118.
“Humph.” Cassian soltou uma exclamação de pura descrença.
Para esse mestre, Penelope acrescentou com um tom de voz severo: “Quando esse dia chegar, lembre-se impreterivelmente das minhas palavras, senhor Conde.”
Aquelas palavras eram um aviso categórico, mas Cassian apenas soltou uma risada de deboche.
“Não se preocupe, porque esse dia nunca vai chegar. Não há a menor chance de eu passar a gostar daquela migalha de amendoim.”
Diante de suas palavras cheias de convicção, Penelope ergueu o queixo com ainda mais confiança.
“Ah, claro, com essas palavras o senhor Conde acabou de fazer uma declaração de que isso com certeza vai acontecer. Não adianta se arrepender quando a hora chegar. Só me resta torcer para que o bondoso Bliss perdoe o senhor rapidamente.”
“Que bobagem sem cabimento… Aonde você vai?” Ao ver as costas da governanta, que deixou o carrinho no quarto e já se retirava às pressas, Cassian perguntou com uma expressão franzida.
Penelope olhou de relance para trás e respondeu.
“Está bem claro que o Bliss deve estar chorando sozinho. Coitadinho, preciso ir consolá-lo.”
Cassian ficou tão perplexo que perdeu totalmente a voz. Para piorar, Penelope foi ainda mais longe: pegou num piscar de olhos o prato de biscoitos que estava em cima do carrinho e logo abriu a boca.
“Vou levar isto comigo. Afinal de contas, eram os biscoitos que o Bliss iria comer.”
“Espere, Penelope. É sério? Você está falando sério? Vai embora assim, sem nem me servir o chá?” Cassian perguntou de novo, como se quisesse confirmar, mas desta vez Penelope sequer parou e desapareceu rapidamente no corredor distante.
No fim, Cassian, que acabou ficando completamente sozinho, levou a mão à testa, indignado, e respirou fundo.
Realmente, que absurdo.
De repente, o cansaço o atingiu. Como se estivesse exausto, seu corpo inteiro ficou tão pesado que ele não conseguia nem sentir raiva. Ele serviu o chá na xícara que estava no carrinho e bebeu ali mesmo, de pé. Depois de engolir o chá que já havia esfriado, ele colocou a xícara vazia de volta e só então sentiu seu estômago se acalmar um pouco.
Eu, gostar daquele garoto?
Lembrar-se das últimas palavras da governanta o fez soltar outro riso de deboche. Penelope com certeza estava ficando gagá. Ele pensou que teria que ordenar que fizessem um exame médico detalhado nela.
Deixando o carrinho de lado, ele se dirigiu ao banheiro. Deitar-se na água quente e relaxar o corpo certamente melhoraria seu humor. É claro que a governanta, que deveria ter preparado a água para o banho, havia sumido após praguejar contra ele, então aquela tarefa também acabou sobrando para Cassian.
“Que inacreditável.” Resmungando sozinho com uma voz misturada a um suspiro, ele abriu a torneira e regulou a temperatura da água.
Enquanto esperava a banheira encher sentado na borda, o olhar de Cassian, que observava a superfície da água distraidamente, fixou-se em um ponto. E seus olhos ficaram parados ali. Foi exatamente quando a imagem daquele dia — em que ele acabou deitado na banheira por causa da bebedeira de Bliss, e do garoto sentado em cima dele — sobrepôs-se em sua mente.
“Cassian.”
Junto com aquela voz que sussurrava baixinho, a lembrança que ele vinha tentando esquecer voltou à tona.
Ao mesmo tempo, suas orelhas esquentaram e ele cobriu o rosto às pressas com uma das mãos. Aquele pirralho maldito, que aceitou e bebeu tudo o que lhe ofereceram até cair de bêbado.
“Eu gosto do senhor, Conde.”
Logo em seguida as duras palavras de Penelope vieram em seguida na sua mente. O beijo que Bliss me deu naquela hora provavelmente foi apenas um impulso inconsciente. Como ele gostava de Cassian, acabou agindo daquela forma naturalmente.
“Seja como for, ele é imprevisível.” Mesmo dizendo isso, os cantos de sua boca se afrouxaram levemente.
O rosto de Bliss de momentos antes, pálido de choque, ressurgiu de repente na mente de Cassian, que mexia na água sem pensar. Com isso, seus lábios, que exibiam um sorriso suave, ficaram rígidos novamente.
…Ele pareceu ter levado um grande susto.
O rosto de Bliss parecia flutuar nitidamente bem diante de seus olhos, e logo seu coração ficou pesado. Ele sentiu o arrependimento de que deveria ter tentado acalmá-lo de forma adequada, mas já era tarde demais. E a situação também não colaborava.
“Ele vai acabar superando.”
De qualquer forma, aquela era uma verdade que precisava ser revelada.
Não era até melhor que tenha sido assim?
Ele poderia aproveitar a oportunidade para entender claramente sobre a sua manifestação e, depois, bastaria dar continuidade à configuração de seu ‘mundo’.
Pensar dessa forma aliviou bastante o seu coração. Em seguida, seu cérebro começou a focar puramente na racionalização.
Ele veio até aqui porque gosta de mim.
Então, se eu apenas fingir que gosto dele, isso já não seria o suficiente?
Era um argumento perfeitamente plausível. Cassian assentiu com a cabeça e organizou seus pensamentos. Se ele apenas entrasse no jogo de forma adequada, a poeira baixaria de forma rápida. Ele ainda era apenas uma criança.
Se ele lhe desse algo gostoso para comer ou fingisse ceder às suas vontades, Bliss ficaria radiante e voltaria a agir como antes.
Um sujeito simples de se lidar.
Cassian tirou as roupas com um sorriso sutil nos lábios. Ao entrar na água na temperatura ideal e relaxar o corpo, sentiu o cansaço acumulado se esvair.
Vamos deixar para lá por hoje.
Que tal levar o Bliss para almoçar fora amanhã? Se comermos no restaurante daquele chef que tem feito muito sucesso ultimamente e eu comprar algo que ele queira, o humor dele vai melhorar num instante.
“Cassian, eu te amo muito!” Imaginando o rosto de Bliss sorrindo radiante, ele se encostou profundamente na banheira com um suspiro de satisfação.
…
Cassian Strickland, seu idiota.
No entanto, na manhã seguinte, Cassian acabou disparando esse tipo de insulto contra si mesmo.
***
Meu Deus, o que é aquele estado deplorável?
Ao chegar à sala de café da manhã e ver o rosto de Bliss, que já o esperava, Cassian empalideceu de choque.
De tanto chorar, os olhos do garoto estavam tão inchados que ele mal conseguia abri-los direito, seu nariz estava completamente vermelho e o cabelo era uma bagunça desordenada. Vendo-o naquele estado, parecendo que havia acabado de sair da cama após passar a noite inteira soluçando, Cassian perdeu totalmente as palavras.
Não, aquilo com certeza era o reflexo de ter chorado a noite inteira.
A causa, é claro, era óbvia. Afinal, a culpa era das palavras que o próprio Cassian havia despejado.
Cassian engoliu em seco, sentindo um nó na garganta.
Enquanto Penelope o amparava e o guiava até o seu lugar, Bliss tateava o ar com uma das mãos para frente, verificando se não havia obstáculos no caminho. Cassian o observou sem sequer piscar até que ele encontrasse a cadeira e se sentasse. Quando Bliss finalmente se acomodou, Cassian chegou a soltar um suspiro involuntário de alívio.
“Tudo bem, Bli… Blair? O assento está confortável?” Bem no momento em que Penelope perguntava com preocupação, Bliss abriu a boca para tentar responder.
“Hic.”
Ao vê-lo soluçar com os ombros ainda trêmulos pelo choro recente, Cassian sentiu uma vontade imensa de dar um tapa forte na própria cara.
Cassian Strickland, seu idiota.
Como assim o humor dele ia melhorar? Seu imbecil.
O estado dele só piorou!
Enquanto praguejava internamente e mordia levemente o lábio inferior, ele por acaso cruzou olhares com Penelope. Ao mesmo tempo, a governanta o encarou com os olhos semicerrados de forma ameaçadora. Com uma das mãos, ela apontava discretamente para Bliss.
‘O que o senhor vai fazer agora?’
Era o que o olhar dela parecia perguntar.
Cassian desviou o rosto fingindo beber água para escapar do olhar severo da governanta. Como se tivesse percebido o que passava na mente de seu mestre, Penelope balançou a cabeça negativamente e se dirigiu a Bliss com uma voz extremamente doce.
“Bli… Blair, vou trazer uma toalha fria para aliviar o inchaço do seu rosto. Vá comendo um pouco por enquanto. Aqui, comece pelo suco.” Após despejar o suco de frutas que Bliss sempre tomava em um copo e entregá-lo em sua mão, Penelope se retirou.
Quando os dois ficaram sozinhos, um silêncio constrangedor se instalou imediatamente. Pensando em como puxar assunto, Cassian olhou para Bliss colocando o copo de volta na mesa sem dar um único gole e abriu a boca.
“O que foi? Não gosta desse sabor? Quer que eu peça outro?”
Isto é apenas uma consideração básica por outra pessoa, pensou Cassian.
Qualquer um ficaria incomodado ao ver alguém sentado à sua frente naquele estado deplorável. Ainda mais sendo eu a causa…
Após hesitar por um breve momento, Cassian foi obrigado a admitir.
…Se fosse eu, com certeza estaria assim.
No entanto, Bliss sequer respondeu.
Ao vê-lo apenas cutucar a salada à sua frente com o garfo, sem o menor entusiasmo, o coração de Cassian despencou.
Ele não era alguém de ficar tão sem energia assim.
Lembrando-se de como Bliss sempre limpava o prato até não sobrar nada, Cassian sentiu uma ansiedade ainda maior. Ele precisava comer algo.
Se ele chorou tanto assim e nem sequer se hidratasse direito, corria o risco de desmaiar.
Pensando até esse ponto, Cassian levantou-se num salto e serviu água diretamente no copo dele.
“Aqui, Bliblair. Se não quiser o suco de frutas, beba pelo menos um pouco de água. Só assim para recuperar as forças.” Ele mal conseguiu conter a vontade de apressá-lo e fez a recomendação.
Enquanto esperava que Bliss pegasse o copo, Cassian experimentou, pela primeira vez na vida, a sensação de estar com o ‘coração na mão’. Estava ansioso.
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...