160.
De repente, houve a sensação de que o ar havia esfriado.
Talvez ele tenha sentido um calafrio sob aquele olhar gélido direcionado a ele. Cassian olhou intensamente nos olhos de Ashley Miller. O momento de tentar ganhar tempo com conversas fiadas já havia passado.
Estava evidente que Ashley Miller sabia de tudo.
No entanto, Cassian tinha certeza de que ele ainda não sabia do mais importante. Se Ashley soubesse daquilo, não estaria apenas olhando para Cassian de forma tão plena e intacta neste momento.
“Mesmo que não fosse por isso, eu tinha algo a dizer a vocês dois, em particular. Poderia me conceder um momento?” Diante da pergunta feita de forma sutil, uma das sobrancelhas de Ashley arqueou.
Não havia necessidade de perguntar a quem o “vocês dois” se referia.
A razão dele ter perguntado sobre o bem-estar “daquela pessoa” antes devia ser justamente esta.
“Vamos para a minha casa.” Ashley respondeu dessa forma, apagando o cigarro e levantando-se abruptamente.
A única razão para levar aquele britânico arrogante para dentro de sua casa era para se moverem para um lugar onde, se necessário, ele pudesse resolver a situação com as próprias mãos imediatamente.
Era apenas isso.
E, enquanto se deslocavam em seus respectivos carros, Ashley ligou para Koi.
“Vou levar o convidado comigo. …Não, não há necessidade de preparativos.”
Em seguida, ele acrescentou em um tom de voz baixo:
“Porque ele não vai ficar por muito tempo.”
***
“Como isso pôde acontecer?” Bliss estava pálido de desespero, agarrando a própria cabeça.
Ele não sabia quanto tempo havia se passado. O que estava claro era o fato de que ele se encontrava diante de uma crise monumental.
O que fazer! Cassian e eu viramos Romeu e Hamlet!
Ah não, ele soltou um grito de pavor e parou de repente.
…Tem algo estranho nisso?
Embora sentisse que as peças não se encaixavam muito bem, aquilo não era o mais importante agora. O problema imediato era que Cassian e o pai estavam em um conflito. Enquanto andava em círculos no mesmo lugar, pensando em como superar aquela situação, ele foi interrompido.
♬♫♩♬♫ …
Ao som repentino do toque do celular, Bliss tentou apenas ignorar.
No entanto, quando parecia que a ligação ia cair, tocava de novo; e quando parecia ter desligado, tocava mais uma vez, bagunçando de vez a mente já confusa de Bliss. No fim, sem conseguir resistir, Bliss apertou o botão de atender.
“Quem é?! Você sabe o quão séria é a situação agora?!”
“— Bliss?”
Ele, que havia gritado com toda a força, prendeu a respiração de susto com a voz que surgiu de repente.
O que era aquilo? Não podia ser, era impossível.
“Sim, sim. Sou eu… Quem fala?”
Engolindo a seco e perguntando com a voz trêmula, uma risada baixa pôde ser ouvida do outro lado da linha. Era uma voz inconfundivelmente familiar. Não, Bliss conhecia muito bem o dono daquela voz. Afinal, era a voz que ele tanto desejava ouvir.
“— Sou eu, Bliss. Não está me reconhecendo?” Ele perguntou de forma carinhosa, como sempre.
Sentindo as lágrimas virem aos olhos de repente, Bliss cobriu a boca com uma das mãos.
“Cassi… Cassian?”
Ao perguntar gaguejando, o outro lado respondeu.
“— Sim, sou eu. Você se lembrou.”
“Claro que sim…!” Bliss não conseguiu conter o soluço ao responder. “Como eu poderia esquecer você, Cassian? É claro que lembro. Não, eu nunca esqueci…”
Diante do som do fungado dele, Cassian continuou a falar em um tom calmo.
“— Fico feliz, Bliss.” Naquela voz calorosa e suave, não se notava nenhum vestígio de raiva.
Será que estava… tudo bem?
Enquanto pensava nisso com o coração na mão, Cassian deu continuidade.
“— Você tem passado bem? Desculpe por não ter entrado em contato todo esse tempo, Bliss.”
“Ah, sim, não, tudo bem. Está tudo bem…” Diante da resposta embolada de Bliss, que continuava a fungar, Cassian soltou uma risada curta.
“— Sim, que bom.”
Ao ouvir aquela voz afetuosa, ele foi se acalmando aos poucos. Bliss sorriu abertamente, mesmo com o nariz todo avermelhado.
“Eu vi você na TV.” Assim que Bliss falou, Cassian respondeu com um tom perceptivelmente alegre.
“— Poxa, eu queria ter feito uma surpresa.”
“Eu tomei um susto, e dos grandes.” Bliss, respondendo sem hesitar, limpou o nariz com o braço e perguntou: “Para onde você está indo agora? Seus compromissos já acabaram?”
Uma ponta de expectativa surgiu discretamente em sua mente. Enquanto Bliss esperava com o coração acelerado, Cassian respondeu:
“— Não, na verdade está só começando.”
“Está só começando?”
Repetindo exatamente o que Cassian dissera, Bliss logo se lembrou das palavras do homem entediante da TV.
Era verdade, tinham dito que a agenda após o discurso seria mantida em sigilo…
“Então, o que você vai fazer?” Ao perguntar tomado pela curiosidade, Bliss ainda exibia um sorriso bobo no rosto.
Só de ouvir a voz de Cassian, seu coração batia forte e ele não conseguia fechar a boca de tanta alegria. Mas então, a voz de Cassian ecoou nos ouvidos do sorridente Bliss.
“— Estou a caminho de me encontrar com o Sr. Niles, junto com o Sr. Miller.”
Exatamente naquele instante, Bliss desligou o telefone na cara dele.
***
“O que eu faço, o que eu faço?!”
O guarda-costas no banco do motorista olhou de relance pelo retrovisor interno para Bliss, que chorava copiosamente no banco de trás sem saber o que fazer, e depois voltou a fixar os olhos na estrada.
Pensando que provavelmente não seria nada demais de novo, ele não pôde deixar de se preocupar ao vê-lo tão ocupado em gritar, chorar e empalidecer de forma extremamente agitada sozinho.
“Bliss, beba um pouco de água.”
Ao ouvir a fala em tom alto do guarda-costas pensando que ele precisava ao menos se hidratar, Bliss, que felizmente era muito obediente, abriu a porta do frigobar como lhe foi dito, pegou uma garrafa de água mineral e virou-a de uma vez na boca.
“Ahhh.” Felizmente, graças à medida improvisada do guarda-costas, Bliss conseguiu se acalmar um pouco.
Aliviado ao ver que ele finalmente respirava fundo e se acalmava, o guarda-costas pisou de leve no acelerador e aumentou a velocidade. Bliss, que olhava fixamente para a paisagem que passava rápido pela janela, começou a fungar novamente e, prendendo a respiração, agarrou a cabeça com as duas mãos.
Seu coração voltou a disparar feito louco e sua respiração acelerou drasticamente.
“O que eu faço?!” Bliss segurou a cabeça e engoliu um grito silencioso. “O Cassian deve ter vindo para se vingar de mim!”
Não havia outra explicação.
Embora não soubesse por que ele só havia aparecido após mais de um mês, era uma certeza. Do contrário, não haveria motivo para ele ir atrás do Pai e do Papai.
Ele olhou de relance para o celular jogado em um canto do banco com um olhar ansioso. Como ele havia desligado o aparelho imediatamente após encerrar a chamada, não havia chance de o telefone tocar, mas seus olhos ainda estavam cheios de pavor.
“— Estou a caminho de me encontrar com o Sr. Niles, junto com o Sr. Miller.”
Assim que as palavras de Cassian ressurgiram em sua mente, ele começou a gritar de novo.
A única razão para Cassian ter ligado para Bliss era para confirmar se ele estava bem comportado naquele lugar. Seria uma tentativa de sondar os movimentos do inimigo?
Aquele tom carinhoso foi apenas uma encenação com uma voz gentil para fazê-lo baixar a guarda!
“Não mesmo, eu não caio nessa.” Os olhos de Bliss brilharam com determinação, mas isso durou apenas um breve instante. “Aaah, o que eu faço?!”
Voltando a ser o Bliss de antes, ele se debateu e deitou no banco de trás do carro, rolando os olhos de tanta ansiedade. Em um momento como esse, ele só podia contar com uma coisa.
Vá, corra mais rápido!
“Ainda vai demorar?”
Ao perguntar apressado, o guarda-costas respondeu:
“Estamos quase chegando.” E, assim como ele disse, a mansão familiar surgiu em seu campo de visão.
Bliss levantou-se num pulo, preparando-se para descer o quanto antes. E finalmente, assim que o carro chegou ao destino, antes mesmo que o veículo parasse completamente, ele abriu a porta e pulou, acabando por rolar no chão. Soltando um gemido e um grito, a figura dele fez com que o homem que dirigia e os guarda-costas que estavam de prontidão ficassem pálidos de susto.
“Bliss!”
“Bliss, você está bem?!”
Vozes assustadas ecoavam de todos os lados, mas ele não se importou. Bliss levantou-se num salto e correu em direção à entrada principal. E, abrindo a porta com tudo sem aviso prévio, gritou com todas as suas forças:
“Papai, papai!”
“Bliss?” Por acaso, Koi, que tinha visto o carro chegar, estava descendo as escadas às pressas.
Ao ver o caçula correndo em sua direção, ele correu ao seu encontro e o abraçou.
“Bliss! O que aconteceu? Você está bem?”
Ao vê-lo rolar no chão, Koi perguntou preocupado enquanto examinava o corpo dele por todos os lados, fazendo com que os olhos de Bliss logo se enchessem de lágrimas.
“P-Papai. Papaizinho.”
Ao ver o caçula engolir o choro com um soluço, Koi empalideceu no mesmo instante.
“Bliss, o que foi? Por que você está chorando?” Diante da pergunta urgente, Bliss tentou falar em meio a soluços e falta de ar.
“Cassi… O Cassian, o Cassian!”
“Ca… Cassian?”
Ele estava tão agitado que as palavras mal saíam.
Foi apenas quando Koi conseguiu decifrar o que ele dizia que franziu a testa. De repente, um alvoroço pôde ser sentido do lado de fora. Koi virou a cabeça em direção à porta principal e Bliss, ainda em seus braços, prendeu a respiração assustado. Do outro lado da porta aberta, um carro familiar reduzia a velocidade até parar.
Ashley havia retornado.
160.
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Deflower Me If You Can
Bliss, como de costume, assistia a um drama de vingança clichê preso no tédio do cotidiano, quando ao entrar casualmente em um canal de notícias, no instante em...