146.
Com a menção repentina ao nome de seu filho, Ashley Miller franziu a testa.
Mesmo diante do olhar que parecia questionar de onde vinha aquela conversa do nada, Cassian continuou falando com naturalidade.
“Lembrei dele ao ver o senhor Senador depois de tanto tempo. Bliss também deve ter crescido bastante.”
Ao vê-lo se fazer de desentendido, apesar de mantê-lo muito bem protegido em seu próprio castelo, Ashley Miller deu uma pausa antes de responder.
“Ele está bem. Obrigado por perguntar.”
Diante de uma resposta tão padronizada, Cassian manteve o sorriso no rosto e disse apenas: “Entendo”.
“A esta altura, Bliss já deve ter se tornado um adulto, então gostaria de encontrá-lo uma vez. Também tenho curiosidade em saber que tipo de pessoa é o parceiro prometido de Bliss.”
Ele acrescentou isso como se fosse uma piada, mas Ashley não sorriu. Pelo contrário, aprofundando ainda mais as rugas em sua testa, ele fixou os olhos no rosto de Cassian e abriu a boca pausadamente, bem devagar.
“…Parceiro prometido?”
***
“Nguuuh.” Bliss soltou um gemido parecido com o de um cachorrinho e virou-se para o outro lado.
Desde que Cassian havia fugido de forma ultrajante, ele esperou sem parar por aquele canalha covarde. Ele havia se preocupado intimamente sobre como suportaria esse longo tempo cujo fim era incerto, mas, surpreendentemente, não foi tão difícil. Isso porque o sono vinha com tudo.
…Estou com sono de novo.
Não fazia muito tempo que havia acordado, mas seus olhos já se fechavam novamente. Ontem foi assim, hoje também; sua rotina consistia em uma repetição de comer, espancar o travesseiro, dormir, comer, chutar o travesseiro, dormir de novo e comer mais uma vez.
Acho que peguei um resfriado.
Considerando que uma febre baixa continuava subindo e que ele se sentia apático, com certeza era um resfriado. Ele não ficava resfriado desde a infância, mas não havia dúvidas.
“Quer que eu chame um médico? Ou traga algum remédio?” Penelope perguntou com um ar preocupado, mas Bliss recusou firmemente.
Ele não podia melhorar da doença.
Ele precisava mostrar a Cassian que estava sofrendo e gemendo de dor.
É claro que podia não ser nada demais. A febre baixa podia ser só coisa da minha cabeça e eu posso simplesmente estar apenas dormindo demais.
Se não for um resfriado, eu dou um jeito de transformar em um resfriado!
Bliss tomou uma decisão firme. Ele faria Cassian se arrepender. Faria com que ele pagasse caro por ter ousado abandoná-lo e fugir.
Para isso, a febre precisava subir mais…
Conforme o sono batia novamente e ele começava a cochilar sem parar, uma dúvida surgiu de repente em sua mente. Qual era mesmo a temperatura do corpo humano? E a água fervia a quantos graus?
“Zepito, a quantos graus a água ferve?”
Quando ele perguntou com uma voz sem forças, uma voz mecânica respondeu.
“— Ferve a 100 graus, mestre.”
Então a temperatura do corpo humano deve ser uns 50 graus. Bliss, tendo chegado a essa conclusão absurda por conta própria, perguntou novamente.
“O que eu preciso fazer para elevar a temperatura do corpo até os 70 graus?”
A IA respondeu prontamente.
“— Basta fazer a cremação, mestre. A temperatura interna de um crematório geralmente fica entre 800 e 1.000 graus, então, no momento em que entrar, poderá elevar a temperatura até a meta de 70 graus…”
Esse louco? Uma onda de raiva subiu em Bliss, fazendo-o levantar-se num salto.
“Aí eu morro, sua IA burra!”
“— Mas não era 70 graus?”
“Cale a boca, fique quieta agora!”
“— Sim, mestre.”
“Não fale nada!” Bliss gritou irritado, silenciando a IA.
Ele encarou o celular que finalmente havia ficado silencioso, bufando de raiva, mas logo soltou um suspiro como se estivesse exausto e desabou na cama. Ao fechar os olhos, o rosto de Cassian surgiu em sua mente.
Quando é que ele vai voltar, aquele desgraçado?
Bliss pensou, franzindo a testa.
Apenas tente voltar, vou acertar esse punho direto na cara daquele canalha…!
De olhos fechados, ele cerrou o punho com força. Mas de repente, o sono bateu pesado e seus pensamentos começaram a se fragmentar.
Será que ele não está voltando porque está com medo de mim…?
A força de seu punho foi se esvaindo aos poucos e, com esse último pensamento, Bliss caiu em um sono profundo.
***
“Seja bem-vindo de volta, Sr. Conde.” No rosto da governanta que recebia o seu mestre tarde da noite, não havia o menor sinal de cansaço.
Penelope, que estava de pé firmemente com suas vestes impecavelmente arrumadas como de costume, curvou-se brevemente para Cassian — que acabava de descer do carro — e voltou a encará-lo.
“O senhor deve estar muito cansado, não? O trabalho terminou bem?”
“Mais ou menos.”
Diante daquela saudação habitual, Cassian respondeu sem dar muita atenção e olhou para cima, em direção à janela onde ficava o quarto de Bliss, com uma expressão inquieta.
“E o Bliss?”
“Está dormindo.”
“Entendo.” Cassian entrou no castelo enquanto caía em pensamentos por um momento.
Ele havia refletido sobre várias coisas durante todo o caminho de volta, mas, na realidade, não tinha pensado profundamente sobre essa situação específica. Se deveria ou não acordar o Bliss adormecido para conversar era um problema muito insignificante comparado às histórias que precisavam discutir a partir de agora, mas colocá-lo em prática era outra questão. No momento de agir, tudo o que pretendia dizer parecia subitamente inútil.
Já estava tão tarde assim?
Ao checar o relógio, a meia-noite se aproximava. Ele parou em frente ao quarto de Bliss e soltou um suspiro pesado de frustração, enquanto Penelope, que o seguira apressadamente, observou suas reações antes de abrir a boca com cautela.
“Bem, na verdade, Sr. Conde. O estado do Bliss não está muito bom.”
A mão que massageava sua própria testa parou.
“O que quer dizer? O Bliss está doente?”
Diante da voz que subitamente se tornou ríspida, Penelope continuou a falar com uma expressão preocupada.
“Ele está com uma febre baixa contínua desde o dia seguinte à sua partida para a viagem de negócios. Ele acaba caindo no sono a qualquer momento… Hoje mesmo, ele passou o dia inteiro comendo e dormindo, comendo e dormindo. Quando vou dar uma olhada nele um tempo depois, ele já adormeceu de novo…”
“E o médico? Não chamou o médico da família?”
Como Cassian a interrompeu apressadamente, Penelope abaixou a cabeça, sem graça.
“É que… o Bliss recusou obstinadamente tanto o médico quanto os remédios…”
Ela deveria ter ignorado aquela birra de criança e lidado com a situação de forma firme. Cassian pensou em dizer isso, mas logo desistiu. Quem seria capaz de conter o Bliss?
Afinal, ele era o tipo de pessoa que estava escondido e vivendo aqui após enganar até mesmo Ashley Miller.
Ao pensar nisso, os pensamentos que o atormentavam há pouco voltaram a encher sua mente. Ele segurou a maçaneta da porta por impulso, mas hesitou e não a abriu.
Está tarde demais.
Cassian controlou-se, exercitando sua paciência. Havia tempo de sobra. Não haveria problema nenhum em resolver isso depois que o dia amanhecesse.
…Isso mesmo, não é o tipo de assunto que se deve tratar acordando alguém que está dormindo.
Ao tomar essa decisão firme, a força em sua mão naturalmente se desfez. Deixando o braço cair, ele olhou para a porta fechada do quarto de Bliss e abriu a boca.
“Bom trabalho, Penelope. Não precisa me dar assistência agora, vá para o seu quarto descansar.”
“…Sim, Sr. Conde.”
Penelope hesitou por um breve instante, mas obedeceu às suas palavras sem prolongar o tempo. Depois de dispensar a leal governanta, Cassian também se virou e caminhou em direção ao seu próprio quarto. A noite de hoje também seria muito longa. Como de costume, ele não conseguiria pegar no sono. Mas tudo bem, pensou ele ao abrir a porta de seu quarto.
Amanhã tudo estará resolvido.
Caminhando com passos cansados para dentro do quarto, Cassian tirou o casaco e o pendurou no encosto da cadeira. Depois de tirar também o paletó do terno e a gravata e colocá-los de lado, ele se virou e foi para o banheiro. Embora tenha tomado um banho de água fria, sua mente confusa não melhorou muito.
“Parceiro prometido?” A expressão franzida de Ashley reviveu claramente em sua memória.
Ele havia encarado Cassian como se estivesse ouvindo um absurdo completo. Diante da reação de Ashley Miller, Cassian lidou com a situação imediatamente com uma mentira improvisada.
“Achei que houvesse alguém que o senhor tivesse escolhido para ser o par de Bliss. Peço desculpas se tirei conclusões precipitadas.”
“Esse é o tipo de coisa que aqueles nobres antiquados fazem. Meus filhos escolhem seus próprios parceiros por conta própria.”
Ashley Miller o havia ironizado abertamente. Mesmo diante de uma atmosfera que parecia até um pouco desagradável, Cassian respondeu sem perder o sorriso.
“Fico feliz que o Sr. Miller e eu tenhamos o mesmo pensamento. É uma visão ultrapassada os pais escolherem os parceiros levando em conta o status da família para passarem a vida toda juntos.”
E então, ele acrescentou com total sinceridade por dentro.
“Fico feliz que o Sr. Miller e eu pensemos da mesma forma.”
Isso foi tudo o que restou da conversa que tiveram. Ele havia ganhado muito com esse encontro com Ashley Miller. Desde acordos políticos, é claro, até informações sobre Bliss.
O fato de Bliss ter um noivo era mentira.
Como esperado, um sentimento de alívio surgiu junto com esse pensamento. No entanto, isso não significava que todas as dúvidas haviam desaparecido.
Então, quem diabos é aquele barbudo?
Era ainda mais estranho que ele tivesse vindo até aqui sem ser sequer um noivo. Além disso, as atitudes de Bliss também não faziam sentido.
Como esperado, a resposta para todas as perguntas está com a capivara.
Cassian soltou um suspiro amargo, fechou a torneira e vestiu o roupão de banho. Sem nenhuma vontade de secar os cabelos molhados, ele retornou para o quarto e dirigiu-se à cama para deitar seu corpo exausto.
Ele não conseguiria dormir, mas pelo menos seu corpo poderia descansar.
No entanto, Cassian não pôde se deitar. Isso porque havia alguém que já tinha se apoderado da cama antes dele.
“Roooonc, rrrronc, rrrrrronc.”
Diante da imagem da capivara dormindo profundamente enquanto roncava barulhentamente com os braços e pernas totalmente abertos, Cassian simplesmente parou estático, sem dizer uma única palavra.
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...