127.
Um silêncio frio e sepulcral se instalou.
Os funcionários se olharam, pálidos de medo e sem saber o que fazer, mas ninguém teve coragem de abrir a boca primeiro.
“C-Conde…”
“Olha, nós, não é bem isso.”
Alguém finalmente conseguiu começar a falar, mas não era de forma alguma a resposta que Cassian queria. Bem nessa hora, Penelope, que tinha saído para procurar Bliss e estava voltando, deparou-se com eles e aproximou-se apressada.
“O que vocês estão fazendo todos reunidos aqui?”
“Falem logo!” Naquele instante, Cassian deu um grito.
Todos ficaram horrorizados e congelaram diante da fúria explosiva do habitualmente elegante e calmo Conde Heringer.
E, como se expressasse a sua terrível ira, um raio nítido cortou o céu do lado de fora da janela, seguido por um trovão assustador, e uma chuva torrencial começou a desabar.
***
Malditos, desgraçados!
Xingando entre dentes, Cassian pisou no acelerador como um louco.
A sala de orações onde Bliss estava trancado ficava praticamente vazia, exceto quando um clérigo a visitava mais ou menos uma vez por mês. Sabendo muito bem disso, os funcionários terem trancado Bliss naquele lugar era uma atitude de uma perversidade de fazer ranger os dentes.
Não vou perdoar nenhum deles.
Por sua vontade, ele os faria pagar caro agora mesmo, mas a segurança de Bliss era a prioridade. Enquanto tirava o carro às pressas e dirigia até a sala de orações localizada dentro do seu próprio território, seu sangue fervia tanto que ele fechou e abriu os olhos com força várias vezes.
Era uma distância que levava quase 30 minutos a pé até o castelo, mas Bliss não conhecia bem a geografia do lugar e, com uma chuva daquelas caindo e a escuridão se instalando, ele jamais conseguiria ter forças para voltar sozinho.
O quão assustado ele deve estar?
Para piorar, a temperatura havia caído tanto que até o próprio Cassian sentia calafrios. Como a sala de orações quase não era utilizada, o aquecimento com certeza estaria desligado. Cassian ligou para Penelope às pressas.
“Ligue o aquecimento do castelo inteiro no máximo. Coloque bolsas de água quente na cama também, porque o Bliss pode acabar pegando um resfriado…”
“— Sim, também vou deixar preparado um chá quente e algo leve para comer. Já empilhei várias toalhas. O senhor já está quase chegando?” Penelope perguntou, emendando rapidamente as palavras.
Junto com a fala dela, um raio caiu, iluminando o mundo por um instante, e a cruz do santuário, que não ficava muito longe, entrou em seu campo de visão.
“Sim, cheguei.” Assim que terminou de falar, Cassian desligou o telefone.
O carro esportivo, orgulho de sua alta velocidade, fez uma curva acentuada e parou exatamente em frente à sala de orações.
“Bliss!” Com o rosto pálido, ele praticamente saltou do carro e, ao parar diante da porta, congelou por um instante.
Abaixo da maçaneta, o cabo de uma pá havia sido atravessado. Aquilo era o mesmo que trancar a porta por fora para que quem estivesse dentro não pudesse abrir e sair. Ao imaginar Bliss chorando e esmurrando a porta, ele sentiu o sangue subir à cabeça.
“Malditos, eu vou matar todos vocês.”
Cassian soltou um xingamento, jogou a pá longe e imediatamente puxou a maçaneta, abrindo a porta.
“Bliss!”
Entrando às pressas com um grito urgente, ele olhou freneticamente ao redor do santuário.
Onde ele estava?
Onde?
Será que estava escondido por estar com medo?
Ele sentiu que enlouqueceria ao imaginar Bliss encolhido, derramando lágrimas sem parar. Cassian vasculhou o santuário rapidamente, reprimindo o impulso de quebrar qualquer coisa que visse pela frente.
“Bliss, sou eu! Agora está tudo bem, saia logo! Bliss!”
Enquanto procurava por todos os cantos e gritava desesperadamente, todo tipo de pensamento corria solto em sua mente.
Será que ele desmaiou? Por que não responde?
Está bravo comigo? Tudo bem, Bliss. Pode me bater, pode me xingar. Eu vou aceitar tudo, então apenas fique bem.
Por favor, que não tenha acontecido nada…
O que eu fiz até agora?
No meio de uma situação que beirava o pânico, uma voz criticando a si mesmo surgiu de repente em sua mente. O que você fez até agora?
Os funcionários terem feito uma coisa dessas não é culpa sua?
É porque você não deixou clara a sua postura em relação ao Bliss.
Cassian passou a mão pelo rosto, incapaz de rebater aquelas palavras. Enquanto olhava de um lado para o outro dentro do santuário com o rosto distorcido pela aflição, críticas direcionadas a si mesmo continuavam a desabar em sua cabeça.
Se você tivesse admitido logo os seus sentimentos pelo Bliss, algo assim jamais teria acontecido.
A audácia dos funcionários de tratarem a pessoa preciosa do mestre com tanto descaso é porque você demonstrou esse tipo de atitude. Porque você tratou o Bliss com descaso.
Mas o que eu poderia fazer? Aquele garoto é doze anos mais novo que eu.
Como eu poderia, ousadamente…
Até quando você vai continuar dizendo tantas bobagens, Cassian Strickland!
Uma voz ecoou em sua mente como se estivesse dando um grito severo.
Admita logo os seus sentimentos. Pare de magoar o Bliss e confesse as suas verdadeiras intenções!
Bem naquele momento, enquanto ele permanecia estático no lugar como se tivesse sido atingido por um raio, um leve gemido chegou aos ouvidos de Cassian.
“Mmm…”
“Bliss?” Surpreso, Cassian virou a cabeça rapidamente.
No entanto, os arredores voltaram a ficar em silêncio. Apenas o som barulhento da chuva podia ser ouvido.
Com certeza veio deste lado…
Cassian deu um passo de cada vez em direção ao altar. Agora, aquele era o único lugar que restava. Por favor, esteja aqui, Bliss.
Por favor…!
Com um sentimento de súplica que não era comum nele, repetindo as mesmas palavras em sua mente como se fizesse uma oração, Cassian verificou a parte de baixo do altar e acabou soltando um suspiro de profundo alívio, como se estivesse liberando o fôlego que estava preso por muito tempo.
Naquele lugar, Bliss estava encolhido, dormindo profundamente.
“Bliss.” Abaixando-se diante dele como se fosse desabar, Cassian estendeu a mão lentamente.
Por alguma razão, a ponta de seus dedos que tremia de leve acabou roçando nas bochechas dele por duas vezes.
“Humph”, fez Bliss, franzindo a testa e coçando a bochecha antes de cair no sono profundo novamente.
Ao ver aquela cena, a tensão de Cassian se desfez totalmente e ele soltou um riso abafado. Ele cobriu a bochecha de Bliss com a mão de leve, e só então a ficha caiu.
Que bom.
Um suspiro trêmulo e longo escapou de seus lábios. Tudo bem, o Bliss está seguro. Diante do sentimento de alívio, parecia que toda a força de seu corpo estava se esvaindo. Cassian o pegou nos braços com cuidado para que Bliss não acordasse. Ao sentir o calor aconchegante do corpo dele, finalmente teve a sensação de que tudo havia voltado ao devido lugar.
‘Pare de negar agora.’
Mais uma vez, um sussurro ecoou em seu coração. E, desta vez, ele não negou aquela voz.
***
“…Por isso, a partir de agora… o período… ao máximo…”
Vozes espaçadas podiam ser ouvidas.
Levou alguns segundos a mais para que ele percebesse que se tratava da voz de Penelope. Bliss ouvia as palavras com os olhos fechados. Ele aguçou os ouvidos, mas ninguém percebeu. Logo em seguida, a voz de Cassian pôde ser ouvida.
“Não importa o tempo que leve, você deve contratar funcionários que sejam confiáveis, Penelope. O comportamento dos funcionários desta vez também é de sua responsabilidade.”
“Com certeza, Conde. Aceitarei qualquer punição de bom grado.”
Ué? Responsabilidade? Por quê?
Bliss franziu a testa e aguçou ainda mais os ouvidos. Penelope continuou a falar com uma voz séria e rígida que ele nunca tinha ouvido antes.
“Por mais que eu não soubesse nada a respeito do Bliss, fazer uma coisa dessas é um absurdo absoluto. O fato de eu não ter percebido essa situação com antecedência também é uma grande falha minha. Estou preparada. Por favor, aplique a punição que for.”
Ué? Do que eles estão falando?
Bliss continuava sem conseguir entender absolutamente nada daquela situação. O mesmo valia para a conversa que eles estavam tendo.
Abrindo os olhos de leve, o teto familiar entrou vagamente em seu campo de visão. Enquanto recuperava as memórias deitado por um momento, ele logo se deu conta.
Aquele era o quarto de Cassian!
Sendo assim, significava que o lugar onde eu estava deitado agora era a cama de Cassian. Como diabos as coisas foram acabar assim?
Ele fechou os olhos e buscou em sua memória.
Dorothy tinha ido procurá-lo dizendo que precisava limpar o santuário.
“Mesmo que o Blair seja um parente distante da Penelope, o trabalho ainda precisa ser feito.”
Bliss sentiu uma leve pontada de culpa com aquele tom de voz sutilmente ríspido. Pensando bem, ele tinha ido ali como um funcionário, mas quase não trabalhou. Do ponto de vista daquelas pessoas, talvez fosse injusto.
“Sim, então é só eu limpar o santuário?”
“Sim, isso mesmo.”
E outro funcionário levou Bliss de carro até a sala de orações. Embora fosse um espaço aconchegante, ainda assim era um lugar capaz de acomodar cerca de 20 pessoas, então não era tão pequeno…
“Duas horas devem ser o suficiente, né? Venho te buscar mais tarde.”
Com essas palavras, ele se retirou do local. E assim, Bliss acabou sendo deixado sozinho na sala de orações com os utensílios de limpeza.
Obviamente, eles não tinham a menor intenção de ir buscar Bliss duas horas depois.
Como havia uma previsão de chuva para a noite, a ideia deles era fazê-lo passar a noite sozinho no santuário para que levasse um bom susto. Assim, eles passariam o tempo tranquilamente e, quando o sol nascesse pela manhã, iriam procurar por Bliss, que já estaria exausto de tanto chorar — mas, por infelicidade deles, havia algo que não sabiam.
O fato de que o alvo daquela armação era Bliss Miller.
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...