sino da porta, Koi despertou de seus pensamentos.
“Uh..?” Ao ver a pessoa inesperada que abriu a porta e entrou na loja, ele piscou os olhos assustado.
O rapaz que entrou prontamente também parou ao ver Koi parado atrás do balcão.
“Ashley?”
013.
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Lick Me Up If You Can
Connor Niles sempre esteve sozinho. Corredores silenciosos e intervalos vazios para o almoço são seus companheiros habituais. As notas importam para ele; são sua saída.
Ashley Miller...
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