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Lick Me Up If You Can

008.

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E agora, o que eu faço?

Como Koi jamais imaginou que Ashley abandonaria o barco de forma tão irresponsável, ele sequer tinha um “Plano B”. 

Mas agora era o momento de pensar em um.

…Para um cara ser tão irresponsável a esse ponto!

Sentindo que as lágrimas poderiam cair a qualquer momento, Koi jogou a cabeça para trás e respirou fundo.

Ele está doente, então tudo deve ser um incômodo para ele. Mas, mesmo assim, ele tinha que fazer a parte dele. 

Se não ia fazer, devia ter me ligado antes para avisar, assim eu teria pelo menos um pouco mais de tempo. Agora, como eu vou resolver isso sozinho?……

Uma profunda autocomiseração o abateu ao pensar que, mesmo que estivesse morrendo de doente, quem terminaria o trabalho no prazo determinado seria apenas ele mesmo.

Para caras privilegiados como Ashley Miller, um trabalhinho desses não significava nada. Mesmo que tirasse um B, ele não se importaria nem um pouco. 

Se a nota dele ficasse baixa, o pai dele provavelmente construiria um prédio novo para a escola e o colocaria para dentro de qualquer jeito.

Eu odeio esses caras bem-nascidos.

No fim, Koi limpou bruscamente as lágrimas que insistiam em escapar. Não tinha jeito. Ele precisava recuperar a frieza. 

O único que realmente precisava da nota daquele trabalho era ele. Sendo assim, precisava dar um jeito de terminar tudo dentro do prazo, custasse o que custasse.

Depois de tomar essa decisão, a ansiedade bateu forte. Para dar conta também da parte de Ashley, ele precisaria do dobro de tempo do que tinha agora. E ele não podia simplesmente reduzir suas horas no bico. A única coisa que ele podia cortar era o seu próprio tempo de sono.

“Dá para dormir muito bem depois que eu morrer.”

Repetindo isso para si mesmo como um mantra, Koi pisou no pedal da bicicleta com toda a força e seguiu em frente em alta velocidade.

***

“E aí, Ash! O que aconteceu com você? Um resfriado?!” Como era de se esperar de alguém famoso, assim que Ashley Miller chegou à escola, ele se tornou o centro das atenções. 

O bando que sempre andava com ele se reuniu ao redor de seu armário, fazendo mais barulho do que o normal e disputando espaço para falar com ele. Enquanto alguns mais afastados até tentavam tirar fotos dele, Koi guardou seus pertences em silêncio e fechou a porta do armário.

Para ir até o prédio onde seria a aula, ele precisaria passar direto por aqueles gigantes que bloqueavam o corredor, mas esse tipo de situação já era rotina. 

Para Koi, passar por aquela “crise” era algo quase banal.

Ele caminhou colado aos armários, passando pela fresta estreita sem precisar pedir licença. No meio do caminho, um dos garotos soltou uma gargalhada espalhafatosa e bateu com força no armário onde Koi estava encostado. Quase aconteceu um desastre, mas felizmente Koi conseguiu desviar do punho dele por um triz.

Soltando um suspiro aliviado após superar aquele sufoco, Koi massageou o pescoço tenso e olhou de relance para trás. Ashley continuava cercado pelo bando, rindo e jogando conversa fora.

Parece que ele realmente estava doente.

A fisionomia um pouco pálida era uma prova evidente disso, mas Koi não tinha motivos para sentir pena dele. Afinal, por causa daquele cara, ele havia passado as últimas noites em claro e quase foi demitido da loja por pescar de sono durante o expediente.

Koi virou a cabeça de volta e caminhou em direção à sala de aula. Atrás dele, ainda era possível ouvir o som alto das risadas dos garotos do time de hóquei, incluindo Ashley.

***

“Vou entregar as notas do último trabalho.”

Diante das palavras da professora Martinez, Koi ficou extremamente tenso. Ele concentrou toda a sua atenção no que ele diria a seguir, enquanto o mesmo ajeitava os óculos no rosto e continuava:

“Todos se esforçaram bastante, não é? Claro que teve um ou outro que fez de qualquer jeito… Ah, Dixon, não estou falando de você, não se preocupe. Olhando para o trabalho, dá para ver claramente o quanto este aluno se dedicou.”

Os alunos olharam para Dixon e caíram na risada. Dixon, que estava sentado ao lado e havia feito a piada, riu junto. 

Mas Koi não conseguia rir.

Em uma matéria de nível avançado (AP), era difícil alguém fazer as coisas de qualquer jeito. O fato de Ashley ter agido daquela forma foi uma exceção total, mas ninguém podia culpá-lo por não levar a sério. Afinal, além daquilo, ele tinha recursos de sobra para compensar os pontos perdidos de qualquer outra maneira.

Quem precisa ficar se desdobrando assim é só alguém como eu.

Bem no momento em que um sentimento de autodepreciação começou a surgir, o professor Martinez chamou os nomes: “Connor Niles, Ashley Miller.”

“Presente!” Sem perceber, Koi quase deu um pulo da cadeira e ergueu a mão. 

Ashley também levantou a mão, mas sua expressão era de total indiferença aos olhos de qualquer um. Era natural, já que ele não havia contribuído com uma única letra para ajudar no trabalho.

Koi olhou fixamente para o professor Martinez, com o coração na boca. Ele tirou os olhos do papel onde as notas estavam anotadas e sorriu na direção de Koi.

“Vocês fizeram um excelente trabalho. A nota de vocês é a mais alta da turma. Se existisse uma nota acima de A+, eu daria a vocês com certeza.”

Com os olhos brilhando intensamente, Koi olhou para o professor Martinez, que assentiu de volta com um sorriso caloroso que parecia dizer para ele confiar em si mesmo. 

Ele ficou tão feliz que, sem conseguir se conter, um sorriso radiante se abriu em seu rosto. Ele tinha conseguido! Apesar de todo o sofrimento, ele tinha conseguido no final!

Trabalhar duro e mesmo assim colher um resultado medíocre era algo extremamente comum em sua vida. Mas, desta vez, o resultado que ele tanto desejava veio de verdade. Existiria alguma outra alegria maior do que essa?

Segurando a imensa vontade de gritar de felicidade, Koi cobriu a boca com as duas mãos. Enquanto o professor Martinez continuava a chamar o nome dos outros alunos e a entregar as notas, ele apenas respirava fundo repetidamente para conter a emoção, nenhum outro som ao seu redor parecia chegar aos seus ouvidos.

Naquele momento, em seu mundo, existia apenas ele mesmo. Nenhum barulho externo conseguia penetrar ou quebrar aquela bolha de pura satisfação.

Foi então que, com uma expressão indecifrável, Ashley virou o rosto para olhar na direção dele, e seus olhares se cruzaram.

***

“Hoje, não fique cochilando e preste atenção direito, entendeu?” O dono da loja o repreendeu severamente enquanto apontava para um canto do teto. 

Depois de lançar mais um olhar intimidador para Koi, que estava parado atrás do caixa e conferia as imagens da câmera de segurança (CCTV), o homem finalmente se retirou do local.

Sozinho na loja, Koi soltou um longo e profundo suspiro. A alegria efêmera de ter resolvido o problema do trabalho escolar durou apenas um breve instante. Logo em seguida, o que o atingiu foi uma onda avassaladora de sono acumulado.

“Uaaah.” Assim que se viu sozinho, ele abriu a boca num bocejo longo e preguiçoso, limpando as lágrimas que brotavam nos cantos dos olhos. 

Ele olhou ao redor do estabelecimento; para a sua sorte, nenhum cliente havia entrado hoje naquela lojinha que vendia doces e variedades. 

Pensando que era a oportunidade perfeita, ele puxou o material escolar para adiantar outras tarefas, mas seus olhos estavam pesados e suas pálpebras insistiam em cair.

“Ah, sério mesmo…” Ele resmungou de propósito em voz alta e esfregou os olhos com força, na tentativa de espantar o cansaço, mas não surtiu nenhum efeito. 

Não teria jeito. Pensando que precisava ir até o banheiro jogar uma água fria no rosto, ele deu a volta no balcão do caixa.

Bem nesse momento, a porta se abriu com o som estridente do sininho metálico. Ao mesmo tempo em que praguejava mentalmente pela falta de sorte, ele ergueu os olhos para receber o cliente, mas assim que viu quem era, Koi congelou imediatamente de puro choque.

Eram Nelson e o seu bando.

Ele tentou manter a pose de quem estava calmo e indiferente, mas seu corpo simplesmente não respondeu. Vendo Koi paralisado feito uma estátua por puro reflexo de medo, Nelson abriu um sorriso sarcástico.

“Ih, olha só. Para onde você pensa que vai? O funcionário pode largar o posto e deixar o caixa sozinho assim?”

O bando que o acompanhava pareceu apenas esperar por aquela deixa para começar a rir e a fazer algazarra dentro da loja.

“Caramba, o dono daqui deve ter muita coragem para deixar a loja nas mãos do Koi Niles!”

“Isso só prova o quanto ele confia no nosso Koi Niles, não é? Impressionante, senhor Niles!”

“Seu otário do caralho, o que um merda feito você conseguiria fazer trabalhando aqui?” Em meio à explosão de gargalhadas, um dos garotos esticou a mão e empurrou a testa de Koi com a ponta dos dedos. 

Desequilibrando, o moreno deu um passo cambaleante para trás e acabou esbarrando em outro capanga. Sem perder tempo, esse segundo garoto disparou um xingamento e empurrou Koi com força total.

“Porra, o que esse lixo está fazendo encostando em mim?”

“Eca, que nojo. Olha o cheiro que esse verme tem. Isso não pega não, né?”

“Caralho, o que você vai fazer sobre isso, hein? Chega aí, cheira ele, sente esse odor. Puta que pariu, meu nariz vai apodrecer.”

O último rapaz agarrou a nuca de Koi, forçando-o para baixo com a clara intenção de derrubá-lo no chão. Koi fez o máximo de força que pôde nas pernas para não cair de cara no piso, mas seu corpo acabou sendo dobrado ao meio, deixando-o em uma posição perigosa enquanto tentava desesperadamente manter a cabeça erguida.

“Ha… Parem com isso. Chega!” Koi gritou em tom de súplica, mas a única resposta que obteve foram risadas de puro deboche. 

Enquanto Koi continuava sendo intimidado e agredido, Nelson caminhou até a geladeira de bebidas, abriu a porta e pegou uma lata de cerveja por conta própria, jogando-a em seguida para o garoto que estava logo atrás dele. 

O rapaz pegou a lata no ar com as duas mãos por puro reflexo e reclamou, sentindo-se injustiçado: “Ei, se você jogar a lata desse jeito, como é que eu vou beber?”

“Assim ó.”

Para demonstrar, Nelson pegou outra lata de cerveja, chacoalhou-a com toda a força e, esticando o braço o máximo que pôde para a frente, puxou o lacre da bebida recém-agitada.

“Ah, não! Para!” Koi gritou desesperado, mas é claro que o outro não parou. 

No instante em que ele puxou o anel da lata, a espuma branca jorrou sob pressão, subindo em linha reta em direção ao teto.

“Uau!”

“Porra, o que foi isso?!”

“Ah, caralho, olha aquele maluco!”

Gritos e gargalhadas ecoaram de todos os cantos da loja, misturando-se em uma enorme bagunça. 

Diante daquela cena, a visão de Koi escureceu por completo. A força do jato de cerveja só diminuiu depois de ensopar a mão de Nelson e deixar uma enorme mancha escura e amarronzada bem no meio do forro do teto. Só então Nelson levou a lata à boca, deu um grande gole e, soltando um som de nojo, começou a reclamar: “Porra, não sobrou nem metade na lata.”

Era óbvio. Afinal, metade do líquido havia explodido contra o teto e escorrido dali para baixo, espalhando-se por cima das mercadorias que estavam expostas nas prateleiras e deixando o chão completamente imundo.

No entanto, ainda era cedo demais para Koi atingir o ápice do seu desespero. 

Logo em seguida, Nelson abriu novamente a porta da geladeira, pegou mais algumas latas de cerveja e começou a enfiá-las descaradamente dentro dos bolsos de seu casaco.

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Connor Niles sempre esteve sozinho. Corredores silenciosos e intervalos vazios para o almoço são seus companheiros habituais. As notas importam para ele; são sua saída.

Ashley Miller...

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