084.
Bliss mastigava o cogumelo enquanto tentava, a todo custo, evitar o olhar de Cassian.
Ignorar os olhos fixos e persistentes direcionados a si durante toda a refeição não era uma tarefa fácil. Embora estivesse focando toda a sua atenção apenas no ato de comer, seu estômago já estava começando a doer de puro nervosismo.
Será que ele está agindo assim porque sabe a minha identidade?
Ele congelou diante do pensamento que surgiu de repente. Queria conferir a expressão de Cassian, mas sentia que, se fizesse isso, seus próprios sentimentos ficariam totalmente expostos.
Ele pode acabar descobrindo o motivo de eu ter vindo até aqui.
Era uma ideia absurda, mas, como sua consciência pesava, ele não conseguia desviar os olhos do prato. Mesmo movendo a comida em direção à boca como se nada estivesse acontecendo, sua mente trabalhava a mil por hora.
Se, por acaso, aquele desgraçado já soubesse sobre mim desde o início…
“Sai, cai fora! Fora daqui agora, seu XXXX XXX XXXX…”
De repente, a lembrança daquele reencontro conturbado reviveu em sua mente.
Espera, então ele desatou a me xingar daquele jeito mesmo sabendo quem eu era?
Dúvidas e fúria surgiram ao mesmo tempo.
O que diabo eu fiz de tão errado? Quem tem o direito de ficar bravo e xingar aqui sou eu! Mas o infeliz que ficou xingando pelas costas foi você!
No ápice de sua indignação repentina, ele virou a cabeça num sobressalto e, no mesmo instante, seus olhos se cruzaram diretamente com os de Cassian.
Ai. Bliss prendeu a respiração, dando-se conta do erro. Droga, não era para fazer isso.
Sem coragem de desviar o olhar novamente, ele apenas começou a suar frio pelas costas. Enquanto isso, Cassian, que o observava fixamente até então, franziu o cenho e abriu a boca.
“O que foi? Tem algo que queira dizer?”
Diante daquelas palavras, Bliss soltou outro grito agudo de pavor mentalmente: ‘Hiik!’
“Ah, não, de jeito nenhum…”
Apressando-se em balançar a cabeça negativamente, Bliss abaixou o rosto e começou a raspar o garfo no prato vazio de forma sem graça. Ao vê-lo saborear o molho restante na ponta do talher com uma atitude tão simples, Cassian semicerrou os olhos.
Ele está nervoso só porque está sozinho comigo.
Até então, Cassian só conseguia pensar nele como aquele garotinho ranhoso do passado, mas, olhando bem agora, ele certamente havia se tornado um adulto. Aquela penugem suave que subia por suas bochechas macias parecia gritar que ele ainda era jovem, mas mesmo esse detalhe parecia estar com os dias contados.
Sim, em breve.
Quando esse garoto se tornar um homem adulto…
“Cassian.”
O rosto do Bliss maduro chamando pelo seu nome surgiu de repente em sua mente, fazendo com que Cassian congelasse por um instante. Bem na hora, um som estridente e incômodo o trouxe de volta à realidade.
Era o som de Bliss raspando o garfo contra o prato vazio. Ao ver o garoto abaixar a mão rapidamente e fingir inocência, como se nada tivesse acontecido, Cassian soltou um suspiro contido, pensando: ‘Claro, tinha que ser’.
Seja como for, ele não é mais uma criança.
Enquanto o funcionário se aproximava rapidamente para recolher o prato vazio, Cassian continuou a observar Bliss. O fato de Bliss não conseguir encará-lo diretamente, gaguejando e agindo de forma estranha sem conseguir formular uma frase direito e, acima de tudo, o motivo de seu rosto estar tão vermelho… tudo parecia apontar para uma única causa.
“O Bliss gosta de ti!”
As palavras de Penelope ecoavam nitidamente em seus ouvidos. De repente, ele se deu conta de que o canto de sua própria boca estava se desfazendo em um sorriso, mas não fez questão de esconder sua expressão. Bem na hora, o funcionário serviu o prato seguinte e se retirou;
Cassian pegou o garfo e a faca, cortou a carne em um tamanho adequado e a levou à boca. ‘Bem, não há o que fazer com um garoto desses’, pensou ele consigo mesmo.
Esse bom humor persistiu mesmo após o término da refeição, estendendo-se até o momento de retornar ao quarto. Até a hora de tomar um gole leve de vinho antes de dormir, seu estado de espírito continuava excelente. Isto é, até aquele pedaço de amendoim insolente tentar armar uma revolução — ou melhor, um golpe de estado.
“Acho melhor cada um dormir no seu canto hoje.”
Cassian, que já estava se preparando para ir para a cama, estacou abruptamente diante da declaração firme daquele amendoim atrevido jogou bem no meio do quarto.
“O que… que história é essa de repente?” Engolindo a seco um xingamento, ele questionou.
Bliss deu um leve sobressalto, mas, surpreendentemente, não recuou e sustentou a palavra.
“Vou dormir no meu quarto, sozinho.”
“Estou perguntando o motivo de tanta audácia do nada, seu amendoim.”
Substituindo o palavrão por ‘amendoim’, Cassian controlou sua fúria mais uma vez e disparou as palavras entre dentes. Sentindo-se intimidado pela pressão, Bliss encolheu os ombros e deu um passo para trás de mansinho.
“B-Bem, é que não consigo dormir junto com o Conde.”
“Por que diabos não consegue, porra?!” No fim, Cassian não conseguiu segurar e soltou o palavrão.
Os olhos de Bliss se arregalaram em choque diante da linguagem grosseira vinda da boca daquele nobre tão sofisticado. No entanto, logo após o susto, o que veio nos olhos do garoto foi pura indignação.
Aquele desgraçado está me xingando de novo?
“Porque o hábito de dormir do Conde é uma merda!” Diante das palavras gritadas com os dois punhos cerrados, desta vez foi Cassian quem estacou.
“O que… o que disseste?”
Ao ver a expressão totalmente perplexa dele, Bliss sentiu uma onda de coragem crescer ainda mais. Ele arregalou os olhos e gritou novamente, encarando Cassian com firmeza.
“O hábito de dormir do Conde é uma merda! O senhor passa o tempo todo me abraçando apertado! É desconfortável, por isso não vou mais dormir junto com o senhor! Vou para o meu quarto, adeus!”
“Espe…”
Bliss, que havia despejado as palavras como bem quis, virou-se abruptamente e saiu batendo o pé.
Antes mesmo que Cassian pudesse sequer tentar segurá-lo, o amendoim bateu a porta do quarto com estrondo e desapareceu, deixando Cassian ali, parado feito um tonto, olhando para o nada.
Quando finalmente recuperou os sentidos, ele já havia sido deixado completamente sozinho no meio do cômodo vazio.
***
Chuáaa, ouvia-se o som da água sendo vertida na xícara de chá, acompanhado pelo aroma perfumado que se espalhava pelo ar.
Do lado de fora da janela, os pássaros cantavam matinalmente, e o céu, limpo após muito tempo, iluminava o mundo de forma radiante. Para qualquer um, aquela deveria ser a imagem de uma manhã pacífica e feliz…
“Maldito seja.”
Por causa dos xingamentos resmungados em voz baixa pelo Conde, que mantinha o rosto totalmente amarrado com uma das mãos cobrindo a face, Penelope, que o servia, por pouco não derramou a água fervendo sobre a mesa.
Tendo escapado do perigo por um triz, ela manteve a expressão impassível, pousou o bule e empurrou discretamente o mel em direção a Cassian.
A fisionomia dele estava uma verdadeira ruína, algo que não se via há tempos. Talvez por ter conseguido dormir profundamente nas últimas vezes, a insônia que retornou de surpresa parecia estar torturando-o ainda mais.
“…Aquele desgraçado.”
“Oi?”
Cassian ia perguntar se aquele amendoim maldito havia dormido bem, mas fechou a boca imediatamente. Ao ver Penelope olhá-lo com estranheza, ele apenas balançou a cabeça negativamente.
“Não, não é nada.”
Em seguida, ele levou o chá preto fumegante diretamente à boca, mas parou no meio do caminho. Percebendo a situação de imediato, Penelope colocou um pouco mais de mel bem perto dele. Cassian soltou um gemido profundo com o semblante totalmente contraído, despejou uma quantidade generosa de mel e virou o resto do chá de uma só vez.
O quê? O meu hábito de dormir é uma merda?
Quanto mais pensava nisso, mais ultrajado ficava. Quem diabo era o responsável por ficar jogando os braços e as pernas para cima dos outros enquanto dormia?
Faça o que você bem entender. Eu também não tenho nada a perder. Afinal, uma insôniazinha dessas não me mata num dia ou dois mesmo.
Pensando daquela forma, ele saiu do quarto com passos pesados e rudes, entrando direto no carro. Uma enxaqueca insuportável já começava a surgir lentamente, mas Cassian cerrou os dentes e aguentou firme.
***
“Uaaah.” Tendo terminado o café da manhã junto com os outros funcionários, Bliss acariciou a própria barriga e soltou um suspiro de profunda satisfação.
“Comi muito bem. Estava tudo delicioso!”
“É mesmo? Que bom.”
A funcionária que havia comido com ele respondeu sorrindo. Bliss ia se levantar para levar o seu prato vazio, mas outra funcionária se aproximou rapidamente e recolheu os utensílios dele junto com os dela.
“Já que terminaste, podes continuar sentado. Agora é hora de comer a sobremesa.”
Logo em seguida, outra empregada trouxe chá e bolo.
“A esta hora, o Conde já deve ter saído para seus compromissos, então teremos cerca de 30 minutos de chá antes de começarmos o trabalho para valer. Junta-te a nós, Blair.”
“Obrigado, vou comer bem.”
Olhando para o pedaço de bolo que haviam cortado especialmente para a sua parte, Bliss soltou um grito de alegria mentalmente e começou a puxar assunto de forma descontraída com elas.
“Disseram que é um parente da Penelope, não é? Estávamos querendo nos aproximar de ti todo esse tempo, mas não tínhamos tido uma boa oportunidade.”
“Deve estar muito ocupado aprendendo tudo com a Penelope, mas tente nos dar um pouco de atenção também. Costumamos ter esses momentos de chá juntas de vez em quando.”
“É a primeira vez que vejo um americano pessoalmente. É um beta, certo? Que curioso, a maioria das pessoas que são bonitas assim costumam ser alfas ou omegas.”
Diante da enxurrada de comentários cheios de curiosidade, Bliss ficou completamente zonzo. Ele mal conseguia reagir além de soltar risadas sem graça e dizer coisas como “Hahaha, sim, pois é…”, até que uma delas tocou num ponto inesperado.
“Mas sabe de uma coisa? Acho isso meio estranho. Pelo que eu saiba, a Penelope só tem uma irmã mais nova, e ouvi dizer que ela mora em Londres. Como é que vocês dois são parentes, afinal?”
Ao ouvir aquilo, Bliss tomou um susto tremendo e seus olhos se arregalaram de choque. De repente, o ambiente ao redor ficou em completo silêncio, e todas as funcionárias fecharam a boca, esperando pela resposta dele.
“Ha, haha… ha….”
Forçando uma risada totalmente falsa, Bliss começou a fazer sua mente trabalhar desesperadamente.
E agora? Se eu disser qualquer bobagem, serei desmascarado num piscar de olhos. Eu nem sequer sei o que a Penelope andou dizendo para elas! Se as nossas histórias não baterem…
Ninguém dizia mais nada. Sentindo o peso dos olhares de todas as empregadas focados inteiramente sobre si e sem saber o que fazer, Bliss tomou uma decisão drástica e se levantou num salto.
“…Eu!” Enquanto as funcionárias assustadas piscavam os olhos sem entender nada, Bliss gritou com toda a firmeza que pôde reunir: “Lembrei-me que tenho um trabalho urgente para fazer agora! Adeus!”
E com isso, meti o pé!
Fazendo essa narração em seu pensamento, ele saiu dali correndo o mais rápido que pôde. As empregadas apenas continuaram a observar as costas de Bliss, que fugia apressadamente, sem dizer uma única palavra.
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...