108.
Cassian apenas olhou para o rosto do Duque, sem dizer uma palavra.
Na verdade, até agora, ele nunca tinha pensado sobre aquilo. Como não havia nenhum portador de traço ao seu redor, ele poderia ter racionalizado que era natural ser negligente nessa questão, mas não queria fazer isso.
Fosse como fosse, era verdade que ele havia sido indiferente e um pouco desatento. Suspirando profundamente com uma pontada de culpa, Cassian finalmente quebrou o silêncio com dificuldade.
“Não tinha pensado nessa parte. Peço desculpas.”
“Não é a mim que você deve desculpas.” O Duque balançou a cabeça negativamente, mas logo continuou com uma expressão séria. “O Bliss não é mais uma criança pequena como antigamente, e já tem idade para se cuidar sozinho, então ele deve saber o que faz. Ainda assim, me preocupa que ele possa acabar tendo uma overdose ou algo do tipo. Tente verificar isso discretamente com ele. Se necessário, entrarei em contato com o centro daqui para que você possa fazer uma visita.”
“Sim, entendi. Vou verificar.”
Diante da resposta do filho, o Duque finalmente pareceu aliviado e encerrou a conversa.
“Certo, pode ir agora. Vá ver também o quão preparado o Bliss está.”
“Sim, então com sua licença.” Cassian respondeu calmamente mais uma vez e se retirou do local.
Assim que fechou a porta e se viu sozinho no corredor, sua testa se franziu imediatamente.
Por que eu não tinha pensado nisso até agora?
Como o Duque dissera, talvez a essência dele fosse fraca por natureza. Se fosse o caso, os Betas não conseguiriam sentir o aroma do Bliss mesmo que ele não tomasse remédios.
Se ele não estivesse tomando remédio nenhum por causa disso, não haveria com o que se preocupar, mas…
O problema seria se ele ocasionalmente tivesse uma sobredosagem da medicação. Ele já tinha ouvido falar que, se um Ômega abusasse de supressores, nos casos mais graves poderia ficar estéril ou sofrer de anomalias nos feromônios. A única forma de descobrir seria confirmando diretamente com o Bliss…
Mas aí a minha fachada desabaria.
Ele soltou um gemido doloroso vindo do fundo da garganta.
Para descobrir aquilo, ele teria que confessar que já sabia a verdadeira identidade de Bliss. Caso contrário, não teria como perguntar a ele por que não conseguia sentir o cheiro de seus feromônios.
Isso é um problema…
Se fizesse isso, Bliss com certeza iria questionar desde quando ele sabia e isso também seria um problema. Ele teria que dar uma resposta sobre o porquê de ter fingido não saber até agora, mesmo sabendo desde o início.
É claro que o motivo era um só.
Ele não tinha outro pensamento além de expulsar o Bliss o mais rápido possível, então não havia necessidade de fingir que sabia. Naquela época, eu jamais imaginava que meu mundo mudaria tanto assim.
…Minha visão de mundo foi transformada.
De repente, Cassian se lembrou. O mundo em que ele agora gostava de Bliss.
E o fato de que Bliss tinha vindo até ali porque gostava dele desde o início.
Para me ver uma última vez antes de se casar com o seu noivo prometido.
Ao se lembrar dessa expressão específica, as rugas em sua testa se aprofundaram novamente. Imerso em pensamentos profundos, ele caminhava lentamente pelo corredor.
Quem diabos é esse noivo?
Tratando-se dos Miller, era uma história perfeitamente plausível. Uma família influente o bastante para ditar os rumos do próximo presidente, com impacto não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro.
Naturalmente, eles já teriam preparado um parceiro à altura da família com antecedência.
…Mas por que nenhuma proposta de casamento veio para a família do Duque?
Ao pensar nisso, uma súbita irritação o dominou.
Quem tinha feito um escândalo dizendo do nada que se casaria com Cassian foi o próprio filho deles! Além disso, no passado ele tinha vindo sem a menor cerimônia e arruinado as férias de Cassian.
A primeira vez que Cassian levou um tapa do Duque foi por causa do Bliss, e quem desperdiçou as preciosas férias apenas cuidando de uma criança foi o próprio Cassian. Então, por que…?
Se iam enviar uma proposta de casamento para alguém, deveriam ter feito isso primeiro para a família do Duque.
Sem perceber, seus passos aceleraram e ele quase correu pelo corredor. Quanto mais pensava, mais absurdo parecia, e a raiva subia.
O que aquele pirralho sabia para sequer cogitar sobre um casamento? Sacrificar alguém que ainda era basicamente um moleque catarrento por causa dos interesses da família…
Como esperado, Ashley Miller também era um materialista incurável…
Ao chegar a esse ponto de seus pensamentos, Cassian recobrou os sentidos num estalo. Sem que percebesse, ele já estava parado em frente ao quarto do Bliss. O silêncio se instalou num piscar de olhos e recuperando a lucidez a duras penas em meio àquela calmaria, Cassian piscou os olhos, confuso.
O que você está pensando, Cassian Strickland? Ficou completamente louco?
Era uma suposição absurda.
Não era óbvio demais o motivo de Ashley Miller não ter avançado com uma proposta de casamento com ele?
Você é doze anos mais velho que aquele amendoim, seu maluco.
Ele deu um tapa forte no próprio rosto mais uma vez. Se continuasse assim, sentia que seu rosto não aguentaria, mas era melhor do que perder o juízo. Só depois de dar outro tapa forte na outra bochecha é que Cassian conseguiu respirar fundo e acalmar o coração.
Isso mesmo, é só porque achei que a família do Duque foi desfeiteada pelos Miller. Não há outro motivo.
Era uma conclusão perfeitamente racional. Caso contrário, não haveria razão para ele ficar tão furioso assim.
Eu me importar com aquele amendoim? Que absurdo.
Ele soltou uma risada desacreditada e balançou a cabeça.
Cassian bateu na porta e esperou por uma resposta lá de dentro; quando a porta finalmente se abriu, ele ainda exibia um sorriso no rosto. Pensando no “tiquinho de pedaço de amendoim” que estaria esperando por ele no quarto, ele ergueu a cabeça e abriu a boca para falar.
“Bliblair. Os preparativos já estão pron…” No entanto, as palavras que saíam de sua boca simplesmente sumiram no ar.
Cassian travou onde estava, congelado, olhando fixamente para o meio do quarto onde Bliss se encontrava de pé.
Bliss vestia o terno creme que haviam comprado juntos no dia anterior.
O terno combinava perfeitamente com sua pele clara, e por baixo ele usava uma camisa lilás. A gravata, que tinha a cor de bochechas coradas, estava presa por um alfinete de gravata adornado com uma safira azul-viva, exatamente da cor de seus olhos.
Seu cabelo levemente cacheado, que costumava ser uma bagunça espalhada para todos os lados, agora estava bem penteado para trás, dando-lhe uma aparência impecável que era o oposto completo da imagem de jovem rebelde que Cassian conhecia até então.
Por causa disso, Cassian percebeu, em um transe, que a imagem de Bliss que vira no dia anterior não tinha sido uma ilusão.
“Com licença, Conde?”
“O-o quê?” Bliss abriu a boca e o chamou timidamente. Cassian, que estava completamente distraído até aquele momento, assustou-se com a voz e acabou gaguejando de forma patética.
Que droga. Praguejando internamente, ele limpou a garganta com um “humm” sonoro para disfarçar a agitação antes de voltar a falar.
“Ficou bom em você. Os preparativos já terminaram?”
“Ah, sim. Quer dizer, bem…” Bliss pareceu um pouco sem jeito e mostrou algo que segurava na mão. “Isto… eu nunca fiz antes.”
Era o lenço de bolso que ia no bolso superior do terno. Provavelmente outra pessoa sempre fazia isso por ele antes. Entendendo o significado imediatamente, Cassian deu um passo à frente de bom grado e se aproximou dele.
“Me dá aqui.” Ao estender a mão, Bliss entregou o objeto docilmente.
Sem dizer uma palavra, Cassian dobrou o lenço com habilidade e o colocou no bolso superior de Bliss. Depois de arrumar as dobras e ajustar o formato, ele afastou a mão, e Bliss, que parecia estar prendendo a respiração até então, finalmente soltou um longo suspiro.
“Pronto agora, não é?” A voz de Bliss parecia um pouco animada por algum motivo.
Cassian correu os olhos pelo corpo inteiro dele mais uma vez e depois fixou o olhar novamente em seu rosto.
“Sim.” Um leve sorriso surgiu no rosto de Cassian enquanto ele assentia com a cabeça. “Está muito bonito.”
Os olhares de Bliss e Cassian se cruzaram no ar.
Bliss apenas olhava para ele em silêncio. Seus olhos azuis intensos lembravam a cor azul de um mar distante. Enquanto Cassian encarava fixamente aquele brilho deslumbrante, ao mesmo tempo as bochechas de Bliss foram se tingindo lentamente de vermelho. Em seguida, Cassian viu o rubor se espalhar até o pescoço do garoto.
“A-ah, eu, bem… quer dizer!” Bliss, envergonhado, exclamou apressadamente.
Vendo-o olhar de um lado para o outro sem saber o que fazer, Cassian também acabou se sentindo estranhamente constrangido. Os dois ficaram sem jeito, olhando para direções opostas, até que Bliss quebrou o silêncio primeiro.
“Com licença, o-o que houve? Acho que ainda falta um tempinho para a festa começar.”
“Ah….” Cassian soltou um pigarro sem importância e abriu a boca. “Só queria ver se os preparativos estavam indo bem. …Parece que já terminou tudo.”
“Sim, terminei.”
“Certo, terminou.” Os dois ficaram repetindo a mesma coisa sem graça, desviando os olhares.
Preciso dizer alguma coisa.
Havia algo de que ele claramente precisava falar.
Enquanto Cassian hesitava pensativo, Bliss perguntou timidamente: “Ah, com licença. Era só isso que o senhor queria…?”
“Hum? Ah, bem.”
Bem naquele momento, uma ótima ideia surgiu na mente de Cassian.
“Tenho uma curiosidade. Qual é a sua característica..?”
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...