117.
Bliss apenas piscou os olhos, atordoado.
Ele claramente ouviu as palavras de Cassian, mas não conseguia entender o significado. Será que era porque o inglês dele era britânico e por isso não compreendia?
Diante da reação de Bliss, que apenas o encarava fixamente sem entender, Cassian sentiu um gosto amargo. Ele pensou que seria melhor simplesmente virar o rosto e ficar quieto, mas aquele sutil movimento fez com que Bliss recuperasse a lucidez num estalo.
“Espere, só um minuto. O que significa isso? Uma configuração de mundo onde você gosta de mim? Não consigo entender o que quer dizer. Configuração de mundo ou sei lá o quê, sobre o que diabos você está falando?”
Bliss, que segurava Cassian com pressa e perguntava repetidamente, percebeu tardiamente o significado das próprias palavras. Não, não podia ser. …Com certeza, não haveria de ser isso.
“Isso significa que, então.” Sua voz sem forças tremia de leve.
Bliss mordeu o lábio inferior e, como se tivesse tomado uma decisão, olhou para ele.
“Você quer dizer que não gosta de mim?”
Ah, Cassian soltou um breve suspiro. Ao ver as pupilas trêmulas de Bliss olhando para ele, o arrependimento o invadiu. Pensando no porquê de o outro estar questionando as coisas de forma tão obstinada, ele abriu a boca, culpando Bliss internamente sem necessidade.
“Por isso eu disse, vamos manter a configuração desse mundo.”
“O que diabos isso significa?!” Bliss gritou intensamente, mas seu rosto estava completamente contorcido.
Olhando para ele, que parecia prestes a desabar em lágrimas a qualquer momento, Cassian abriu a boca com uma voz fria e mecânica.
“Você é o Bliblair, o parente distante da Penelope. Você veio aqui temporariamente para aprender o trabalho, e eu gosto de você. Essa é a configuração do mundo que estabelecemos agora, entendeu?”
“Mas… mas eu sou o Bliss,”
“Não, você é o Bliblair.” Cassian interrompeu as palavras dele impiedosamente.
Para Bliss, que havia encolhido os ombros e travado, Cassian repetiu como se estivesse fazendo uma lavagem cerebral.
“E eu gosto de você, o Bliblair. Não é?” A última frase soou quase como uma imposição.
Aceite essa configuração agora.
Aquilo ainda era uma história inacreditável, mas, por outro lado, Bliss conseguiu entender com total clareza o real significado por trás das palavras daquele homem.
“Então…” Bliss murmurou para si mesmo como se estivesse em transe, encarando Cassian com um olhar desolado. “Na verdade, você não gosta de mim.”
O outro estava falando mais ladainha sem cabimento, mas a verdade era uma só. Tudo era mentira. Cassian estava apenas atuando, fingindo ser ‘daquele jeito’. Sem uma única gota de sinceridade.
Diante do sussurro de Bliss, Cassian desviou o olhar para o outro lado e respondeu friamente.
“Não há necessidade de complicar as coisas, basta manter essa configuração do mundo.”
Então eu também continuarei fingindo que gosto de você. Bliss interpretou as palavras de Cassian dessa forma.
A força de sua mão, que até então agarrava firmemente as roupas de Cassian, esvaiu-se aos poucos, e sua cabeça pendeu para baixo.
Eu não gosto de você.
“Entendi.” Bliss murmurou com uma voz baixa.
Cassian já havia negado aquilo várias vezes. Quem não quis acreditar foi o próprio Bliss.
Sim, ele estava sendo sincero o tempo todo. Sincero com ele.
Ele nunca o havia amado, nem por uma única vez.
“…Tudo era mentira.”
Diante da atitude de Bliss, que repetia as mesmas palavras, Cassian hesitou por um momento, sem saber como reagir. Como o outro estava de cabeça baixa, não dava para saber sua expressão exata, mas era certo que seu rosto não era nada alegre.
“Rhum.” Cassian pigarreou para mudar o clima e abriu a boca como se nada tivesse acontecido. “Você deve estar cansado, então sente-se e descanse, Bli… Blair. A Penelope logo trará o chá e os biscoitos…”
“Não, tudo bem.” Pela primeira vez, Bliss recusou a proposta de Cassian antes mesmo que ele terminasse de falar. Enquanto Cassian hesitava, ele continuou a falar com a cabeça ainda baixa. “Vou para o meu quarto descansar. …Acho que fazer isso será melhor.”
Não havia um pingo de energia em sua voz sumida. Vendo as costas de Bliss, que caminhava arrastando os pés com os ombros caídos, Cassian estendeu a mão tardiamente, demonstrando hesitação.
“Bli… Blair, espere…” Ele tentou segurar Bliss às pressas, mas bem naquele momento ouviu-se o som de batidas na porta, que se abriu logo em seguida.
“Trouxe o chá, senhor Conde… Bliblair? O que houve?”
Penelope, que vinha empurrando o carrinho com o chá e os biscoitos, começou a falar com um rosto radiante, mas levou um susto ao ver Bliss parado a poucos passos de distância. No entanto, Bliss apenas passou por ela de cabeça baixa, em silêncio, e saiu do quarto.
“Bli..Blair. Blair? Bliblair!” Ela chamou por seu nome repetidamente, mas Bliss não olhou para trás.
Sem conseguir ir atrás dele, Penelope observou suas costas se afastando sem saber o que fazer, e então se virou para Cassian com os olhos ainda muito arregalados.
“O que aconteceu? Por que o Bla… não, por que o Bliss está agindo assim?” Sua voz, mais alta do que o normal, deixava claro o quão desnorteada ela estava.
Cassian, que até aquele momento mantinha a mão estendida de forma incerta, abaixou o braço sem jeito, mas teve dificuldades para encontrar as palavras certas. Ele confessou com uma expressão amarga:
“O Bli.., Bla… não, o Bliss… descobriu tudo.” Depois de travar a língua, ele balançou a cabeça com força e terminou de falar, deixando Penelope com um rosto ainda mais confuso.
“Descobriu? O quê? O que exatamente o Bliss descobriu?” Ela perguntou novamente com impaciência, sentindo-se frustrada.
Cassian hesitou por um momento e murmurou, como se estivesse se justificando: “Não tive escolha, aquele garoto fez o maior escândalo exigindo que eu falasse a verdade.”
“E então, o que aconteceu?! Fale logo, meu coração de velha vai acabar explodindo de tanta ansiedade!”
Penelope o pressionou, batendo no próprio peito com o punho. No fim, Cassian desabafou sobre o que havia acontecido momentos antes.
“Eu disse a ele que estamos encenando uma peça. Que o Bliss veio para cá como o Blair, seu parente, e que eu estou apenas fingindo estar apaixonado por esse Blair.”
“O que o senhor disse?! Meu Deus, que coisa terrível de se fazer!” Penelope deu um grito agudo e deu um salto.
Como era a primeira vez que via a governanta de longa data gritar daquela forma, Cassian se assustou e recuou um passo sem perceber. Mas aquilo não parou por ali.
“Como o senhor pôde dizer uma coisa dessas?! Mesmo que não fosse verdade, o senhor deveria ter dito que era! O que o senhor fez foi dizer ao Bliss — que veio até aqui olhando apenas para o senhor — que na realidade não gosta nem um pouco dele, mas como precisa dormir, ele deveria apenas obedecer e seguir as suas ordens quietinho, não foi?!”
“Eu não usei essas palavras.”
“E qual é a diferença?! Diga-me, onde e como isso é diferente?!” Penelope avançou imediatamente, pressionando Cassian, que tentava recuar mais um passo.
Ao ver a governanta, geralmente tão leal e silenciosa, enfurecida de forma tão passional, Cassian ficou visivelmente desconcertado.
“Eu apenas… disse a ele para ficar ciente de que eu continuaria fingindo que gosto dele, só isso.”
“Meu Deus, meu Deus! Que absurdo! Ouvir palavras tão cruéis! Tenho tanta pena do Bliss, o que faremos?!” Penelope acabou cobrindo o rosto com o lenço e começou a chorar copiosamente.
Diante da reação intensa da governanta mais velha, Cassian ficou sem saber o que fazer e começou a suar frio. Ele sabia que a reação de Bliss seria complicada, mas vendo que até Penelope estava agindo daquela forma, começou a se perguntar.
Será que cometi um erro irreversível?
Não, isso era um absurdo.
“Acalme-se, Penelope. Não há necessidade de pensar de forma tão extrema.”
“Forma extrema?! O senhor Conde não tem a menor noção do quão grave é esta situação!”
“Penelope, eu já disse que não é bem assim.” Cassian rebateu as palavras dela friamente. “O Bliss pode estar assustado e desapontado agora, mas isso não vai durar muito tempo. Aquele garoto esquece tudo rapidamente. Amanhã mesmo ele já vai estar tagarelando na minha frente como se nada tivesse acontecido.”
Metade daquilo era o que ele realmente acreditava, e a outra metade era apenas um desejo. Cassian confiava na mente simples de Bliss. Pensava que, após uma noite de sono, ele esqueceria tudo.
No entanto, a opinião de Penelope era completamente diferente.
“O senhor não entende absolutamente nada. O senhor Conde não faz a menor ideia do que está por vir.”
“O que eu…”
Cassian tentou retrucar mais uma vez, mas Penelope foi mais rápida e começou a despejar as palavras: “Preste bem atenção, senhor Conde. O Bliss nunca mais vai acreditar no senhor. Mesmo que no futuro o senhor se confesse para ele com total sinceridade, o Bliss vai desconfiar. O senhor tem noção do quão assustador é isso? Provavelmente não sabe, já que consegue dizer com essa cara lavada que o Bliss esquece as coisas rápido e tudo mais.”
O quê? Cara lavada?
Cassian franziu a testa e perguntou.
“Você não acha que está sendo dura demais com as palavras?”
Penelope respondeu com firmeza.
“Comparado ao que o senhor disse ao Bliss, minhas palavras são doces e suaves como algodão-doce.”
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...