120.
“Isso é um absurdo…” Cassian deu uma risadinha desdenhosa e balançou a cabeça, como se aquilo fosse inacreditável.
No entanto, Penelope não deixou passar o fato de que houve uma breve hesitação entre as frases dele. E isso foi o suficiente para transformar a suposição dela em certeza.
“Não, o Conde gosta do Bliss. Não tente me enganar, eu não fiquei velha à toa.” Diante da atitude da idosa, que erguia o queixo com arrogância, Cassian só pôde ficar perplexo.
“Eu não gosto daquele garoto. Só o mantenho por perto porque preciso dele.”
Quando ele respondeu de forma fria e cortante, Penelope franziu a testa e soltou um suspiro.
“Sério, o Conde é teimoso demais.”
“Não é teimosia, é a verdade.”
“Sim, claro que é.” Penelope respondeu com indiferença à negação repetida dele.
Ela pensou por um momento em como faria aquele nobre cabeçudo confessar seus verdadeiros sentimentos, mas sabia muito bem que não seria nada fácil. O mesmo valia para ir ao quarto de Bliss para confortá-lo.
No final, ela deu um passo atrás e falou.
“Você com certeza vai se arrepender.” Deixando no ar palavras que pareciam quase uma maldição, ela saiu da sala de café da manhã.
Cassian ficou sozinho na sala, tomando seu chá preto e olhando de relance para o lugar vazio de Bliss. Como ele não comia uma refeição decente desde o dia anterior, dava para entender, por um lado, o motivo de Penelope estar tão ansiosa e inquieta. Depois, Cassian soltou um suspiro e pressionou os olhos com força.
Como era de se esperar, ele não conseguia dormir direito há dias.
Ele achava que poderia descansar confortavelmente quando voltasse para o castelo, mas uma situação tão absurda acabou acontecendo.
Mesmo assim, agora deve estar no limite.
…E assim teria que ser.
Pensando nisso, Cassian cobriu os olhos com uma das mãos. Em seguida, as palavras de Penelope ecoaram como uma alucinação em sua mente.
“O Conde gosta do Bliss.”
“Não, não gosto.” Cassian murmurou em voz alta.
Absolutamente não.
Aquele garoto é jovem demais e não conhece nada do mundo.
Além disso, se Ashley Miller soubesse da situação atual, não saberia o que poderia acontecer. Sim, o certo é o Bliss voltar o quanto antes. Portanto, não há necessidade de eu ir até lá para confortá-lo.
…Porque eu realmente não gosto daquele garoto.
***
Embora eu realmente não goste dele…
Tarde da noite, Cassian caminhava silenciosamente pelo corredor escuro. Todos os empregados pareciam estar dormindo, pois não se ouvia o menor sinal de presença humana. Havia apenas uma razão pela qual ele estava abafando o som de seus passos dentro de seu próprio castelo.
Era porque ele estava a caminho do quarto de Bliss.
Como teve compromissos o dia todo, Cassian voltou tarde e falou com a governanta, que foi a primeira a aparecer assim que ele desceu do carro.
“Aquele garoto está bem?”
Quando ele perguntou ocultando o real significado de “ele comeu alguma coisa?”, Penelope assentiu.
“Sim, um pouco de sopa…”
“Sopa? Só isso?” A voz de Cassian misturava constrangimento e irritação.
Penelope respondeu com uma expressão hesitante.
“Ele insistiu que não queria comer nem isso, então mal consegui fazê-lo engolir um pouco. Sabe, Conde… Por conta disso… Tudo bem se eu chamar o médico da família amanhã? Estou preocupada com o estado físico do Bliss.”
Chamar o médico da família? Que absurdo é esse?
Cassian ficou tão chocado que quase soltou uma exclamação sem perceber.
Penelope, a situação atual é grave o suficiente para chamar uma ambulância e ir para a emergência agora mesmo.
Você sabia que aquele garoto está deitado há várias horas e dias, recusando não apenas os doces, mas até as refeições? Isso não é algo simples. Ele precisa de um exame médico completo.
Um problema realmente sério pode ter acontecido…!
Naquele instante, a imagem da infância de Bliss, perdendo a consciência e ofegante, ressurgiu diante de seus olhos, e ele subiu os degraus da entrada quase correndo, sem se dar conta.
“Conde? Conde!”
Cassian, que estava prestes a correr direto ao ouvir a voz assustada de Penelope, parou. A razão voltou tardiamente, e ele ficou parado ali, meio hesitante, cobrindo o rosto com uma das mãos.
Controle-se, Cassian Strickland. Você está tendo pensamentos absurdos.
Ao se lembrar do que havia pensado momentos antes, ele se sentiu extremamente patético.
Não se deixe levar pela Penelope. São apenas dois dias.
Ele só está sendo um pouco birrento por mais tempo. Sim, amanhã, se for amanhã, com certeza vai ficar tudo bem.
“Hum.” Cassian pigarreou e se virou. Enquanto caminhava em direção ao seu próprio quarto, ele falou para a governanta que o seguia por trás. “Chame o médico da família amanhã cedo para verificar o estado dele. Embora eu ache que não seja nada demais.”
“Sim, entendido.”
A voz de Penelope pareceu clarear, como se estivesse pelo menos um pouco aliviada.
Isso tinha acontecido há apenas algumas horas atrás.
E agora, Cassian caminhava pelo corredor do castelo, que era vasto a ponto de enjoar, passando direto pelo corredor onde ficavam os aposentos dos empregados.
Estou indo apenas para ver se ele está bem.
Mesmo pensando assim, ele não conseguia entender por que segurava em uma das mãos um doce embalado no tamanho de uma mordida. De qualquer forma, o motivo era um só.
Porque Bliss é o caçula da família Miller.
Se acontecesse algum problema, Ashley Miller ficaria furioso com Cassian, e ele estava apenas fazendo o seu melhor para evitar que tal infortúnio acontecesse…
“Sim, é só isso.” No momento em que ele murmurou em voz baixa, um som barulhento, como o de alguém abrindo uma porta no meio do silêncio, ecoou.
Cassian rapidamente escondeu o corpo atrás da parede, mas no instante seguinte, acabou franzindo a testa.
Espera, por que estou me escondendo? Este é o meu castelo.
…
Com certeza deve ser um empregado. Não faz sentido que o mestre, Cassian, esteja escondido assim.
Mesmo pensando assim, seus pés não se moveram facilmente. Em vez disso, ele colocou apenas os olhos para fora de leve, tentando confirmar quem era o dono do som.
…Aquilo?
Cassian olhou fixamente, com a testa franzida, para a silhueta que tremeluzia sob a luz fraca da cozinha acesa no corredor. Era inconfundível. Por mais escuro que estivesse, era impossível não reconhecer aquela figura. O cabelo loiro-platinado brilhante, a estatura fina e esguia, e até o caminhar leve e suave.
Bliss?
Cassian piscou os olhos, surpreso com a situação inesperada. Por mais que olhasse de novo, era o Bliss. Não havia a menor possibilidade de existir outra silhueta tão adorável de costas no mundo.
Aonde ele está indo?
Ao confirmar que ele saía do quarto e caminhava pelo corredor, Cassian ficou pensativo por um instante. Mesmo sem olhar, o destino era óbvio. Ele com certeza estava indo até a cozinha para beliscar alguma coisa escondido.
Chega a ser ridículo eu ter vindo até aqui.
Com um sorriso incrédulo de si mesmo, ele olhou para o doce que segurava na mão. Era patético ter se deixado levar pelo alvoroço de Penelope e se preocupado à toa.
Será que já não era hora de voltar para o quarto…?
Hum. Amanhã de manhã ele já deve estar sentado à mesa. Pensou ele, prestes a dar meia-volta, quando parou por algum motivo. Sentindo um incômodo inexplicável, ele voltou a observar as costas de Bliss e logo franziu a testa.
Aquela não é a direção da cozinha.
Pelo contrário, Bliss estava indo para o lado de fora. O que seria? Será que Sam havia plantado árvores frutíferas no jardim?
Mesmo assim, ainda era difícil de engolir.
Ir até o jardim para colher e comer frutas no meio da noite, tendo a cozinha bem ali?
Sabendo que era uma ideia sem cabimento até para si mesmo, ele soltou um som abafado, como um resmungo que subia pela garganta.
Não importa, vou voltar.
A voz da razão ecoou em sua mente. Mesmo que Bliss saísse àquela hora, não teria para onde ir. Talvez quisesse apenas dar um passeio pelo jardim. E mesmo que não fosse isso, o que importava? Não era da conta de sua conta.
…Mas ele passou tanto tempo em jejum, pode acabar desmaiando como Penelope disse.
Diante da voz que ecoou novamente em um canto de seu coração, Cassian concordou de imediato. Sim, enquanto aquele garoto estiver aqui, ele é praticamente minha responsabilidade. Então preciso verificar o que ele pretende fazer.
Assentindo com a cabeça, ele abafou os passos e seguiu na direção em que Bliss havia ido. Assim que saiu do castelo, um vento frio e desolador soprou contra seu corpo.
Aquele pirralho, saindo por aí com roupas tão finas.
Estalando a língua de leve, Cassian olhou rapidamente ao redor. Não seria difícil encontrar Bliss, já que não havia se passado tanto tempo…
“Ah.” Logo, Cassian conseguiu avistar as costas de Bliss.
Ao notar que o garoto olhava rapidamente ao redor, Cassian escondeu o corpo às pressas atrás de uma árvore e, pouco depois, colocou o rosto para fora de mansinho. Vendo Bliss correr a passos rápidos, ele o seguiu apressadamente por trás.
Afinal, aonde ele estava indo?
O destino não era longe. E, junto com isso, Cassian pôde compreender imediatamente o motivo de Bliss ter saído escondido naquela hora.
“Aqui, aqui!” Enquanto Bliss corria agitando um dos braços com entusiasmo, um homem surgiu de repente na direção para onde ele ia.
Cassian se assustou com a aparição repentina daquele intruso, mas o verdadeiro choque veio logo em seguida. Bliss simplesmente correu e se jogou nos braços do homem, abraçando-o com força.
O quê? O que está acontecendo aqui?
Cassian ficou completamente paralisado no lugar, apenas piscando os olhos em choque.
O vento frio da noite soprou de forma gelada por suas costas.
120.
Fonts
Text size
Background
Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...